O Comediante: A face de Watchmen

Vencedora de um prêmio Hugo (a mais prestigiada premiação internacional dedicada a obras de ficção científica e fantasia) e incluída entre os cem melhores romances na língua inglesa entre 1923 e os dias de hoje pela Time, Watchmen (1986), de Alan Moore e Dave Gibbons, é, sem sombra de dúvidas, uma das maiores HQs de todos os tempos. Watchmen é talvez a melhor alegoria ao fim da, muitas vezes cafona e infantilizada, Era de Prata e ao início da séria, complexa e crua Era de Bronze dos quadrinhos. Na obra de Moore, os heróis não buscam justiça ou a construção de um mundo melhor, mas sim algo que justifique sua violência, que justifique que eles vistam seus uniformes, que lhes dê propósito, com exceção de um: o Comediante, o mais insano e cruel entre eles, mas talvez o único que de fato tenha entendido o que é ser um “herói” nesse universo. Sem mais delongas, vamos compreender o porquê disso e aproveitar para conhecer um pouco mais da história de um dos maiores clássicos da nona arte!

MARVEL E DC

Rafael Silva

8/29/202611 min read

A Mudança dos Tempos

(Créditos: Watchmen Wiki)

Nos anos 1930, representados pelos Minutemen, os super-heróis mascarados surgiram como um verdadeiro fenômeno. Aventureiros como Justiça Encapuzada, Espectral I, Coruja Noturna, Comediante, Capitão Metrópole e tantos outros, com seus uniformes coloridos, moral aparentemente incorruptível e sede de justiça, encheram os corações do povo americano com esperança. Eles deram a eles um motivo para crer em um futuro melhor que o presente.

Todavia, nada nesse universo, assim como na realidade, é tão simples assim. Com a Segunda Guerra Mundial, os heróis e heroínas que antes combatiam ladrões e bêbados nas ruas dos EUA foram levados ao front de batalha e obrigados a ver por seus próprios olhos o pior que a humanidade tem a oferecer. Lá, ficou claro o quão pequenos, até mesmo irrelevantes, eram seus atos. O mal era muito maior do que eles de fato poderiam combater.

Em 1949, a equipe se dissolveu. Os motivos eram inúmeros: o abuso do comediante contra Espectral, que só não se consumou pela intervenção da Justiça Encapuzada. A revelação de que a heroína Silhouette era homossexual desencadeou seu assassinato em 1946. A morte do Nota de Um Dólar ocorreu de maneira ridícula durante um assalto, o que é compreensível dado o nome peculiar que ele tinha.

O escrutínio do público, atos criminosos, incompetência e comportamentos incoerentes com a “moral” da época deixavam claro que os “heróis” não eram perfeitos, infalíveis, e que, por trás de suas máscaras, havia pessoas comuns, boas e más, com suas particularidades, e que reuni-las sob uma única bandeira, um único propósito, era impossível.

Isso não significou o fim dos mascarados, mas foi a morte daquilo que um dia eles representaram.

Nos anos 1960, um Capitão Metrópole de meia-idade tentou reviver o antigo heroísmo. O mocinho contra bandido, nós contra eles, o bem contra o mal. Os Combatentes do Crime reuniram heróis do passado, como ele próprio e o Comediante, novos vigilantes, como Rorschach e Espectral II, e a bomba H ambulante conhecida como Dr. Manhattan, o único que de fato tinha poderes.

Edward Blake riu; ele sabia que um punhado de homens e mulheres fantasiados não estava mais à altura de uma sociedade que se devorava de dentro para fora. Era inútil contra uma humanidade capaz de desenvolver armas capazes de pôr fim à sua própria existência. Um soco potente era obsoleto diante de um ser capaz de viajar entre o passado, presente e futuro sem sair do lugar, de manipular a matéria e de sobreviver ao vácuo do espaço. Querendo ou não, seu tempo havia passado, e o charuto de Blake, queimando o mapa do crime de Gardner diante de seus olhos marejados, decretou a contagem regressiva para o fim dos heróis e, com eles, da humanidade.

A última pá de cal foi lançada em 1977, na grande revolta policial contra os vigilantes. As pessoas de carne e osso cansaram de perder espaço para os símbolos, e uma revolta generalizada fez com que o senador Joe Keene promovesse uma lei que tornaria o vigilantismo definitivamente ilegal.

Apenas três foram autorizados a seguir atuando: Ostermann, Blake e Jane Juspeczyk, sob tutela do governo. O Coruja se aposentou, Ozymandias já havia feito o mesmo três anos antes, e Rorschach seguiu agindo de maneira clandestina e cada dia mais violenta.

Porém, a maneira com a qual a caça às bruxas promovida contra os heróis foi sentida soou de maneira muito diferente.

As Diferentes Visões do Fim

(Créditos: DC Comics/Panini)

Coruja II e Espectral II

No amoral universo de Watchmen, Coruja II e Espectral II são talvez os únicos dois que de fato cheguem perto do ideal de herói.

Daniel Dreiberg herdou o manto de Hollis Mason como Coruja e, assim como ele, valorizava a moral que ele carregava. Dreiberg acreditava que os heróis de fato tinham uma responsabilidade para com a sociedade.

Todavia, a proibição dos super-heróis revelou uma faceta muito mais pessoal para sua cruzada, uma que atinge um patamar quase sexual, e não só para ele.

Durante quase uma década, Dreiberg deixou de viver. Ganhou peso, dormia além da conta, fugia de qualquer tipo de confronto. A única coisa que lhe dava alegria eram os encontros semanais com Hollis Mason, seu amigo e mentor, pois, ao seu lado, ele se lembrava de quem ele um dia foi. Ele sabia ser um herói, mas não ser um homem. Ao arrancar a máscara, seu coração se foi com ela.

Felizmente, seu vazio se encontrou com o de outra pessoa: Jane Juspeczyk. Sucessora de Sally no papel de Espectral, a jovem sonhava em ir além da sombra de sua mãe. No passado, Espectral I não havia sido mais que um objeto de desejo para as massas, sensualizando-se ao máximo para atrair sua atenção e "admiração". Ela não se incomodava com os gibis eróticos usando sua imagem, e até mesmo perdoou o Comediante pela agressão contra ela. Ela era tão dependente que qualquer tipo de “desejo”, que por mais asqueroso que fosse, parecia ser válido para ela.

A segunda Espectral tinha nojo do legado de sua mãe, desejava inspirar a paz e a justiça ao seu modo, e não ser apenas uma distração para os homens. Infelizmente, seu destino não foi muito diferente.

Logo aos dezesseis anos, ela tornou-se membro dos Combatentes do Crime e assumiu o mesmíssimo papel de sua mãe: uniforme feito para objetificá-la, sofrendo assédio de membros como Comediante, e, no final das contas, ao tornar-se namorada do Dr. Manhattan, dar a ele um motivo para se importar com a humanidade, para continuar servindo aos interesses dos EUA. Seu sonho de ser uma heroína nunca se tornou realidade.

Especialmente após a fuga de Osterman para Marte, uma relação próxima se firmou entre Dreiberg e Juspeczyk, como reflexos um do outro. Duas pessoas que queriam ser mais, mas que foram limitadas pelo meio em que viviam. Que viviam presas ao passado colorido e moralizado, por serem incapazes de suportar o presente cinza e imoral.

No momento em que eles enfrentam e derrotam uma gangue de viciados, lado a lado, sensações ressurgem: a adrenalina, a satisfação, o tesão de finalmente serem livres para combater um inimigo claro e direcionar sua violência contra ele.

A energia sexual da dupla torna-se óbvia no momento em que fazem amor logo após salvar vários inocentes de um incêndio. O sentimento se mantém constante quando invadiram a penitenciária para libertar Rorschach.

Eles tinham desejo, raiva, energia, mas foram proibidos de libertá-lo. Para isso, precisaram um do outro, precisaram de uma missão, de um motivo justo para sua violência.

Rorschach

Possivelmente, a mente mais perturbada desse universo. Walter Kovacs teve uma infância miserável ao lado de sua mãe, Sylvia Kovacs, uma prostituta que lhe expunha ao lado mais sombrio da sociedade.

Walter cresceu com ódio mortal contra toda a imoralidade que fez da sua juventude um inferno: as drogas, a promiscuidade e principalmente, o crime. A máscara surgiu não para proteger a vida pessoal do homem por trás dela, e sim, para fazê-lo esquecer de que ele existe.

Rorschach dizia conhecer os podres da sociedade, a corrupção inerente a ela, e a única forma de livrar-se dessa impureza, era deixando de ser humano, era forjando para si um rosto que não o enojasse ao olhar no espelho.

Sua obsessão foi inicialmente controlada pelas suas alianças com os Combatentes do Crime, especialmente com o Coruja, com quem firmou uma forte amizade. Porém, tudo mudou em 1975, com o assassinato da garota Blair Roche. A crueldade do crime foi tamanha, que fez com que Kovacs fosse simplesmente incapaz de se conectar novamente com seu lado humano. Era pesado demais imaginar, que em algum lugar em seu âmago, alguém seria capaz de algo assim.

Antes mesmo da revolta de 1977, a máscara já era seu rosto, e sua visão de justiça era a única coisa que lhe interessava e era a prerrogativa para sua violência e seu senso de superioridade moral em relação a todos à sua volta.

Isso o fez matar não só criminosos, mas agredir inocentes e policiais, todo e qualquer um que tivesse divergências para com a sua moral infalível.

Dr. Manhattan

Um semideus que simplesmente não suportou ser humano. Após o acidente que lhe deu poderes quase infinitos, Jon Osterman adquiriu uma consciência que o levava muito além de quaisquer preceitos de justiça e injustiça, de certo e errado, de vida ou de morte.

Ele via as pessoas não por seus nomes, mas por sua concepção molecular, os atos que cometeu, comete e cometerá. Ele nunca mais conseguiu se conectar, nem com seus amigos, nem com suas amantes, nem com seus inimigos, e no momento em que a imprensa começou a acusá-lo de causar câncer nas pessoas a sua volta, ele simplesmente virou as costas e foi embora. A maior vantagem estratégica dos EUA, o único capaz de impedir uma guerra que poria fim ao mundo, simplesmente ignorou tudo isso e foi em busca de sua própria paz.

O que o diferencia, é justamente o fato de que ele não possui sentimentos, suas escolhas não são governadas pelas emoções que ele perdeu o dom de compreender, e sim, pela pura e simples lógica matemática e biológica. Para ele, a violência é um fenômeno como qualquer outro, que não lhe causa nenhuma reação emocional.

Ozymandias

Semelhante a Manhattan, ele tinha plena noção de que a violência humana levaria ao fim do mundo, mas, diferente de Osterman, Adrian Veidt decidiu não ficar de braços cruzados diante do fim de sua raça.

Com um QI que deixaria até Einstein com inveja, Veidt elaborou um grande plano: forjar por meio de tecnologia, robótica e efeitos visuais, uma falsa invasão alienígena em Nova York, matando 3 milhões de pessoas, e fazendo o mundo inteiro temer um inimigo em comum. Porque explodir um país com uma ideologia diferente, enquanto um invasor de outro universo ameaça destruir ambos?

Por essa lógica, as pessoas deixariam de lado as divergências mesquinhas que por anos as levaram a conflitos sanguinários, e se uniriam para salvar a si mesmos. Era a forma mais cruel e genocida que ele tinha para, na sua visão, impedir o Armagedom iminente.

Sua frieza foi tamanha, que ele assassinou até mesmo antigos aliados com as próprias mãos, como o Comediante. Matou sem rodeios inimigos do passado, como Moloch. Adoeceu amigos como Janey Slater com câncer, para acusar o Dr. Manhattan de tê-los condenado devido a sua radiação.

Sua violência genocida foi consumada com precisão matemática, embalada sob um propósito aparentemente nobre. Infelizmente ao quadrado, após tudo isso, a HQ indica em seu final, que o diário de Rorschach, contendo todos os detalhes do recém-descoberto plano de Ozymandias, caiu nas mãos da imprensa logo após a morte de seu dono, e inevitavelmente, todos descobririam a farsa. As animosidades voltariam, e todas aquelas pessoas teriam morrido em vão.

Todos eles, de uma forma ou de outra, tentavam revestir seu desejo agressivo por trás de algo: nostalgia, justiça, afastamento ou salvação mundial. Porém, somente um jamais escondeu quem realmente era: o Comediante.

Comediante

A primeira vítima de Ozymandias, justamente por ter tido contato com a ilha secreta onde ele desenvolvia seu plano. Seus últimos dias foram envoltos em remorso e ansiedade, em pânico pelo horror inenarrável que havia presenciado. Quando Veidt pôs fim a ele, todos que um dia trabalharam ao seu lado, admirando-o ou odiando-o, chegaram à mesma conclusão: ele era o único que entendia.

Rorschach, o único de fato se comoveu com sua morte, resumiu sua persona enquanto caminhava em direção a sua lápide:

“Blake entendia. Tratava tudo como piada, mas entendia. Ele viu as rachaduras na sociedade, viu os homenzinhos mascarados tentando segurar as pontas. Ele viu a verdadeira face do nosso século e decidiu se tornar um reflexo, uma paródia desses tempos. Ninguém mais sacou a piada, e por isso ficou sozinho.”

Em resumo: Blake nunca tentou ser o que não é. A violência e a loucura para ele não precisavam de motivação para além delas mesmas. Ele nunca tentou mudar o fluxo, apenas se deixou levar por ela, ostentando suas mazelas e suas hipocrisias.

Osterman também o via como um ser curioso. Durante a Guerra do Vietnã, John refletiu sobre a necessidade daquele conflito, no que ele significava para ambos os lados. Se após tantos inocentes mortos, vilas destruídas e milhões gastos, algo havia mudado. Blake respondeu:

“Que nada, o desfecho disso em nada muda a vida do vietnamita comum. Poucos de nós e deles realmente se importam com isso”.

Então, por que ele lutou por algo que não acreditava? Porque para ele, não era necessário haver um motivo para libertar sua selvageria. Não era necessário aliená-lo.

Para o Coruja, Blake mostrou a subversão do “sonho americano” quando as ruas foram tomadas pelos protestos de 1977, e sem hesitar, ele partiu para o confronto, sem meias palavras, deixando claro, que era por aquele país que eles tanto lutaram.

Jane, que odiava o homem que só muito depois descobriu ser seu pai, acabou entendendo-o como um pilar eterno do comportamento humano, que sempre encontra diferentes maneiras de se mostrar, mas jamais perde seu propósito.

Já Ozymandias via Blake como um igual, e ao mesmo tempo, como um oposto. Ambos compreendiam a magnitude dos problemas globais, e os viam com frieza e calculismo. Mas, enquanto Veidt desejava mudar o mundo segundo a sua vontade, Edward apenas desfrutava do seu pior, desdenhando do ego messiânico do gênio, deixando-o irritado com a petulância do canalha.

Porém, nem mesmo o Comediante foi capaz de rir do tamanho do horror que Adrian criou para “salvar o mundo”, mostrando que às vezes, um idealista que tenta impor seus ideais a qualquer custo, pode ser muito mais perigoso do que alguém que aceita o mundo como ele é.

Essa é justamente a graça de Watchmen: nenhum dos dois está certo. Os dois são criminosos da pior estirpe, assim como muitos de sua classe, mas em muitos aspectos, sua fala carrega verdade, assim como a de Rorschach, Manhattan, Jane e Coruja também tem. Alan Moore levou ao extremo a distopia dos super-heróis, e isso fez muitos leitores lerem grandes ídolos de DC e Marvel de outra forma, mostrando o tamanho do impacto dessa obra atemporal.

Como nunca ficamos em cima do muro por aqui, não irei dizer que todos os mascarados de Watchmen são amorais. Coruja e Espectral, apesar de falhos como qualquer um, possuem, em seu cerne, uma boa intenção, e acima de tudo: um respeito pela vida e pela lei que vai além dessa mesma intenção.

Sabemos que o conteúdo um tanto denso da HQ e de sua leitura pode ter lhe impactado, então, nada melhor do que indicar uma review um pouco mais suave, não é mesmo? Afinal, heróis podem ser desconstruídos, criticados e subvertidos, assim como a sociedade, mas seu ideal como símbolos de esperança e a busca pela paz, justiça e liberdade, mesmo que imperfeita, jamais deve ser deixada de lado pela desesperança. Então, antes de pedir seu comentário, vamos indicar-lhe alguns posts mais “low cortisol” envolvendo super-heróis!

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