Justiça: qual o papel de um super-herói?

“Acredito que sua falta de ação é tão criminosa quanto os atos que nos fizeram vilões. Preservar o mundo sem mudá-lo é privar comida aos famintos. Manter os deficientes na cadeira de rodas. Acatar o status quo do sofrimento humano. E eles ainda ousam nos chamar de vilões”. Esse foi o discurso de Lex Luthor e da Legião do Mal para toda a humanidade, em todas as línguas, ao mesmo tempo, acusando os maiores heróis da Terra de não fazerem o suficiente pelos seus protegidos, e estendendo-lhes a mão para partilhar o poder e o conhecimento que possuía em prol da sociedade. Não era sobre salvar o mundo, era sobre torná-lo melhor, era provar para cada uma daquelas pessoas que elas poderiam ser o suficiente. Simultaneamente, do outro lado do país, Diana Prince, a Mulher-Maravilha, dizia algo muito diferente em uma palestra: “Eu sou apenas UMA integrante da Liga da Justiça. Uma Liga que almeja mais do que o bem dos Estados Unidos da América, mas de todas as pessoas, em todas as nações. Cabe a cada um de nós cumprir a sua parte, para que JUNTOS nos tornemos mais fortes”. Totalmente o inverso, não é mesmo? Mas, afinal, quem será que está certo? Superman tem poderes mais do que suficientes para produzir comida para alimentar dez vezes o planeta Terra. Por que não produz? Batman tem dinheiro para reformular completamente Gotham City e mudar a vida de todos os seus moradores. Por que então ele não doa sua fortuna? Aquaman e os Atlantes possuem tecnologia biológica capaz de remediar quaisquer doenças, de salvar e melhorar a vida de bilhões de pessoas. Por que então não partilham esses segredos? Do que adianta salvar um mundo em que as pessoas vivem em sofrimento? Talvez, pela primeira vez, os vilões de fato estivessem certos. A série Justiça, escrita por Jim Krueger e desenhada por Alex Ross, um dos artistas mais lendários da história dos quadrinhos (conhecido também por seu trabalho em Marvels), publicada entre 2005 e 2007, traz, além de uma belíssima homenagem à Era de Prata dos quadrinhos de heróis, um dos dilemas mais intrigantes sobre o tema: qual o limite dos heróis? Até onde eles têm o direito e o dever de intervir na vida humana? Hoje, vamos analisar rapidamente o enredo da obra e dissecar esse dilema com fontes dentro e fora dela, buscando chegar o mais perto possível dessa pergunta, cuja resposta depende quase que exclusivamente da opinião de quem a responde. Então, sem mais delongas, vamos lá!

MARVEL E DC

Rafael Silva

8/20/20269 min read

Enredo:

Brainiac, com auxílio de Lex Luthor e Gorila Grodd, faz com que os membros da Legião do Mal, que vão desde Espantalho e Charada até Arraia Negra e Mulher-Leopardo, tenham o mesmo pesadelo, por meio de nanorrobôs: um cataclisma nuclear, em que os todo-poderosos heróis da Liga da Justiça não foram capazes de salvar uma vida sequer. Superman, o maior entre todos os heróis, sentiu o peso de seu fracasso rachar a Terra na forma de uma enorme explosão, que pôs fim a uma raça que sempre esperou que sua salvação viesse dos superseres que cultuavam, e esqueceu-se de evoluir por conta própria.

Agindo com “benevolência” pela primeira vez em suas vidas, os vilões passam a realizar inúmeros atos de bondade: o Capitão Frio e Hera-Venenosa trazem água e verde ao deserto. Homem-Brinquedo e Espantalho curam os doentes e feridos. E Luthor oferecia a todos aqueles que viviam em agonia uma oportunidade de prosperar.

Ao mesmo tempo, Charada infecta Batman com os nanorrobôs e, assim, tem acesso aos dados da Batcaverna, adquirindo informações quanto às identidades secretas e fraquezas de todos os membros da Liga.

No mesmo momento em que Luthor discursava diante de bilhões de pessoas, Superman era atacado em pleno Planeta Diário. Flash era preso em um looping que o impedia de parar de correr. Lanterna Verde era enviado para os confins do universo por um tubo de explosão acionado por Sinestro. Diana era enfeitiçada pela Mulher-Leopardo com uma maldição que lentamente desfaz o encantamento que lhe deu vida. Ela literalmente estava voltando ao pó pelo qual foi concebida.

Pessoas próximas aos heróis foram sequestradas: Iris West, Lois Lane, os irmãos de Billy Batson, Arthur Jr. (filho de Aquaman) e muitos outros. A Legião do Mal tinha a Liga em suas mãos, de todas as maneiras possíveis.

Com seus arqui-inimigos fora do jogo, a Legião passa a conduzir os enfermos que curou em direção a sete cidades artificiais criadas por Brainiac. Sociedades utópicas e perfeitas, onde a dor era impossível.

O que eles não sabiam era que essas cidades artificiais eram, na realidade, o berço de uma nova raça criada por Brainiac, que não esperava contar com o restante da humanidade, sendo ele mesmo responsável pelo apocalipse nuclear previsto pelos malfeitores. Eles trabalhavam pelo fim de sua própria raça, e nem sequer sabiam disso.

Felizmente, a Liga resiste. No momento em que Shazam resgata Superman de uma armadilha de Metallo, Bizarro, Solomon Grundy e Parasita, os heróis passam a se reunir: primeiro Batman e Diana, depois Flash, depois Arqueiro Verde e Canário Negro. Com as paredes que protegem suas vidas privadas caindo pela Terra, e sua visão de heroísmo sendo suplantada pela benevolência quase messiânica ofertada pelos vilões, os maiores heróis da DC só tinham uma coisa em que confiar: uns nos outros. Na força de Superman, na resiliência da Mulher-Maravilha, na velocidade de Flash, na criatividade de Lanterna Verde e, principalmente, na inteligência de Batman.

Em uma série épica de combates, que talvez sejam os momentos de ação mais magníficos já feitos por Alex Ross, a Liga supera a Legião do Mal, livrando-os da influência de Brainiac e impedindo que o ciborgue dispare os mísseis nucleares contra a Terra.

As cidades “perfeitas” foram desfeitas, e todos os abençoados pelo medo dos piores homens e mulheres do planeta voltaram às suas realidades. Ao salvar as vidas de toda a humanidade, a Liga condenou uma parcela dela a uma vida limitada e frágil.

Será que eles realmente ficaram devendo algo à humanidade? Será que, de alguma forma, os vilões estavam certos?

Poder que liberta ou que escraviza?

A Legião do Mal agiu movida pelo terror de ver o mundo que desejavam conquistar sucumbir pela incapacidade da Liga da Justiça em defendê-lo, mas, para convencer as pessoas a segui-los, a ignorar todos os crimes que cometeram e dar as costas aos heróis que por décadas lutaram dia e noite para defendê-los, eles se utilizaram de um argumento muito mais simples: por que eles não fazem mais?

Os ícones da Liga eram vistos quase como deuses pelas pessoas, com poderes incomparáveis e identidade baseada não em um rosto, mas em um símbolo. Eles agiam, mantinham a vida, mas jamais tentavam de fato melhorá-la.

Os vilões seguiram por outro caminho. Sem máscaras, sem codinomes, eles se mostraram para as pessoas como uma alternativa mais humana e próxima, que compreendia sua fragilidade e sentia sua dor.

Eles, então, usaram de seus dons para criar um mundo em que os super-heróis simplesmente não seriam mais necessários, pois a sociedade já avançou de tal maneira que as ervas daninhas que eles se dedicavam a aparar já tinham sido definitivamente arrancadas. Os homens e mulheres que abraçaram essa promessa, aos poucos, começavam a ver o impossível tornar-se possível, e qualquer sonho se torna real em um piscar de olhos, bastando desejar para acontecer.

Porém, sempre que se confia o destino de uma raça nas mãos de pessoas de carne e osso, falhas exatamente como aquelas que governam, o fracasso é somente uma questão de tempo. Luthor, Hera-Venenosa, Arraia Negra, Charada, nenhum deles estava de fato interessado em ajudar, e sim em fidelizar aquelas pessoas. Eles desejavam uma sociedade mais forte, mais inteligente, livre da dor da doença e do peso da idade, mas que, acima de tudo, adorasse aqueles que lhes abriram as portas do paraíso sem fazê-los passar pelo inferno.

Nesse instante, a narrativa de “libertar” a humanidade de sua dependência para com os super-heróis cai totalmente por terra. Pouco a pouco, os seres humanos deviam mais e mais a eles sua saúde, suas casas, suas vidas. Todavia, tudo que vem fácil se vai com a mesma facilidade, e as mãos que antes se abriam para libertar, agora se fechavam para aprisionar.

Foi essa ilusão que levou a Terra à beira do abismo, se não fosse, é claro, pela intervenção da Liga. Porém, não somente os vilões cometeram o erro de tentar corrigir o mundo à sua própria maneira. Os próprios heróis, movidos pela missão de livrá-lo de suas chagas, acabaram aprendendo que seus poderes por si só não bastam, nem jamais bastaram para mudar o mundo. Sua verdadeira força, onde reside o poder real de mudar o mundo, não está em seus músculos, mas no exemplo. Essa verdade está explícita no próprio universo de Alex Ross; confira:

Superman: Paz na Terra

“É fácil. Não jogue muitas sementes de uma vez só. Deixe-as cair aos poucos, por igual em cada um dos buracos; nem todos vão crescer, mas todas merecem a chance”. Essa fala de Jonathan Kent para seu filho Clark, o futuro Homem de Aço, define o tom dessa história.

Na trama, Superman decide dar um basta na fome mundial. Percebendo que os políticos estão completamente acorrentados à sua burocracia, ele decide usar seus poderes para pôr um fim a essa crise por conta própria.

O Homem do Amanhã produz comida para todos, mas o problema começa na hora de distribuí-la. No interior dos EUA e no Brasil (sim, nós aparecemos nessa história), Superman é recebido de braços abertos, e todos ficam gratos pela sua ajuda. Rapidamente, a maior cruzada de sua vida começa a ganhar corpo.

Mas, ao chegar ao Leste Europeu, um garoto o confronta: “Você virá amanhã?” Ele sabe muito bem a resposta, mas não ousa dá-la.

Em outros países, ditadores simplesmente recusam o auxílio, atribuindo-o a uma tentativa de interferência imperialista. Em outros, razões religiosas impedem que os fiéis aceitem tal benesse. O Escoteiro Azul percebe que, por mais que suas intenções sejam boas, elas não soam iguais para todos. O ser humano não é uma massa homogênea; nem todos agem e pensam igual, nem têm as mesmas necessidades. Sua missão fracassou antes mesmo de começar.

“Dê um peixe a um homem, e ele se alimentará por um dia; dê-lhe uma vara de pescar, e ele terá alimento para toda a vida.” Nesse momento, Superman deixa claro: o exemplo, por incrível que pareça, em alguns casos vale mais que as ações em si. Pois somente ele pode ressoar eternamente nas mentes de quem as presencia e inspirá-los a fazer o mesmo. Nenhum homem, mesmo um Super-Homem, é capaz de fazer todos serem iguais, mas pode dizer a cada um deles o caminho a se trilhar até isso.

A mudança real só acontece por meio das pessoas.

Batman: Guerra ao Crime

Inconformado com a criminalidade e a miséria na Baía de Gotham, o Cavaleiro das Trevas dedica-se inteiramente a desmantelar as várias camadas do crime que a comandam.

Ele espanca dezenas de criminosos, põe os poderosos atrás das grades, mas, quando um jovem garoto, que assim como ele perdeu os pais, lhe aponta uma arma, disposto a tornar-se o mesmo mal que destruiu seu próprio mundo, o Cruzado Encapuzado percebe que isso não é o suficiente.

Ele convence o garoto a abaixar o revólver e, em vez de prendê-lo, o abraça, salvando-o de se tornar um monstro como os homens que tentaram puxá-lo para o abismo.

Pessoalmente, Bruce Wayne investiu na reestruturação da região, oferecendo emprego, escolas e moradia, enquanto seu alter ego mantinha os malfeitores longe daqueles que de fato desejavam reconstruir suas vidas. Batman mostrou que, para destruir o crime, não basta prender todos os criminosos; é preciso regenerar a sociedade de maneira que essa infecção gradualmente pare de se expandir. Aos bandidos, a justiça; aos inocentes, a esperança.

A mudança real só acontece por meio das pessoas.

Capitão Marvel: O Poder da Esperança

Billy Batson recebe inúmeras cartas de um hospital infantil, no qual as crianças têm como maior sonho conhecer o Capitão Marvel. Sabendo que isso tem mais valor do que prender qualquer vilão, ele vai ao encontro delas e, durante dias, faz tudo o que elas desejam: voar por entre as nuvens, conhecer as feras da natureza, acompanhá-lo em suas aventuras e, para aquelas que não podem ver, apenas sentir o rosto daquele que adoravam, mesmo sem jamais ter visto o sorriso.

Com certo garoto, Shazam tomou sua forma humana e conversou de igual para igual, assumindo a forma não de um herói, mas de um amigo.

Porém, ele sentiu também a tristeza de suas próprias limitações. Ele já empatou com Superman em uma queda de braço, mas era incapaz de salvar uma menina consumida pelo câncer, que morreu de mãos dadas com ele, grata por toda a alegria que ele lhe concedeu em seus últimos instantes, por ter feito ela própria sentir que sua vida podia ser vivida mesmo com data para acabar.

Ele não salvou suas vidas, mas salvou suas esperanças, não com a divindade que carregava em seus dons, mas com a humanidade que transbordava em seu coração.

A mudança real só acontece por meio das pessoas.

Tais casos mostram como a Liga da Justiça foi capaz de vencer a Legião do Mal fisicamente, intelectualmente e, acima de tudo, moralmente.

Eles oferecem à humanidade não somente um poder que realiza, mas que inspira a ação. Não somente salva o corpo, mas a alma. Um poder que pode carregá-lo nos braços quando suas forças se esgotarem, mas que sabe a importância de andar ao lado.

Batman deixa isso muito claro ao final de Justiça, quando celebra o fato de que a humanidade tenha perdido a capacidade de se autodestruir por meio de suas próprias armas. Superman, Lanterna Verde, Caçador de Marte e Shazam fizeram o extraordinário, não para mudar tudo, mas para dar a OPORTUNIDADE para que as pessoas construíssem a mudança por suas próprias mãos.

Essa lição encontra raízes inclusive na Bíblia:

"O coração do homem planeja o seu caminho, mas o Senhor lhe dirige os passos." — Provérbios 16:9.

Deus conduz, abre os caminhos, mas é o homem e a mulher que, por suas próprias forças, caminham e desfrutam das sementes plantadas pelo Criador.

As máscaras, as identidades secretas, os símbolos que carregam no peito, não são simplesmente uma maneira de esconder suas vidas civis, as pessoas e coisas que amam, mas também para garantir que as glórias, os elogios e as lembranças jamais estejam relacionados a um rosto, mas a uma ideia, pois somente elas permanecem vivas quando o corpo se esvai, e somente elas, a longo prazo, podem inspirar a sociedade a pouco a pouco trazer a mudança real ao mundo.

E você, já leu Justiça ou qualquer uma dessas outras HQs? Concorda com a forma como a Liga da Justiça lida com a humanidade? Não deixe de comentar!

Entretenimento

Explore conteúdos de cultura geek e pop.

Blog

Vídeos

contato@larculturapop.com

© 2025. All rights reserved.