A paternidade dos super-heróis
Ser um super-herói já é naturalmente um trabalho árduo. Ter que conciliar enormes poderes e habilidades, com as dificuldades de uma vida com e sem a máscara, certamente tornam mais difícil equilibrar o poder e a responsabilidade necessária para possuí-lo. Mas, se isso é difícil, imaginem o desafio de passar esses mesmos valores para alguém que vê em você o maior exemplo a se seguir? Seu maior guia? Nada é mais desafiador para um herói do que construir uma família, do que ser pai. Hoje, vamos viajar por algumas das relações mais intrigantes entre pais e filhos no universo dos quadrinhos de DC e Marvel, em homenagem ao dia dos pais. Então, sem mais delongas, vamos lá!
MARVEL E DC
Rafael Silva
8/7/20268 min read
Batman e Damian Wayne


Como transformar uma arma forjada para matar desde a barriga de sua mãe em um garoto com a mínima noção de certo e errado?
Ra's al Ghul, líder milenar da Liga dos Assassinos, tinha o sonho de fazer do Batman o seu herdeiro, admirando sua força, inteligência e sede de justiça. Todavia, havia um verdadeiro abismo separando suas ideias: qual o limite para se fazer justiça? E, principalmente, como diferenciar a busca por ela de uma busca pessoal em moldar a sociedade segundo a sua vontade? O Cavaleiro das Trevas jamais aceitou a megalomania genocida da Liga e sempre teve Ra's como um de seus maiores inimigos.
Porém, essa divergência ideológica entre ambos não impediu que Batman se apaixonasse pela filha do terrorista, Talia al Ghul, que tinha a relação com o Cavaleiro das Trevas dividida em dois aspectos: o sentimento e o dever.
Ela amava Bruce, mas amava mais a Liga dos Assassinos e a sua missão de “limpar” o mundo, e não hesitaria em utilizar os sentimentos do Cruzado Encapuzado contra ele.
No entanto, Batman superou seus desejos pessoais, recusando novamente se unir àquela cruzada assassina, fazendo com que Talia apelasse: se ela não poderia ter Bruce ao seu lado, teria um filho com ele, misturando o sangue dele e de seu pai, o herdeiro perfeito para comandar a Liga.
Para isso, ela droga o herói, relacionando-se com ele contra a sua vontade. O autor dessa trama, um tanto quanto polêmica, Grant Morrison, foi duramente criticado pelos fãs por expor Batman a uma situação de abuso.
Meses depois, nasceu Damian Wayne, o filho do Batman. Por dez anos, ele foi treinado de maneira ininterrupta por seu avô, transformando-o em uma verdadeira máquina de matar, sem hesitação, sem misericórdia, focada única e exclusivamente em seu objetivo: purificar o mundo, independentemente das consequências.
A animação O Filho do Batman (2014) trabalha muitíssimo bem o primeiro contato de Damian com seu pai. Quando o Exterminador mata Ra's, buscando tornar-se o novo Cabeça do Demônio, Talia entrega o garoto a Bruce, confiando que ele é o único capaz de protegê-lo. Sem mais nem menos, o guardião de Gotham tinha uma responsabilidade enorme nas mãos, e sem ter a menor ideia do que fazer.
Damian cresceu sabendo quem era seu pai, mas o contrário não se aplica. Pela primeira vez, o herói mais preparado das HQs estava completamente perdido. Ele tenta mantê-lo longe de sua cruzada como Batman, utilizando-se de seu lado Bruce Wayne para se aproximar de seu filho, mas o menino não era do tipo que se levava para jogar bola ou ir ao cinema.
Com Dick, Jason e Tim, Bruce utilizou o combate ao crime como uma ferramenta para direcionar seu ódio e frustrações contra os criminosos, e não contra a sociedade. Era como pegar argila completamente disforme e tentar moldá-la em algo com sentido, assim como ele havia feito consigo mesmo no passado. Mas com Damian era diferente. Ele já havia sido moldado e, para salvá-lo, Bruce precisaria desmantelar o ódio assassino que havia sido implantado em sua mente desde o momento em que nasceu. Destruir para construir.
O quarto Robin começa sua jornada extremamente violenta, testando ao limite a paciência de Batman, que o força a abrir mão da espada dada a ele por seu avô, o símbolo daquilo que ele havia sido criado para ser. Ao entregá-la, Damian dava o primeiro passo para tornar-se realmente filho do Batman e não de Ra's al Ghul, para deixar de ser uma arma e tornar-se um ser humano.
Ao final da trama, Damian derrota o Exterminador, mas não o mata, provando que os valores de seu pai agora também eram os dele. E, mesmo com o conflito entre a Liga e o Exterminador estando encerrado, ele preferiu continuar ao lado de Batman, pois, diferente de Talia, Bruce de fato o via como um filho, e não como um objeto.
A relação entre eles foi transformadora para ambos, reconectando Bruce ao seu lado humano, forçando-o a convergir suas identidades em favor do garoto.
Por mais que tanto a HQ quanto a animação sejam bem qualquer coisa, a relação entre Batman e Damian ganha força com o tempo e com a introdução de mais personagens em seu ciclo familiar. Alfred serve como um segundo pai, assim como foi para Bruce, e Dick como o irmão que Damian nunca teve, colocando-se ao seu lado como alguém que entende o que é estar em seu papel. Com a ajuda de seus aliados, pouco a pouco Bruce consegue salvar o garoto de si mesmo e torná-lo parte da família. Só não conseguiu impedi-lo de ser um dos personagens mais chatos e arrogantes da DC, mas nem ele pode fazer milagres!
Antes de Damian, Batman já havia tido uma filha com a Mulher-Gato na Terra-2, Helena Wayne, conhecida também como Caçadora. No entanto, os reboots e crises de cronologia da DC mudaram seu status, excluindo qualquer vínculo familiar com o Morcegão na linha principal. Mesmo com menos espaço, Helena serviu para nos apresentar um dos poucos "finais felizes" que Bruce já teve, vivendo até a velhice ao lado de Selina e deixando seu manto para sua filha.
Superman e Jon Kent


Como fazer seu filho amar a humanidade tanto quanto você? Mesmo sendo criado por um casal simples do Kansas, Clark foi capaz de conciliar seus poderes messiânicos com seus valores humanos. Mesmo conhecendo as lições deixadas por seus pais e as dificuldades de manter-se correto mesmo com tanto poder, passar esses valores para o jovem Jon Kent foi, sem dúvida, o maior desafio da vida do Homem de Aço.
A série Renascimento (Rebirth), de Peter J. Tomasi e Patrick Gleason, trabalha brilhantemente com Clark, Lois e Jon. Sem Lex Luthor, sem Liga da Justiça, sem Planeta Diário em evidência, temos apenas um pai, uma mãe e um filho vivendo no condado de Hamilton.
Durante seus primeiros anos de vida, Jon não fazia ideia de que seu pai era o Superman, uma verdade que seus pais preferiram esconder em favor de uma infância tranquila para o garoto. Clark queria criá-lo longe de tudo, da fama, dos holofotes e da capa. Para aprender a ser um herói, ele primeiramente precisaria aprender a ser humano.
Assim como seu pai, Jon viveu os primeiros anos de sua vida como um garoto completamente normal. No entanto, quando a Intergangue ataca a fazenda de sua família, no impulso de salvar sua mãe, o garoto dispara sua visão de calor incontrolável contra os invasores, finalmente descobrindo suas habilidades.
O choque foi imediato, com o garoto vendo a si mesmo como um monstro. Nesse momento, Clark revela sua verdadeira identidade, deixando bem claro: ele definitivamente não era um monstro, e agora sabia o porquê.
Jon era um híbrido entre humano e kryptoniano, e o Superman precisaria treiná-lo o quanto antes. Seus poderes começam a surgir de maneira instável, desde a força sobre-humana até descontroladas rajadas de calor. Uma metáfora um tanto devastadora para a puberdade.
Diferente do Batman, que conduziu seu filho por meio da disciplina rígida e na contenção de seus sentimentos, o Superman colocou-se como um igual, mantendo a dinâmica mais comum possível entre pai e filho, assim como Jonathan e Martha haviam feito com ele no passado. Jon podia não ser plenamente humano, mas seria tratado como um.
Clark lhe ensina a beleza da humanidade, do mundo que os acolheu, a importância da paciência, do autocontrole e do dever de usar a bênção que lhes foi dada em favor daqueles incapazes de se defender. Ele conta sobre suas origens kryptonianas, sob qual propósito foram trazidos à Terra e qual era a responsabilidade deles para com o planeta.
O caráter do filho foi construído pelo exemplo de seu pai.
Homem-Aranha e Mayday Parker


O mais sofrido da lista, o que não é novidade para o Amigão da Vizinhança. A filha única de Peter e MJ nasceu nas páginas da revista What If...? #105, escrita por Tom DeFalco em 1998. Nessa realidade paralela, Peter já tem quarenta anos de idade, aposentado há mais de uma década após perder uma de suas pernas durante um duelo sanguinário com o Duende Verde (Norman Osborn).
Ele seguiu carreira como detetive forense na polícia de Nova York, dando tchau e bênção para a bravata de J. Jonah Jameson, enquanto Mary Jane torna-se uma estilista de sucesso, garantindo estabilidade financeira para a família, algo que sempre foi a kryptonita do Homem-Aranha. Essa realidade foi bastante generosa com Peter.
Mayday cresce como uma jovem popular no colégio, bem diferente de seu pai, e nem ao menos sabe o passado que ele carrega. No entanto, sua corrente sanguínea jamais esqueceu de onde vieram suas raízes, e os dons concedidos por elas se revelaram em sua adolescência, concedendo-lhe agilidade e força sobre-humanas, que são usadas não para combater o crime, mas para dar belas enterradas no basquete. Financeiramente, tenho certeza de que compensa mais.
Peter e Mary Jane sempre a criaram como uma garota normal, amando-a e protegendo-a, mas o passado voltaria para cobrá-los por meio de Normie Osborn, filho de Harry e neto de Norman. O garoto havia visto seu pai morrer nos braços do Aranha e sabia da carreira criminosa de seu avô. A imagem da família Osborn estava totalmente devastada, e sua mãe, Liz Allan, jamais superou o caos que o Homem-Aranha causou em sua vida.
O garoto cresceu com a certeza de que toda a desgraça que caiu sobre sua família era culpa do Cabeça de Teia e, com o dinheiro e os recursos da Oscorp ao seu lado, ele tramou sua vingança, sequestrando Peter Parker e fazendo com que Mayday descobrisse o legado de seu pai e pegasse um de seus uniformes para resgatá-lo.
Com uma ajuda monstruosa do roteiro, uma garota com quase nenhuma experiência com seus poderes vence um vilão armado até os dentes. Mas, como todos sabem, lógica não é o ponto forte dos quadrinhos.
A jovem heroína poupa a vida do herdeiro do Duende e, com o tempo, ela e seu pai o ajudam a ter acesso a tratamento, abrindo caminho para um destino diferente do de seus antepassados.
Mesmo devendo a vida à filha e se orgulhando por sua fibra moral, Peter torna-se um Tio Ben reverso, implorando que ela não mergulhe na vida de super-heroína como ele fez, por saber o preço que isso cobra em todas as esferas da vida de quem assume esse fardo. Era pesado demais, e ele queria livrá-la disso.
Porém, assim como no caso do pai, o senso de heroísmo de Mayday falou mais alto que a lógica, e ela continuou sua carreira de combatente do crime. Para manter-se perto dela e garantir sua segurança, Peter passou a atuar como uma espécie de Alfred, ajudando-a virtualmente em suas missões.
A dinâmica de pai e filha é divertida e ousada, mostrando uma realidade em que Peter alcança uma paz temporária, mas jamais consegue escapar da missão que recebeu aos 15 anos, graças à fatídica aranha radioativa.
E para você, qual desses é o melhor pai dos quadrinhos? Faltou alguém? Não deixe de comentar!
