Voldemort e Grindewald: As Diferentes Faces do Mesmo Mal

No livro Harry Potter e as Relíquias da Morte, mais especificamente no capítulo 23, “A Mansão dos Malfoy”, Harry vê, pelos olhos de Voldemort, sua chegada à lendária prisão de Nurmengard. O Lorde das Trevas buscava, entre as paredes da antiga fortaleza, um homem que, 53 anos antes, detinha o título de “o bruxo das trevas mais poderoso de todos os tempos”: Gellert Grindelwald. Voldemort desejava descobrir por meio dele a localização da Varinha das Varinhas, uma das três Relíquias da Morte, e que, antes de repousar nas mãos mortas de Dumbledore, havia sido tomada por ele no maior duelo que o mundo bruxo já viu. Para ambos, a varinha era um símbolo de poder, de invencibilidade. Todavia, a forma com a qual cada um deles desejava utilizar essa força era muitíssimo diferente. Voldemort e Grindelwald mataram milhares de pessoas, propagaram preconceitos, derrubaram governos e levaram a comunidade mágica ao mais absoluto caos. Seus métodos, em muitos casos, eram quase que exatamente iguais, mas os resultados esperados não eram os mesmos. Será que é possível trilhar o mesmo caminho e não ter o mesmo destino? Muitos já discutiram: qual o mais poderoso entre os dois? Mas poucos discutem um aspecto que pode ser tão intrigante quanto: qual deles tem a ideologia mais nociva? Qual deles é mais cruel? Algum deles poderia ter uma redenção? Serão sobre esses aspectos que iremos discutir hoje!

HARRY POTTER

Rafael Silva

9/2/20267 min read

A luta pela “verdade” e a conquista pela mentira

Logo na juventude, nota-se a maior diferença entre eles. Grindelwald, mesmo sendo tido como um prodígio, foi expulso de Durmstrang em seu sétimo e último ano. O motivo? Praticar artes das trevas dentro da escola e usar seus colegas como cobaias para seus experimentos.

Mas Durmstrang não aceita artes das trevas? Sim, tanto que Igor Karkaroff, um ex-Comensal da Morte, já foi seu diretor. Então, imagine o quão extremo alguém precisa ser para ser expulso desse lugar. Uma coisa fica clara logo de cara: Gellert simplesmente não tenta fingir ser o que não é. Ele jamais abriria mão de suas convicções para adequar-se a quem quer que seja, mas as defendia com tanto fervor que as fazia reais para quase qualquer um que as ouvisse.

Diferente de Voldemort, Grindelwald acreditava que todo o sangue mágico tinha valor, sendo ele “puro” ou não. Por outro lado, ele era incapaz de aceitar que seres banhados em poder mágico fossem forçados a viver nas sombras em favor dos trouxas, uma espécie fraca, raivosa e preconceituosa, que fazia dos fortes os seus escravos. Para ele, o poder não servia para governar, mas sim para libertar, para conduzir o mundo bruxo ao esplendor que lhe era de direito.

Seu poder de convencimento era tão grande que até mesmo mentes brilhantes, como a de Alvo Dumbledore, acreditaram nele e tornaram-se seus seguidores (no caso de Dumbledore, até mais que isso).

E Tom Riddle? Esse já nasceu com o dom da atuação. Ao ser deixado por Mérope Gaunt no Orfanato Wool, Tom cresceu cercado por aquilo que mais viria a desprezar: trouxas.

Mesmo ensinado desde cedo a viver como um deles, Riddle sabia que era diferente, sabia que era mais forte. Pela sua vontade, a de todos à sua volta se dobraria. Quando Dumbledore veio até ele com a verdade, ele não se surpreendeu; ele não apenas sabia que era diferente, ele QUERIA ser diferente, queria ter a certeza de que era melhor que aqueles em seu entorno. No entanto, seu ego continuou alto, mesmo entre os seus.

Se praticamente não temos informações sobre a família de Grindelwald, com Riddle temos a extensa árvore genealógica dos Gaunt, que se cruza com várias das famílias mais elitistas e preconceituosas da comunidade mágica britânica, como os Malfoy e os Black. Para eles, o sangue “puro” valia mais que qualquer coisa. Prova disso é o próprio avô de Tom, Servolo Gaunt, que, mesmo vivendo em uma casa caindo aos pedaços e sendo mal visto por tudo e todos, insistia que o sangue que corria em suas veias o fazia melhor que qualquer um.

Mesmo sem nunca tê-lo conhecido, Tom parecia ter nascido com o mesmo pensamento. Durante seus sete anos em Hogwarts, ele buscou pistas sobre seu passado, descobriu a linhagem nobre de sua família e como sua mãe havia a destruído ao relacionar-se com um trouxa por “amor”. Riddle jamais conheceu esse sentimento e, de quebra, ele agora era o motivo de sua maior vergonha.

Ainda assim, ele fazia de tudo para provar-se. Era o aluno mais brilhante, o mais bonito, o mais carismático, um modelo a se seguir. Nos bastidores, ele aprofundava-se cada vez mais na magia das trevas, chegando a criar uma Horcrux ainda durante seu tempo em Hogwarts, enquanto se reunia com “amigos” que nutriam os mesmos ideais preconceituosos que ele, aos quais ele nomeou como “Os Cavaleiros de Walpurgis”, a “categoria de base” dos Comensais da Morte.

Ele os fazia crer que poderiam ser iguais a ele, que juntos iriam purificar a comunidade bruxa de suas chagas e que, em algum momento, ele lhes daria a chave da imortalidade; essa promessa era, obviamente, uma mentira, assim como todas as personalidades que Riddle um dia teve. A única verdade sobre si mesmo era a que estava em sua mente.

Se para conseguir poder, ele precisasse bajular professores, estudar noite e dia e ter as melhores notas, ele faria. Se para conseguir poder, ele precisasse disseminar ódio, esbanjar poder e fazer falsas promessas a uma dúzia de adolescentes em uma sala escura, ele também o faria. Sua juventude se resumiu a uma eterna troca de máscaras, cada uma se adequando ao que ele precisava ser naquele momento. Todos diante dele eram peças, e ele iria manipulá-las sem pudor para chegar ao topo.

Imortalidade da ideia ou da carne?

Logo em seus primeiros anos, o discurso extremista de Grindelwald encontrou admiradores em todos os cantos do mundo. Legiões de bruxos e bruxas, exaustos de viverem presos em uma cela da qual tinham a chave, viam naquela figura brilhante e poderosa a chance de ver aquele ideal se tornar real. Para Gellert, não se tratava de admiração ou sede de poder; era sobre assumir a responsabilidade de construir um mundo melhor para o seu povo.

Basicamente, se Voldemort dizia para si mesmo: “eu sou melhor”, Grindelwald olhava para uma raça inteira e dizia: “NÓS somos melhores”.

Mesmo quando Dumbledore o abandonou, ele continuou sua cruzada. Para ele, não interessava a admiração, nem mesmo o apoio de alguém que amava. O objetivo era tudo que importava.

Quando Newt Scamander o prendeu, ele persistiu. Quando sua manobra para tornar-se Cacique Supremo do Mundo Bruxo falhou (mesmo com ele tendo amplo apoio das massas), ele seguiu lutando, pois sabia que não apenas sua vontade o movia.

Mas, se ele era realmente tão “caridoso”, por que ele queria tanto reunir as três Relíquias da Morte e se tornar o Senhor da Morte? Simples: o Senhor da Morte não é apenas virtualmente imortal, ele também detém um poder mágico incomparável, que seria justamente a sua garantia de vitória não só contra os trouxas, mas contra qualquer autoridade mágica que se pusesse em seu caminho. A grosso modo: sua carne poderia morrer, mas sua ideia não.

Isso, é claro, de forma alguma lhe redime de seus crimes. Grindelwald derramou barris de sangue bruxo e trouxa, matou pessoas próximas como Ariana Dumbledore, e tinha como principal objetivo iniciar uma guerra que certamente custaria milhões de vidas, tanto bruxas quanto trouxas. Mas, fato é que quase tudo que ele fez em sua trajetória foi para construir uma realidade idealizada, onde ele julgava que todos os bruxos que desejassem poderiam viver em paz.

Por outro lado, Tom, que assumiu a alcunha de Voldemort pouco após deixar Hogwarts, dedicou sua vida a uma única pessoa: ele mesmo. Ele rapidamente entendeu que apenas adquirir poder e influência não bastava. De que adiantava chegar ao trono, se a morte lhe faria desmoronar? Sua conquista não valeria de nada, se não fosse eterna.

Ele menosprezou sua mãe por ter morrido de maneira tão patética e não aceitou ter o mesmo destino. Para ele, tanto o amor quanto a mortalidade eram maldições dos fracos; ele deveria livrar-se de ambos. Foi assim que ele mergulhou de cabeça nas Horcruxes, matando, profanando, corrompendo sua própria alma várias e várias vezes. Deixando cada vez mais de ser um homem e tornando-se um monstro.

Diferente dos seguidores de Grindelwald, que em sua maioria o apoiavam com a perspectiva de libertar-se das regras do Estatuto Internacional de Sigilo em Magia, os Comensais da Morte e demais seguidores de Voldemort se limitavam a dois grupos: os fanáticos, que acreditavam piamente que estavam purificando o mundo mágico ao lado de um ser todo-poderoso e imortal, indo de loucos como Bellatrix Lestrange e Bartô Crouch Jr. até alguns mais moderados, como Lúcio Malfoy, e os covardes, que se juntaram à morte por medo, como Rabicho e Igor Karkaroff.

Ele também trouxe para o seu lado os seres mágicos rejeitados pela sociedade, desde lobisomens e dementadores até trasgos e gigantes, mesmo que, no fundo, ele tivesse tanto nojo deles quanto o Ministério da Magia.

Com eles ao seu lado, Voldemort deu início à Primeira Guerra Bruxa, matando inocentes e propagando o terror por todo o Reino Unido, parando somente quando perdeu sua forma física ao tentar matar Harry Potter, um bebê de apenas um ano. Quatorze anos depois, ele retornou graças às suas Horcruxes e retomou sua cruzada, até finalmente tomar o Ministério da Magia.

Grindelwald dedicou sua vida a uma ideologia, Voldemort usou uma para eternizar a si mesmo. O egocentrismo do Lorde das Trevas é incomparável. Além disso, fãs especulam que Voldemort possa ter distúrbios como psicopatia e tanatofobia, que poderiam explicar sua aparente falta de emoções, como também seu medo sobrenatural da morte. Isso o torna ainda mais particular em relação a Gellert. Por mais que tivessem o preconceito e o poder no centro de suas ideologias, suas ramificações e motivações eram totalmente diferentes.

O fim de dois monstros

Essa nova situação leva de volta a Nurmengard. Gellert ri de Voldemort, negando-se a ajudá-lo a achar a Varinha das Varinhas. As cinco décadas atrás das grades mudaram sua mente. A solidão lhe fez compreender o peso de seu erro, o erro que havia feito dele um homem igual ao que estava diante dele agora. Ele sabia que ia morrer, mas recusou-se a fazer do último ato de sua vida um ato de vingança contra Dumbledore.

Assim, Voldemort o matou e seguiu para sua própria destruição. Ao roubar a Varinha do túmulo de Dumbledore, o Lorde das Trevas empunhou uma arma cuja lealdade não lhe pertencia: ela havia passado para Harry. Por isso, quando Voldemort tentou usá-la para matar seu verdadeiro mestre no Salão Comunal de Hogwarts, o feitiço voltou-se contra ele mesmo. A varinha jamais atacaria seu mestre e, diferente de todos na vida de Voldemort, nem o medo, nem a mentira iriam quebrar a sua lealdade.

Sua sede de poder o matou. No fim, sua ganância o levou ao mesmo fim que tantos outros naquele dia em Hogwarts: um corpo sem vida, lançado ao chão.

Ele morreu como um vilão humilhado; Grindelwald, como um velho arrependido.

Então, qual deles é pior? Se estamos falando de risco à comunidade mágica como um todo, é inegável que Grindelwald foi uma ameaça muito maior, uma vez que envolveu o mundo inteiro em sua cruzada e não precisava do medo para conquistar apoio. As pessoas o seguiam de livre e espontânea vontade.

Como pessoa, Voldemort é certamente pior. Agiu com egoísmo e crueldade do início ao fim de sua vida, e nunca nem ao menos flertou com qualquer ideal nobre, e muito menos com uma possibilidade de redenção. Se fosse para definir qual o mais nojento, possivelmente escolheria Voldemort, mas é inegável que ambos foram, sem sombra de dúvidas, as maiores ameaças que o universo de Harry Potter já conheceu.

E para você, qual dos dois é pior? Gellert Grindelwald merecia uma redenção? Comente!

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