Velho Logan: Uma Cicatriz para Além do Fator de Cura

Entre 2008 e 2009, Mark Millar e Steve McNiven deram vida a um dos “what if” mais trágicos e viscerais da história da Marvel. O ano é 2058, o mundo está em ruínas e os Estados Unidos da América tornaram-se uma imensa colônia repartida entre os maiores vilões de todos os tempos: Rei do Crime, Doutor Destino, Lagarto e até mesmo uma versão completamente distorcida do Hulk. Cinquenta anos antes, os campeões da humanidade tombaram em um último esforço para salvá-la. Capitão América, Homem-Aranha, Homem de Ferro, Thor, Quarteto Fantástico, todos mortos por uma improvável coalizão entre centenas de vilões, atacando todos ao mesmo tempo, fazendo com que cada herói precisasse enfrentar pelo menos cinquenta superadversários. Era uma batalha perdida antes mesmo de começar. No entanto, um destino muito pior que a morte aguardava Wolverine e seus companheiros X-Men. No momento em que Logan e Jubileu tentavam responder a todos os pedidos de socorro enviados por seus colegas de profissão, a parede da Mansão Xavier simplesmente explodiu. Com seu fator de cura incomparável, a Arma X reergueu-se quase de imediato, apenas para ver Jubileu, a garota que tinha quase como uma filha, que protegeu desde o primeiro instante em que pisou naquela casa, morta, perfurada pelos escombros. Do imenso buraco aberto pela explosão, uma legião de mais de 40 vilões emergiu sob ele. Doutor Octopus, Abominável, Dentes de Sabre, Shocker, Senhor Sinistro, esses e tantos outros estiveram entre as vítimas da fúria assassina do mutante. Não havia mais um herói ali, e sim um animal ferido em busca de uma vingança que só seria obtida pelo sangue. Ele nem ao menos estranhou estar vencendo hordas de vilões que poderiam derrotá-lo sozinho. A verdade veio somente quando ele derrotou o Mercenário, aquele que mais resistiu, aproveitando uma brecha para cravar suas garras de adamantium em seu peito, perfurando até mesmo o chão abaixo deles no processo. Em seu último suspiro, o assassino abriu os olhos do mutante: “Por que fez isso, Wolverine? Você deveria ser nosso amigo.” Quando os olhos do Mercenário se fecharam, foram os de Jubileu que nunca mais se abriram, enquanto o sangue fresco da garota ainda escorria por suas garras e pelo seu rosto. Olhando ao seu redor, ele viu a verdadeira face de seus supostos algozes: Ciclope, Tempestade, Homem de Gelo, Fera, Havok, Colossus, Kitty Pryde, Noturno, Longshot, Gambit e todos os outros que um dia chamou de amigos, de família. Ele havia banhado os corredores de sua própria casa com o sangue daqueles que mais confiavam nele e, por isso, hesitaram, por isso, deixaram-no viver. Mysterio, o vilão ilusionista responsável pelo massacre consumado por Logan, fez questão de esfregar essa verdade na cara de Wolverine antes de abandoná-lo com seus próprios pensamentos, pensamentos que abriram uma ferida incurável em seu coração. Matar a Arma X poderia ser impossível, afinal, ele já foi capaz de sobreviver até mesmo quando seu corpo foi reduzido aos ossos. Mas, se eles o fizessem ter nojo de si mesmo, a ter ódio do seu próprio poder, poderiam condená-lo a um destino mil vezes pior que a morte. Por cinco décadas, isso funcionou. Wolverine morreu, e Logan assumiu o controle. Pelo bem do homem e de todos com quem se importava, a fera precisava ser esquecida. A obra escrita por Millar é um verdadeiro soco no estômago, trazendo o lado mais brutal do maior dos X-Men, um futuro distópico além do pensamento pessimista dos fãs e que serviu de inspiração para longas-metragens de sucesso, como Logan (2018) e Deadpool e Wolverine (2024). Mas, afinal, como Logan lida com esse trauma? E, principalmente: a HQ é tão boa quanto é violenta? É isso que vamos discutir hoje!

MARVEL E DC

Rafael Silva

9/11/20266 min read

O Juramento

Anos após o massacre na Mansão X, Logan reconstruiu sua vida na Califórnia, casando-se com Maureen, com quem teve dois filhos: Scotty (homenagem ao Ciclope?) e Jade. A região antes vívida havia se tornado um verdadeiro deserto, sem recursos, sem lei, sem esperança. O governante daquele lugar era ninguém mais, ninguém menos que Bruce Banner, o Hulk, e seus vários e vários filhos, concebidos por meio de relações entre ele e sua prima Jennifer Walters.

Após matar o Abominável, um Golias Esmeralda completamente sádico e monstruoso fez do estado a sua fazenda particular, cobrando impostos abusivos, destruindo propriedades e, o pior de tudo, devorando aqueles que não pudessem pagar.

Esse nível de crueldade dá à trama o seu tom, mas carrega consigo um problema seríssimo: por quê? Compreende-se que Logan tornou-se um sujeito mais amargurado que o normal depois dos horrores que foi induzido a fazer. Os vilões, bom, eles estão simplesmente fazendo o que sempre fizeram. Mas Hulk extrapola todos os limites, seja na violência, seja pelas relações familiares dignas dos vilões de Acampamento do Mal. Ele sempre foi instável, complexo, perigoso, mas nunca um psicopata desse nível. Por que ele se tornou esse monstro completo? A HQ simplesmente não explica, o que é um erro grave, já que é por causa dele que Logan se vê obrigado a sair de seu ostracismo.

Os filhos de Hulk vão até a fazenda do Carcaju e o espancam impiedosamente por não ter pago os impostos a tempo. Ele sente ódio, vontade de pôr suas garras para fora novamente e despedaçá-los, mas os riscos eram grandes demais. Para ele, era mais fácil morrer do que tirar mais uma vida sequer, mesmo a de um bando de assassinos.

Felizmente para ele, seu antigo aliado, Clint Barton, o velho Gavião Arqueiro, ofereceu-lhe uma proposta: ajudá-lo a levar uma carga secreta de um lado ao outro do país, em Nova Babilônia. Uma vez cego, ele precisava de alguém de confiança para ajudá-lo a dirigir, mesmo que se recusasse a lutar. Sem escolha, ele aceita, sabendo que, se não pagasse a gangue do Hulk, sua família lhe seria tomada mais uma vez.

Temos aqui um terror inverso. Anteriormente, ele usou toda a sua força para proteger sua família e acabou matando-a com suas próprias mãos. Agora, ele ainda possui a força, mas é a sua recusa em usá-la que põe aqueles que ama em risco.

Um Mundo sem Heróis

A dupla viaja pelos domínios dos vilões e enxerga um verdadeiro pesadelo a cada nova cidade.

Em Nevada, as pessoas ajoelham-se diante do Mjolnir, o último resquício de Thor ainda presente sob a Terra, e imploram para que os super-heróis retornem e libertem-nos daquele inferno. Mesmo que tudo dissesse o contrário, eles jamais perderam a esperança.

Em Las Vegas, Barton reencontra sua ex-mulher, que lhe informa que sua filha, Tonya, havia sido sequestrada pelo Rei do Crime e mantida como prisioneira até o dia de sua execução pública em Salt Lake City, forçando-os a ir até lá para salvá-la, apenas para descobrir que a garota não havia ido até lá para libertar a cidade, mas sim para tomar para si a sua coroa.

A HQ brinca muito com a expectativa: as pessoas ainda oram pelos heróis, descendentes deles ainda vagam sob a Terra, a carga transportada por Clint era, na verdade, uma remessa de soro do supersoldado encomendada para construir uma nova geração de heróis. Por mais difícil que seja, a chama da esperança insiste em lutar para permanecer acesa, mesmo que sufocada pela escuridão.

A cada cenário, um novo lembrete do fracasso da sua geração: o corpo imenso de Hank Pym caído sob uma rodovia, o edifício Baxter em ruínas sob o cadáver de Loki, as armas e uniformes dos Vingadores servindo como souvenirs nas mãos do Caveira Vermelha. É uma nostalgia obscurecida pela derrota. No entanto, a HQ novamente peca por referenciar demais e aprofundar de menos. Duvido que haja um único leitor que não desejasse ter entendido como os Vingadores foram derrotados, ou como Reed e Sue Richards foram presos no fluxo temporal por Kang, ou como Magneto e Homem-Absorvente mataram Thor. Os heróis mais poderosos da Terra morreram, e não temos nada mais que vislumbres disso. É muito pouco.

A própria aliança dos vilões é incompreensível. Eles praticamente não se relacionam ao longo da HQ, e pouco temos de como eles lutaram juntos contra os defensores da Terra. A proposta é boa demais para ser tão apressada.

É possível interpretar isso como fruto da visão do protagonista. Logan não vivenciou quase nada disso, pelo contrário, preferiu virar as costas para não suportar o peso desse passado sombrio, mas, ainda assim, é um problema.

Nem Homem, Nem Herói

Ao chegar em Nova Babilônia, os heróis são traídos por uma suposta organização rebelde. Gavião-Arqueiro é morto, e Logan é alvejado e levado até o Caveira Vermelha, que, mesmo décadas depois, usa o uniforme de Steve Rogers como um símbolo supremo de seu triunfo sobre o Sentinela da Liberdade.

Salvo por sua incomparável regeneração, Logan volta à vida e, usando o escudo do Capitão América, arranca a cabeça do Caveira, um momento extremamente simbólico, em que a luz da esperança que aquele escudo um dia ostentou mostrou ainda ser capaz de brilhar. Talvez o homem que recusou ser um herói pudesse ser a única chance de salvá-los da extinção.

Porém, a trama insiste em continuar a sua profusão de tragédias e, mesmo conseguindo o dinheiro e voltando para seu lar a tempo, Logan se depara com os corpos de sua mulher e filhos, mortos de maneira totalmente banal pelos Hulks.

É indefensável: mal conhecemos esses personagens, não sabemos nem ao menos como Logan conheceu sua esposa, e eles são simplesmente mortos como meros artifícios de roteiro, sem peso algum além do choque. Estamos falando do momento em que Logan estaria revivendo o trauma de cinquenta anos antes, o momento em que suas mãos foram usadas para destruir o mundo que ele havia lutado tanto para construir.

Ele achou que, mantendo Wolverine longe, poderia protegê-los, mas foi justamente ao afastar-se deles que sacramentou suas mortes. Isso não pode simplesmente ser exposto em uma página e depois transformado em uma maratona de sequências de ação. A própria solidão de Logan é mal explorada, desenvolvida em poucas páginas, um tremendo desperdício.

Fato é que, depois desse duro golpe, Logan simplesmente morreu, mas seria injusto dizer que Wolverine assumiu seu lugar. Wolverine, por mais temperamental que fosse, era um herói, um balanço entre o homem e a arma, e agora, a única função que estava em seu cérebro era a de eliminar quem havia lhe causado aquela dor. Nesse momento, ele era somente um animal em busca de sangue.

Há um tempero histórico especial nesse momento. Curiosamente, a primeira aparição do Carcaju nas HQs se deu justamente nas páginas de The Incredible Hulk #180, em um duelo entre os dois. Wolverine nasceu enfrentando o Hulk, e morreria duelando contra a mesma Gárgula Verde. Não uma morte física, mas simbólica.

Ele extermina toda a gangue Hulk sem piedade, chegando até Banner, que, ao transformar-se, torna-se um monstro digno dos piores pesadelos de alguém, não apenas surrando Wolverine, mas devorando-o.

É nesse momento que a HQ tem seu momento mais gráfico, aquele que a faria inesquecível: Wolverine simplesmente se regenera e rasga Hulk de dentro para fora, fazendo jorrar seu sangue verde por todos os cantos da caverna. O único sobrevivente foi seu pequeno grande filho, Bruce Jr., ao qual o mutante toma como seu próprio filho, misturando vingança e piedade em um mesmo ato.

Ele termina tomando para si a missão de eliminar outros supervilões, em uma cruzada de vingança por tudo que lhe fizeram. Ele não tinha mais nada a que se apegar, nem esperanças para o futuro. Ele somente queria fazê-los pagar. Não era nem um herói, nem um homem, mas alguém que notou que não era capaz de impedir que os outros sentissem dor, mas que era ótimo em causá-la naqueles que a propagavam.

Velho Logan é certamente uma das HQs mais incríveis do Wolverine, mas passa longe de ser impecável. A arte de McNiven exalta a violência que é necessária para o tom pós-apocalíptico da HQ, e o roteiro de Miller constrói consideravelmente bem, mesmo que em pouco tempo, a mente esfacelada de Logan. Mas a falta de explicação em tantos pontos cruciais, o roteiro apressado e a falta de detalhamento quanto ao passado de Logan são falhas impossíveis de se passar pano.

Para mim, é uma história 7/10, mas que tinha um potencial muito maior e demonstra o quão complexo e multifacetado é o Wolverine.

E você, já leu a HQ? O que achou? Não deixe de comentar!

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