Um quadrinho aleatório (mas excelente) de cada herói

Quando pensamos em clássicos das HQs, logo imaginamos aquelas obras-primas que simplesmente definem a lore de um personagem. Ano Um para o Batman, Grandes Astros para o Superman ou A Queda de Murdock para o Demolidor são bons exemplos disso. No entanto, existem aquelas histórias aparentemente despretensiosas, mas que são verdadeiras obras-primas, carregando a alma de seus protagonistas em suas poucas páginas. Hoje, vamos conhecer alguns desses tesouros ocultos de alguns dos maiores ícones da DC e da Marvel.

MARVEL E DC

Rafael Silva

9/16/20268 min read

Superman: O Mundo Precisa do Superman? (Superman #247, 1972)

Escrita por Elliot S. Maggin e desenhada por Curt Swan (famoso por seu trabalho em O Que Aconteceu ao Homem de Aço?), esta HQ de apenas 16 páginas levanta um dos maiores dilemas da carreira do Homem do Amanhã: o mundo realmente precisa dele? Ou, em seu esforço incansável de fazer o bem, ele estaria tornando a humanidade dependente de sua força?

Na trama, o Superman é trazido à força até Oa pelos Guardiões, logo após salvar a Terra de uma chuva de asteroides. Lá, ele é confrontado com a ideia de que sua defesa constante da humanidade estaria retardando a evolução natural da nossa espécie. Kal-El inicialmente se revolta com tal afirmação. Sabendo que não podem intervir diretamente na Terra, os Guardiões permitem que ele retome suas atividades, mas o lembram de uma missão que realizou no planeta Kalya diante de uma crise ecológica, na qual os nativos imploraram por sua ajuda.

Ele e a Liga da Justiça atenderam ao chamado, sabendo que somente eles seriam capazes de reverter aquele desastre, mas deixaram claro que a responsabilidade de manter e preservar o mundo era exclusivamente dos Kalyarnanos. Deixar o exemplo era o maior ato de heroísmo que poderiam realizar.

Com isso em mente, o Superman retorna à Terra, onde sua superaudição imediatamente capta uma emergência no interior da Califórnia. Um garoto chamado Manuel estava sendo espancado por um velho chamado Hanley diante dos olhos de todos os moradores, que permaneceram calados e imóveis esperando que alguém milagrosamente resolvesse o problema por eles. O Homem de Aço intervém e salva o menino.

Os moradores rapidamente o cercam pedindo mil e um favores, como se fosse sua obrigação carregá-los no colo. Ele nega veementemente, acusando-os de permanecerem inertes diante de uma injustiça que poderiam reparar por conta própria. Diante dessa verdade, ninguém ousa responder.

Em uma conveniência narrativa típica da Era de Prata dos quadrinhos, o Superman nem sequer sai do local antes que um terremoto devastador atinja a região, destruindo inúmeras casas em um desastre irreparável para aqueles moradores. Foi nesse momento que o Homem de Aço usou seus poderes para fazer algo que somente ele poderia: conteve as placas tectônicas e reconstruiu as casas em um piscar de olhos.

Ficava claro o que era trabalho de herói e o que cabia a cada um de nós. Essa lição serviu muito mais para o próprio Superman do que para as pessoas salvas naquele momento, deixando os Guardiões satisfeitos. Por mais que seja uma história dinâmica e dependente de coincidências, a obra de Maggin traz uma reflexão interessantíssima e atemporal sobre o propósito do Escoteiro Azul.

Batman: Meu começo… e meu provável fim (Detective Comics #574, 1987)

Concebida pela dupla Mike W. Barr e Alan Davis, a HQ revisita um dos locais mais marcantes de Gotham City: o Beco do Crime, onde Bruce Wayne morreu e o Batman nasceu.

A trama mostra como o Beco do Crime serve quase como um reflexo da decadência de Gotham após a morte dos Wayne. A corrupção transformou um bairro antes próspero em um antro de criminosos e viciados, convertendo um menino traumatizado em uma criatura da noite.

O Cavaleiro das Trevas retorna ao seu berço carregando o Robin nos braços e buscando a única boa lembrança daquele lugar: Dra. Leslie Thompkins, a mulher que o acolheu no momento em que seu mundo caiu.

O Robin havia sido baleado pelo Chapeleiro Louco e, graças à intervenção médica de Leslie, escapou por um triz da morte. Isso, de maneira alguma, aliviou a barra do Batman. Leslie se enfurece com Bruce por arrastar um jovem para sua cruzada obsessiva contra o crime.

O Batman tenta se defender dizendo que nenhum deles escolheu esse fardo. A missão lhes foi imposta, e ele acreditava que essa jornada os ajudava a focar o ódio e a frustração em algo positivo, dando-lhes um propósito pelo qual lutar. Porém, quando questionado pelo que exatamente ele ainda lutava, o Maior Detetive do Mundo encontra um mistério que nem ele conseguiu desvendar. Ele reconhece que sua vida é vaga e solitária, e que, assim como Leslie, luta não por um resultado final, mas por uma obrigação inerente ao seu ser.

A trama intercala passado e presente, mostrando as etapas que antecederam o surgimento do Batman: o garoto cheio de ódio, o jovem forçadamente despreocupado na faculdade e o herói em busca de uma causa.

Todavia, ele mantém a esperança de que a oportunidade dada ao garoto de lutar desde cedo possa expurgar o mesmo sentimento destrutivo que o moldou, garantindo-lhe um destino diferente. É nesse momento que o Menino Prodígio desperta no leito, pronto para lutar mais um dia ao lado de seu mentor. A HQ serve como um retrato perfeito da psicologia do herói, demonstrando como ele enxerga sua missão e como o momento em que veste o traje é aquele em que se torna seu verdadeiro eu.

Capitão América: Capitão para Presidente (Captain America #250, 1980)

No meio da política, infestado pela corrupção e pela desonestidade, quem melhor para defender a nação do que o herói que literalmente carrega as cores do país no peito? Foi com essa premissa que Roger Stern e John Byrne fizeram uma das maiores perguntas da história da Marvel: e se o Capitão América fosse presidente dos Estados Unidos?

A trama começa quando Steve Rogers salva lideranças do Partido Populista de um sequestro e recebe uma proposta imediata do líder Samuel Underwood: tornar-se o candidato do partido à presidência. Afinal, quem em sã consciência não votaria no Capitão América?

O Super Soldado nega de imediato, tentando desconversar, mas Underwood aproveita a oportunidade e vaza a notícia para a imprensa. Em seu disfarce civil, Steve escuta seus amigos Bernie e Josh falarem sobre o assunto. Por mais que ele não tenha experiência política, muitos realmente acreditam nele como um farol de esperança.

Entre a comunidade de super-heróis, o debate é igualmente acalorado. A Vespa e o Fera o encorajam, acreditando que coragem e honestidade bastam para ser um presidente competente. Já o Homem de Ferro e o Visão creem que seria uma decisão desastrosa, pois, além da falta de experiência, Steve colocaria seu símbolo em risco ao envolver-se no submundo da política, onde precisaria fechar os olhos para vários tipos de imoralidades. Permanecer na fila dos que reclamam ou entrar na fila dos que fazem, correndo o risco de se tornar parte do problema? Esse era o dilema imposto ao Capitão.

O Homem-Aranha, o Demolidor e Nick Fury mostram-se inclinados a votar nele, enquanto J. Jonah Jameson inicia um boicote à sua candidatura (obviamente). Essa avalanche de opiniões deixa o Sentinela da Liberdade ainda mais indeciso, obrigando-o a olhar para o passado para tomar sua decisão.

Ele revisita a escola em que estudou quando criança e, ao olhar para o quadro negro de uma sala abandonada, lembra-se dos ensinamentos de sua antiga professora, Edna Crosley. Uma lição dada a um punhado de jovens ecoou pelas décadas: a de que cada cidadão tem um dever para com sua nação, independentemente de ideologias ou partidos. O destino de um país está amarrado ao seu povo e às suas decisões, e as esperanças de milhões de pessoas jamais devem ser depositadas nas mãos de uma única pessoa. Por mais incorruptível que ela pareça, jamais representará a todos.

Com isso em mente, ele vai ao comício feito em sua homenagem, onde milhares de americanos esperavam ouvi-lo aceitar o mandato. Diante da multidão, o Super Soldado expressa seu amor pela pátria e o respeito por todos que depositavam nele suas esperanças. Ele devotou a vida aos EUA e jamais deixaria de fazê-lo, mas o faria à sua maneira: inspirando as pessoas, e não governando-as, pois o verdadeiro patriotismo reside em lutar para melhorar sua nação, não em moldá-la à sua vontade. Ele deixa o palco enquanto os cartazes de campanha são abandonados no chão.

O quadrinho levanta dúvidas instigantes, explica a moral do Capitão América com maestria e é uma leitura indispensável para qualquer fã da Marvel.

O Garoto Que Colecionava Homem-Aranha (The Amazing Spider-Man #248, 1984)

Uma das histórias mais emocionantes da Marvel, escrita por Roger Stern e desenhada por Ron Frenz, mostra o que significa ser um verdadeiro herói de bairro.

O jovem Tim Harrison virou matéria de jornal por colecionar algo peculiar: o Homem-Aranha. Fotos, matérias da imprensa, retalhos de uniforme; o jovem Tim desejava ter tudo relacionado ao seu herói favorito e tinha como maior sonho conhecê-lo pessoalmente. Ao saber disso através do jornal, Peter sabe que precisa visitar seu fã número um.

O garoto vai ao delírio quando o herói o acorda no meio da noite e começa a lhe mostrar sua vasta coleção, além de enchê-lo de perguntas. O herói se abre com o menino, falando desde o início de carreira problemático até as dificuldades da vida dupla. Tim se diverte com as teias do Aranha até que o ídolo precisa ir embora. Antes de se despedir, Harrison faz um último pedido: descobrir seu maior segredo e ver seu rosto.

O Homem-Aranha reluta, mas tira a máscara e se revela como Peter Parker, confiando naquele menino seu segredo mais íntimo. A razão para tanta confiança mostra-se trágica nos quadros finais: Tim estava a poucos dias de sucumbir à leucemia, e ver o Homem-Aranha não era apenas seu maior desejo, era o último.

Nesse momento, a HQ demonstra que ser um herói vai muito além de ostentar superpoderes e enfrentar vilões; é acolher e inspirar pessoas. Quando seus poderes não podiam fazer nada para salvar a vida do menino, o afeto e a atenção bastaram para aliviar a dor de um inocente. A obra de Stern e Frenz traz uma nova profundidade para a missão de Peter Parker, escancarando que o heroísmo mais puro se faz presente nas coisas mais simples.

Cada uma dessas histórias, por simples que sejam, carregam consigo valores e dilemas centrais para cada um de seus heróis. Mesmo que não tragam consequências grandiosas, que afetem em larga escala seus respectivos seus universos, são essas narrativas que reforçam dia após dia, a paixão do fã por seus maiores heróis. 

E você, já leu alguma dessas histórias? Faltou alguma? Não deixe de comentar!

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