Super-Heróis: Quebrados ou Pura Bondade?
Todos vocês devem conhecer os famosos vídeos de vilões “quebrados” ou “pura maldade”, com vilões como Coringa e Darth Vader, representando aqueles antagonistas tomados por seus traumas, e outros, como Voldemort e Sauron, simbolizam a maldade absoluta. Mas será que essa mesma lógica não se aplica aos heróis? Não existe diferença entre as motivações de um herói assombrado por seu passado, como Batman, e outros que parecem ter nascido para o heroísmo, como Superman ou Capitão América? Hoje, iremos passar por alguns heróis icônicos de DC e Marvel, e descobrir quais deles são simplesmente bons, e quais deles são movidos pela dor. Sem mais delongas, vamos lá!
MARVEL E DC
Rafael Silva
6/24/202616 min read
Batman


Um herói tão insano quanto seus próprios inimigos! Desde que perdeu seus pais aos oito anos de idade no Beco do Crime, Bruce Wayne jamais superou aquela cena. Mesmo décadas depois, ele parecia a mesma criança assustada, e por isso, sua obsessão pela justiça é tão clara.
Ele transformou seu medo em arma, seu corpo em uma fortaleza e sua mente em uma máquina. Sua vida passou a ser condicionada pela necessidade de buscar vingança contra qualquer criminoso que cruzasse seu caminho, com um único objetivo: impedir que qualquer pessoa passasse pela mesma dor que ele viveu. Cada homem apontando uma arma a um inocente, era uma reencenação de Joe Chill naquela fatídica noite na mente do Maior Detetive do Mundo.
O Cavaleiro das Trevas é incapaz de construir relacionamentos, família e amizades (com raras exceções, já que na maioria dos casos, são “amizades” condicionais, como com Superman e Robin), pois a única coisa que o move é combater o mal que destruiu seu mundo. Inúmeros são os momentos em que Bruce é tentado a deixar sua cruzada para trás e viver sua própria vida, como em Batman e a Máscara do Fantasma (1993), onde sua paixão por Andrea Beaumont o leva a ajoelhar-se perante o túmulo de seus pais, incapaz de decidir entre cumprir seu juramento e ser feliz. Como todos sabem, e como sempre acontece, ele escolheu a primeira opção.
Em Asilo Arkham: Uma Séria Casa em um Sério Mundo, de Grant Morrison, o Homem-Morcego admite temer atravessar os portões da Casa da Loucura, pois sente a estranha sensação de estar voltando para casa. No fundo, ele sabe que compartilha da mesma instabilidade que vilões como Coringa, Charada, Espantalho e até mesmo o próprio Amadeus Arkham, que sonhava em salvar Gotham, motivado pela morte trágica de sua mãe, e que acabou preso ao lado daqueles que jurou curar, mas diferencia-se por usar sua dor como combustível para fazer o que é certo.
Quanto à índole do Cavaleiro das Trevas, não há discussão. Investiu bilhões de sua fortuna em Gotham City, esteve disposto mais de uma vez a entregar sua vida pela de outras pessoas, mesmo que essas fossem criminosos (como quando aceitou ser amarrado sob um tanque de tubarões, apenas para poupar um capanga do Coringa), e por mais que deseje acabar com a vida de certos malfeitores (como o Coringa), jamais o faz, não apenas por medo de se tornar o mesmo mal que matou seus pais, mas também por crer que qualquer um pode mudar, até mesmo as mentes mais insanas. Infelizmente, essa mesma fé não se aplica justamente a quem é mais necessária: ele mesmo.
Em O Cavaleiro das Trevas, de Frank Miller, e Batman do Futuro, temos um Bruce Wayne velho, mas ainda ativo, como se sua vida se resumisse totalmente a ser o Batman, reforçando a teoria de que o Homem-Morcego não é a máscara, e sim, a verdadeira identidade do ser, enquanto Bruce Wayne é uma fachada, usada para mantê-lo informado e com recursos. Na realidade, o que ainda existe de Bruce jamais se levantou do meio dos cadáveres de seus pais.
A motivação de Bruce não vem da esperança, vem da dor, que o condena todos os dias a uma vida de infelicidade e solidão, mas que ao mesmo tempo, foi responsável por salvar milhares de vidas em Gotham, e bilhões na Terra, em suas missões ao lado da Liga da Justiça. Todavia, é inegável que o Batman é um herói quebrado, que vê sua cruzada quase como uma compulsão, da qual nunca consegue escapar.
Veredito: Quebrado.
Homem-Aranha


Para muitos, o Amigão da Vizinhança nem tem discussão: é um dos maiores exemplos da pureza do heroísmo. Mas, se mergulharmos um pouco a fundo na lore do Cabeça de Teia, é possível notar que suas ações vão muito além da pura e simples bondade.
Logo em Amazing Fantasy #15 (1962), Peter Parker já demonstra o quão mesquinho poderia ter sido com seus poderes, caso um momento-chave não mudasse sua linha de pensamento. Após ser picado pela dita aranha radioativa, Peter não tardou em usar-se de seus novos dons para benefício próprio, participando de shows televisivos para enriquecer.
Inicialmente, seus poderes vieram sem responsabilidade, e na saída do programa que o levou ao estrelato, o recém nascido Homem-Aranha cruzou o caminho de um criminoso, e com a famosa frase: “isso não é problema meu”, permitiu que ele fugisse. O que o jovem herói não sabia, era que aquela decisão egoísta, custaria a vida de seu tio, Ben Parker, naquela mesma noite.
Ao ver o corpo de Ben ao voltar para casa, Parker se enfurece, e persegue o criminoso que o matou, capturando-o. Mesmo que desejasse matá-lo, manteve fiel à lei, permitindo que a justiça tomasse a decisão. Esse mesmo desenvolvimento, foi utilizado por Sam Raimi em Homem-Aranha (2002) estrelado por Tobey Maguire.
Será que depois disso, Peter definitivamente aprendeu o peso dos seus dons e passou a usá-los de maneira correta? Não exatamente… Logo em Spiderman #1 (1963), o aracnídeo vislumbra jogar seu traje fora e nunca mais agir como Homem-Aranha, não só pela dor que aquela identidade lhe causava, como também, pelos constantes ataques da mídia (como mídia, entenda Clarim Diário). Aparentemente, se não não tivesse seu ego inflado, não valeria a pena ser um herói.
Em edições seguintes, Parker chega a pensar em roubar um banco para conseguir resolver seus problemas, algo que seria muito simples com todos os poderes que ele agora possuía. Nem por um instante, ele pensou nas consequências morais disso, a única coisa que lhe fez parar, foi o medo de ser pego, e o que sua tia May pensaria dele caso isso acontecesse.
Em um paralelismo bíblico, podemos compreender como a mente de Peter se comportava naquele momento:
"Se vocês amam apenas aqueles que os amam, que mérito há nisso? Até os pecadores amam aqueles que os amam. Portanto, amem também aos seus inimigos”. (Lucas 6:32-35)
Parker amava seus tios, seu amigo Harry e sua amada Gwen, mas sua bondade demorou para se estender àqueles que o criticavam, e até mesmo àqueles que desejavam destruí-lo. O herói que fez de tudo para curar a transformação de Curtis Connor no Lagarto e recusou-se a matar o Duende Verde mesmo após ele ter assassinado Gwen, não surgiu de imediato, ele foi forjado.
Mesmo em conflito com sua própria moral, o herói segue agindo, pondo sua vida em risco para salvar pessoas que muitas vezes o temem, mesmo sem motivo. Isso nos leva ao epicentro da motivação do Homem-Aranha, demonstrando na HQ Homem-Aranha: Nunca Mais (1967), que inclusive, foi brilhantemente adaptada em Homem-Aranha 2 (2004).
Pressionado por complicações pessoais, desde pressão financeira até dificuldades em seu relacionamento com Gwen, Peter decide abrir mão de sua guerra ao crime, quebrando o juramento que fez a seu tio em seu leito de morte. No entanto, sua aposentadoria não durou nem sequer uma semana.
Assim que Parker viu alguém em perigo, retomou automaticamente seus antigos atos heroicos. Não importa o quanto ele sofra, o Cabeça de Teia é simplesmente incapaz de parar de ajudar as pessoas, nem mesmo a morte de Gwen Stacy pelas mãos do Duende Verde, foi capaz de fazê-lo desistir.
Porém, ele não nasceu assim, e sua armadura de virtude não surgiu no instante em que ele recebeu seus poderes. O remorso pela morte de seu tio, pela qual ele foi indiretamente culpado, lentamente moldou sua vontade, fazendo-o lutar dia após dia, para compensar seu erro.
É lógico que alguém que vai desde ajudar senhoras a atravessarem a rua e dar autógrafos para crianças, até suportar o peso de um prédio sob suas costas para proteger inocentes, é um homem bom, mas, sua bondade é condicional. Então, por incrível que pareça, o Amigão da Vizinhança é um herói quebrado!
Veredito: quebrado
Superman


A face da verdade, justiça e esperança, alguém que carrega no peito todos os melhores valores que regem a humanidade. Kal-El não foi enviado à Terra apenas pelo desejo de seus pais em salvá-lo do cataclisma iminente de Krypton, mas também por acreditar que os conhecimentos kryptonianos e dons que seu filho traria à humanidade poderiam levá-la a um novo amanhã. O Homem de Aço era o guardião da Terra, mesmo antes de pisar nela.
Por melhores que fossem as intenções de Jor-El e Lara ao enviar seu filho à Terra, de nada adiantaria se ele fosse criado por pessoas que não lhe introduzissem os mesmos valores que eles defendiam. Por sorte, foi exatamente isso que aconteceu.
Mesmo em sua simplicidade, o jovem casal do Kansas, Jonathan e Martha Kent, criou o maior herói de todos os tempos com todo o amor e carinho, ensinando-lhe o valor da vida e a usar seus dons em favor do mundo que o acolheu, algo que ele fez durante toda a sua jornada.
Diferente de Batman, Superman talvez não seja a única verdade na vida de Kal-El. O tímido e atrapalhado Clark Kent nunca deixou de ser real. O homem simples e que deseja, mais do que tudo, ser visto como apenas mais um dos homens e mulheres por quem luta todos os dias, e que na grandeza de ser humano, encontra sua maior força. No fundo, o Homem do Amanhã é apenas um bom homem, que, agraciado com poderes messiânicos, torna-se capaz de fazer o bem em proporções inimagináveis.
Como obras focadas no passado do herói nos contam, a exemplo de Superman: Quatro Estações, Superman é a ponte entre a pequenez da humanidade e as glórias que suas boas ações são capazes de alcançar. Ele não é um herói por seus poderes, e sim pelo que escolheu fazer com eles.
Kal-El não é movido por nenhum grande trauma que o motive a fazer o bem. Desde cedo, a bondade o acompanhou em cada uma de suas ações. Para ele, doar-se pelo próximo sempre foi a única opção. Mesmo com poder para impor sua vontade, Superman deixa-se levar pela vontade daqueles que jurou proteger, como HQs ao estilo Superman Contra a Elite nos mostram com clareza.
Certamente, ele honrou o amor de seus pais terráqueos e também kryptonianos, cumprindo o destino que lhe traçaram e fazendo jus aos ensinamentos que lhe transmitiram.
É óbvio que, em certos momentos, até o melhor de nós pode falhar, mas, novamente, sua grandeza reside na capacidade de superar as adversidades, sem desviar-se definitivamente do caminho.
Quando o assunto é Superman, não restam dúvidas de qual categoria ele pertence:
Veredito: pura bondade
Capitão América


O Sentinela da Liberdade: um homem sem mácula e sem medo. Mesmo sendo concebido como um mero símbolo patriótico em tempos de guerra, Steve Rogers passou a representar algo maior que uma bandeira, e até mesmo que um povo, sendo o patrono da liberdade para todos os justos, independentemente de sua pátria. Contradizendo Tony Stark em Vingadores (2012), o que Rogers tem de especial definitivamente não veio de um mero frasco.
Na HQ Devastação (Capitão América 225#, 1978), conhecemos um pouco mais sobre o passado do Super Soldado antes de transformar-se na personificação do Jeito Americano. Filho de Walter e Elizabeth Rogers, Steve era um garoto franzino e apaixonado pelas artes, sonhando em tornar-se pintor no futuro, a contragosto de seu pai, que admirava seu irmão mais velho, Mike Rogers, por sua força física e aptidão nos esportes. O caçula era um pária na própria casa.
Steve queria orgulhar seu pai, seu país, mas não era capaz de abrir mão do carinho pelos detalhes que ele inerentemente possuía. Mesmo na infância, ele já entendia que amar sua pátria era amar tudo e todos que viviam nela, nos mínimos detalhes.
Ao mudar-se para Nova York, Steve sobreviveu nos anos da Grande Depressão, aprendendo a suportar a dor em todas as suas formas. A saudosa frase “eu posso fazer isso o dia todo” não surgiu do nada, tal resiliência foi forjada não apenas ao se levantar após cada soco que recebia nos becos sujos do Brooklyn, mas em suportar o desprezo que pessoas como seu pai tinham para com ele.
Esses valores o fizeram diferente de todos os outros recrutas cotados para o Projeto do Super Soldado. Não era sobre força, era sobre ser digno de possuí-la (não é à toa que o herói seja capaz de erguer o Mjolnir).
Rogers era alguém que deitava-se no arame para o outro passar, e era justamente isso que o exército buscava. Quando o Sentinela da Liberdade foi munido com seus poderes, foi apenas uma coroação para um homem de coração puro, que agora teria poder para fazer ainda mais a diferença. Era a união da força e coragem de um soldado, com a sensibilidade de um artista.
No campo de batalha, o Capitão América sempre foi sublime, destacando-se em especial pela capacidade de despertar o melhor em cada um daqueles que lutavam ao seu lado. Não era motivação barata, era o propósito que o guiava, e que naqueles momentos, tornava-se a verdade defendida por todos à sua volta.
Não por menos, Rogers se tornou líder dos Vingadores, mesmo com deuses como Thor entre suas linhas. Isso prova o quanto sua moral é contagiosa, e aplica-se para qualquer pessoa ou bandeira. E ainda assim, ele jamais fez questão de ter o poder para si, como histórias como Capitão Para Presidente (1980) demonstram com clareza. Mesmo que o povo o aclamasse, e que no fundo, o Super Soldado tivesse boas intenções, ele sabia não ser capacitado para o cargo, e abriu mão dele. Ele não deseja o poder, mas aceita-o quando sabe que apenas ele pode carregar seu fardo.
Em O Homem Sem Pátria, Steve Rogers é expulso dos EUA, país que defendeu durante toda sua vida. Ao invés de parar, ele assumiu a alcunha de Nômade e passou a agir ao redor do mundo, fazendo o que sempre fez em seu país: proteger os inocentes. Isso demonstra que ele não era apenas uma representação cega do povo americano, mas sim do que ele tem de melhor.
Mesmo quando o ódio tomou conta do país por conta do fatídico 11 de setembro, as HQs do Capitão América estendiam a mão para todos por meio de seu herói. Em Inimigo (2002), Rogers não só recusa-se inicialmente a ir para o campo de batalha, preferindo ficar em Nova York auxiliando os feridos, como também impede que a dor da perda faça com que bons homens tornem-se monstros, ao descontar sua fúria contra pessoas inocentes, as quais eles relacionavam aos atentados. Ele buscava a justiça, não o revanchismo cego.
Em momentos de crise, seu escudo estrelado não era apenas uma arma, e sim, uma barreira entre as pessoas e qualquer ameaça que pairasse sob elas. Com tudo isso, é impossível chegar a uma conclusão que não seja: pura bondade.
Veredito: pura bondade
Mulher-Maravilha


Uma heroína criada do barro, destinada à perfeição absoluta. Filha da Rainha Hipólita, Diana foi treinada como nenhuma outra amazona jamais fora, tanto em combate quanto intelectualmente. Como é comum na cultura de suas irmãs, foi instruída desde cedo a respeitar todas as formas de vida e a jamais desejar a guerra.
Por mais que fosse uma guerreira feroz, nunca permitiu que seu coração endurecesse. Sua mão é capaz de erguer a espada perante a injustiça, mas também de afagar o ódio e proteger os inocentes.
Desde sua concepção em Mulher-Maravilha #1 (1942), a heroína foi concebida como uma guerreira relutante. Embora tenha moldado a filha para a luta, Hipólita jamais desejou que ela fosse para o campo de batalha. Ela havia lutado por séculos pela liberdade de suas irmãs e julgava que o mundo dos homens era indigno de sua filha.
Todavia, a princesa não pestanejou em seguir Steve Trevor quando a missão chegou até ela, contrariando inclusive a vontade de sua mãe. Fora treinada para o conflito, mesmo tendo vivido todo aquele tempo em paz, e agora chegava o momento de pôr em prática tudo o que aprendera, em prol dos mais fracos, fazendo jus aos valores que sua mãe lhe ensinara, ainda que jamais desejasse vê-la tornar-se seu bastião.
Hipólita queria proteger a filha do mundo; Diana queria proteger o mundo de si mesmo.
Criada como propaganda militar durante a Segunda Guerra Mundial, a Mulher-Maravilha representava a leveza feminina em meio ao front. Seu objetivo não era matar o inimigo, mas proteger os feridos sob fogo cruzado. Não é segredo o motivo de seu alter ego ser justamente o de uma enfermeira militar.
Nas décadas seguintes, a Filha de Hipólita tornou-se cada vez mais ativista, chegando a assumir o posto de embaixadora de Themyscira na ONU, compartilhando os conhecimentos milenares de seu povo com a humanidade, como visto em Mulher-Maravilha: Paraíso Encontrado (1987). Não se tratava apenas de libertar pela força, mas também pelo conhecimento.
Assim como Superman e Capitão América, Diana parece ter sido destinada ao bem desde o nascimento. Seus valores são indissociáveis, pois foram esculpidos em seu ser ao longo de milênios e, com humildade, ela se dispõe a compartilhá-los com todo aquele que deseje aprendê-los.
Talvez este caso seja tão simples quanto os dois anteriores.
Veredito: pura bondade
Demolidor


O Homem Sem Medo, mas que na verdade, teme a si mesmo. Matt Murdock foi criado por seu pai, o boxeador Jack “Batalhador” Murdock, que desde cedo lhe ensinou a persistir, mesmo quando sua visão lhe foi tirada no fatídico acidente com produtos químicos.
A exemplo de seu pai, que por mais que apanhasse, permanecia de pé, Matt ressignificou sua deficiência e usou-se de seus novos sentidos aprimorados para tornar-se tão consciente do mundo à sua volta quanto qualquer pessoa com visão intacta.
Porém, quando seu pai se recusou a vender uma luta ao mafioso conhecido como “O Consertador”, e foi morto por desafiá-lo, Matt foi tomado por uma raiva que jamais iria deixá-lo, não importasse o quanto ele lutasse contra ela.
Dali em diante, sua moral foi dividida entre duas visões: a fé católica, que o levava ao caminho do perdão, misericórdia e servidão, ou o caminho de Stick, mestre do Tentáculo, que buscava forjá-lo por meio de seu ódio e dons, para transformá-lo em uma arma perfeita.
Por mais devoto a Deus que Matt Murdock fosse, o demônio que habitava seu interior parecia nunca ir embora, com sua presença odiosa se dissipando apenas quando ele lhe dava o que tanto queria: violência.
Após formar-se advogado e completar seu treinamento, Matt voltou a Nova York, a cidade que sempre amou, por mais que tenha lhe tirado tudo, e ao lado de seu fiel amigo, Foggy Nelson, abriu sua firma de advocacia, focada exclusivamente em defender aqueles que tinham menos. Nesse momento, Murdock demonstra a humildade ensinada a ele pelas freiras e padres que o criaram no Orfanato St. Agnes.
Todavia, seu lado sombrio ainda persistia e precisava ser liberto. Para isso, Matt criou uma alcunha, alguém que iria captar todos os sentimentos ruins que ele guardava dentro de si, e os usaria como combustível contra aqueles que destruíram sua cidade. Assim, nasceu o Demolidor.
Porém, se você acha que combater criminosos como os que mataram seu pai faria-o superar o rancor que guardava, você vai se surpreender… pois o efeito foi totalmente inverso!
As vestes vermelhas e os chifres não são coincidência. A figura demoníaca que Murdock assumia todas as noites não servia apenas para pôr medo nos criminosos, mas também como reflexo daquilo que ele sempre foi desde a infância: um homem conflitante, sempre à beira do abismo. O Demolidor sente prazer em espancar criminosos, sentir o cheiro de seu sangue entrar por suas narinas e o som de seus gritos ecoarem por seus ouvidos (algo que ele admite em Demolidor: Episódio 3, Temporada 2 de 2016). O herói ansiava pela violência, assim como um bêbado anseia por mais um gole.
Vestir-se como a encarnação do mal era a forma do Demolidor expurgar a raiva que sentia todos os dias, de confessar sua própria fraqueza. Ainda assim, ele permaneceu fiel ao mandamento de não matar, mostrando que mesmo tomado pelas trevas, ele não se deixa desviar totalmente do caminho de Cristo. Em Demolidor: Rei da Cozinha do Inferno, Matt chega ao limite com Wilson Fisk, o notório Rei do Crime, desejando matá-lo por tudo que fez contra ele e sua cidade, mas nega-se a trair sua fé.
Sem a Cruz para guiá-lo, Matt seria tão perigoso quanto o Mercenário ou o próprio Fisk. No fundo, a crença é a única coisa que o distancia de vigilantes sanguinários como o Justiceiro, com o qual ele possui uma intensa rixa ideológica.
Por mais que saiba ser pecador, ele julga que ambos os lados de sua luta são sua missão de vida para com o Criador.
O advogado cego de Hell’s Kitchen é um homem bom, pacato e curiosamente cercado de belas mulheres, já o Demolidor era uma fera que aterrorizava tanto civis quanto criminosos. Duas faces de um mesmo homem, que faz a justiça como quer, mas também, como seus instintos lhe obrigam.
Essa sede de sangue costuma ampliar-se cada vez mais, uma vez que a carreira do Demolidor é repleta de crises, que deixam seu psicológico cada vez mais abalado. No arco A Queda de Murdock (considerada a melhor fase do herói, nas mãos de Frank Miller), onde Matt tem sua identidade dupla revelada pelo Rei do Crime, o herói beira um surto psicótico, atacando civis e passando a crer que amigos como Foggy Nelson estariam de alguma forma conspirando contra ele.
A obra ainda faz questão de enfatizar a forma como o Demolidor sente tudo à sua volta, dos sons mais baixos aos aromas mais sutis, mas ainda assim, é incapaz de entender o que se passa dentro de sua própria mente.
As idas e vindas da carreira do Demônio de Hell's Kitchen foram brilhantemente adaptadas na série da Netflix/Disney, estrelada por Charlie Cox, mostrando um herói ansioso, dividido e que, por mais de uma vez, abandonou sua vida dupla pela incapacidade de equilibrar suas duas faces.
Toda essa instabilidade, somada à sua inclinação para a violência, cuja fé é a única capaz de frear, não restam dúvidas de que tipo de herói o Homem Sem Medo representa.
Veredito: quebrado
Bom, e esses foram os seis heróis puros e quebrados de hoje. Concorda com os resultados? Fique atento, pois logo podemos estar lançando uma segunda parte!
