Relíquias da Nostalgia: A Verdade por Trás do Colecionismo

Quem na infância nunca colecionou quadrinhos da DC ou da Marvel, bonecos do Rambo ou da Barbie, cards e figurinhas de Pokémon, ou qualquer coisa que remetesse a um filme, série ou gibi que gostasse? Essa é uma experiência que praticamente todo mundo já vivenciou, mas que muitas vezes encontra seu fim ainda na infância. Mas, será que precisa ser sempre assim? Será que, quando crescemos, a paixão pelos universos e personagens que moldaram nossa personalidade precisa realmente acabar? Alguns números recentes contradizem esse senso comum. Impulsionado principalmente pelo público adulto, o mercado mundial de Action Figures (figuras de ação ou brinquedos) projeta movimentar mais de US$ 20 bilhões em 2026. A pesquisa, proposta pela Business Research Insights, mostra que 40% a 45% desse público é composto por maiores de 15 anos, o que demonstra a força da cultura pop e seus produtos nas mais diversas faixas etárias. Hoje, vamos desmistificar os mitos que rondam o colecionismo, mostrando que esse hobby é muito mais complexo do que parece ser, com facetas na psicologia humana, convergência midiática e mercadológica e conexão entre realidade e ficção. Então, sem mais delongas, vamos aprender um pouco mais sobre esse assunto!

HISTÓRIA DA CULTURA POP

Rafael Silva

5/22/20266 min read

A explicação mais comum para se iniciar uma coleção sobre um tema específico de cultura pop é o puro e simples desejo de fazer parte daquele mundo.

Alguém que viu todos os filmes de Harry Potter, naturalmente, vai querer em algum momento ter uma varinha, chaveiro, chapéu ou qualquer outra coisa que a faça sentir que aquele universo ficcional pode alcançar também a sua realidade. O mesmo se aplica para praticamente qualquer saga.

Fã ou Colecionador? 

Porém, isso não necessariamente define um colecionador. Nós, como consumidores de entretenimento, somos constantemente irradiados com todo tipo de conteúdo. Naturalmente, alguma coisa irá nos encantar a tal ponto que nos fará comprar algo a mais daquela marca, mas esse sentimento não se torna algo permanente. O colecionismo como hobby é algo ainda mais profundo, como um dos entrevistados desse post, o professor Helder Haddad, autor do livro “Eu Colecionador”, nos explica:

Você pode ser fã de uma determinada marca, mas não necessariamente ser um colecionador. Por exemplo, você pode ser fã dos personagens da Marvel, como os Vingadores ou os X-Men, única e exclusivamente pelo que viu no cinema, sem nunca nem sequer ter lido um quadrinho ou comprado qualquer action figure.

O cara é fã de cultura pop, consome esse tipo de conteúdo, mas pode nunca se interessar em comprar mais nada relacionado a isso.

Já o colecionador, que também é um fã, diferente do fã casual, adota um processo sistemático de busca de itens que giram em torno de um determinado interesse.

É muito comum que, no início, a pessoa tenha múltiplos focos de coleção, pois também tem variados interesses, que, com o tempo, vão se afunilando em algo mais específico.

A ideia de que o colecionismo é um hobby sem profundidade acadêmica é uma falácia. Eu mesmo fiz minha tese de doutorado sobre colecionismo, e nesse período tive acesso a inúmeras pesquisas ao longo de décadas que comprovam esse fenômeno como um fenômeno humano, que, nesse caso em específico, se volta para o colecionismo de cultura pop.

Existem vários fatores que explicam o colecionismo: nostalgia, supressão de traumas pessoais e até outros termos mais complexos, como o que chamamos de Si-Arquetípico, em que você projeta aqueles objetos colecionáveis e o que eles representam como parte da sua própria personalidade. Aqueles objetos passam a carregar uma parte da sua persona, da sua experiência de vida e da sua forma de pensar.

Pelo visto, os memes do “literalmente eu” com Batman, Darth Vader, Superman e tantos outros podem ir muito além do humor… O colecionismo reflete a admiração que possuímos por uma determinada história, e os valores morais que nos ensina.

Dentro do Universo

Todavia, para além da identificação emocional e do instinto humano, existem outros fatores que definem um colecionador, sendo um dos mais comuns e mais óbvios o desejo de saber mais sobre determinada lore.

Por exemplo, ao assistir a um filme do Batman, você se interessa por aquele universo e rapidamente descobre que os filmes e séries são apenas uma fração de algo muito mais amplo. Assim, você recorre aos jogos, depois aos quadrinhos, e seu apetite por aquele universo apenas aumenta.

Com o tempo, você descobre os principais clássicos e passa a desejá-los não apenas para se entreter, mas para ter a certeza de que realmente compreende o Cavaleiro das Trevas.

Assim como no exemplo de Harry Potter, isso também pode se aplicar a qualquer outra história.

Com o tempo, é possível até mesmo se comparar com outros fãs, vendo quais histórias um leu ou deixou de ler, e aquilo deixa de ser uma experiência privada e se torna palco de um compartilhamento de visões e experiências, peça-chave para os milhares de canais e fandoms de cultura pop que circulam na internet, como esse mesmo que vos fala.

Porém, quem nos explica mais sobre esse aspecto da análise é Bruno Navarro, redator do blog Taverna GM e administrador da página Taverna Marvel no Instagram.


Nos últimos tempos, dá para perceber que o medo que os “nerds” tinham de expor seus gostos tem diminuído. Antes as pessoas tinham uma grande chance de serem ridicularizadas por esses gostos, algo que hoje, muito pelo contrário, é admirado.

Hoje, um pôster, action figure ou HQ é um gancho interminável para conversas. Já perdi a conta de quantas vezes passei horas conversando com pessoas que passaram pela minha casa e se interessam por determinado item da minha coleção, e batemos um papo sobre ele.

Pode-se dizer que o colecionismo é ótimo para a socialização, pois conecta pessoas pelos seus gostos e interesses, além de, pessoalmente, ajudar cada um a se sentir mais confortável consigo mesmo.

Além do sentimento de entendimento da obra e da possibilidade de socialização que ela oferece, é inegável que possuir muitos itens de um determinado assunto é muitíssimo importante quando se tenta falar com autoridade sobre ele, e a internet tem se tornado uma grande prova disso.

Em canais como o EI Nerd, por exemplo, que é o maior expoente do nicho de cultura pop no Brasil, é impossível não notar a riqueza de elementos em cada cenário: camisetas, HQs, bonecos, tudo para reforçar que aquele que está falando não é simplesmente alguém lendo um roteiro, é alguém que está realmente imerso naquele universo, e que não apenas entende, mas gosta daquilo que está falando.

Como posso falar de Harry Potter se não li todos os livros? Como posso falar do Superman se não li Reino do Amanhã ou Grandes Astros? Como posso falar de Star Wars se não vi aquele especial de Natal horrível de 1978? (Ok, esse não tão necessário…), essas perguntas volta e meia podem surgir na cabeça de qualquer fã de cultura pop: a ilegitimidade do seu argumento diante de pessoas que “entendem mais”.

Essa necessidade de mostrar-se entendido sobre determinado assunto faz com que possuir uma coleção não seja apenas algo atrelado à estética ou ao emocional, mas principalmente a uma legitimidade intelectual, em receber o status de digno de sentar-se à mesa e falar sobre determinada coisa.

Obviamente, cada um tem a sua interpretação sobre qualquer obra que assista, e toda opinião é válida, mas é comum que aqueles que consomem mais tenham mais capacidade de argumentação, e o desejo de chegar nesse nível faz com que muitos mergulhem de cabeça nesse mar quase sem fim de conteúdo.

O Império do Entretenimento 

Já falamos da psicologia e da paixão desencadeada por ela, mas não podemos falar de uma indústria multibilionária do entretenimento sem falar da mídia, do mercado e da indústria.

Para além de qualquer outra pretensão, DC, Marvel, Lucasfilm, Disney e todos os outros gigantes do entretenimento têm como objetivo central uma única coisa: ganhar o máximo de dinheiro possível.

Assim, é primordial que quaisquer produtos que desenvolvam rendam o máximo possível, de todas as formas disponíveis. A cada novo filme de Star Wars, por exemplo, surgem milhares de outros produtos, desde brinquedos e gibis até copos, travesseiros e até rolos de papel higiênico com a cara do Darth Vader (sim, isso já foi vendido). E, por trás de tudo isso, existe um enorme aparato midiático, que lhe condiciona de inúmeras formas a acreditar que precisa daquilo para ser um verdadeiro fã. O cinema te leva para a TV, depois para as bancas, depois para as lojas, e assim por diante, para consumir cada novo produto lançado.

Esse conceito encaixa-se perfeitamente com a ideia da convergência midiática, desenvolvida por Henry Jenkins para seu livro “A Cultura da Convergência” de 2009. Quem nos explica um pouco mais sobre esse conceito é André Roberto, mestre em comunicação e administrador da página Garimpá no Instagram.

Se a convergência midiática é uma extensão, ela acaba no final convergindo nosso gosto pela cultura pop em algo que é tanto tecnológico quanto consumista. E, no consumo, o colecionismo ganha destaque com personagens dos quais amamos e que, por fazer a cabeça de muitas pessoas, acabam criando "tribos" entre os fãs e criamos nosso nicho — ou, no plural, porque são vários universos melodramáticos na cultura pop e o fã quer ter um pedaço de tudo.

A cultura da convergência acaba transformando o fã-consumidor em um agente passivo/ativo desse processo. Ele não sabe que está participando do processo, mas ainda assim é peça-chave dele.

Como podemos ver, essas megaempresas utilizam-se das obras, dos produtos e da mídia para condicionar legiões de fãs, tanto casuais quanto colecionadores, a consumir cada vez mais, atrelando isso ao sentimento de fazer parte daquele universo das “tribos” que ele constrói em nossa realidade tangível.

Como podemos ver, sua coleção de cartinhas de Magic, gibis do Homem-Aranha ou até mesmo daqueles discos antiquíssimos dos Beatles pode ter um significado pessoal para cada um, mas são parte de uma engrenagem extremamente complexa, que vai da frieza da lógica de mercado até o fascínio do fã com determinado universo. No fim, toda a coleção tem a sua história, o seu valor e, acima de tudo, o seu significado para quem a possui, e não deve de forma alguma ser tratada com desdém, como algo “infantil”, e sim, como a extensão de uma personalidade e o fruto de uma enorme rede de trabalho, tanto para tê-la quanto para produzi-la.

Aquela figurinha, aquele boneco ou aquele gibi nunca foram apenas objetos. Talvez fossem nossa primeira tentativa de guardar partes de quem éramos.

E você, já colecionou alguma coisa? Conhecia algum desses conceitos? Não deixe de comentar!