Reino do Amanhã: como os super-heróis se tornaram uma doença?
Na maioria das vezes, os super-heróis são vistos como a solução para os problemas da sociedade. Uma cura para as piores doenças dela: o crime, a corrupção, a mentira, e tantas outras que seus poderes, e acima de tudo, seu exemplo, podiam superar. Superman, Batman e Mulher-Maravilha nasceram destinados a se tornarem os símbolos mais brilhantes da sua classe, e com eles, nascia também a esperança de um mundo melhor, conduzido por aqueles com poder para reinar, mas que escolheram ensinar. Sob esses três pilares, moldou-se a Liga da Justiça, guerreiros reunidos para lutar pelos valores mais importantes da humanidade: verdade, paz e justiça. Os efeitos foram imediatos, o mundo se curvou a essas mudanças, mas rapidamente compreendeu que até mesmo o extraordinário é temporário. Esse remédio rapidamente se tornou viciante, e seus efeitos já não eram mais os mesmos. Assim como os humanos, os heróis também eram falhos, incapazes de compreender plenamente o mundo à sua volta, e quanto mais responsabilidade, quanto mais esperança era depositada sobre seus ombros, mais impossível a sua missão se tornava. Logo, as doenças que afligiam a humanidade passaram a sofrer mutações cada vez mais violentas, imprevisíveis e incontroláveis: super-vilões matando milhares em cada aparição, invasões alienígenas tornando o futuro cada vez mais obscuro, a incerteza se os heróis mais poderosos do universo bastavam para garantir que houvesse um amanhã. Pouco a pouco, a Liga da Justiça deixava de ser a solução para tornar-se parte do problema. Seus valores pareciam ultrapassados, sua moral, antiquada demais para os novos tempos. Se o mal se modificou para sobreviver, o bem precisava fazer o mesmo para enfrentá-lo, porém, o preço do futuro era abrir mão do que os fazia diferentes dos vilões. Liderados por Magog, um poderoso e violentíssimo meta-humano, uma nova legião de “heróis” nasceu, sem amarras morais, sem limites para fazer “justiça”, acreditando que o extremo era a única coisa que poderia salvar o mundo. Era como se, ao perceber que um vírus se espalhava pelo corpo (no caso, da humanidade), o organismo (os heróis) reagisse, modificando-se de forma a levar sua resistência ao limite, sem levar em consideração que o corpo seria incapaz de suportar tamanha pressão. Esses novos justiceiros não lutavam pelas pessoas, lutavam por si mesmos e fizeram do mundo seu campo de batalha. Os super-heróis infectavam todo o planeta, como uma praga incurável, pois estavam irremediavelmente conectados à humanidade. Destruí-los seria pôr fim à sua própria existência. No entanto, Superman, Mulher-Maravilha e Batman, cada um ao seu modo, como precursores dessa pandemia, fizeram o possível para contê-la, para tentar construir um mundo melhor para as pessoas, para fazer o que sempre fizeram. Esse é o pano de fundo de Reino do Amanhã (1996), de Alex Ross e Mark Waid, considerada uma das obras mais geniais não apenas da DC, mas de toda a indústria dos quadrinhos, reunindo uma narrativa épica e reflexiva, como uma arte que impressiona até os dias de hoje. Reino do Amanhã ganhou quatro categorias no Harvey Awards de 1997: Melhor Artista, para Alex Ross; Melhor Letterer, para Todd Klein; Melhor Série Contínua ou Limitada, para Mark Waid e Alex Ross; e ainda Prêmio Especial de Excelência em Apresentação, para Mark Waid e Alex Ross, com edição de Mike Carlin e direção de arte de Robbin Brosterman. Portanto, foram quatro prêmios, contando o especial. Só com isso, já se imagina o tamanho da obra! Hoje, vamos analisar a “doença dos supers” pela óptica da Trindade e compreender como todos os caminhos pelos quais guiaram a humanidade levavam a um mesmo destino: o fim.
MARVEL E DC
Rafael Silva
8/27/20268 min read


(Créditos: DC Comics/Alex Ross)
Superman: O Autocrata Indeciso
O Homem de Aço é peça central da narrativa, pois é a partir dele que os heróis caem, renascem e deixam de existir.
Dez anos antes da trama que acompanhamos pelos olhos de Norman McCay e Spectre, o Escoteiro Azul perdeu simplesmente tudo. O Coringa invadiu o Planeta Diário e, com seu gás do riso, matou todos na redação, incluindo Jimmy Olsen, melhor amigo de Clark, Perry White, seu chefe e mentor, e Lois Lane, a pessoa que mais amou na vida.
Seus pais estavam mortos, seus amigos e sua amada haviam sido assassinados. A âncora que lhe mantinha ligado à humanidade simplesmente desapareceu. Desde então, ele abandonou sua identidade como Clark Kent e abraçou Kal-El. O S em seu peito tornou-se pesado demais para carregar, até mesmo para ele.
Quando Magog tomou a frente e matou o Coringa, Superman nada fez. Ele havia falhado em todos os sentidos e não era mais digno da confiança das pessoas, que agora clamavam pelo novo, pela violência que julgavam ser a única saída para a crise que o Homem do Amanhã foi incapaz de impedir.
Sem seu rei, o xadrez dos heróis sofreu um xeque-mate. Mulher-Maravilha, Aquaman, Lanterna Verde, Batman, praticamente abandonaram seus mantos. Superman era o farol deles; quando sua luz se apagou, a esperança se foi com ela.
Por anos, ele permaneceu exilado, distante de tudo e todos, permitindo que seu fracasso fizesse do mundo uma distopia. Porém, quando Diana lhe mostrou a magnitude da irresponsabilidade de Magog e seus super-terroristas, ele não pôde mais cruzar os braços. A culpa não poderia ser maior que sua vontade de agir.
Magog havia matado mais de 1 milhão de pessoas durante um duelo contra o Parasita no Kansas, mostrando o auge da irresponsabilidade desses vigilantes. Não era somente a vida dos vilões que não tinha valor, era a de qualquer um.
Seus métodos não poderiam ser mais os mesmos. As lideranças mundiais estavam em descrédito, a economia em frangalhos, as pessoas, sem esperança. Ele não deveria apenas inspirá-las, mas também liderá-las, especialmente os meta-humanos, estabelecendo limites e ensinando-os a agir. Ele seria o padrão a se seguir, querendo ou não.
Quando Superman surgiu nos céus de Metrópolis mais uma vez, os olhos dos cidadãos encheram-se de esperança: ele não os havia abandonado. Eles tinham certeza de que, com ele ao seu lado, o mal jamais triunfaria. Porém não podiam mensurar o custo disso.
Assim, aliado a antigos heróis como Mulher-Maravilha, Lanterna Verde, Flash, Robin e os antigos Titãs, Kal-El iniciou uma cruzada mundial contra os meta-humanos: ou eles lhe respeitavam, ou seriam presos. Sem qualquer aval da ONU, o Homem de Aço construiu um imenso Gulag, onde criou um sistema de reeducação baseado nos moldes de Apokolips. Ele se tornava cada vez mais super e menos homem.
Sua fala na ONU deixou sua nova missão muito clara: “Vamos ensinar essa nova estirpe quanto à verdade e à justiça. Guiar-nos-emos com sabedoria, mas, se necessário, com a força. Vamos restaurar a ordem.” A princípio, nada demais, afinal: quem não iria obedecer ao Superman? No passado, não muitos, mas naquele momento…
No entanto, seu autoritarismo despertou ainda mais ódio por parte dos meta-humanos. Mais conflitos, menos acordos. A fagulha de esperança que reacendeu ao retornar rapidamente se apagou, e um mundo que já não compreendia queimava pela sua confusão.
As pessoas viam o poder de decisão deixar suas mãos enquanto seu maior herói concentrava os seres mais poderosos e instáveis do mundo em um único lugar. Era uma bomba-relógio prestes a explodir, mas seu desespero para salvar as pessoas, para provar que jamais viraria as costas para o mundo de novo, turvou seu julgamento. A cura que ele oferecia trazia efeitos colaterais tão devastadores quanto a doença em si.
No entanto, a indecisão ainda pairava em sua mente na forma de seus dois melhores amigos: Bruce, acreditando que nenhum deles era digno de ditar a vida dos meta-humanos ou das pessoas comuns, e Diana, acreditando que a lei deveria ser imposta não somente com autoritarismo, mas com derramamento de sangue, sem compaixão, sem questionar-se.
Em um momento, ele sente que está indo longe demais, que as pessoas deviam decidir seu futuro. Em outro, o arrependimento por ter deixado a situação sair de controle fala mais alto, e ele se dispõe a corrigir o mundo.
Batman: O libertador da humanidade?
O homem que aceitou que a doença era parte do mundo. Após ter sua identidade exposta ao público, Bruce Wayne foi surpreendido por Bane e Duas-Caras, teve seu corpo gravemente ferido, sua mansão destruída e sua cruzada arruinada.
Pouco depois, o vilão Genosyde simplesmente explodiu o Asilo Arkham, obliterando quase todos lá dentro. Lá se foi o emprego do Morcegão.
Sem a máscara, as fragilidades do homem finalmente foram expostas, e isso abriu seus olhos.
Diferente de quase todos seus antigos aliados, ele recusa o chamado de Superman, negando-se a tornar-se árbitro do mundo ao seu lado. Outros heróis humanos e sem poderes estão com ele, como Arqueiro Verde, Canário Negro e Besouro Azul.
Todavia, isso não fez dele um liberal por inteiro. Bruce criou simplesmente um exército de robôs que patrulhavam cada rua da cidade, conectava-se a cada câmera e alarme. A vida de uma cidade inteira, passando na tela de seu computador.
Seus servos mecânicos poderiam proteger Gotham dos meta-humanos e dos criminosos tradicionais, mas esse medo também era compartilhado pelos civis. Culpados ou inocentes, todos estavam sob seu controle.
“Tenho aliados humanos e entendo um pouco melhor as nossas necessidades do que os seus aliados”.
Essa fala de Batman para Superman contextualiza tudo isso: para fugir do autoritarismo dos super, ele criou o seu próprio, que, por ser humano, achou ser legítimo.
Wayne também acreditava que a Liga deveria ser aposentada definitivamente, chegando a aliar-se temporariamente com Lex Luthor na Liga para Libertação da Humanidade, a fim de consumar esse plano. A parceria dura pouco e termina com Wayne esmurrando o magnata, mas fato é fato.
As rédeas do mundo deveriam voltar às mãos dos homens, não importava o custo.
Sua descrença nos heróis chega a tal ponto que, durante o embate final no gulag, ele diz a Superman:
“Você já pensou que a guerra talvez seja a melhor opção? Que a única chance da humanidade seja os super-heróis se destruírem?”.
Por um instante, seu código, sua moral, foram deixados de lado. Aquele problema era grande demais até mesmo para ele, e talvez decepar essa parte deformada fosse a única forma de manter a unidade. Superman conseguiu fazê-lo enxergar o quão longe havia ido, mas, talvez, já fosse tarde demais.
Mulher-Maravilha: A ordem pelo sangue
A guerreira que trocou o amor pela espada. Diana foi enviada à Terra pelas Amazonas com um objetivo: fazer do mundo um lugar melhor. Mesmo sendo treinada por séculos para a guerra, ela sempre acreditou que a compaixão seria o único caminho para uma paz duradoura.
Durante décadas, ela lutou por esse ideal, mas falhou, assim como todos ao seu lado. Sua realeza foi revogada, sua missão fracassada. O motivo de seu nascimento havia se perdido.
Desde então, ela lutou para tornar-se digna mais uma vez, para cumprir seu destino. As pessoas não precisavam de alguém que as ensinasse, precisavam de alguém que as livrasse do mal, a qualquer custo.
“Nós somos guerreiros, temos a obrigação de combater.”
Diferente de Superman, ela resolve a dúvida eliminando a própria dúvida.
Perdida na própria frustração e fúria, Diana fez de Superman um instrumento para propor uma nova e mais brutal forma de justiça. Usando-o como seu porta-voz, a Amazona cruzou o mundo combatendo os meta-humanos com uma violência descomunal, prendendo-lhes sem distinção e, quando a situação exigia, os matava, ignorando completamente a máxima que a Liga ostentava décadas antes. De todos os três, ela foi a mais corrompida pela mutação.
No fim das contas, a indecisão de Superman, a rebeldia de Batman e o autoritarismo da Mulher-Maravilha, três soluções diferentes para curar o mundo, para livrá-lo do abismo, mas que convergiram para deixá-lo à beira dele. Quanto mais o passado tentava curar o futuro, mais ele o arruinava.
A humanidade então tomou a decisão por si mesma: os heróis não devem mais existir. Ao lado do Espírito da Vingança, Norman viu os três mísseis nucleares descerem sobre a legião de combates em frente ao Gulag. Quem estava certo: Batman, Superman ou Mulher-Maravilha? Naquele instante, pouco importava. Eles haviam se tornado três lados do mesmo problema, três variações da mesma doença que corria o coração da humanidade, e deveriam ser igualmente erradicados.
Batman deteve um, Diana o outro, mas Superman não tentou parar o último; ele deixou a decisão nas mãos de Shazam, de Billy Batson, do deus e do homem. O único que poderia enxergar os dois lados de uma mesma história.
Dando sua vida, Shazam impediu que a explosão matasse a todos, mas foi incapaz de impedir que boa parte dos meta-humanos se transformasse em cinzas. Batman, Superman, Mulher-Maravilha, Lanterna Verde, os rostos da era que a humanidade agora rejeitava, ainda respiravam.
Enfurecido, Superman parte até a sede da ONU, buscando vingança por aquele genocídio. É nesse instante que Norman McCay, um simples e velho homem, lhe dá uma lição que muda seu destino:
“Sua maior dádiva sempre foi sua capacidade de distinguir o certo do errado, mas, quando você decidiu ser mais Super do que Man, você a perdeu. Se busca redenção, recupere-a.” Basicamente, ele pediu que Superman, que todos os heróis, simplesmente fossem humanos, que reconhecessem que seu tempo já passou, e que, ao invés de continuarem buscando sua própria maneira de resolver o mundo, abrindo ainda mais a ferida, se alinhassem às pessoas e as conduzissem com sua experiência, com sua moral, que as ajudassem nas coisas mais simples, e deixassem de lado o poder que tanto as amedrontava, e que eles mesmos já se mostravam incapazes de controlar.
Assim, eles cumpriram seu papel, atenderam ao desejo daqueles que juraram servir. De certa forma, o caos causado pelos heróis, os efeitos colaterais da cura a qual a humanidade confiou seus rumos, mostraram-se importantíssimos para a maturidade de uma raça. Uma raça capaz de superar sua dependência, diminuir a dose e, principalmente, de confiar em si mesma.
A narrativa messiânica de Reino do Amanhã pode ser lida de inúmeras maneiras, mas a metáfora do corpo doente encaixa-se surpreendentemente bem:
A primeira dose (Liga da Justiça) é usada, e os primeiros efeitos são milagrosos.
A humanidade começa a tornar-se dependente, os problemas crescem, e o remédio que os heróis simbolizavam deixa de ser efetivo.
A sociedade aposta em um tarja preta, no caso, os meta-humanos de Magog: mais violentos, inconsequentes e “eficientes” para um contexto onde a antiga cura havia perdido o efeito.
A cura torna-se uma doença, e os velhos heróis, agindo quase como anticorpos, tentam contê-la de diferentes formas, mas, presos ao seu próprio orgulho, não percebem que apenas aceleram o processo.
Os efeitos se tornam tão catastróficos que a humanidade percebe que é mais fácil abrir mão dessa “pílula milagrosa” e enfrentar seus problemas, mas sem abrir mão do que essa experiência lhe ensinou.
Uma jornada de ilusão e desilusão, de queda e superação, digna de uma das maiores HQs de todos os tempos.
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