Ralph McQuarrie: O Lápis que deu vida a Star Wars

Quando pensamos na genialidade por trás de Star Wars, é comum que nos venha à mente o nome de George Lucas, afinal, foi de sua mente que nasceram os personagens, tramas e conceitos primordiais da saga. Ou talvez, em John Williams, que por meio de suas trilhas sonoras inconfundíveis, fez Star Wars ser reconhecível apenas pelo som. No entanto, você já parou para pensar o quão difícil é transformar uma ideia abstrata escrita em um papel, em algo visualmente cabível? Algo que pudesse se tornar real em tela? Uma cidade nas nuvens, uma cantina repleta das criaturas mais bizarras da galáxia, um Império mecânico e imponente, liderado por um homem que deveria assemelhar-se mais a uma máquina do que a um ser humano. Esse foi o desafio lançado nas mãos de Ralph McQuarrie em 1977, e pode ter certeza: ele não decepcionou, tendo sido o responsável por dar vida a vários dos cenários, visuais e elementos que fizeram dessa galáxia tão distante, tão especial. Então sem mais delongas, vamos conhecer algumas das artes conceituais feitas por McQuarrie e compará-las com o resultado final em tela.

STAR WARS

Rafael Silva

7/24/20265 min read

Cantina Chalmun (Uma Nova Esperança)

Um verdadeiro festival de tudo que a galáxia tem de mais bizarro para oferecer, fazendo jus ao que disse Obi Wan antes de entrar: "O espaçoporto de Mos Eisley. Você nunca encontrará um antro de escória e vilania mais miserável".

Para conceber um dos lugares mais sujos e infestados pela criminalidade na galáxia, Ralph buscou influência nos clássicos filmes do Velho Oeste estadunidenses, o clássico Rick's Café Américain de Casablanca, e também nos antigos bares clandestinos do período da Lei-Seca. Mas o verdadeiro desafio está em dar vida aos seres bizarros imaginados por Lucas.

A banda Bith tocando sob o palco, um Wookie gigante e peludo ao lado dos contrabandistas mais procurados da galáxia, uma lesma gorda e gigante, que na verdade é um senhor do crime temido. Em poucos momentos é tão fácil ver a grandeza da criatividade de Star Wars quanto essa.

Seu peso narrativo também é incalculável. Foi em seu interior imundo que a amizade de Luke e Han Solo se fez, e o jovem Skywalker finalmente embarcou na aventura que ansiava durante toda a vida.

Bespin (Império Contra-Ataca)

Para mim, o cenário mais maravilhoso de Star Wars, e consegue ser ainda mais fascinante no desenho original de McQuarrie. Bespin é uma imensa mina de gás Tibana administrada pelo ex-contrabandista e eterno apostador Lando Calrissian, até ser pego pelo Império e obrigado a auxiliar Vader e Boba Fett na captura de Han, Leia e Chewbacca. Por mais que tenha se tornado uma prisão para os mocinhos, é impossível negar o quão deslumbrante a cidade é.

Para os carros voadores e os prédios passando por entre as nuvens, o artista inspirou-se no conceito das “Cidades Biosféricas” , muito populares nos anos 1970, e nas enormes plataformas de petróleo utilizadas nos oceanos.

O telhado arredondado nas construções tem uma origem brasileira: o modelo usado por Oscar Niemeyer em Brasília. Essa é para quem diz que o Brasil não tem influência em Star Wars. O resultado: um cenário que mistura uma beleza natural quase divina, com a arquitetura limpa e dinâmica da modernidade. O melhor de dois mundos.

Além disso, Bespin tem uma importância simplesmente incalculável para a saga. É lá que Luke enfrenta Darth Vader, perde sua mão, e descobre que seu maior inimigo, o homem que mais odiava, era na verdade seu pai. O destino da galáxia era traçado em meio às nuvens.

Darth Vader e os Stormtroopers (Uma Nova Esperança)

Esse talvez tenha sido o visual mais modificado, mas já era imponente desde o princípio. Originalmente, Vader seria apenas um soldado comum, sem máscara, com o diferencial de ter um traje negro, destacando-se entre a branquitude absoluta da paleta de cores imperial.

Todavia, Ralph McQuarrie sabia que Vader precisaria de um capacete para atravessar o vácuo do espaço até a nave de Leia. Além disso, essa adição seria importantíssima para desumanizar o vilão, tornando-o uma verdadeira aberração tecnológica, mais máquina do que homem, além de diferenciá-lo completamente de seus soldados.

Obviamente, houve algumas mudanças sutis entre o visual usado na capa da novelização de Uma Nova Esperança (lançada antes mesmo do filme), e a versão definitiva, com um capacete mais liso e ombreiras menos acentuadas, mantendo a mesmíssima estética robótica.

As inspirações para Vader foram dos samurais até as máscaras usadas por agentes alemães na Segunda Guerra Mundial. O estilo limpo e totalmente padronizado utilizado pelo Império, é diretamente inspirado no visual alemão, tentando passar a ideia de uma força desumana e desalmada, uma máquina movida pela tirania. Não podemos negar que ele conseguiu o efeito que desejava.

O primeiro contato que temos com o resultado, é logo na primeiríssima sequência de ação do longa, onde os Troopers pela primeira e última vez na saga, conseguem acertar a maioria dos tiros, e varrem os rebeldes nos corredores da Corveta Tantive IV, para que então Lorde Darth Vader possa enfim fazer sua aparição, os primeiros passos daquele que viria a se tornar o maior vilão da cultura pop.

O Templo Jedi (Retorno de Jedi)

Sim, o antigo lar da Ordem Jedi iria aparecer ainda 1983, mas não localizado em Coruscant, e sim em Had Abbadon, um planeta tomada quase completamente por construções pontiagudas, com um templo monumental em seu núcleo, como o retrato da Ordem que Luke Skywalker tinha a missão de restaurar.

Por mais que fosse fantástico, George Lucas arquivou a ideia devido a limites orçamentários, mas as resgatou o mais intocável possível na trilogia prequel. Ainda sim, é possível notar algumas mudanças. Além do nome, a capital da República/império tornou-se ainda infestada de prédios e construções, de forma que seu solo é praticamente insondável.

Os AT-ATs e a Batalha de Hoth (Império Contra-Ataca)

Uma das cenas mais fantásticas da trilogia sequel. Para os imponentes AT-ATs imperiais, Ralph inspirou-se em guindastes industriais utilizados no porto de Oakland, na Califórnia. Já os Snowspeeders T-47, basearam-se em alguns dos primeiros modelos de aeroplanos.

McQuarrie fez um trabalho impecável no que se refere às naves, especialmente com os X-Wing e os Caças TIE imperiais, os símbolos absolutos da esperança e da opressão. Eram as identidades de suas forças antagônicas transformadas em duas espaçonaves.

As X-Wings foram inspiradas nos caças da Segunda Guerra Mundial (como o P-51 Mustang e o Supermarine Spitfire, naves comumente usadas pela Royal Air Force, do Reino Unido), com seus bicos finos e cockpits estreitos. Já os painéis laterais da TIE Fighter foram inspirados nos painéis solares de satélites reais da corrida espacial da NASA nos anos 60 e 70.

Antes de serem realizados com o que havia de melhor em efeitos práticos da época, o sonho de George Lucas, de majestosas batalhas rasgando a escuridão silenciosa no vácuo do espaço, foram trazidas ao papel com forma, cor e acima de tudo, identidade.

É inegável que Ralph McQuarrie foi uma das mentes mais brilhantes de Star Wars, e prova disso, é de que suas ideias mantiveram-se vivas na saga mesmo depois de sua morte em 2012. O Mandaloriano, Andor, Ahsoka e outras produções atuais da série continuam a usufruir da herança imortal deixada por McQuarrie, que fez de uma galáxia com uma de uma riqueza e diversidade inimagináveis, tangível para cada um de nós.

E você, conhecia o trabalho de Ralph McQuarrie? Não deixe de comentar!

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