Quem Inventou os Clichês do Terror?
Jason sobrevivendo a trezentos tiros apenas para voltar na continuação, o carro que até dez minutos atrás funcionava perfeitamente recusando-se a ligar, a garota puritana que sobrevive enquanto seus amigos pervertidos são exterminados por um assassino mascarado. Você certamente deve conhecer cada um desses clichês com a palma da mão, pois eles vão além do terror, tornando-se praticamente memes, devido à sua presença quase que obrigatória nas produções do gênero, das melhores às mais trasheiras. Todavia, muitos costumam relacionar essas “manias do terror” como fruto do terror slasher dos anos 1970/1980, que, claro, foram responsáveis por eternizá-los no imaginário popular pela quantidade esmagadora de produções quase idênticas lançadas em curtíssimo espaço de tempo. Para se ter noção, estima-se que mais de 290 filmes slasher foram lançados no cinema entre 1981 e 1989, o que equivale a praticamente dois filmes por mês. A grosso modo: eles dominaram nossas mentes pela insistência. No entanto, casais transantes, carros dando mole na hora H e assassinos que se recusam a morrer (assim como seus produtores se recusam a parar de ganhar dinheiro com eles) são conceitos construídos ao longo de décadas no cinema de terror, e às vezes encontram suas raízes mais profundas em outros subgêneros, como iremos descobrir hoje. Então, sem mais delongas, vamos embarcar em mais uma jornada pela história do cinema!
TERROR
Rafael Silva
7/14/20269 min read


O Assassino Imortal

Jason (Ari Lehman), Michael Myers (Nick Castle), Freddy Krueger (Robert Englund), esses são alguns nomes que se eternizaram, entre muitos motivos, por algo muito específico: não morrer de jeito nenhum. Voorhees já sobreviveu ao vácuo do espaço, Myers foi espancado por meia Haddonfield e permaneceu de pé, enquanto Freddy, mesmo decapitado, ainda deu uma piscadela debochada para a câmera.
Obviamente, esses vilões persistem por serem a face de suas sagas. Afinal, todos se lembram do que aconteceu quando Halloween III: A Noite das Bruxas (1982) decidiu não pôr o Michael Myers no filme. Porém, essa busca incansável por dinheiro acaba construindo uma lenda em torno desses vilões, tornando-os metaforicamente e literalmente imortais. Porém, não foi nem Jason, nem Michael Myers quem hasteou a bandeira; isso é papo de voltar aos anos 1930, no auge dos monstros clássicos da Universal, mais precisamente, a um de seus maiores clássicos: Frankenstein (1931).
Após acidentalmente matar uma garota, o Monstro de Frankenstein (Boris Karloff) se vê caçado por todos em um vilarejo da Baviera. Entre a multidão enfurecida, estava um homem que não necessariamente o odiava, mas que desejava matá-lo por remorso a si mesmo: Henry Frankenstein (Colin Clive). Criador e criatura se odiavam, mesmo sem compreender plenamente um ao outro. O monstro havia sido lançado em um mundo que o desprezava, deixado de lado até mesmo por aquele que o concebeu, que, em contrapartida, o odiava por ver nele o reflexo da pior versão de si mesmo, de um eu que foi capaz de exumar corpos e fundir cadáveres em nome não da ciência, mas do ego.
Quando ambos se encontraram no topo de uma colina, somente uma coisa passou pela mente confusa da criatura: dar a morte ao homem que lhe concedeu a vida. O brutamontes arrastou Henry ao topo de um moinho, enquanto a multidão furiosa os cercava com chamas que só não ardiam mais que o ódio que fervia em seus corações.
Sem pensar no refém em posse da criatura, atearam fogo no moinho, com seus gritos de fúria fundindo-se com os urros animalescos da criatura, que misturavam dor e confusão.
Henry Frankenstein (Colin Clive) é arremessado do topo da construção, salvando-se graças às hélices que pararam sua queda e o mantiveram inconsciente enquanto o monstro feito pelas mãos do homem era desfeito pelas próprias.
Porém, como muitos de nós sabemos, esse passou longe de ser o fim do nosso cabeça de prego favorito. Logo em 1935, ele retornou em A Noiva de Frankenstein (1935), que considero um dos maiores click baits do cinema, já que a própria Noiva (Elsa Lanchester) só aparece nos minutos finais, sendo este mais um filme solo de Frankenstein, que seguiria aparecendo em mais 7 filmes da Universal.
Algo em comum em todos eles é o fato de que Frankenstein sempre acaba supostamente morto, mas sempre retorna de uma forma mirabolante, seja escapando dos escombros de um incêndio, arrastando-se de uma poça de areia movediça, ou até mesmo sendo descongelado depois de sair na porrada com o Lobisomem (Lon Chaney Jr.) em Frankenstein Encontra o Lobisomem (1943).
Como ficou claro, Jason teve um ótimo professor.
Quem transa morre (ou quem tira a roupa mesmo)


Bom, esse talvez seja o mais indissociável ao gênero slasher, até porque sexo e sangue são uma verdadeira receita para o sucesso quando o assunto é levar jovens ao cinema (notadamente não vou apostar por qual dos dois motivos a maioria deles ia…).
A nudez excessiva no cinema de terror tornou-se praticamente regra nos anos 1980, em que praticamente toda obra precisava ter um peito ou uma bunda na tela, mesmo que de relance. Todavia, essa hipersexualização surgiu antes, nos anos 1970. Em Halloween: A Noite do Terror (1978), não é? Passou perto!
É fato que o clássico de John Carpenter foi fundamental para solidificar o mito de que quem transa morre, com o próprio Carpenter justificando-se no futuro, dizendo que essa jamais foi a sua intenção, apesar de realmente parecer muitíssimo intencional. Por exemplo: Judith Myers (Sandy Johnson), Bob (John Michael Graham) e Lynda (P.J. Soles) são mortos logo depois do ato, praticamente um bimbou/morreu, tornando Michael mais eficiente que a Liga Anti-Sexo de 1984.
No entanto, a semente desse clichê foi plantada por um dos maiores mestres do Giallo italiano: Mario Bava, em seu clássico Banho de Sangue (1971). Na obra, os jovens cometem dois erros fatais: Brunhilda (Anna Maria Rosati) nada completamente nua em um lago, e o casal Bobby (Roberto Bonanni) e Sylvia (Paola Cardullo) faz o ato em uma cabana próxima. Resultado: todo mundo morre, como era de se esperar. Você deve estar se lembrando de um filme com uma descrição muito parecida com essa, não é mesmo? O motivo é simples: Sexta-Feira 13 (1980) replicou praticamente quadro a quadro alguns momentos da obra de Bava. Com replicou, entenda, copiou, já que as cenas são praticamente iguais.
Muito além da estética, Bava plantou também a semente do propósito por trás desses momentos: uma espécie de punitivismo em relação ao sexo e à libertinagem, que se tornou cada vez mais forte na década seguinte.
O carro que não liga


Esse talvez seja o mais irritante, e com a origem mais intrigante. Todo mundo lembra daquela situação tensa, em que o protagonista tenta ligar seu veículo e, após uma tremedeira incessante, enfim consegue girá-la, apenas para descobrir que seu carro já leu o roteiro e simplesmente não vai funcionar.
Todavia, surpreendentemente, o clichê nasceu no auge do cinema noir, mais precisamente em 1944, no clássico Pacto de Sangue (1944). E tão surpreendente quanto era que, nesse caso, eu estava do lado do carro…
Walter Neff (Fred MacMurray) e Phyllis (Barbara Stanwyck) precisam desesperadamente sair de uma ferrovia com o carro onde secretamente escondem um corpo. Walter gira a chave uma, depois duas vezes, e a máquina simplesmente engasga, como se o destino os estivesse punindo. No entanto, o carro funciona na terceira tentativa e eles saem cantando pneu do local, o que não adiantou muito, já que o casal criminoso acaba por matar um ao outro no fim do longa. Talvez o carro estivesse tentando ajudá-los, afinal.
Curiosamente, o diretor Billy Wilder não tinha essa tensão extra em mente no dia da gravação, com o momento surgindo de uma falha verdadeira no Dodge Touring Sedan de 1938, que parecia prever que estava escrevendo um capítulo marcante na história do cinema, ao enfurecer toda a produção.
A Final Girl

Este é um tópico curioso, já que o conceito de final girl é um tanto quanto volátil. Várias mulheres sobrevivem a vilões do terror, já na era dos monstros clássicos, como Mina Murray (Helen Chandler) em Drácula (1931) e Ann Darrow (Fay Wray) em King Kong (1933). Porém, sua função muitas vezes resumia-se a gritar desesperadamente, esperando serem salvas por algum homem, enquanto serviam, bizarramente em alguns casos, como objeto de desejo para os ditos monstros.
Porém, associar o conceito imediatamente às mocinhas dos anos 1970/1980, como Laurie Strode (Jamie Lee Curtis) e Nancy Thompson (Heather Langenkamp), também não é preciso. Na verdade, o mais próximo de uma origem para o clichê surgiu em um dos maiores clássicos do terror/suspense: Psicose (1960).
Lila Crane (Vera Miles), irmã da falecida Marion Crane (Janet Leigh), assume a dianteira do longa junto a Sam Loomis (John Gavin) — o cara caçou Michael Myers e Norman Bates, tem história — logo após a morte de sua irmã, sendo ela a responsável por localizar o Motel Bates e, acima de tudo, descobrir a verdade por trás da Sra. Bates, encontrando seu corpo decomposto no porão de sua mansão, enquanto seu filho não tão saudável (Anthony Perkins) avançava contra ela com intenções ainda menos saudáveis. Nesse momento, Sam a salva, capturando Norman.
Mas, se ela precisou da ajuda de um homem para vencer o assassino, como pode ser uma final girl? Laurie foi salva por Loomis (Donald Pleasence) mais de uma vez, Nancy recebeu ajuda de seu pai, e ninguém as questiona como final girl. Isso se deve ao fato de que não é sobre ser um Rambo 2.0 e sair massacrando todos os vilões com facilidade, é sobre ter uma atitude independente de enfrentar o assassino, sobre chamar para si o protagonismo, algo que todas as três fizeram, mesmo que com ajuda.
Além disso, o arquétipo da final girl vai além de simplesmente vencer o vilão; ele passa pela retidão moral, pelo repúdio à promiscuidade e às drogas, pela inteligência em vez da burrice, o que talvez seja o mais difícil em um filme de terror. A ideia é que a final girl sobrevive por simplesmente não ter sido consumida por nenhum vício, mantendo-se atenta ao que acontece à sua volta, o que, com uma boa ajuda do roteirista, basta para permanecer viva.
Vamos nos separar

A famosa ideia que sempre dá merda. Clássicos como A Bruxa de Blair (1999) e O Massacre da Serra Elétrica (1974) demonstraram o apogeu da falta de inteligência de seus personagens, fazendo-os separar-se, não importa o quão sem sentido isso possa ser em uma situação de perigo. Sátiras como Pânico (1996) e Todo Mundo em Pânico (2000) já cansaram de desdenhar desses momentos.
Todavia, sua origem talvez seja a mais inusitada de todos: um desenho animado, mais precisamente Scooby-Doo, Cadê Você? (1969).
Tornou-se praticamente tradição da turma chegar em frente a um castelo abandonado, a um casal assombrado ou a um parque de diversões macabro e Fred (Frank Welker) soltar a mesmíssima frase: "Salsicha e Scooby vão por ali, Velma por ali e eu, a Daphne, por ali." No fundo, todos sabemos por que ele sempre ia com Daphne (Stefanianna Christopherson) para uma parte isolada, enquanto mandava seus amigos embora de maneira não tão discreta; os memes não mentem…
Nos cinemas, um embrião desse clichê deu as caras um ano antes, na obra-prima de George Romero: A Noite dos Mortos-Vivos (1968), em que os sobreviventes Ben (Duane Jones) e Harry (Karl Hardman) discutem sobre onde devem se esconder dos zumbis e acabam dividindo-se em grupos, o que facilita a vida (ou pós-vida) dos mortos-vivos.
Assim, fica claro que essa burrice já tem boas décadas de história.
Entrar na casa “com história”

Eis a imbecilidade suprema, e talvez o clichê máximo do terror. Poltergeist: O Fenômeno (1982), Terror em Amityville (1979), It: A Coisa (2017) e até mesmo A Casa Monstro (2006), onde, na verdade, a própria casa acaba sendo o problema, todos esses são exemplos conhecidos desse subgênero do terror, mas poucos de fato conhecem sua origem: o clássico A Casa dos Maus Espíritos (1959), um filme produzido ao custo de um pastel com Coca-Cola.
Para sermos justos com os protagonistas, todos eles foram convencidos pelo exótico casal Frederick Loren (Vincent Price) e Annabelle Loren (Carol Ohmart) a passar uma noite em sua mansão mal-assombrada, em troca de 10 mil dólares, que eram uma verdadeira fortuna na época, especialmente para um bando de desesperados. Se é para ser imbecil, que seja com o bolso cheio.
Todos, em especial Nora (Carolyn Craig) e Lance (Richard Long), vislumbram fantasmas em todos os cantos, enquanto o casal Loren parece tratar tudo como um jogo sádico, tirando prazer do medo deles. Não se pode esperar muito de uma dupla que tem uma piscina de ácido no porão…
Entrar em uma casa horripilante em troca de dinheiro pode até convencer alguns, talvez muitos, mas o clichê se modificou de forma a tornar os personagens cada vez mais irracionais, fazendo-os arriscar-se em troca de absolutamente nada.
O jumpscare

A lendária fórmula do: luz fraca + trilha suave + giro rápido da câmera + música alta (imagem grotesca) = grito da plateia. Esse tipo de terror tornou-se tão covarde e artificial que, se a fórmula fosse aplicada sem alterações, mas utilizando a imagem de um Golden Retriever rolando na grama, o susto seria o mesmo, independentemente de a cena em si ser ou não assustadora.
Isso se deve à forma com a qual a trilha sonora mexe com o cérebro do espectador, construindo a tensão para deixá-lo em alerta, depois reduzindo-a suavemente para deixá-lo vulnerável, e então, a explosão, ativando uma reação instintiva a um som alto ou movimento repentino.
Desde os anos 1980, esse tipo de susto cresceu exponencialmente, tornando-se praticamente onipresente. De 2000 em diante, a média é de 10 a 12 por filme, com clássicos (contém ironia) do terror, como A Freira (2018), enfiando mais de 20 em tela.
No entanto, o ópio do terror já tem mais de oitenta anos de história. No clássico Sangue de Pantera (1942), produzido pelo lendário Val Lewton, a protagonista Alice (Jane Randolph) está caminhando por uma rua escura e deserta de Nova York à noite. Ela tem certeza de que está sendo perseguida por uma mulher que se transforma em uma pantera negra. A tensão vai subindo no silêncio absoluto da rua, o perigo parece iminente e o espectador está sem respirar.
De repente, um barulho estridente faz o espectador pular da cadeira, achando que é o monstro atacando. Expectativa: ela morreu; realidade: era apenas um ônibus urbano abrindo as portas e freando bruscamente ao parar ao lado dela. No Brasil, isso seria, na verdade, uma bênção.
A obra conseguiu pegar dois peixes com a mesma isca: jumpscare e susto falso.
E você, conhecia a origem desses clichês? Qual você acha mais divertido (ou irritante)? Não deixe de comentar!
