Quando Lex Luthor derrotou o Superman

“Digam a seus amigos que eles não têm mais que ter medo ou fome, camaradas. O Superman está aqui para salvá-los”, foi com essa frase que o Homem de Aço decretou o fim da humanidade. Superman: Entre a Foice e o Martelo, de Mark Millar, Dave Johnson e Kilian Plunkett, transforma o símbolo da liberdade e do sonho americano no bastião do comunismo, substituindo o S da Esperança pela foice e o martelo da igualdade. Como o campeão do proletariado, o Homem do Amanhã devotou sua vida a fazer do mundo um lugar melhor e mais justo para todos. Não importava o quanto ele precisasse intervir e quantas liberdades precisasse cercear. Por mais viajado que esse Elseworld possa parecer, ele nos traz um dos conflitos mais intrigantes entre Superman e Lex Luthor, que agora não estão divididos apenas pelo bem e o mal, mas também pela Cortina de Ferro. Mas, afinal: como Lex Luthor fez com que Superman se autodestruísse junto ao comunismo? É isso que vamos descobrir hoje!

MARVEL E DC

Rafael Silva

10/6/20268 min read

Um Herói além das Bandeiras

No início dos anos 1950, no alvorecer da Guerra Fria, a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas anunciou ao mundo a arma definitiva. Não uma bomba de hidrogênio, mas sim, um homem, um super-homem vindo de outro mundo para ostentar os ideais da pátria livre de Joseph Stalin.

Quando as primeiras notícias sobre os feitos e poderes do Superman chegaram às rádios americanas, o terror foi absoluto. Os dons sobre-humanos que normalmente nos geram fascínio agora eram motivo de pânico. Sua força podia mudar o curso dos rios, sua velocidade superava a de um trem, sua resistência transformava balas em festim. Mas o dom que mais os assustava era outro: a capacidade de ver e ouvir tudo. Não importava onde estivessem ou quão baixo falassem, o Homem de Aço poderia ouvi-los. Enquanto ele fosse o único homem nos céus, a liberdade não existiria.

Isso fez com que o governo dos EUA recorresse a Lex Luthor, o homem mais rico e inteligente do mundo, possivelmente o único cujo intelecto era capaz de medir forças com os poderes messiânicos do Escoteiro Vermelho. Luthor não é somente o megalomaníaco arrogante de sempre, ele tem um algo a mais. É possível dizer, seguramente, que ele nem sequer odeia o Superman nessa HQ. Na verdade, ele vê o kryptoniano como o único desafio digno de seu intelecto, um problema que realmente valia toda a sua atenção, que somente ele poderia responder.

Lex jogava xadrez com dezenas de homens, conversava com Lois Luthor (Superman dividiu até a mulher nessa HQ) e desenvolvia fórmulas para combater a inflação e a dívida pública, tudo ao mesmo tempo, quase como uma máquina. Ele tinha a capacidade de resolver todos os maiores problemas econômicos e políticos da sociedade, mas preferia mostrar apenas uma parte da solução, permitindo que as pessoas a construíssem, ao invés de simplesmente realizá-la. Não era o tipo de questão que merecia sua atenção.

Sua mente nunca estava no aqui e agora. Isso fazia Lois sofrer, sabendo que jamais teria sua atenção por completo. Aniversário de casamento, encontros, jantares em família, tudo isso eram apenas afazeres banais para Lex. Os pequenos gestos de carinho dos humanos pareciam insignificantes para ele, enquanto, para Superman, era justamente o que fazia a humanidade especial.

Para extrair material genético do Superman, Luthor ordena que um satélite americano seja derrubado em Metrópolis, o que faz com que o Homem de Aço venha à cidade para salvar seus milhões de cidadãos. Ele impede o desastre, segurando toneladas de metal sob seus inquebráveis músculos, fazendo o impossível parecer fácil. No entanto, em meio a esse ato grandioso, Kal-El ainda se preocupa em recuperar o balão de um garoto e devolvê-lo carinhosamente a suas mãos. Seu maior poder sempre seria o de fazer o certo parecer comum. O de mostrar que, em maior ou menor escala, todos podemos ser heróis na vida de alguém.

“Todas as mentiras que espalharam sobre mim. A propaganda que arquitetaram no auge da Guerra Fria… Nada disso importou. Apenas por um reles momento, todos perceberam que eu estava lá para salvá-los”.

Mesmo que a URSS de Stalin desejasse transformá-lo em um estandarte para sua ideologia, Superman simplesmente não aceitou esse papel. Ele desejava ser mais do que a bandeira de um país, ele queria fazer o que era certo para todos, independentemente do espectro político.

Dentro do partido, lideranças como Pyotr Roslov, filho bastardo de Stalin, consideravam inadmissível a possibilidade de Superman chefiar o partido comunista. Ele era simplesmente a prova definitiva de que nem todos os homens eram iguais. Um alien escolhido para governar a humanidade. O próprio Homem de Aço percebia a incoerência disso. Ele veio para ajudar, não para governar.

Assim como sua versão estadunidense, Superman foi criado por uma família humilde do interior, dessa vez, da Ucrânia, onde aprendeu desde cedo o valor da vida, da empatia e da caridade. Ele via pessoas comuns dedicarem suas vidas a ajudar umas às outras, mesmo que de maneira singela. Ele jurou defender essas mesmas virtudes, mas, com a graça de seus poderes, poderia levá-las muito mais além. Por isso, ele foi a Moscou e entregou-se a serviço do governo soviético, sonhando que, por meio da propagação da ideologia comunista, ele poderia levar ao mundo inteiro os seus ideais.

Infelizmente, o governo de Stalin desejava tudo que ele tinha, menos os seus valores. O ditador fez de tudo para que Superman aceitasse sucedê-lo após sua morte, consagrando-se como o líder imortal do comunismo, mas ele insistia em recusar. Seus valores estavam além de qualquer ideologia.

“Jamais fui um soldado. Um soldado sempre segue ordens. Um soldado conhece e odeia seu inimigo. Eu simplesmente lutava pelo que era certo.”.

O Preço da liberdade

Lex Luthor passou a desenvolver monstros cada vez mais bizarros para destruir o Superman. Apocalypse, Bizarro, Parasita… todos falharam. Ele até mesmo chegou a aliar-se com Brainiac para derrotar o Homem do Amanhã, e ambos fracassaram. O ciborgue chegou a aprisionar a cidade de Stalingrado em uma garrafa, um problema que nem mesmo o apuradíssimo intelecto de Superman foi capaz de solucionar. Ele começa a entender que nem mesmo ele é capaz de resolver tudo, pelo menos não enquanto impusesse limites a si mesmo.

Enquanto isso, Superman se via em uma encruzilhada após a morte de Stalin, sabendo que ele poderia ser o único capaz de suprir o vácuo deixado pelo ditador. Após reencontrar seu antigo amor de infância, Lana Lazarenko (Lang…), na fila da sopa junto aos seus filhos, ele repensa sua decisão. Não importava o quanto ele lutasse pelas pessoas, protegê-las não resolveria todos os seus problemas. Mas, se ele as governasse, dedicasse 100% do seu tempo a resolver todos os seus problemas, elas finalmente poderiam ter paz. Ele abriria mão da pessoalidade, de olhar nos olhos de cada um e compreendê-lo. Ao invés de construir uma ponte para que as pessoas atravessem o abismo, ele simplesmente as levaria direto para o outro lado.

É com esse objetivo que ele aceita o cargo de Presidente. É nesse momento que ele deixou de fazer parte da solução para tornar-se parte do problema.

Ao lado da recém-chegada Mulher-Maravilha, Superman continuou realizando atos de heroísmo por todo o mundo, a tal ponto que as pessoas até mesmo deixavam de usar cintos de segurança, sabendo que, se houvesse qualquer acidente, o Homem de Aço viria salvá-las. Se ele poderia estar em todo o lugar ao mesmo tempo, com o que qualquer um deveria se preocupar?

Todavia, essa obsessão pelo mundo perfeito, por consertar tudo que a humanidade é incapaz de manter intacto, faz com que Kal-El torne-se cada vez mais frio em relação a todos a sua volta. Diana sentiu que ele era diferente desde o primeiro momento em que o viu, sabia o quão puro era o seu coração, mas, pouco a pouco, via o homem que um dia amou se desfazer diante de seus olhos. Não importava quantos sinais ela desse, ele simplesmente não conseguia notá-la, não conseguia vê-la como mais do que uma parceria de missão. Assim como Lois era para Luthor, Diana tornava-se apenas mais um compromisso na vida de Superman.

Fato é que Superman de fato estava transformando o mundo em uma utopia, em um sonho desperto para todos que nele viviam.

A fome, a doença e a ignorância foram combatidas quase até a extinção. Porém, ainda havia aqueles lutando pelo direito de viver no inferno, e, com esses, Superman não tinha piedade. Ao invés de matá-los, ele os “reeducava”, realizando uma severa lavagem cerebral até torná-los totalmente leais a ele. Não havia espaço para dissidência.

Até mesmo a rebelião liderada por Batman com auxílio de Lex Luthor foi esmagada, com a morte do Homem-Morcego e o “adestramento” de seus seguidores. Ninguém tinha o direito de fazer com que o mundo acordasse daquele sonho.

Um mundo engarrafado

Nos EUA, uma crise sem precedentes assola a população, com uma economia isolada e movimentos separatistas consumindo a nação. Ainda assim, Luthor não desiste, tornando-se cada vez mais obsessivo em relação ao Superman. Mesmo assim, o Homem de Aço simplesmente se recusa a invadir os EUA e convertê-los à força. O caminho de Stalin não seria o dele. Sem revoluções sanguinárias, sem morticínio. Cada nação deveria abdicar da liberdade em favor da prosperidade de livre e espontânea vontade.

No entanto, a cada dia que passava, Kal-El perdia esses valores. A obediência forçada, o uso de Brainiac como um mero supercomputador para contabilizar e organizar cada detalhe da humanidade como um simples número, a vigilância ininterrupta de cada palavra dita pelos 6 bilhões de habitantes da Terra. Dois seres extraterrestres, decidindo entre si o que era ou não melhor para a humanidade.

Os pés do Superman nunca estiveram tão longe do chão, seu coração, tão distante das pessoas. O Homem de Aço estava pensando cada vez mais como Brainiac, e cada vez menos como Superman. Diante disso, até mesmo Diana, a mulher que um dia o amou e admirou, o abandona.

Esse era o plano de Luthor: transformar o Superman nele próprio. Quando Luthor, agora eleito Presidente dos Estados Unidos, coordena um ataque massivo junto à tropa do Lanterna Verde e ao exército das Amazonas, Superman, seguindo a vontade de Brainiac, reage com força máxima, disposto a anexar os americanos à força. Negá-los a utopia que estava às suas portas seria tão detestável quanto obrigá-los a aceitá-la.

Superman espanca todos que cruzam seu caminho, até mesmo Diana, enquanto Brainiac captura Luthor. Chegando à Casa Branca, ele se depara com Lois, que, como uma cartada, lhe mostra uma carta com uma simples frase:

“Por que simplesmente não põe o mundo inteiro em uma garrafa, Superman?”. Foi então que ele percebeu: ele havia se tornado exatamente o que o mundo temia que ele fosse quando seu nome ecoou pela primeira vez nas rádios mundiais. 

Estava feito, o Homem de Aço havia sido derrotado pela sua própria vontade de fazer o bem. Ele subestimou a vontade humana, pensou que era possível controlá-la como uma máquina, mas não contava com algo inerente à vida: a falha. E se o único preço para superá-la era o derramamento de sangue, ele não estava disposto a pagá-lo. Por quarenta anos, Luthor permitiu que o Superman vencesse, tornando-o cada vez mais paranoico, adquirindo cada vez mais poder e controle para si, para então, finalmente, derrotá-lo ao fazê-lo olhar para si mesmo.

Assim, Superman, em seu último esforço, destrói a nave de Brainiac, salvando Luthor e devolvendo o controle do mundo à humanidade, certo de que, sendo humano ou não, o poder absoluto era um fardo do qual ninguém era digno. Triunfante, Luthor reconstrói os EUA e posteriormente o mundo a sua maneira, acertando, falhando, mas acima de tudo, sendo humano, decidindo que os problemas mundiais agora lhe diziam respeito.

Entre a Foice e o Martelo nos apresenta algo diferente do Superman malvadão nipe Injustice. Kal-El realmente desejava fazer o bem, mas, justamente por isso, acaba corrompendo a si mesmo e tornando-se o reflexo de seu nêmesis, que lhe aplicou um xeque-mate simplesmente brilhante.

E você, já leu essa HQ? Confiaria o destino da humanidade nas mãos do Superman? Não deixe de comentar!

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