QUAL SERIA A PENA DOS MAIORES HERÓIS DA FICÇÃO?

Com grandes poderes, vêm grandes responsabilidades, e também uma ficha criminal muito extensa. Quando pensamos em Batman, Superman, Homem-Aranha e nos grandes super-heróis da ficção, quase sempre nos vem à mente o momento em que eles capturam os criminosos e os levam à justiça. Todavia, eles mesmos, na grande maioria das vezes, não respondem a essa mesma justiça. Quantos policiais o Cavaleiro das Trevas agrediu no início de sua cruzada? Quantos bilhões em danos o Superman causa dia após dia em suas batalhas monumentais? Qual o tamanho do risco que o Homem-Aranha impôs à humanidade ao usar o alienígena simbionte em si mesmo ao invés de entregá-lo às autoridades? Quantas leis precisam ser quebradas para fazer justiça? Obviamente, os atos bondosos desses heróis vão muito além dos crimes que cometeram e da irresponsabilidade que podem ter tido, mas ainda assim, essa é uma discussão divertidíssima de se fazer. Para contabilizar a pena de cada um, levaremos em consideração o código penal dos EUA, tomando como base as versões desses heróis nas HQs. Então, sem mais delongas, vamos lá!

MARVEL E DC

Rafael Silva

10/5/20268 min read

Batman

Como todo bom vigilante, o Cavaleiro das Trevas foi caçado pelo DPGC logo no início de sua carreira. Em Batman: Ano Um (1987), de Frank Miller, o Homem-Morcego passa os seus primeiros meses em Gotham como nada mais do que uma lenda urbana, conhecida somente pela ralé entre os criminosos. Para o Comissário Loeb e seus comparsas do DPGC, ele não passava de um vigilante qualquer, incapaz de tocar quem realmente corrompia a cidade e que, de quebra, mantinha a imprensa e os cidadãos esperançosos ao combater a criminalidade nas ruas.

Mesmo nesse início, Batman já cometeu diversas infrações. Agressão física, invasão de propriedade, ameaça, o pack de crimes padrão que veremos hoje. Porém, a partir do momento em que o herói decidiu confrontar a elite gothamite e declarar guerra ao crime em todas as suas formas, a coisa escalonou.

Ainda em Ano Um, Batman espancou e prendeu o Detetive Flass, que, por mais que fosse corrupto até a alma, ainda era um agente de segurança, o que deixaria o herói em maus lençóis em um processo judicial. Falando em processos, Bruce não pensa duas vezes antes de usar seus músculos para mudar o curso de um, como quando torturou o criminoso Jefferson Skeevers, obrigando-o a depor contra Flass, o que fez com que o império criminoso dentro do DPGC ruísse. Ele escreveu certo do ponto de vista moral, mas entortando completamente as linhas da lei.

A violência descomunal tornou-se marca registrada do herói, chegando a virar meme fora das páginas. O clipe do Batman dando 1200 socos em um cara que roubou um pão definitivamente não é só uma piada.

Na mesma HQ, Batman usa um cinto repleto de armas potencialmente letais para enfrentar agentes da SWAT, escapando graças a um enxame de morcegos com raiva que ele lançou não só contra eles, mas também contra o público que acompanhava o duelo. Tudo isso, em UMA única história. O Batman realmente não pega leve.

E o modus operandi do Batman praticamente nunca mudou, apenas evoluiu. Com o passar dos anos, o Cavaleiro das Trevas passou a usar um arsenal cada vez mais vasto, desde um carro-tanque até um jato que deixa qualquer aeronave do exército no chinelo.

Sua paranoia também o levou a desenvolver sistemas de espionagem e vigilância cada vez mais refinados, colhendo dados pessoais não apenas de vilões e cidadãos de Gotham, como também de seus aliados da Liga da Justiça. Privacidade e Batman são duas coisas que não se misturam. Prova disso é a construção da Torre de Vigilância, que, como o próprio nome sugere, foi desenvolvida principalmente por Wayne com intuito de vigiar a Terra 24 horas por dia.

No entanto, ele tem algo que o diferencia da maioria dos heróis da lista: ele paga pelo que ele quebra.

Na HQ Cavaleiro Branco, de Sean Murphy, nos é revelado que Bruce Wayne tem um fundo privado multimilionário, dedicado exclusivamente a pagar por todo o estrago que o Batman causa em Gotham durante seus incontáveis duelos. Não é à toa que é sempre ele que paga pela devastação causada pela Liga da Justiça…

Mesmo agindo à margem da lei, Batman gradualmente ganhou a confiança do povo e da polícia, especialmente graças à ajuda de Jim Gordon. Dentro ou fora da lei, ele se tornou a única coisa entre Gotham e o colapso absoluto. Ele lutava pela lei, mesmo não a cumprindo.

Porém, se ele fosse levado a um tribunal, a coisa ficaria feia.

Claro, se considerássemos cada capanga que o Batman surrou, cada arma ilegal que portou em seu cinto e cada vez que espionou arquivos privados por meio de invasão, até o Coringa sairia da prisão antes dele. Então estimamos uma média que leve em consideração a reincidência de cada um desses atos, mas sem levá-los ao pé da letra.

No entanto, há uma coisa que diferencia não só ele, mas quase todos nessa lista: ele não mata. Mesmo que rasgue as leis dia após dia, que suas habilidades ponham todos à sua volta em risco, seu trunfo é justamente o de saber seus limites, de jamais tomar para si o poder de decidir quem é ou não digno de viver.

Superman

O cara que reduz Metrópolis a uma pilha de escombros para salvar o dia. Desde o início de sua carreira, Superman era visto como um ser quase irreal, acima de qualquer lei, afinal, ele nem sequer era humano. Como julgar e condenar alguém capaz de mover placas tectônicas com as próprias mãos para deter um terremoto?

Diferente do Batman, que lida dia após dia com gangsters, corruptos e maníacos, o Homem de Aço quase sempre enfrenta monstros e seres extraterrestres, coisas muito além do que as leis ou a lógica humana são capazes de mensurar, o que torna muito mais difícil enquadrá-lo em qualquer tipo de crime de agressão. Alguém poderia condená-lo por trocar socos com o Apocalipse? Acho que não.

Assim como todos os outros, Superman invade propriedade privada e persegue pessoas recorrentemente, sendo sua maior vítima, Lex Luthor, que, por mais que seja um criminoso, não poderia ser investigado dessa maneira sem o devido processo legal (por mais que ninguém ligue para isso nas HQs…).

Mesmo quando Luthor foi eleito Presidente dos Estados Unidos em Superman: Lex 2000 #1, o Último Filho de Krypton não saiu do seu pé, descumprindo diversas leis federais enquanto tentava desmascarar o seu sabidamente mal-intencionado arqui-inimigo, envolvendo até mesmo o Batman nessa empreitada. Isso fez com que Luthor pusesse ambos como inimigos públicos, enviando legiões de heróis e vilões “adestrados” pelo governo para caçá-los.

Mas, é claro que o ponto fraco do Superman é a devastação. No seu inesquecível e fatal confronto contra o Apocalipse em A Morte do Superman (1993), Metrópolis é deixada em frangalhos após o duelo titânico entre os dois gladiadores. É claro que, em quase todos os casos, o herói está simplesmente tentando impedir que o estrago seja ainda maior, mas, fato é que cada vez que o Apocalipse o lançava contra um prédio, milhões de dólares eram perdidos. Quando ele retribuía arremessando um carro na criatura, algum pobre coitado via as 500 parcelas do veículo sumirem diante de seus olhos.

O impacto material do Escoteiro Azul é simplesmente incomparável, e, diferente do caso do Batman, o salário de jornalista de Clark não seria suficiente para pagar nem um mísero vidro quebrado…

Homem-Aranha

Esse chega a dar pena. Peter Parker foi alvo de uma perseguição generalizada da polícia e da imprensa desde o início da sua carreira, sendo visto por muitos como uma verdadeira aberração.

O Clarim Diário, de J.J. Jameson, simplesmente vivia de imputar crimes no Amigão da Vizinhança. Até mesmo os assassinatos de Gwen e George Stacy, tragédias as quais ele tentou evitar a todo o custo, recaíram sob suas costas com acusações da imprensa e parte da polícia.

Porém, ele definitivamente não é santo, indo inclusive além da ficha criminal comum de um super-herói. Na edição #542 da revista The Amazing Spider-Man, o Homem-Aranha está possesso após o Rei do Crime contratar um franco-atirador para matá-lo, que, ao errar o alvo, acaba atingindo May Parker, deixando-a entre a vida e a morte no hospital.

Furioso, ele invade a Balsa e adentra na cela de Fisk, espancando-o sem piedade, sem conter-se em nenhum momento, mostrando o quão poderoso ele realmente poderia ser caso abrisse mão da sua moral. Após surrar o mafioso, Parker deixa claro que voltaria para matá-lo caso May não resistisse.

Nesse momento, Peter chegou perto de atravessar o limiar de todo o herói, de tomar para si a responsabilidade que ninguém deveria possuir sozinho. Isso torna o seu processo mais complexo do que inicialmente poderia parecer.

Hulk

Se as penas estavam começando a diminuir, o Golias Esmeralda chegou para zerar o código penal. Antes de tudo, vale lembrar: Hulk e Bruce Banner definitivamente não são a mesma pessoa. O cientista franzino passou anos da sua vida tentando se livrar da fera que insistia em atormentar seu inconsciente, em destruir seu mundo cada vez que sentia medo ou raiva.

Mesmo que por vezes Banner sinta certo prazer em tornar-se o Hulk, em fazer da Gárgula Verde um dissipador para o seu ódio, é fato que, com raras exceções (como o Professor Hulk), quando o homem dá lugar ao monstro, sua consciência se esvai.

Logo em sua primeira aparição em The Incredible Hulk #1, o titã escapa de suas bases militares, esmagando tanques e esmurrando soldados. Sua vida a partir daí tornou-se uma eterna fuga, com o exército liderado pelo General Thunderbolts Ross, que transformou essa caçada em uma obsessão pessoal, do tipo que custa centenas de homens e bilhões de dólares.

A cada transformação, destruição, mortes e dor, para ele e para qualquer um que estivesse à sua volta.

Sua instabilidade é tamanha que nem mesmo seus aliados estão seguros ao seu lado. Entre Fantastic Four #25 e Fantastic Four #26, o Golias Esmeralda simplesmente meteu a porrada no Quarteto Fantástico e nos Vingadores ao mesmo tempo, mandando Nova York pelos ares no processo.

Todavia, nenhuma cidade sofreu tanto nas mãos do monstro quanto Las Vegas entre Fantastic Four #533-535. Logo após ser atingido por uma bomba de radiação gama, Hulk sai destruindo a cidade inteira, varrendo o chão com o Quarteto Fantástico no processo. Sua mente estava tomada por alucinações que apenas aumentavam o seu ódio, deixando-o tão irracional quanto o costume.

Esse surto custou a vida de 26 adultos, 2 crianças e um cachorro. Essa foi a gota d'água para que os Illuminati enviassem o titã para fora da Terra.

Como todos nós sabemos, a estadia de Hulk em Sakar não terminou da melhor maneira, e, quando ele voltou à Terra, promoveu uma destruição generalizada, espancando e aprisionando dezenas de super-heróis e obliterando Nova York.

É… acho que nem Jennifer Walters conseguiria livrar seu primo do xadrez depois disso tudo.

Demolidor

Esse pelo menos não precisaria gastar com advogado. Semelhante a Batman, Matt Murdock agia como um vigilante brutal nas ruas da Cozinha do Inferno, fazendo do medo e da violência sua marca registrada.

Todavia, o que diferencia Murdock de outros vigilantes é justamente o prazer e a necessidade que ele tem pela violência, que são ampliados quanto mais ele é provocado. Em Daredevil #181, o Homem Sem Medo confronta o Mercenário no topo de um prédio, pouco depois de o mesmo ter assassinado Elektra, o amor de sua vida.

Até então, sua fé cristã havia sido capaz de conter seus impulsos, mas, naquele momento, seu ódio se fez maior do que ela. Após espancar o assassino impiedosamente, Matt o arremessa do prédio, com a clara intenção de matá-lo. O vilão perde temporariamente a capacidade de andar após o impacto, mas ainda respirava. Mas isso não muda o fato de que o Demolidor havia, sim, ultrapassado seus limites.

Posteriormente, ele invade o hospital apenas para torturar o Mercenário, pondo um revólver descarregado em sua testa, apenas para amedrontá-lo. Não era mais impulso, era sadismo puro contra o homem que havia destruído sua vida.

Em HQs futuras, como Daredevil #512, Matt literalmente mata o vilão, mutilando-o sem piedade. No entanto, na ocasião, ele estava sob manipulação do Tentáculo, incapaz de pensar por si mesmo, o que possivelmente o livraria da culpa.

Como pudemos ver hoje, ser um herói nos quadrinhos possivelmente iria te render umas boas décadas na cadeia. E para você, faltou alguém? Como você defenderia esses heróis em um julgamento? Não deixe de comentar!

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