Qual deles tem a melhor Jornada do Vilão? (Vader, Sauron e Voldemort)
Muitos devem conhecer a Jornada do Herói de Joseph Campbell, usada para desenvolver grandes heróis da cultura pop, como Luke Skywalker, Harry Potter, Frodo e tantos outros. Apesar de menos conhecida, a Jornada da Heroína também é muito presente na ficção, sendo usada como espinha dorsal para o arco de personagens como Mulher-Maravilha, Mulan e Katniss Evergreen, criada por Maureen Murdock. Porém, existe um terceiro arquétipo, nascido não de uma mente específica, mas de um espelhamento da própria Jornada de Campbell, demonstrando como os antagonistas também têm suas próprias caminhadas, que em muito se assemelham com as feitas pelos heróis, no entanto, com significados muito diferentes. Diversos vilões icônicos passaram por essa concepção, entre eles, Darth Vader, Voldemort e Sauron, dos quais falaremos hoje. Afinal, qual deles cumpriu melhor os passos da Jornada do Vilão?
STAR WARSHARRY POTTER
Rafael Silva
2/9/202622 min read
Darth Vader


Antes de mais nada, é necessário entender: quais são os pontos dessa jornada? Vamos conferir:
1. Mundo Comum
O vilão começa em sua vida normal. Algo dá errado: um experimento falha, ele é abandonado por uma organização, perde alguém que ama ou é vencido por seus próprios demônios.
2. Chamado ao Conflito
Movido por vingança, abandono ou uma visão distorcida da realidade, ele passa a acreditar que enfrentar o “bem” é o caminho certo.
3. Recusa Inicial
No início, hesita. Talvez não consiga matar, talvez tente justificar a injustiça que sofreu antes de cruzar a linha.
4. Encontro com o Mentor.
Surge uma influência: outro vilão, um soldado, um livro, uma verdade escondida. Ele adquire o conhecimento que o empurra para o lado sombrio.
5. Travessia do Limite
Ele age: mata, rouba, recruta, planeja. Não há mais volta. Nasce oficialmente o vilão.
6. Provas, Aliados e Inimigos.
Fracassa, tenta de novo, persegue seu objetivo: caçar o herói, revelar segredos, destruir quem o feriu. O confronto se repete.
7. Aproximação do Confronto Final.
Chega ao grande momento: a batalha, o lançamento da arma, o encontro decisivo com seu alvo.
8. Provação: Queda do Vilão
Enquanto o herói renasce, o vilão cai. É derrotado, preso, morto ou transformado. Sua jornada como antagonista chega ao fim.


Assim como a Jornada do Herói, a Jornada do Vilão se inicia com a quebra da normalidade e o chamado para a ação. Analogamente ao herói, o vilão hesita inicialmente, achando-se incapaz de fazer determinadas coisas, apesar de sua motivação inicial, e assim, surge um mentor, para instruí-lo, e fazê-lo romper com os limites que ele mesmo havia estabelecido.
A partir daí, o personagem se torna realmente mal, sendo capaz de tudo para atingir seu objetivo, fazendo inimigos e aliados no processo. No final, ele recebe sua provação, em que na maioria dos arcos, termina morto, preso e em raras ocasiões, resgatado das trevas.
Para entender como Anakin/Vader trilhou esse caminho, é interessante comparar sua trajetória com a de seu filho, Luke, o arquétipo perfeito da Jornada do Herói. Pois até certo ponto, a trajetória do Anakin seguiu passos semelhantes aos de Luke, mas em momentos chave, foi distorcida, e em um rápido lapso temporal, ele deu todos os passos na direção do mal.
Imitando Luke, Anakin nasceu em Tatooine. Como um escravo, sua vida não tinha perspectiva além do trabalho e de raros momentos de satisfação, como quando Watto lhe permitia correr nos rachas de Pod. Pai e filho tinham uma rotina tediosa, sonhavam em conhecer a galáxia, voar por entre as estrelas, mas permaneciam presos em um planeta sem esperança.
A chamada para a aventura de ambos veio por meio de um Cavaleiro Jedi: para Luke, Obi Wan; para Anakin, Qui Gon Jinn. Kenobi explica a Luke o significado da mensagem que havia recebido de R2-D2 e expõe seu passado como o filho de um Jedi, conectando-o a algo muito maior que uma mera fazenda umidade em Tatooine.
Para Anakin, Qui Gon simbolizava a liberdade em todos os sentidos. O sábio não só revelou que o garoto era um sensitivo, como ainda lhe pôs como o Escolhido das Profecias, explicando todos os dons que Anakin sabia ter, mas não controlar.
Da noite para o dia, um garotinho desconhecido de Tatooine, havia descoberto ser o suposto salvador da galáxia, recaindo sob suas costas, o peso de restaurar o equilíbrio na Força.
Sabendo disso, Jinn fez de tudo para que Anakin fosse liberto das garras de Watto, algo que de fato conseguiu usando-se de sua lábia.
Inicialmente, eles relutam em seguir seus destinos, mas algo os faz aceitá-lo. Para Luke, a morte de seus tios, para Anakin, foi o pedido de sua mãe, Shmi, que, por mais que não pudesse segui-lo, queria ver seu filho livre.
No entanto, para Luke, aquilo significou uma ruptura total com Tatooine. Agora, ele não tinha mais família (ao menos era o que ele pensava…). Já para Anakin, aquela despedida nunca foi completa, com ele prometendo voltar como um Jedi poderoso e libertar sua mãe e todos os escravizados do planeta. Por mais que sua mente sonhasse além daquele deserto escaldante, seu coração jamais saiu dele, e essa seria sua maior fraqueza.
Em ambos os casos, houve uma descoberta de um propósito maior e a quebra do status quo. Luke juntou-se a Han Solo, Chewbacca e Leia, e confiando na Força, foi capaz de destruir a Estrela da Morte, abraçando sua missão e transformando-se no rosto da Aliança Rebelde. Finalmente, ele tinha a vida de aventuras que tanto sonhou, enfim, ele fazia parte de algo maior, só não sabia ainda o preço que isso cobraria.
Anakin conseguiu destruir a imensa nave Lucrehulk, que liderava o bloqueio Separatista de Naboo, mostrando desde cedo sua aptidão com a Força.
O Escolhido foi instruído por Obi-Wan após a morte de Qui-Gon, enquanto Luke precisou treinar por conta própria, até conhecer Yoda em Dagobah e tornar-se seu aprendiz. Ambos são confrontados pelo ódio que lhes habita e pelos sentimentos que permeiam seus corações. Anakin é incapaz de superar a saudade de sua mãe e seu amor por Padmé, enquanto Luke não é capaz de deixar que seus amigos morram em Bespin para que possa seguir seu treinamento com Yoda. Dessa forma, ambos são levados ao seu primeiro encontro com seu próprio lado sombrio, e os resultados são bem diferentes.
Luke já demonstrava impulsividade desde o duelo contra seu próprio lado sombrio na Caverna Negra de Dagobah, e Yoda havia lhe instruído a permanecer confiante na Força, sem permitir que Vader explorasse seu ódio, e assim ele o fez. Skywalker enfrenta O Lorde Sith sem medo, e por mais que o vilão o provocasse, ele não sucumbiu ao lado sombrio.
Mesmo desmembrado e apunhalado pela descoberta de que Vader era na realidade seu pai, Anakin Skywalker, Luke não se entregou, preferindo se lançar à morte do que entregar-se ao lado sombrio. O abismo olhou para ele, e Luke virou o olhar.
Por sua vez, Anakin também rompeu com a promessa que havia feito a Obi-Wan e deixou Naboo com Padmé, viajando até Tatooine ao sentir que sua mãe corria perigo. Ao chegar lá, descobre que Shmi havia sido capturada pelo Povo da Areia. Ele chega tarde demais para salvá-la, e ao sentir o corpo sem vida de sua mãe em seus braços, ele fez o que sua raiva desejava, massacrando cada homem, mulher e criança naquele vilarejo. O abismo olhou para ele, e Anakin simplesmente se jogou.
Daqui em diante, a Jornada do Herói de Anakin Skywalker se encerra, e o ciclo da Jornada do Vilão se inicia. Enquanto Luke ascendeu para a luz, Anakin lançou-se nas trevas.
Muitos acreditam que Anakin tenha caído para o lado sombrio apenas em Vingança dos Sith, mas, pessoalmente, creio que ele já estava no caminho desde Ataque dos Clones, e a sedução de Palpatine veio apenas para fechar o caixão.
Após isso, suas narrativas caminham para o ápice. Luke se sente preso entre os sentimentos por seu recém-descoberto pai e os pedidos de Obi-Wan e Yoda para enterrar tais sentimentos, para que não sejam explorados pelo Imperador. Porém, Skywalker recusa-se a fazê-lo, ressignificando-os, de forma a tentar buscar algo de bom naquele que agora era mais máquina do que homem.
No duelo derradeiro na Sala do Trono de Palpatine, é o amor de Luke por seu pai que impede que um mate o outro, e sua piedade em não matá-lo é justamente o que faz Vader olhar para a parte de Anakin Skywalker que ainda guardava dentro de si, fazendo-o sacrificar-se por seu filho, matando o Imperador e cumprindo seu destino.
Luke cruzou o limiar, cumprindo seu destino ao seu modo, sem deixar que seus sentimentos negativos e influências externas turvassem seu julgamento. Sua fé nos outros o salvou, como um verdadeiro jedi.
Por outro lado, os sentimentos de Anakin foram os responsáveis por puxá-lo para o abismo. Medo de perder Padmé e seus filhos ainda no ventre, raiva por não ser consagrado mestre, ansiedade em não ser aquilo que toda a galáxia esperava dele. Esse ponto, seria o Mundo Comum de Vader.
No que se refere ao medo da perda, Luke e Anakin são idênticos, mas o Escolhido tinha um problema ainda mais sério: a necessidade de aprovação. Seu novo mentor, Palpatine, lhe bajulava constantemente, dando a ele a aprovação que tanto desejava, algo que Luke jamais buscou, enquanto Luke sempre batia de frente com seus mestres.
Em uma mistura de temor e sede de poder, Anakin abraçou o lado sombrio e deixou-se levar pelas vontades de Palpatine. Seu chamado ao conflito foi o momento em que perdeu a fé nos Jedi, algo que já vinha acontecendo desde Clone Wars, por momentos-chave, como a renúncia de Ahsoka. Porém, ele relutava em abandonar a Ordem Jedi, pois seu senso de compromisso ainda era mais forte. No entanto, as sutis manipulações de Darth Sidious lhe fizeram gradualmente trair esse compromisso. E isso nos leva ao momento decisivo em sua jornada: a Vingança dos Sith.
Seu momento de cruzar o limiar foi quando arrancou a mão de Mace Windu, permitindo que um lorde sith matasse um mestre jedi diante de seus olhos. Quando se ajoelhou perante Sidious e foi nomeado Darth Vader, Anakin havia oficialmente se transformado naquilo que havia nascido para destruir.
O assassinato dos mestres e dos younglings no Templo de Jedi, o massacre dos líderes Separatistas, a agressão contra Padmé e a tentativa de matar Obi-Wan foram apenas outros passos rumo ao fundo do poço.
Quando Anakin tem seu corpo destruído em Mustafar, o ódio se torna seu único abrigo, mantendo-o alheio à realidade horrível que ele havia escolhido para si mesmo. Seus testes, aliados e inimigos, eram definidos pela sua missão com o Império. Pode-se dizer que Palpatine, por mais nocivo que fosse, era seu único “amigo”, o único que ao menos sabia seu verdadeiro nome. Seus inimigos eram muitos, e ele desfrutava mais da relação com eles do que das com seus “aliados”, uma vez que ela alimentava seu ódio, que podemos chamar de “O ópio de Vader”.
Cada dia para Vader era um desafio, mas pode-se dizer que eles se tornaram ainda maiores após a descoberta de seu filho, Luke.
A abordagem de Vader é curiosa, pois seu desafio não era apenas converter Luke para o lado sombrio, mas convencer a si mesmo a fazer isso, e no processo, não acabar abandonando o lado sombrio. Cada vez que pensava em Luke, ele se lembrava de Padmé, Obi-Wan, Ahsoka, todos aqueles que o amaram antes de destruir seu próprio mundo. Por outro lado, ele vislumbra o poder de seu filho como a única forma de deixar de ser um fantoche do Imperador e também de não ficar completamente sozinho. Luke era a única coisa que lhe restava.
No fatídico duelo em Retorno de Jedi, Vader atravessa um verdadeiro mar de emoções. Ele impede que Luke mate Palpatine, não por gostar de seu mestre, mas por temer que essa decisão guiada pelo ódio de Luke pudesse transformá-lo em um monstro, como ele mesmo já era. As provocações que Vader faz a Luke na sequência mostram o quão bipolar sua mente estava, ele não sabia mais por qual lado estava lutando. Quando Skywalker decepa sua mão, fica claro que não foi Luke que o derrotou, foi o próprio Anakin.
A sua queda não veio puramente pela força de seu adversário, mas pela sua própria recusa em permanecer nas trevas. Pai e filho encerram suas jornadas no mesmo ponto, com Anakin olhando nos olhos de Luke e dizendo a icônica frase: “Diga à sua irmã que você estava certo”. Luke tornou-se um herói completo, derrotando seus próprios demônios externos e internos, enquanto Vader fez o mesmo, e por isso, foi destruído.
Suas caminhadas se entrelaçam de forma brilhante, de forma que seria impossível terem fim caso o outro não existisse. É justamente isso que torna a Jornada de Vader tão brilhante, pois ela atravessa não só a Jornada do Herói, como praticamente toda a história de Star Wars, e seu final é mais poético do que qualquer outro nessa lista, pois é o único caso em que o vilão escolheu perder por amor.
Para tornar tudo mais claro, vamos dividir em tópicos os oito passos da Jornada de Queda e Redenção de Anakin:
Mundo comum: sua infância como escravo em Tatooine/Revolta com os jedi.
Chamado para aventura: é descoberto por Qui Gon Jinn/relacionamento oculto com Padmé e sede de poder.
Recusa da ligação: reluta deixar Tatooine, devido aos sentimentos por sua mãe, porém, acaba o fazendo pela vontade dela/Insiste em permanecer leal a Ordem Jedi, pelo menos de início.
Encontro com o mentor: Após a morte de Qui Gon, passa a ser treinado por Obi Wan, e ao mesmo tempo, entra na mira de Palpatine, seu segundo mentor, com suas verdadeiras intenções ainda ocultas.
Cruzando o limiar: participa do assassinato de Mace Windu e, posteriormente, mata centenas de jedi, inclusive crianças.
Testes, aliados e inimigos: tem seu corpo destruído e passa a viver de seu ódio, tendo Palpatine como seu único “amigo”, mesmo que o odiasse.
Abordagem: conhece Luke e vê nele sua única esperança de liberdade, ao mesmo tempo que sente sua conexão com o lado sombrio enfraquecer.
Queda: Vader se autodestrói, livrando seu coração das trevas, e voltando a ser Anakin Skywalker.
Voldemort


Aquele Que Não Deve Ser Nomeado compartilha com Harry Potter uma relação quase tão amalgamática quanto Luke e Vader, o que torna possível usar a mesma lógica de ligação entre suas jornadas.
Tom Riddle nasceu filho de Mérope Gaunt, a caçula de uma das famílias mais elitistas no que se refere à pureza de sangue, e do nobre trouxa, Tom Riddle Sr., que os abandonou pouco antes de seu nascimento.
Vivendo como uma mendiga pelas ruas de Londres, Mérope viu seu filho nascer no Orfanato Wool, e a única coisa que pôde fazer por ele foi lhe dar o nome do homem que ela amou, mas que jamais correspondeu. Riddle era estranho desde bebê, nunca chorava, mantinha-se distante de todas as outras crianças e fazia coisas inexplicáveis, como se fosse… magia.
Harry Potter vivia na mesma condição do Mundo Comum. Após a morte de seus pais, pelas mãos do próprio Voldemort, passou a viver com seus tios, Válter e Petúnia Dursley, e seu primo, Duda. Durante seus onze anos na Rua dos Alfeneiros, Potter viveu como um pária dentro da própria casa, sofrendo abusos psicológicos, vestindo-se com roupas velhas e rasgadas de Duda, e mantendo-se distante do resto do mundo. Foi então que o chamado à aventura surgiu na caminhada de Harry, e também, de seu arqui-inimigo.
Aos onze anos, Dumbledore foi a Wool, revelando a Tom Riddle que ele era um bruxo. Diferente de Harry, que ficou desacreditado ao ouvir essas mesmas palavras saírem da boca de Hagrid em Pedra Filosofal, Riddle sentiu-se orgulhoso, ele adorava se sentir diferente daqueles que o cercavam, melhor do que eles.
Uma vez em Hogwarts, a recusa de ligação entre eles também se deu de forma diferente. Potter pestanejou em seguir Hagrid, mas rapidamente aceitou segui-lo. Ele fica fascinado pelo mundo bruxo, e nele conhece seus amigos, professores e a verdade sobre a morte de seus pais.
O questionamento de Riddle foi bem diferente. Desde a infância, ele tinha a curiosidade de saber quem eram seus pais. Ao saber que era um bruxo, ele passou a crer que sua mãe não poderia ter o dom da magia, pois uma bruxa jamais poderia morrer de uma forma tão simples. Então, ele buscou o nome de seu pai em todos os arquivos de Hogwarts e, ao não achar nada, chegou a uma conclusão horripilante para si mesmo: ele era um trouxa.
Ao viajar para Little Hangleton, ele encontra Tom Riddle Sr. e seus avós, matando-os sem piedade, expurgando as raízes trouxas em seu sangue. Sua recusa não foi em abraçar o mal, e sim, em aceitar ser mestiço, como aqueles que ele abominava.
Harry teve múltiplos mentores, desde Hagrid, Dumbledore e Lupin, até Snape, que, mesmo o odiando, lhe protegia pelo amor que sentia por sua mãe, Lílian Potter. Já a relação de Riddle com seu mentor é um tanto inusitada. Horácio Slughorn foi uma espécie de mentor não intencional, ao ser manipulado por Tom a revelar ser possível fazer mais de uma horcrux. Riddle usou seu mentor para obter mais poder, enquanto Harry deixou-se levar por eles, que em alguns casos, como Snape, Dumbledore e Lupin, morreram por ele.
A cruzada do limiar de Riddle foi a morte de Myrtle Elizabeth Warren, a Murta Que Geme, em seu sétimo ano em Hogwarts. Ao libertar o Basilisco da Câmara Secreta e assassinar uma aluna para criar uma segunda horcrux, o futuro Lorde das Trevas corrompeu sua alma pela segunda vez e ampliou ainda mais sua ficha criminal, chegando a um ponto em que não havia mais volta.
Harry, por sua vez, cruza o limiar a cada livro e filme, sempre que vai a Hogwarts, o Eleito aceita uma série de desafios, desde matar o Basilisco até disputar o Torneio Tribruxo.
O momento de teste de Voldemort engloba toda a Primeira Guerra Bruxa. Ele reúne os Comensais da Morte e inicia um conflito contra o Ministério da Magia e a Ordem da Fênix, definindo claramente suas relações de aliados e inimigos. Os Comensais, em sua maioria, eram covardes preconceituosos, em busca de alguém poderoso o suficiente para protegê-los enquanto moldavam a sociedade excludente que sonhavam. Não à toa, assim que o vilão fracassa em seu teste e tem seu corpo destruído ao tentar matar Harry, boa parte deles lhe abandona, com exceção dos fanáticos como Bellatrix Lestrange e Bartô Crouch Jr.
Naquele momento, os destinos de Voldemort e Harry Potter se entrelaçam, com um pedaço da alma do vilão instalando-se em Harry, transformando-o em uma horcrux indesejada, e lhe concedendo o dom de ofidioglota. Como a previsão de Sibila Trelawney havia dito: um não poderia viver enquanto o outro estivesse vivo.
A ameaça do inimigo pairou sobre o Eleito durante seus sete anos em Hogwarts, e para o Lorde das Trevas, matar o garoto era uma questão de honra, ele ansiava por humilhar o Menino Que Sobreviveu.
Por quatorze anos, o maior bruxo das trevas de todos os tempos foi reduzido a menos que um espírito, menos que um fantasma, tornando-se um fragmento degenerado daquilo que um dia foi.
Para Harry, novamente, a saga como um todo o conduz por cada uma dessas etapas. Seus aliados vão desde seus amigos Rony e Hermione até os professores. Seus inimigos vão desde a rivalidade inicialmente infantil com Draco Malfoy até a ameaça existencial de Voldemort.
A abordagem de ambos se desenrola simultaneamente. Enquanto Voldemort se apossa do Ministério da Magia e de Hogwarts após a morte de Alvo Dumbledore, Harry e seus amigos viajam pelo Reino Unido, em busca das partes da alma do vilão.
Isso os leva ao confronto derradeiro: a Batalha de Hogwarts, onde Potter escolhe se entregar para morrer nas mãos de seu nêmesis, para que o conflito termine. Quando Voldemort viu Harry cair sem vida no solo gélido da Floresta Proibida, graças ao mesmo feitiço que havia falhado dezessete anos atrás, ele enfim se sentia vitorioso. Ele havia vencido Dumbledore, Harry, o Ministério, e estava a instantes de consagrar-se indiscutivelmente como o bruxo mais poderoso de todos os tempos.
Porém, a Jornada do Herói de Harry ainda estava em seu penúltimo estágio: a ressurreição. Graças à proteção de sua mãe, Harry foi novamente capaz de superar a morte, mostrando que o amor é certamente a magia mais poderosa desse mundo mágico.
De volta ao mundo dos vivos, Harry encontra Voldemort no último passo de suas jornadas. Eles se enfrentam diante de todo o Salão Comunal, e novamente, o feitiço se volta contra o feiticeiro, e Voldemort morre, vítima de sua própria maldição. Ao contrário de Vader, que foi redimido e “derrotado” por seus sentimentos, Voldemort foi definitivamente esmagado por eles, no caso: arrogância e ódio. Ele se julgava imortal, invencível, e por isso, menosprezava o amor, uma vez que ele mesmo sempre foi incapaz de senti-lo.
Essa sempre foi a grande diferença entre ele e Harry. Voldemort queria controlar todos à sua volta pelo medo e sempre temeu a morte mais do que tudo. Por isso, Voldemort tinha tanto gosto em matar, pois além do assassinato ser peça-chave para a criação das horcruxes, esses crimes lhe faziam sentir-se sob o poder dessa força que tanto temia, decidindo quem morria, enquanto prolongava sua própria vida por meio da morte desses.
Potter amava seus amigos e mentores, e não pestanejou em entregar sua vida por eles. Por mais que inicialmente eles tivessem semelhanças, desde a aparência até a capacidade de falar a língua das cobras, eles definitivamente não eram iguais.
Isso casa perfeitamente com a frase dita por Dumbledore ao Eleito em Câmara Secreta: "São as nossas escolhas, Harry, que mostram o que realmente somos, muito mais do que as nossas habilidades."
Assim, Voldemort morreu, cometendo o mesmo erro que havia cometido naquela noite em Godric's Hollow. A jornada de Harry chegou ao seu fim glorioso, enquanto a dele terminou em fracasso, como sua própria arrogância já havia decretado desde o princípio No fim, aquele que sonhava em ser o senhor da morte, acabou morto, assim como todos aqueles que assassinou na busca pela imortalidade.
Para facilitar a compreensão, vamos listar cada um dos pontos da Jornada de Voldemort, desde seu sonho de imortalidade até sua morte:
O mundo comum: Tom Riddle é deixado por sua mãe no orfanato.
Chamada para a aventura: Dumbledore leva Riddle a Hogwarts.
Recusa da ligação: ele se recusa a ter sua árvore genealógica ligada a um trouxa, no caso, seu pai.
Encontro com o mentor: ele usa Slughorn para obter conhecimento.
Cruzando o limiar: o assassinato da Murta Que Geme e a abertura da Câmara Secreta o lançam definitivamente no caminho das trevas.
Teste, aliados e inimigos: forma os Comensais da Morte e busca derrubar o Ministério, mas falha em matar Harry.
Abordagem: recupera sua forma física e toma Hogwarts, acreditando piamente ter matado Potter.
Queda: é morto por Harry e termina estirado no chão, assim como centenas de outros bruxos e bruxas.
Sauron


No caso do Senhor do Escuro, sua jornada diverge um tanto da de Frodo, uma vez que eles nem sequer se encontram pessoalmente ao longo da trilogia de Senhor dos Anéis, todavia, ainda é possível notar semelhanças em suas caminhadas.
Originalmente chamado Mairon, Sauron foi um dos seguidores de Melkor em sua rebelião contra Eru Ilúvatar, o deus criador de toda a vida na Terra Média. Replicando a queda de Lúcifer nas escrituras bíblicas, Tolkien iniciou a jornada de Sauron, em um mundo comum perfeito. Mairon era o equivalente a um anjo no universo de Senhor dos Anéis, mas, ainda assim, foi corrompido pela ganância.
Mairon sempre foi fascinado pelo controle e pela ordem absoluta, e Melkor soube explorar esses sentimentos para corrompê-lo, levando-o a crer que somente por meio da tirania, o equilíbrio final seria alcançado.
Por sua vez, Frodo vivia em paz na Vila dos Hobbits, até ter sua paz rompida por Gandalf, tendo assim, tomado para si a missão de destruir o Um Anel. Não por vontade própria, mas por necessidade, ao perceber que talvez fosse o único capaz de suportar esse fardo. Um saiu da inércia por ganância, outro, por senso de dever.
Algo que os diferencia é justamente a falta de relutância plena por parte de Sauron. O Senhor do Escuro aceita praticamente de imediato entrar na sanguinária guerra contra a Terra Média. Porém, sua relutância não foi em seguir o mal, mas sim, em não ser o seu Senhor.
Quando a derrota de Melkor mostrava-se inevitável, o Senhor dos Anéis simplesmente recusou-se a afundar com ele e o abandonou, nomeando a si mesmo como o novo Senhor do Escuro, escondendo-se nas sombras, esperando pelo momento de erguer seus exércitos contra a Terra Média.
Já Frodo, mais de uma vez, desejou que o anel jamais tivesse sido entregue a ele, o que nos rendeu uma das mais célebres frases de Gandalf, o Cinzento:
“Todos que vivem para ver tais tempos desejam isso, mas não cabe a eles decidir. Tudo o que temos que decidir é o que fazer com o tempo que nos é dado.” Mais uma vez, Frodo mostrou-se forte o suficiente para suportar um peso que jamais desejou carregar.
No caso de Sauron, o encontro com o mentor, em seu caso, Melkor, ocorreu ainda antes de sua revolta contra Eru Ilúvatar, ao contrário de Frodo, que passou a ser acompanhado por Gandalf após ter embarcado na Sociedade do Anel. Apesar desse breve desalinhamento, seus destinos começam a se cruzar novamente no decorrer de seus trajetos.
O cruzamento de limiar para Frodo foi certamente o momento em que ele e Sam se viram separados de Aragorn e Legolas, e acreditando que Gandalf havia sido morto por Balrog. Dois hobbits, sozinhos, incumbidos de uma missão que para 99% da Terra Média seria tida como impossível. Mas, eles não desistiram, reconhecendo que esse era momento em que definitivamente começaram a caminhar com suas próprias pernas, contando apenas com sua própria esperteza e força de vontade.
Para Sauron, a cruzada de linha pode ter acontecido em dois momentos. Obviamente, seguir Melkor foi um momento de aceitação do mal, mas insistir nos mesmos desejos malignos de seu antigo mentor, mesmo após sua derrota, levando o terror à Terra Média durante toda a Segunda Era, foi certamente o momento em que Sauron tomou para si o posto de face do mal. Forjando o Um Anel, o símbolo máximo de sua maldade, ele não era mais um simples tenente, era o Lorde das Trevas, ao qual todas as criaturas temiam.
Sob sua liderança, os Orcs mataram aos milhares, fazendo com que homens, anões e elfos se unissem pela segunda vez em toda a história, apenas para detê-lo.
O momento do teste e da formação de alianças e inimizades ocorreu de formas muito distintas entre eles. Frodo foi constantemente testado pelo Anel, resistindo mais de uma vez às suas tentações quase irresistíveis, ao mesmo tempo que mostrou-se capaz de ser piedoso mais de uma vez, como nas vezes em que poupou Gollum da ira de Sam. Além de seus amigos na Sociedade do Anel, Frodo fortaleceu seus laços especialmente com o próprio Sam, que foi a mão que o levantou em seus momentos de fraqueza. Nas palavras dele: “Não posso carregar o Anel para você, mas posso carregar você”.
Gollum certamente era seu inimigo mais mortal, pois não era apenas blindado por sua própria compaixão, como também servia de reflexo para o que Frodo poderia se tornar caso a tentação do Anel superasse sua vontade.
Para Sauron, os séculos que se seguiram à vitória de Isildur sobre ele foram, sem dúvida, muito sombrios. Sem o poder de um deus em suas mãos, o Senhor do Escuro precisou ser muito mais ardiloso, agindo como uma verdadeira serpente, seduzindo e matando suas vítimas com seu veneno. O próprio Isildur sucumbiu ao poder de Sauron oculto no Anel, sendo incapaz de destruí-lo e, posteriormente, morrendo em decorrência dessa mesma incapacidade.
Enquanto reforçava suas tropas por trás dos enormes muros negros de Mordor, Sauron manipulava as entrelinhas de seus inimigos. Ele transformou Saruman, o mais poderoso e experiente entre os Istari (magos da Terra Média), em nada mais que uma peça em seu tabuleiro, usando-se do mesmo veneno que Melkor havia usado para seduzi-lo no passado: a chance de ter em suas mãos, poder e controle total.
A abordagem de Sauron se inicia justamente no começo da jornada de Frodo, quando ele passa a lançar suas tropas sob os territórios que antes governava, dando início ao maior conflito da Terceira Era. Por mais que tenha sofrido derrotas desastrosas em Minas Tirith e no Abismo de Helm (mais por incompetência de seus soldados do que sua…), era inegável que o poder de Sauron era inigualável, e nem mesmo Aragorn e seus vastos exércitos poderiam detê-lo. Eles lutariam até sua última gota de suor e sangue, mas no final, inevitavelmente, cairiam.
Tudo isso nos leva à Batalha de Mordor, no final de Retorno do Rei, onde Aragorn, Gandalf, Gimli e Legolas se veem cercados por milhares de Orcs, quase aceitando a derrota. Enquanto isso, do outro lado da Montanha da Perdição, Frodo e Sam aproximavam-se do fogo que havia forjado o mal milênios antes, e que dessa vez, seria usado para destruí-lo.
Esse é o momento da ressurreição de Frodo e da Queda de Sauron. O Anel tenta Frodo pela última vez, instantes antes dele arremessá-lo no fogo, e consegue enfim quebrar sua vontade. Quando Frodo pôs o Anel em seu dedo à beira daquele mar de fogo, Sauron venceu. Todavia, Gollum viria ao encontro de seu Precioso, arrancando o dedo de Frodo para recuperá-lo, e em meio ao duelo, acabaria se lançando para a morte junto a ele. Tecnicamente, Frodo falhou no fim de sua jornada, mas, ainda assim, Sauron foi derrotado, pois um terceiro arco, o de Gollum, encontraria seu fim no mesmo ponto que o deles: como um pecador incapaz de superar o pecado, e queimando junto a ele.
A Montanha da Perdição desaba, e as tropas de Sauron são definitivamente derrotadas. Frodo e Sam já haviam aceito a morte, ilhados em meio ao fogo de Mordor, até serem salvos pelas grandes águias, guiadas por Gandalf. Por fim, Frodo volta de onde havia partido, a Vila dos Hobbits, onde passa o resto de seus dias em paz, tido por todos como o grande herói da Terra Média, com até mesmo reis ajoelhando-se perante ele. Para Sauron, era o fim de um ser que havia nascido para ser eterno, mas que abriu mão da imortalidade por poder.
A jornada de Sauron talvez seja a mais complexa entre todas as três, por isso, mais uma vez, vale recapitular seus passos, da ascensão até a queda:
Mundo comum: nasce como um ser divino.
Chamada para a aventura: une-se a Melkor em sua guerra contra a Terra Média.
Recusa ligação: trai Melkor após sua derrota.
Encontra o mentor: aqui, ocorre antes, ainda antes da chamada para a aventura, quando é seduzido por Melkor.
Cruzando o limiar: assume o posto de comandante do exército de Mordor e segue atacando a Terra Média.
Testes, aliados e inimigos: é derrotado, mas usa-se de sua lábia para reunir aliados, inclusive convertendo inimigos.
Abordagem: cerca as tropas inimigas e vê Frodo falhar em sua provação final.
Queda: É morto pelo vício de Gollum.
Como pudemos ver, cada um deles tem suas particularidades, mesmo seguindo o mesmíssimo modelo de Jornada do Vilão. Darth Vader seguramente é o que melhor segue o arquétipo, seguindo uma jornada espalhada diretamente na de Luke, e que de quebra, entrega um final inovador, que se distingue da pura e simples vitória do herói sobre o vilão.
Voldemort, por sua vez, tem sua jornada marcada por uma aptidão inerente ao mal, fazendo com que até mesmo seu mentor se tornasse uma ferramenta em sua trajetória. Sauron tem seu arco repleto de simbolismos, principalmente cristãos, e por mais que subverta alguns conceitos, como a própria ordem dos acontecimentos, mantém um esqueleto semelhante ao conceito clássico.
Por mais que Vader siga mais ao pé da letra a Jornada do Vilão, cada uma delas possui pontos de destaque e certamente merece crédito por isso:
Melhor Jornada do Vilão: Darth Vader (Pela simetria poética com o herói e o arco completo de queda e redenção).
Mais Aterrorizante: Lorde Voldemort (Pelo sadismo visceral, a mutilação da própria alma e o prazer no controle através do medo).
Mais Ambicioso: Sauron (Enquanto os outros queriam poder ou vida, Sauron queria reordenar a própria existência sob sua vontade absoluta).
Mais Persuasivo / Ardiloso: Sauron (Pela capacidade de corromper reinos inteiros e seduzir até os mais sábios, como Saruman e os ferreiros de Eregion).
Perfil Psicológico Mais Denso: Lorde Voldemort (Pelo estudo da Tanatofobia e as raízes profundas no abandono e no preconceito).
Melhor Relação com Mentor: Darth Vader (A relação mestre/escravo com Palpatine é o motor que sustenta a tragédia de toda a saga).
Maior Impacto Geopolítico: Sauron (Suas ações moldaram eras inteiras, fronteiras de continentes e o destino de todas as raças da Terra Média).
Melhor Relação com o Inimigo:Lorde Voldemort(A ligação quase íntima e "amalgamática" com Harry, onde um é literalmente o refúgio da alma do outro).
E para você, qual deles teve a melhor jornada?
