POR QUE ELES ESTAVAM ERRADOS?

Muitas vezes, os vilões do cinema possuem uma ´´boa intenção´´, por trás de seus atos horrendos. Ao mesmo tempo, existem heróis, que mesmo lutando pelo certo, e sendo admirados por muitos, acabam somente maquiando o problema real. Alguns deles, saem da esfera da ineficiência, e entram na esfera de parte do problema. Hoje, vamos entender porque certos vilões estavam errados, apesar de terem uma boa motivação, e porque alguns heróis, apesar de seguirem a princípios, muitas vezes, dão errado.

MARVEL E DC

5/10/202610 min read

Magneto

Muitos fãs da Marvel afirmam 'Magneto estava certo', acreditando que os crimes do vilão se justificam, em nome de uma guerra contra a repressão imposta pelos humanos sobre a comunidade mutante. Mas, será que isso realmente faz sentido?

Erik, desde cedo, sentiu na pele o ódio do homem por tudo que é diferente e difícil de compreender. Nos campos de concentração da Alemanha, ele viu seus pais serem mortos, em apenas uma das várias demonstrações da maldade humana. Ele via seus iguais serem reprimidos e mortos por seres fracos e ignorantes, que tratavam seus semelhantes como animais, e os mutantes, como monstros.

No processo, ele conheceu Charles Xavier, um mutante que, assim como ele, sofreu por seus dons, mas, diferentemente de Erik, queria ensinar os humanos a respeitá-los e promover uma convivência harmônica entre todos. A luta de Erik já não era apenas por justiça, mas por um senso de superioridade.

Ele julgava que os mutantes deveriam governar a Terra como a espécie dominante, tornando reais todas as mentiras espalhadas pela mídia quanto à comunidade mutante. Os Sentinelas, criados como reação a seus atos, se tornaram uma ameaça descontrolada, exterminando não apenas mutantes, mas também civis, ampliando o ciclo de ódio que ele ajudou a alimentar.

Essa divergência fez com que bons amigos se tornassem inimigos mortais. Charles fundou os X-Men, dedicados a proteger a humanidade, acolher jovens mutantes e promover a paz entre eles e os humanos. Por sua vez, Erik criou a Irmandade Mutante para dominar o planeta, mesmo que para isso precisasse derramar sangue de seus iguais.

Magneto não é somente um líder ideológico em busca de seu objetivo, ele é um megalomaníaco manipulador. Um homem que traiu e manipulou a comunidade que ele jurou proteger, para usá-la em prol de seus próprios desejos. Então, não, Magneto NÃO estava certo. Por mais que seu ódio seja parcialmente justificado pelas injustiças sofridas pela comunidade mutante, a morte de inocentes, tanto humanos quanto mutantes, em nome dessa causa, jamais será justificada. Magneto é um monstro para uns e um ícone para outros. Um empecilho para a paz por um lado, e um caminho para a libertação por outro.

Batman

O Cavaleiro das Trevas é, sem dúvida, um dos maiores exemplos de heroísmo na ficção, sendo talvez o mais popular entre os mascarados. Porém, será que ele realmente é efetivo? Ou a loucura de Gotham se constrói em torno dele.

Gotham, mesmo com o Batman, segue afundada em criminalidade e corrupção, sem sinal de melhoras (pelo menos em certas versões). Será que Batman seria o culpado por tudo isso?

Será que manter vilões como o Coringa, vivos, ele não está permitindo que mais pessoas morram? Será que ao se vestir de Morcego e aterrorizar os criminosos, ele não está servindo de inspiração para homens e mulheres igualmente perturbados, que farão o mesmo, com más intenções?

Duas obras tratam muitíssimo bem desse tema: Asilo Arkham e The Batman. Na obra de Grant Morrison, o Homem Morcego é preso no Asilo Arkham junto a seus maiores inimigos, e ao passar pelos portões da casa da loucura, ele sente como se estivesse voltando para casa.

Lá dentro, ele descobre a história de seu fundador, Amadeus Arkham. Um homem que, assim como ele, sonhava em salvar Gotham, mas acabou consumido por ela, preso em seu próprio manicômio, como um louco qualquer.

Entre as visões de Amadeus, havia um morcego gigante ancestral, uma criatura de trevas que pairava sob ele, escolhendo-o como seu bastião. Isso dá uma explicação sobrenatural para o herói, que teria sido possuído por esse ser após perder seus pais. Ele estaria então fadado a dar esperança à cidade, mas no final, torna-se parte dela, parte de sua escuridão.

Em uma explicação mais racional, Batman seria um astro que deixaria outros maníacos em sua órbita, que assim como ele, desejavam deixar uma mensagem, usando fantasias, e fazendo o que consideram justo. Por isso, a cidade nunca melhora. Pois ele não tem coragem de matá-los, pois sabe que esse limite é a única barreira entre ele e todos os criminosos de Gotham.

Em The Batman, vemos com clareza que o símbolo de vingança que Bruce representa estava infectando Gotham. A Mulher-Gato tentou usá-lo para vingar os assassinos de sua amiga, e os seguidores do Charada agiram para destruir Gotham sob o mesmo pretexto. O Homem Morcego havia dado motivação a criminosos.

É claro, ao final do filme, Wayne percebe isso e muda sua postura, tornando-se mais humano. Representando algo mais que apenas vingança.

Em outras versões, como na trilogia de Nolan e nos filmes de Tim Burton, ele foi efetivo e salvou Gotham. Provando que, por várias vezes, seu trabalho foi sim capaz de dar à sua cidade o futuro que seus pais sonharam.

Seu símbolo e seu código moral que lhe acorrenta, muitas vezes torna Batman ineficiente, e até mesmo problemático, às vezes, estando errado em sua missão.

Com isso em mente, você acha que o Cavaleiro das Trevas é eficiente na maioria dos casos? Ou faz parte do imenso problema que assola Gotham City?

Ozymandias

Adrian Veidt é um dos homens mais brilhantes da DC Comics, e O HOMEM mais brilhante do universo de Watchmen. E sem dúvida, uma das criações mais incríveis, do genial Alan Moore.

Baseando-se no legado do faraó egípcio, Ramsés II, ele criou seu alter-ego, Ozymandias.

Ele atuou ao lado de Comediante, Espectral, Dr. Manhattan, Rorschach, Coruja e outros vigilantes clássicos. Até que após uma revolta sistemática por todo o país, os heróis foram proibidos de agir pelo Governo Americano. Ao contrário de muitos heróis, que simplesmente desapareceram, Adrian usou sua imagem pública para enriquecer, vender bonecos, livros, fazer filmes, tornando um magnata multibilionário.

Porém, essa fortuna não era destinada para seu luxo pessoal, e sim para seu grande plano para salvar a humanidade do apocalipse. Veidt criou uma base no Polo Norte, onde contratou atores, escritores e diretores, para elaborar uma grande obra, que serviria ao seu propósito. O Comediante ficou sabendo desse plano, e enlouqueceu ao perceber que apesar de doentio, era a única coisa entre a humanidade, e seu próprio fim.

Temendo que Blake pudesse revelar tudo, Veidt decidiu eliminá-lo, assim como todos os outros justiceiros. E assim o fez, tirando eles um a um de seu caminho, deixando a humanidade por sua conta.

Tudo isso, enquanto EUA e URSS estavam á beira de uma guerra nuclear, que daria fim a vida na Terra.

Porém, nem isso impediu que Coruja e Rorschach descobrissem seu plano, e chegassem até ele, mas, já era tarde demais.

Ozymandias havia criado uma aberração ´´extraterrestre´´, extremamente poderosa fisicamente, mas ainda mais forte, nos efeitos que iria causar.

Ele a lançou em Nova York, matando milhões de pessoas, e com suas ondas mentais, impôs um terror ainda maior sob os sobreviventes. Com esse atentado, as hostilidades entre comunistas e capitalistas tiveram fim. Os países se uniram contra a ameaça extraterrestre, uma vez que não podia mais contar com justiceiros, apenas com a própria força, e a de seus iguais.

Veidt sonhava com uma utopia, onde enfim as guerras teriam fim, assim como as disputas mesquinhas que permearam a história humana por milênios. Unidos sob um único ideal, ela enfim evoluiria, como deveria ser. E ele, a maior mente daquele mundo, iria ajuda-los a caminhar rumo ao amanhã.

Como um Prometeu Moderno, ele levaria luz aos homens e mulheres cegos por sua própria ignorância, que havia lhes levado á beira do abismo.

Ele seria um Rei, assim como no poema de Percy Shalley, que nos apresenta trechos condizentes com a moral do vilão:

"Meu nome é Ozymandias, rei dos reis:

Contemplai as minhas obras, ó poderosos e desesperai-vos!"

Nada mais resta: em redor a decadência

Daquele destroço colossal, sem limite e vazio

Coruja e Espectral, concordaram em esconder a verdade sobre o que havia acontecido, entendendo que apesar do horror que Adrian havia feito, ele tinha impedido o fim do mundo. Nem mesmo Dr. Manhattan, que tem uma compressão sobre-humana do mundo a sua volta, pode dizer a ele se estava certo ou não em seu plano. Mas confirmou, seu ato, matematicamente falando, foi correto.

Apenas Rorschach, decidiu que não iria aderir aquela farsa, não importava o custo, forçando Osterman a matá-lo.

Ozymandias impediu o apocalipse, matando milhões, e usando uma mentira para unir as nações. Em números, ele fez o certo, mas, e em moral? Ele tem direito de decidir o certo e o errado, quando há tantas vidas em jogo? Mesmo sendo tão genial, ele não é um deus, não cabe a ele condenar milhões de vidas.

Adrian Veidt é talvez, tão complexo quanto Dr. Manhattan ou Rorschach em sua moralidade, algo realmente notável, tendo em vista a construção genial de cada um deles por Moore. Ele levantou um dilema tão denso, que até mesmo os leitores tem dificuldade de escolher um lado....

Veidt venceu, mas a que custo? E se a verdade for apenas uma ilusão, ainda há espaço para justiça?

Thanos

Thanos, assim como Magneto, acredita que o sofrimento em massa é um preço justo por uma suposta utopia. Os ideais do Titã Louco, em muito lembram os movimentos de 'limpeza étnica', ocorridos nos países do Eixo durante a Segunda Guerra Mundial.

Thanos é um genocida, que acredita que, para moldar um universo perfeito para ele, seria necessário destruir metade do universo. Thanos passou por momentos difíceis, como o colapso de Titan, que lhe fez enxergar o extermínio em massa como uma ferramenta aceitável para alcançar o 'equilíbrio'.

Mas, nada que justifique o seu plano doentio e arrogante, acreditando que a sua vontade vale mais que a vida de trilhões. Mesmo que entre essas vidas, tenha a de sua própria filha, mostrando que ele não tem limites para alcançar sua utopia.

Thanos é um maníaco, obcecado por suas próprias ideias, e disposto a tudo para vê-las em prática, sem se importar com o quanto de sofrimento isso causa.

Isso fica claro em Vingadores: Ultimato, onde ele afirma que destruirá todo o universo e o reformulará à sua vontade. Não é sobre melhorar a vida das pessoas, é sobre sentir-se o salvador, é sobre egocentrismo.

Ra’s al Ghul

Ra's em muito se assemelha a Thanos, e é completamente inverso a Batman. Al Gul viveu por milênios, em busca de um único objetivo, limpar a Terra da escória que a destruía, independente de quantas pessoas tivessem que morrer para isso.

Para cumprir essa missão, ele cercou-se de guerreiros habilidosos, a Liga dos Assassinos, e por anos, infiltrou-se em países, e cumpriu suas missões. Gotham, obviamente lhe atraiu, por ser uma cidade aparentemente sem salvação. E isso, o levou a enfrentar o Batman. Apesar de estarem em lados opostos, Ra´s sempre o admirou, por sua habilidade e inteligência, desejando que ele assumisse seu lugar, tomando a mão de sua filha, e liderando a Liga dos Assassinos.

Porém, enquanto o Maior Detetive do Mundo, rejeita completamente o fato de tirar uma vida, Ra´s julga isso como fraqueza, por considerar a morte, a única forma de acabar com o crime.

Porém, será que o líder da Liga é realmente um bom homem, com métodos extremos? Com certeza não!

Um bom exemplo, são seus atos criminosos em Batman Begins. Lá, ele se alia a Jonathan Crane, para montar um dispositivo que dispersasse gás do medo por toda a Gotham, fazendo com que as pessoas se matassem entre si, tomadas por seus maiores medos. Não era apenas os criminosos que deveriam morrer, e sim, TODAS as pessoas da cidade, pois dentro de cada uma delas, habitava a doença que permitiu que Gotham afundasse.

Para ele, o extermínio absoluto de um povo, é a única forma de liberta-lo. Não precisamos nem dizer o quão insano isso é!

Ra´s é um megalomaníaco, que trata as pessoas como meras ferramentas descartáveis em seu plano.

Justiceiro

Frank Castle iniciou sua cruzada contra o crime após uma sequência de traumas terríveis. Castle foi um veterano na Guerra do Vietnã, como foi visto na série HQS escritas por Garth Ennis, autor que deu uma nova profundidade ao personagem. Na guerra, Castle foi completamente consumido pela sede insaciável de morte. Mesmo com tudo perdido, ele não perdia o desejo de matar, mais e mais, inclusive de seu próprio exército, caso se opusessem a ele. Desde essa época, Frank mostrou ser um homem desequilibrado.

De volta ao seu país, ele teve o empurrão que mudou sua vida para sempre, a morte de sua esposa e filhos, pelas mãos de criminosos. Furioso, ele matou todos os envolvidos com crueldade, mas não parou por aí, iniciando uma cruzada eterna contra todos os criminosos, matando-os, não por justiça, mas por obsessão. O Justiceiro age como juiz, júri e executor nas ruas de Nova York, exterminando os criminosos sem piedade, algo aplaudido por uns e espantoso para outros.

Sua moralidade dúbia o leva ao conflito com outros heróis, como Demolidor e Homem-Aranha, que mais de uma vez quase morreram por sua causa. Com Matt, a coisa atinge outro patamar. Com o Homem Sem Medo, Castle confessa que sua mente está em um ciclo eterno, seu 'dedo coça', para matar mais e mais criminosos. Aquilo não é justiça, nem mesmo vingança, é uma necessidade irracional de seu ser.

Mesmo limpando as ruas de vários criminosos definitivamente, a violência continua, por vezes, fruto da que ele mesmo pratica. No fundo, Castle é tão louco quanto Rei do Crime, Retalho, Mercenário ou qualquer criminoso que ele enfrente. O arco de Castle demonstra que, quando alguém poderoso se rende aos seus desejos e tenta justifica-los como justiça, moldando uma moralidade distorcida para blindar-se, ele pode se tornar alguém tão perigoso quanto aqueles que combate.

Frank Castle não virou um monstro quando perdeu sua família. Ele já era um, só precisava de uma desculpa para coloca-lo para fora.