Piores cidades da ficção: você conseguiria viver nelas?

Você reclama muito do trânsito da sua cidade? Ou talvez, dos impostos ou falta de segurança dela? Bom, é com prazer que afirmo que os moradores de Gotham, Derry, Silent Hill (que não tem lá muitos habitantes), teriam muito a lhe dizer. Corrupção, assombrações, terrores cósmicos e regimes autoritários são inúmeros os motivos que podem tornar uma cidade impossível de se viver, mas quais são as piores das piores da cultura pop? É isso que vamos descobrir hoje!

STAR WARSMARVEL E DCTERROR

Rafael Silva

1/18/202622 min read

Derry

O lar de Pennywise na obra de Stephen King. Derry, localizada no estado de Maine, foi fundada por volta dos anos 1700, quando colonizadores britânicos chegaram ao local, entrando em conflito com os povos indígenas que lá viviam. O que eles não sabiam era que os nativos estavam há anos mantendo uma entidade de poder imensurável presa naquela região, e o morticínio proposto por eles havia acabado de despertar seu voraz apetite por sangue após 2 milhões de anos em hibernação.

Após massacrar os colonos, a Coisa foi selada pelos indígenas, que utilizaram partes do asteroide que a trouxe à Terra para fazer uma espécie de cerco em torno do território da cidade, mantendo a criatura aprisionada no local em que caiu.

Por mais que tivessem livrado o mundo daquele horror cósmico, os nativos haviam dado a Derry sua maior ameaça. Pennywise não apenas reside na cidade, ele É a cidade. Seu poder não se limita apenas a sair dos esgotos de 27 em 27 anos, para matar algumas dezenas de crianças. Ele, em seu poder de manipulação, mantém todo um povo preso em um estado de inação ao terror, enquanto sustenta uma falsa máscara de prosperidade e hospitalidade.

À primeira vista, Derry pode parecer uma cidade maravilhosa, linda e com um povo hospitaleiro, mas é apenas uma fachada. Na verdade, é essa fachada da qual Pennywise se utiliza não só para atrair novas vítimas ao local (que, se tivesse sua verdadeira natureza exposta, certamente seria tão deserto quanto Silent Hill), como também para isolá-las. Ninguém acreditaria que um palhaço assassino sobrenatural agiria em uma cidade tão perfeita (na verdade, isso seria difícil de acreditar em qualquer lugar…).

Inúmeros são os horrores que Derry vivenciou, e o Palhaço Dançarino não agiu diretamente, apenas permitiu que as pessoas usassem sua própria maldade em favor dele. O massacre no Black Spot, visto na ótima série 'Bem-vindos a Derry', mostra uma chacina de dezenas de cidadãos negros pelas mãos de brancos racistas. Aqui, o ódio humano pelos seus semelhantes foi suficiente para iniciar o terror e a morte, e Pennywise apenas apareceu para se banquetear em meio ao massacre.

Temos também o famoso assassinato de Adrian Mellon, diante dos olhos de seu namorado, Don Hagarty. Mellon foi impiedosamente espancado e lançado de uma ponte. Ao cair na água, quase morto, Adrian é definitivamente morto por Pennywise, que espreitava quase como um abutre, esperando que os predadores de verdade abatessem para ele.

Nesse caso, a violência e a intolerância de Derry simplesmente deram à Coisa um jantar com tudo pago, sem que ele precisasse fazer o menor esforço. A cidade, aparentemente pacata, era na verdade um reduto de pessoas preconceituosas ao extremo, que representam uma ameaça real a qualquer um que ameace romper com sua higiene social.

Psicopatas como Henry Bowers e seu amigo Patrick Hockstetter também são ótimos exemplos de como a cidade alimenta seu próprio monstro. Muito mais que meros bullies de filme americano, Henry e seus comparsas são verdadeiros criminosos. Henry é racista, perseguindo Mike devido à sua cor, assim como seu pai perseguiu o dele no passado.

A violência contra o Clube dos Otários não é meramente uma perseguição contra esquisitões, é um mecanismo que traz o mínimo de autoconfiança para Henry, que também vivia uma relação abusiva com seu pai, Butch. Quando seu pai o humilhava, Henry sentia-se frágil; ao bater em Ben ou Bill, Henry sentia-se forte. A força tornava-se um meio de sobrevivência física e psicológica, algo que deixava Pennywise salivando.

Patrick é um caso à parte, sendo ele um sociopata que assassinava animais apenas para vê-los apodrecer diante de seus olhos, deixando até mesmo It impressionado com tamanha insanidade.

Mas a faceta mais horripilante é a relação entre as famílias de Derry. O descaso dos pais de Bill em relação a ele após a morte de George. O abuso de Alvin contra Beverly, que vivia sob constante ameaça de ser violada pelo próprio pai. A superproteção de Sonia Kaspbrak com seu filho, Eddie, que o mantinha isolado do mundo; todos esses eram mecanismos para deixar as crianças desprotegidas até mesmo no lugar onde deveriam se sentir mais acolhidas: em suas próprias casas, com suas próprias famílias.

Pennywise alimentava-se e se alimentava dessas crises, pois quanto mais isolada e fragilizada uma criança estava, mais fácil seria devorá-la.

Quando uma criança não encontra proteção em seus pais, amigos, professores ou em quem quer que seja, Pennywise mostra seu poder. O medo não vem apenas das formas horripilantes que It toma para aterrorizar suas vítimas, mas principalmente do sentimento de impotência e solidão, de saber que você está totalmente sozinho.

Pennywise não é detentor apenas de um poder bruto, é uma questão de poder real. Ter em suas mãos a sua vida. Ter o poder de escolher seus caminhos, sentimentos e pensamentos. Governar sua vida e decretar sua morte.

Viver em Derry não é como viver em Gotham ou Racoon City, onde o mal mostra sua face sem pestanejar. Em Derry, o mal lhe chama para sentar em uma mesa bela e farta, mas se omite em dizer que você será o prato principal. E aí, acha que iria suportar?


Silent Hill

Maine aparentemente não é um dos melhores estados para se viver nos EUA, pois Silent Hill também fica por lá… Assim como Derry, a cidade também era inicialmente dominada por tribos indígenas, que reuniam-se em torno do Lago Toluca, tratado por eles como um local sagrado. Sua relação com o sobrenatural era respeitosa e benigna, de forma que aquela “divindade” os atendia por meio de rituais.

Quando os ingleses chegaram, os nativos foram expulsos, e os colonizadores se apossaram primeiramente da região de Jamestown, e posteriormente, tomaram-na por completo. Rapidamente, a cidade se desenvolveu em torno do Lago Toluca, mas a energia que irradiava dele deixou de ser luminosa e passou a adaptar-se às trevas que se erguiam em seu entorno.

Porém, foi após a Imolação de Alessa Gillespie, ocorrida em 1992 pelas mãos da Ordem (culto religioso que acreditava ser capaz de canalizar esse espírito em uma forma física), que Silent Hill foi definitivamente marcada pelo mal. No ritual, os seguidores da Ordem queimaram Alessa viva, após a mesma ser entregue por sua mãe, Dahlia, que acreditava que sua filha tinha poderes sobrenaturais e por isso seria capaz de tornar-se o receptáculo que desejavam. Porém, seu espírito permaneceu em um estado de agonia perpétua.

Com seu espírito em eterna transição, Alessa tornaria-se a linha que conectava as três realidades alternativas que coexistem na cidade: O Mundo Real, O Mundo da Névoa e o Outro Mundo. Cada um deles possui uma forma única de quebrar o espírito de qualquer um que ouse adentrar em Silent Hill.

No mundo real, Silent Hill é uma cidade pacata, com pouco mais de 30 mil habitantes, e focada quase que exclusivamente no turismo. Porém, ela passa um ar decadente e um tanto solitário, e em certos momentos, pessoas simplesmente desaparecem, sem deixar rastros, o que pode ser visto em Silent Hill 4 (2004). O que os cidadãos não sabem é que essas pessoas foram, na realidade, transportadas para uma das duas outras realidades alternativas dentro da cidade, e eu lhe garanto, você não iria gostar nem um pouco de nenhuma das duas.

O Mundo da Névoa atua como uma espécie de camada intermediária entre o Mundo Real e o Outro Mundo, sendo esse o visual mais conhecido da saga, já que foi lá que Harry Mason, protagonista de Silent Hill (1999), conheceu a cidade.

As ruas são completamente desertas, a não ser pelos carros quebrados e lojas vazias. A névoa impede sua visão a longa distância, permitindo apenas ver poucos metros à frente de seus pés. As estradas jamais encontram um fim, não importa o quanto você ande, jamais encontrará uma saída da cidade. Nas sombras, visões aterrorizantes passam como meros vislumbres diante de seus olhos: cães sem pele, pessoas amarradas a camisas de força feitas com sua própria carne ou até mesmo figuras estranhas que rastejam pelas ruas.

Aqui, o terror é psicológico, explorando diretamente os medos mais primitivos do ser humano, desde a solidão e o temor do desconhecido, até o puro e simples pavor do escuro, que, de certa forma, é um catalisador de todos os medos. Não se trata de um lugar físico, e sim, uma realidade criada com base na culpa que você mesmo carrega em seu subconsciente. Você cria seu próprio terror.

O peso de seus pecados recai sobre seus ombros. Sua consciência começa a se esvair, e cada vez mais, você se torna refém daquilo que sua psique guarda. Em pouco tempo, as aberrações ocultas nas sombras parecerão insignificantes perto do horror que acontece no plano intangível da sua mente. Em pouco tempo, a solidão extrema lhe fará cair em uma depressão profunda, e a verdade sobre si mesmo parecerá cada vez mais distante.

Uma estética implementada inicialmente para driblar as limitações técnicas do PS1 tornou-se, incrivelmente, o elemento mais horripilante da lore de Silent Hill, pois nos deixa a sós com a coisa mais assustadora que existe: nossa própria mente. Porém, existe um lugar ainda pior que o Mundo da Névoa, onde o terror sai do plano das ideias, e o monstro que você criou nelas, agora tem poder para te atacar no plano físico, esse é: o Outro Mundo.

Essa é a manifestação mais pura da agonia de Alessa. As ruas vazias e nebulosas são substituídas por uma escuridão quase total, interrompida apenas pelo fogo ardente que serve de alusão ao sofrimento da jovem. Os objetos são cobertos de sangue, e uma estética industrial toma conta de tudo à sua volta, com fumaça e sirenes altíssimas, levando-o à loucura rapidamente.

É nesse plano que o maior horror da cidade se mostra: Pyramid Head. Por mais que o vilão possa mostrar-se em qualquer uma das três dimensões, no Outro Mundo, ele atua como um rei. Portando uma enorme lâmina, ele sai à caça de qualquer um que cruze seu caminho, com sua vinda sendo anunciada por meio do som cada vez mais alto das sirenes.

A ausência de sons e atividade é bruscamente interrompida por um mar de caos, que pode ser tão perturbador quanto.

Essas três divisões servem como alusão para a crença cristã das três possíveis etapas do pós-vida: Céu, Purgatório e Inferno. O Céu, certamente, é o Mundo Real, onde as pessoas vivem suas vidas com tranquilidade e alegria, alheias ao terror que ocorre nas outras camadas. O Mundo da Névoa é o Purgatório, lugar esse destinado à limpeza espiritual, onde a alma precisa enfrentar seus erros e superá-los para alcançar a pureza espiritual. A Névoa lhe põe diante de seu maior inimigo: você mesmo. Se for capaz de vencer a si mesmo, você escapa, senão… algo pior lhe aguarda.

Não é preciso dizer do que se trata o Outro Mundo. É a morte da esperança, o mais puro e bruto terror. De lá, não há escapatória, apenas, o fim.

Sua estadia em Silent Hill baseia-se inteiramente no que você carrega em seu coração. Dependendo do que for, pode-se ter ou uma agradável viagem por uma bela cidade, ou uma emocionante fuga contra uma aberração com cabeça de pirâmide e dois metros de altura, em meio a um mar de fogo (tem gosto para tudo). Iria arriscar?


Gotham City

A cidade mais icônica da ficção! Gotham City, criada por Bob Kane e Bill Finger em 1940, baseando-se em Nova York e Chicago, serve perfeitamente como um reflexo perfeito de seu guardião: o Batman.

O território em que Gotham se formou foi descoberto por colonos holandeses entre 1605 e 1630. Em 1724, William Gotham nomearia a cidade e construiria seu monumento mais antigo: O Tribunal Central. As famílias Wayne, Arkham e Cobblepott, vindas da Europa, estabeleceram-se em Gotham e tornaram-se os maiores financiadores de seu crescimento.

Porém, desde o princípio, os Cobblepott passaram a agir ativamente no submundo, tornando-se a primeira grande família criminosa de Gotham. Os Wayne, por sua vez, seguiram sendo os grandes visionários da cidade, financiando o exímio arquiteto Cyrus Pickney, que deu à cidade sua arquitetura gótica, ao mesmo tempo que futurista.

Todavia, com o passar do tempo, o crime passou a se infiltrar em todas as camadas do poder. Nos anos 1920/1930, os Maroni e os Falcone, famílias mafiosas de origem italiana, instalaram-se na cidade, aproveitando-se da Lei Seca para enriquecer e exercendo um poder moderador sobre o DPGC e a Prefeitura. Junto aos Cobblepott, os mafiosos tornaram-se os verdadeiros donos da cidade, e dali em diante, a criminalidade passaria a crescer em escala alarmante. Gotham é descrita como a maior cidade dos EUA e, sem lei, tem tudo para se tornar a cidade mais caótica do país.

Com os Arkham caídos em desgraça após o desastre do Asilo Arkham, os Wayne resistiam como os bastiões da moralidade e do desenvolvimento em Gotham, pelo menos, até a morte de Thomas e Martha Wayne. Suas mortes não deixaram apenas Bruce Wayne órfão, como também o povo de Gotham, que via em suas mortes a morte das únicas pessoas com poder que realmente se importavam com a cidade.

Dali em diante, a cidade caiu em um abismo, tornando-se a mais perigosa dos EUA e, talvez, do mundo. Criminosos inundando as ruas, becos imundos, graves problemas estruturais e crises econômicas constantes (tá aparecendo até o Brasil).

Assim, o crime organizado definitivamente tomou a cidade. Em Batman: Ano Um, de Frank Miller, podemos ver com clareza a intensidade da corrupção que assola Gotham. Jim Gordon se torna praticamente uma flor de lótus boiando em meio ao Rio Tietê, com o Comissário Loeb agindo como um verdadeiro gângster, encobrindo as atividades corruptas de Carmine Falcone com ajuda do prefeito, enquanto utiliza policiais corruptos como Flass para livrar-se de qualquer um que o ameace ou, simplesmente, para “mostrar serviço”.

Quando Batman surgiu, ele não tinha apenas a missão de combater os mafiosos, como também desmantelar um esquema de corrupção forjado por anos pelas pessoas mais poderosas de Gotham.

Mas será que Gotham é apenas uma cidade tomada pela corrupção ou, assim como Derry e Silent Hill, teria algo na alma da cidade que a condenou a esse fim? Vamos a isso.

Em uma cidade em que o crime encontra suas raízes nos esgotos com Crocodilo, nasce nos becos escuros com Victor Zsasz e floresce nos altos prédios com Pinguim, é natural que achemos que tudo isso não passa do fruto da corrupção sistêmica que assola Gotham desde os primórdios.

Mas não parece estranho como tudo em Gotham parece ser pior? As mentes mais deturpadas, os crimes bárbaros e um herói mentalmente instável, que, por mais que tente, parece piorar a cidade em vez de melhorá-la. Até mesmo Superman, na HQ Justiça, apontou a gravidade do mal em Gotham, definindo-o como muito mais brutal que o visto em Metrópolis.

É inegável que o Vingador da Noite salvou milhares de vidas ao longo de sua guerra ao crime, mas, de certa forma, sua figura atrai a loucura para a cidade. Antes dele, não havia criminosos fantasiados, maníacos incendiários ou homens divididos ao meio; a criminalidade tradicional foi substituída por um tipo muito mais insano de ameaça, quase como se adequasse ao seu vigilante.

E o mais impressionante, talvez, alguém tivesse previsto essa maré de loucura décadas antes do nascimento de Bruce Wayne.

Em Asilo Arkham: Uma Séria Casa em um Sério Mundo, de Grant Morrison e Dave McKean, conhecemos a história do local mais infame da lore do Batman. Fundado em 1921 por Amadeus Arkham, psiquiatra que tomou como missão pessoal provar que nenhuma mente, nem mesmo a mais insana, estava além da cura, o sanatório Elizabeth Arkham surgiu como um farol de esperança, que iria lavar a alma de Gotham da maldade que parecia incrustada em seu espírito desde o princípio.

A motivação de Amadeus vinha da perda de sua mãe, que passou seus últimos anos assolada por visões de um morcego gigante a vigiando em seus pesadelos.

Porém, em sua tentativa de vencer a loucura e dar luz a uma cidade perdida como Gotham, Amadeus acabou sucumbindo ao mal que jurou destruir. Após perder sua esposa e filha para um assassino conhecido como Cachorro Louco, Arkham passou a vislumbrar os mesmos horrores que sua falecida mãe. Em 1929, foi preso no asilo que ele mesmo construiu. Nem mesmo seus anos de estudo sobre a mente humana o fizeram ser capaz de controlar a sua própria.

Em seus últimos anos, escreveu feitiços de proteção no piso e nas paredes de sua cela, com suas próprias unhas rachadas e ensanguentadas, tentando impedir que o monstro que pairava em sua mente atingisse a realidade. A essa altura, já ficou claro que os Arkham haviam de alguma forma previsto a existência do Cavaleiro das Trevas. Um homem que, assim como ele, desejava mudar Gotham motivado pela dor que ela lhe causou, mas que, no final, tornou-se mais um de seus monstros.

Em certos momentos da narrativa, Batman parece até mesmo ter uma ligação psíquica com Amadeus, vendo flashes de seu passado e até mesmo vivendo alguns paralelos em seu presente. Na luta final do Cavaleiro das Trevas contra o Crocodilo, o herói escuta a voz de Arkham recitando o trecho bíblico em que o Arcanjo Miguel enfrenta o Grande Dragão, em uma cena muitíssimo semelhante à vivida pelo herói, como se, mais uma vez, ele pudesse prever que tudo aquilo aconteceria.

Até mesmo o Coringa pode ter sido previsto pelo fundador da Casa da Loucura, uma vez que ele viu uma carta Curinga caída ao lado da cama de sua filha durante a construção do hospital, além de, por diversas vezes, falar sobre peixes-palhaços com um fascínio mórbido. Aparentemente, Amadeus Arkham foi capaz não só de prever o nascimento do "salvador" de Gotham, como também de seu maior nêmesis.

É possível que a família Arkham tenha previsto a loucura que o Morcego Gigante traria para Gotham e lutado para mantê-lo aprisionado no local que o originou, mas fracassou. Sabemos que o sobrenatural muitas vezes soa como uma explicação fácil para coisas supostamente inexplicáveis, mas, como veremos em seguida, essa definitivamente não seria a primeira vez que o universo do Maior Detetive do Mundo encontraria explicações em coisas além da compreensão humana:

  • O Demônio Barbatos: na aclamada história "Dark Knight, Dark City" e em arcos mais recentes como o de Ram V em Detective Comics, é revelado que a cidade foi, na verdade, construída ao redor de um templo subterrâneo usado para um ritual demoníaco. Os fundadores coloniais de Gotham tentaram invocar e prender um demônio-morcego chamado Barbatos, cuja influência maligna se espalhou pela cidade em crescimento.

  • O Warlock "Doutor Gotham": outra origem sugere que um antigo e maligno warlock foi enterrado vivo sob o local onde a cidade se desenvolveu. Sua essência corrompeu o solo, envenenando a terra e, por extensão, a alma da cidade, e ele próprio viria a se chamar "Doutor Gotham".

  • Terras Amaldiçoadas e Pântanos: A área onde Gotham está localizada, incluindo o famoso Pântano do Massacre (Slaughter Swamp), tem uma história de eventos sobrenaturais e cultos. É neste pântano que Cyrus Gold foi morto e transformado no monstro imortal Solomon Grundy.

  • Eventos e Personagens Recorrentes: A cidade tem uma longa história de assombrações, incursões demoníacas e a presença de personagens ligados ao ocultismo, como Jim Corrigan (o hospedeiro do Espectro) e vilões como Deacon Blackfire.

Esses elementos sobrenaturais servem para reforçar a ideia de que Gotham não é apenas uma cidade com muitos criminosos, mas sim um lugar onde o mal e a escuridão são parte de sua identidade fundamental.

Em maior ou menor frequência, Batman, a entidade que define Gotham, envolve-se com cada um desses seres e eventos, mostrando-se como um possível elo entre a cidade e o mal que a aflige.

Gotham é a união desastrosa do pior que a mente humana pode oferecer e forças além de sua compreensão. O herói que deveria guardá-la é praticamente um efeito colateral de sua própria insanidade generalizada, por vezes, sendo tão assustador quanto seus próprios inimigos. Mesmo que Gotham tenha um farol de esperança, ela parece nunca se concretizar.

Claro, diferente das outras duas cidades citadas, Gotham possui múltiplas versões, desde as mais infantis, como a representação dela no seriado estrelado por Adam West entre 1966 e 1968, até outras que brincam com sua essência sombria e corrupta, como a vista nos filmes de Tim Burton em 1989 e 1992. O mesmo Bat-Local possui várias formas de mostrar seu terror, seja de forma leve, seja de forma perturbadora e complexa.

E você, acha que iria suportar viver em meio a um fogo cruzado entre Coringa, Espantalho, Charada, Bane e outros dos maiores vilões dos quadrinhos?


Mos Eisley

“Você não encontrará um lugar com mais escória e vilania”, essa fala de Obi Wan para Luke Skywalker enquanto observavam Mos Eisley ao longe resume com perfeição o quão caótica e perigosa é essa região de Tatooine.

Em Uma Nova Esperança, é possível ver um pouco do marasmo do lugar: tráfego constante, Jawas sempre a postos para roubar qualquer coisa que parecer ter algum valor, assassinos como Boba Fett e Greedo sempre dispostos a matar por alguns créditos, cantinas como Chalmun, com tudo que existe de mais bizarro na galáxia, incluindo clientes condenados à morte em 12 sistemas estelares.

Eisley é retrato do planeta decadente e brutal que Tatooine se tornou, desde a catástrofe que transformou seu próspero solo em um deserto árido, castigado diariamente pelo calor insuportável dos dois sóis gêmeos, que juntos garantem uma agradável temperatura de 50°C.

Milhares de anos antes da Batalha de Yavin, Tatooine era um planeta vivido, repleto de florestas, rios e vida natural. Seus habitantes, o povo Kumumgah, viviam em paz, até que o Império Rakata, uma das maiores ameaças da Velha República, decidiu invadir o planeta. Os Kumumgah resistiram ao domínio e foram punidos com uma série de bombardeios orbitais severos, que vitrificaram praticamente todo o solo fértil do planeta. As florestas queimaram até as cinzas, os rios secaram, e a vida antes próspera tornou-se uma constante missão de sobrevivência.

Nos milênios que se seguiram, o povo de Tatooine passou a lutar por cada gota de água, criando diversas fazendas de umidade, no intuito de perfurar o solo em busca de recursos hídricos suficientes para matar a própria sede e manter suas colheitas.

Os mares de dunas que cercavam os grandes povoados colonos tornaram-se perigosos, com o Povo da Areia os patrulhando com seus Banthas, matando qualquer um que ousasse adentrar em seus territórios e podendo até mesmo invadir as fazendas daqueles que julgassem estar desrespeitando seus domínios. Os Jawas, com seus imensos Sandcrawlers, eram ladrões conhecidos, podendo levar tudo que você tem de valor em um piscar de olhos. Além disso, tem-se os monstruosos Dragões Krait, que podem devorar um povoado inteiro em um único ataque. A fauna local é realmente exótica.

Cada quilômetro fora da cidade é uma sentença, mas, ficar nela pode não ser muito mais seguro.

Mos Eisley foi um dos últimos povoados a serem fundados em Tatooine, tendo seu início cerca de 100 ABY (Antes da Batalha de Yavin), sendo construído em volta da nave Dowager Queen, que caiu na região. Os sobreviventes do acidente e os colonos locais rapidamente estabeleceram a nova cidade como o maior centro comercial de Tatooine, abrindo o famoso Espaçoporto de Mos Eisley, que passou a receber milhares de visitantes de todos os cantos da galáxia, favorecendo tanto o comércio legal quanto o contrabando. Em pouco tempo, o Esparçoporto tornou-se a porta de entrada de Tatooine para o pior que a galáxia tinha a oferecer, fazendo jus à fala de Luke a C3-PO: “Se a galáxia tem um centro luminoso, você está no lugar mais distante dele”.

Lordes do submundo, como Jabba, viam naquela região seu balcão de negócios, firmando alianças com diversos contrabandistas, como o próprio Han Solo, que tinham no Espaçoporto de Mos Eisley sua principal base de operações.

Nem a República, e muito menos o Império, ergueram um único dedo para restringir a maré de crimes que afligia o local. Os imperiais até mesmo promoveram alianças com Jabba e seus mercenários, contratando alguns como Bobba Fett, Dengar e Boosk para várias operações sigilosas. Em Mos Eisley, não existe lei, não pela negligência do governo, mas porque ele mesmo ajuda a manter a desordem que permeia o local.

A Cantina Chalmun é seguramente o local mais icônico e também o mais perigoso da cidade. Ao som da banda Figrin D'an and the Modal Nodes, composta por Biths, criminosos de todos os tipos negociam enquanto bebem Leite Azul e usam especiarias.

Lá, você pode encontrar uma clientela amigável, como o Dr. Evazan (que ataca Luke em Uma Nova Esperança), procurado tanto pelo Império quanto pela Aliança Rebelde, por seus experimentos doentios, que vão desde criar corpos com partes de diversas espécies até criar uma espécie de ciborgue, retirando metade do crânio do indivíduo e substituindo-o por um computador.

Ele realiza seus experimentos com qualquer espécie, em qualquer sistema, independentemente de classe social. Ele é uma ameaça em potencial para qualquer um que cruze seu caminho. Todavia, como dissemos anteriormente, por mais bizarro que Evazan seja, ele é apenas UM das milhares de ameaças que vêm e vão de Mos Eisley todos os dias.

Morar em Mos Eisley significa viver entre vários extremos: corrupção, criminalidade, clima extremo, espécies perigosas e escassez quase absoluta de recursos.

Acha que conseguiria suportar todas essas adversidades?




Mega City-One

A maior cidade do universo de Juiz Dredd nasceu em 2032, após a Terceira Guerra Mundial. Os sobreviventes agora viviam em ruínas, e sua fé na democracia havia morrido. Assim, eles depositaram toda sua fé nos juízes, militares que, para eles, eram detentores da moral e da razão, e em suas mãos, o que restou da raça humana poderia, enfim, viver em paz e ordem.

Eles prometiam estabilidade por meio da força e da retidão “moral”. Os juízes eram doutrinados ao limite para seguir as leis desse novo regime, sendo praticamente incapazes de descumpri-las e garantindo que a população as seguisse da mesma forma. Em suma, trata-se de uma sociedade onde o mal é incorruptível, pois se traveste de lealdade à lei.

Nesta cidade, atravessar a rua fora da faixa ou fumar em local proibido, pode acarretar em prisão perpétua ou até mesmo, em uma execução sumária, sem direito a nenhum tipo de defesa ou julgamento. Os Juízes agem como acusador, juíz e carrasco ao mesmo tempo. O terror é tamanho, que os cidadãos temem mais os juízes do que os criminosos que eles combatem.

Nem mesmo as paredes de sua casa podem lhe proteger dos Juízes, tendo em vista que eles são capazes de observar cada um de seus movimentos através de qualquer aparelho eletrônico. Não existe privacidade, sua vida é como um livro aberto diante deles.

Essa megacidade ocupava toda a Costa Leste dos EUA, projetada inicialmente para comportar pouco mais de 300 milhões de habitantes. No entanto, ela rapidamente passou a sofrer de superlotação, com mais 800 milhões de pessoas passando a viver lá, algo previsível, tendo em vista que o restante dos EUA havia se tornado, a grosso modo, uma terra sem lei.

Além da superlotação, a cidade possui outro problema crônico: o desemprego. 97% de seus habitantes não possuem trabalho e vivem às custas de auxílios estatais, um claro mecanismo dos juízes para manter os civis sob seu controle, e não estamos falando apenas de dependência financeira. Essa sobrecarga fiscal sob o Estado acaba por perpetuar uma crise econômica cíclica em Mega City, fazendo com que a miséria seja praticamente irremediável, com muitas empresas alimentícias inclusive utilizando corpos humanos para aumentar sua produção, mostrando o lado mais brutal desse colapso econômico.

Assim, o crime se torna a alternativa para muitos cidadãos, seja por “necessidade”, seja pela vontade de quebrar com a rotina tediosa e monótona imposta pelos juízes, em que a liberdade individual inexiste. Sob o pretexto de conter essa criminalidade sempre crescente, os juízes intensificam ainda mais a repressão e suprimem ainda mais a liberdade de sua gente, usando como desculpa a sua própria segurança.

Os Mutantes, seres afetados pela radiação derivada da Guerra Atômica e que vivem majoritariamente nas Terras Amaldiçoadas, também são usados como espantalhos pelos Juízes, que os tratam como párias sociais e, assim, justificam sua ditadura como a única linha de defesa entre as pessoas de bem e essas “aberrações”.

Existem também, grupos pró-democracia, que realizam constantes ataques terroristas, inclusive com armas atômicas, contra a cidade, mantendo-a sob constante alerta.

Dessa forma, essa megalópole se torna um verdadeiro campo de batalha, onde o Estado trava uma guerra silenciosa contra seu próprio povo, utilizando-se de todos os mecanismos possíveis para controlá-lo. Nas ruas, fome, terrorismo e criminalidade galopante tornam pisar nas ruas um verdadeiro risco à vida.

Todavia, não podemos falar de Mega City sem citar o juiz que praticamente se tornou sua face: Dredd.

Dredd segue a lei como um verdadeiro robô, aplicando-a de maneira fria e quase desumana. Ele é implacável, dotado de grande habilidade e inteligência para perceber qualquer forma de insurreição contra a ordem vigente, mesmo entre seus próprios aliados.

Muitos consideram Juiz Dredd um exemplo de moralidade, por nunca desviar-se de sua missão. Porém, não compreendem que sua missão é justamente reprimir a liberdade de seu povo.

Em um mundo comum, isso poderia talvez ser minimamente admirável. Porém, Mega City One é uma verdadeira ditadura, e Dredd é o principal defensor desse sistema, matando todos que ousam se opor a ele.

Seus autores, Wagner e Ezquerra, deixaram esse subtexto muito perceptível em suas obras. Sempre que esse tipo de regime tomou o poder em diferentes partes do mundo, como vimos na Alemanha e na Itália, as pessoas confiaram seu destino nas mãos de homens "incorruptíveis", cansadas das crises cíclicas do sistema político.

Assim, esses homens muitas vezes se tornam monstros, fazendo tudo que julgam ser justo para criar a utopia que os alavancou ao poder.

Dredd é uma poderosa crítica histórica, e nem de longe é um exemplo de moralidade. Sua capacidade de cumprir leis é admirável, mas o torna desumano, por não perceber que o código que está cumprindo é totalmente imoral.

Como podemos ver, uma cidade não precisa necessariamente ser assombrada, ou totalmente corrupta, para ser terrível. Basta que a lei que a rege, seja tão ruim quanto qualquer maldição ou grupo criminoso. Mega City-One não é uma cidade sem justiça, é uma cidade onde a justiça perdeu a humanidade.

O Veredito:

Definir a pior de todas é algo realmente difícil, pois é um conceito subjetivo, que varia de pessoa para pessoa. Pessoalmente, acho que uma cidade como Silent Hill, que usa você mesmo como arma de autodestruição física e psicológica, é consideravelmente mais horripilante e inescapável que as outras.

A decisão torna-se difícil, pois cada uma possui conceitos únicos: Derry usa seu povo como arma. Silent Hill destroça sua mente. Gotham é um mar infinito de crime e corrupção, onde a loucura parece normal. Mos Eisley é um inferno climático, onde o crime é a lei. E Mega City One é uma distopia em que o excesso de lei é justamente com o que você se preocupa.

Para tornar essa decisão a mais precisa possível, vamos analisar as cidades em categorias específicas, em que cada uma pontuará e, por fim, definiremos a grande campeã do IDH baixo:


Mega City One é MVP no que se refere à falta de qualidade de vida. Governo repressivo, criminalidade altíssima, falta de recursos básicos, e tudo isso causado pela pura e simples maldade e autoritarismo humano, sem que fosse necessário nada de paranormal, como em Derry ou Silent Hill. Gotham, por mais que seja péssima, tem Batman para lutar por ela. Mos Eisley, após a Nova República, perdeu sua impunidade. Silent Hill tem seu lado luminoso no Mundo Real. Em Derry, se você tiver coragem e bons amigos, como Bill Denbrough e sua trupe, você prevalece Mas Mega City One é simplesmente um poço sem fundo, onde marginais e autoridades lutam para ver quem é mais nocivo ao povo, em meio ao mundo pós-apocalíptico, em que a esperança tornou-se um termo há muito esquecido.

E você, qual dessas cidades acha que seria a pior de se viver?