Passolargo, Aragorn e Elessar: as três faces de um rei

O herdeiro do trono de Gondor é certamente um dos personagens mais incríveis do universo de Tolkien, dotado de um fantástico arco de evolução: de um homem solitário e relutante em cumprir seu destino, até o herói que liderou todos os povos livres da Terra Média na luta contra as trevas. E o mais interessante: a cada filme, ele passa a ser conhecido por um novo nome, e cada um desses nomes traz consigo um diferente significado para sua jornada. Então, sem mais delongas, vamos compreender o sentido por trás das múltiplas facetas do herdeiro de Isildur.

SENHOR DOS ANÉIS

Rafael Silva

7/28/20267 min read

Passolargo: O Guardião Relutante

Após anos sendo criado em segredo por Elrond em Valfenda, que o manteve a salvo de Sauron em sua juventude, Passolargo tornou-se um nômade, atuando em inúmeros conflitos em todos os cantos da Terra Média. Ele lutou na defesa de Gondor ao lado de Denethor e ao lado do Rei Thengel em Rohan, além de participar da caçada a Gollum ao lado de Legolas e Gandalf, forjando um laço inquebrável de amizade com eles.

Mesmo rejeitando o destino que lhe era reservado, ele sempre esteve presente para proteger todos os reinos contra quaisquer ameaças. Por isso, quando Gandalf lhe pediu para esperar os Hobbits no Pônei Saltitante em Bri, ele não pensou duas vezes. Mesmo que fugisse, o chamado ao dever o encontraria, e ele jamais seria capaz de negá-lo.

Nos anos que antecederam a fundação da Sociedade do Anel, o futuro Rei agiu como o 16º Chefe dos Dúnedain do Norte, protegendo toda a região, inclusive as fronteiras do Condado contra os Orcs. Se os Hobbits viviam em paz em seu vilarejo, era graças ao guardião cuidadoso e silencioso que muitos nem sequer sabiam que existia.

Aragorn era um mito, um homem que passava as noites sentado no fundo do bar, totalmente encapuzado e fazendo fumaça com seu cachimbo sem ser perturbado, para muitos, um homem perfeitamente comum, sem nada de especial. E, durante toda a sua vida, ele desejou ser exatamente isso.

Quando Frodo e seus amigos o encontraram no bar, acreditaram que fosse um andarilho perigoso, ou só um bêbado qualquer, não chegando nem mesmo a acreditar que ele poderia ser um agente de Sauron, já que, de acordo com Pippin, eles cheiravam melhor.

Ele os defendeu dos Cavaleiros Negros de Sauron e levou Frodo a Valfenda antes que perecesse aos ferimentos causados por ele. Ao proteger aquelas diminutas criaturas, ele protegeu também o futuro de seu mundo.

Entre os elfos, Aragorn reencontra sua amada Arwen, e também Boromir, filho do Regente Denethor. Diante dos fragmentos de Narsil, a lâmina usada por Isildur para cortar o Anel da mão de Sauron, o homem de Gondor relembra o momento em que a humanidade teve a chance de pôr um fim ao mal, mas preferiu entregar-se a ele. Com a espada de seu antepassado em mãos, Passolargo é questionado por Arwen sobre o porquê de não aceitar seu destino, justamente no momento em que todos os povos precisam de um Rei para protegê-los e unificá-los, e a resposta curta e simples resume o motivo dele ter ficado oito décadas nas sombras:

“O mesmo sangue corre em minhas veias, a mesma fraqueza”, o mesmo sangue que lhe fazia digno era o mesmo que o amaldiçoava. Seu maior medo não era assumir a responsabilidade, era tê-la em mãos e condenar a todos como seu ancestral fez. Era ter as esperanças de todos nas mãos e lançá-las no abismo.

Ao mesmo tempo, ele pensou em sua amada elfa. Arwen estava disposta a abrir mão de sua imortalidade por ele. Para ela, era preferível viver a finitude ao seu lado do que a eternidade sozinha. Essa decisão inegavelmente mudou seus rumos.

Aliando-se definitivamente à Sociedade do Anel, o futuro Rei jurou lealdade a Frodo, jurando protegê-lo em todos os seus caminhos, de todas as maneiras que lhe fossem possíveis. Algo curioso de reparar é o fato de que Aragorn é sempre o último da fila durante a caminhada. Enquanto Gandalf ilumina os caminhos adiante, Aragorn protege as costas de seus aliados. Para ser o primeiro, ele sempre fez questão de ser o último.

Seu momento de transição vem logo após o confronto com Balrog, quando o grupo é dividido por um ataque dos Orcs. Boromir, que até pouco havia sido tentado pelo anel e tentado roubá-lo de Frodo, havia ficado sozinho contra uma legião de inimigos, e lutou até sua última gota de sangue para proteger Merry e Pippin.

Aragorn chega logo após a queda de Boromir, matando o líder Uruk-hai em um duelo intenso e consolando Boromir em seus últimos momentos. O príncipe julgava-se indigno após seu lapso de fraqueza, mas Aragorn fez questão de lembrá-lo de seu sacrifício, de como, no fim de tudo, ele manteve sua honra intacta. E é nesse instante que Boromir redefine a posição do herdeiro de Gondor: "Eu teria te seguido, meu irmão... meu capitão... meu rei".

O andarilho Passolargo dava lugar ao capitão Aragorn, o herói corajoso e incansável, capaz de unir sob sua liderança todos os povos da Terra-Média, dos Elfos aos Anões, dos Magos aos Hobbits, dos vivos aos mortos.

Aragorn: o Capitão 

Em As Duas Torres, Aragorn lidera o trio com Legolas e Gimli na busca por Merry e Pippin. Nessa jornada, eles encontram não apenas Gandalf (que julgavam ter morrido em Moria), mas também os Cavaleiros de Rohan, a quem se unem para proteger o reino do avanço irrefreável das forças do mal. Ao apresentar-se aos cavaleiros, Aragorn revela abertamente sua verdadeira identidade, sem mais codinomes. Chega de fugir da verdade, de mentir sobre si mesmo e para si mesmo. Era muito mais do que demonstrar autoridade; era provar para si mesmo que estava pronto para aceitá-la.

Ele também resiste aos encantos de Éowyn, sobrinha do Rei Théoden, que se apaixona por ele quase de imediato. Contudo, seu coração já tinha sua cara-metade, e ele permaneceria leal a Arwen.

Após libertar Théoden da influência doentia de Gríma e do controle de Saruman, Aragorn passa a liderar as forças de Rohan ao lado do rei, guiando o povo em direção à fortaleza do Abismo de Helm. No caminho, ele quase perde a vida ao ser arremessado de um penhasco durante um ataque de cavaleiros de Warg.

Felizmente, ele sobrevive, sendo resgatado à beira do rio por Brego, o antes indomável cavalo do falecido filho de Théoden, que somente Aragorn fora capaz de acalmar. Levado pelo animal até a fortaleza, Aragorn descobre a marcha de 10 mil Uruk-hais enviados por Saruman e consegue chegar a tempo de alertar o rei sobre o exército iminente. Mesmo diante de uma derrota aparente, Aragorn mantém a moral do povo elevada, dando-lhes a certeza de que lutaria até o fim. É nesse momento de desespero que eles recebem um reforço inesperado: uma tropa de elfos liderada por Haldir, enviada a pedido de Elrond e Galadriel para honrar a antiga aliança entre as raças.

Na batalha, Aragorn lidera com maestria, mostrando um brilhantismo tático impecável para segurar a muralha e impedir que os orcs invadam a fortaleza. No fim, a resistência desesperada se une ao retorno de Gandalf e Éomer com o restante da cavalaria de Rohan, virando o jogo de forma épica.

Sua bravura em combate e liderança estratégica resultaram em uma vitória avassaladora, deixando uma mensagem clara para toda a Terra-Média: o Rei que os homens precisavam havia retornado, e os povos livres marchariam ao seu lado.



Elessar: o rei de volta ao trono

Em O Retorno do Rei, Aragorn passa por suas últimas provações antes de reclamar o trono, e a maior delas seria enfrentar o mesmo mal que consumiu Isildur (e não apenas superá-lo, mas fazê-lo ter medo).

Logo de início, ele recebe a espada de seu antepassado, agora reforjada pelos elfos como Andúril. Com ela, Aragorn detém o dom de liderar as hordas de espíritos presos na Senda dos Mortos. Os milhares de guerreiros ali aprisionados foram punidos por Isildur após se recusarem a lutar ao seu lado contra Sauron, sendo condenados a só encontrarem a paz quando sua promessa fosse cumprida.

Em seu primeiro ato como Rei, Aragorn lhes promete a liberdade caso o ajudem a livrar Minas Tirith das forças de Mordor, algo que eles fazem com considerável facilidade, afinal, não podiam ser feridos por arma alguma. Logo depois, ele cumpre sua palavra e liberta os espíritos. Mesmo sabendo que eles seriam de enorme valor no confronto final contra Sauron, Aragorn opta por honrar sua promessa. Todavia, com ou sem exército, ele ainda precisava que Frodo destruísse o Um Anel. Eles precisavam de uma distração, e das grandes.

Para isso, ele se utiliza da Palantír de Orthanc, recuperada em Isengard, que lhe permitiu encarar Sauron olhos nos olhos. Isso era tudo o que o Senhor do Escuro desejava, esperando inundar sua mente com desespero para dominá-la. No entanto, o Rei resiste ao olhar flamejante do Lorde das Trevas e empunha a espada que, três milênios antes, o havia destronado, agora totalmente restaurada pelos elfos.

Sauron reage, forçando Aragorn a ver o futuro em que Arwen envelhece e morre devido à decisão de amá-lo em vez da eternidade, tentando expor uma suposta faceta egoísta de seu amor. Era um simples homem contra uma quase divindade, mas Aragorn, mesmo de joelhos e contorcendo-se em agonia, não desiste de enfrentá-lo. O destino de Isildur não seria o seu.

Ao ver sua ruína diante de seus olhos mais uma vez, Sauron entra em pânico e esvazia suas defesas na parte interna de Mordor para bloquear a entrada do Portão Negro. Isso, é claro, era parte do plano de Aragorn para que Frodo e Sam pudessem chegar ao topo da Montanha da Perdição. Ele estava confiando o destino da Terra-Média àqueles dois Hobbits, trazendo para si toda a responsabilidade. Não era mais hora de ficar na defensiva; era o momento do tudo ou nada.

Ele marcha em direção às muralhas cor de ébano do reino das sombras, em direção aos milhares de orcs que a protegiam, e perante o olhar odioso de Sauron, que finalmente o chama pelo nome que lhe era de direito desde o dia em que nasceu.

“Elessar...”, um Rei coroado pelo próprio medo de seu arqui-inimigo. Um confronto desesperado se inicia, com Elessar enfrentando um monstruoso troll de batalha, enquanto suas forças limitadas são encurraladas pelas legiões de Mordor. A vitória era impossível, se a sua fé não tivesse sido recompensada. Quando o Anel de Poder é destruído na chama da perdição, Sauron finalmente cai, levando consigo todo o seu império de terror. A Guerra do Anel havia chegado ao fim.

Tempos depois, Elessar, ao lado de Arwen, é coroado diante dos portões de Minas Tirith, sob os olhares dos representantes de todos os povos livres da Terra-Média, finalmente unidos. Em um último gesto de humildade, a majestade ajoelha-se diante de Frodo e seus amigos, pedindo que todos os seus súditos fizessem o mesmo, pois até mesmo um soberano era capaz de reconhecer que, sem a bravura daqueles hobbits, nenhum deles estaria ali. Ele devia sua coroa, sua vida e seu mundo a eles.

De um nômade relutante, a um capitão inspirador, até um rei forjado no calor da batalha, Aragorn lutou ao lado e por seu povo do início ao fim. Ele respeitou todas as formas de vida sobre as quais reinou e manteve-se leal ao seu amor e aos seus amigos, mostrando-se, sem sombra de dúvidas, digno do trono que agora lhe pertencia.

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