Os Subtextos de IT, A Coisa

It, Bem-vindos a Derry, foi um dos maiores sucessos da HBO em 2025, estreando com uma das três maiores audiências de estreia da plataforma de streaming (ao lado de The Last of Us e Casa do Dragão), com mais de 5,6 milhões de espectadores apenas nos primeiros três dias. Esse fenômeno reacendeu o interesse de milhões pela obra de Stephen King e seus três filmes derivados, sendo o remake de 2017 a maior bilheteria de um filme de terror em todos os tempos, com 700 milhões de dólares arrecadados. Vídeos e posts com análises, reviews e curiosidades foram lançados aos montes, mas hoje, vamos falar um pouco sobre algumas percepções e subtextos que percebi na obra, com o intuito de dar uma visão mais ampla sobre sua lore e personagens. Sem mais delongas, vamos lá!

TERROR

Rafael Silva

2/21/202616 min read

Final feliz?

Esse talvez seja o mais trágico. Após a primeira derrota de Pennywise, o Clube dos Otários seguiu suas vidas e, com exceção de Mike, que optou por permanecer em Derry e se preparar para o retorno do Palhaço Dançarino, todos os outros deixaram a cidade e seguiram carreiras de sucesso: Bill tornou-se escritor, Beverly uma estilista, Ben um engenheiro, Eddie, um analista de riscos, Richie, um comediante e Stanley, um contador.

Todos tornaram-se profissionais de sucesso, Bill, Beverly e Eddie casaram-se, e aparentemente, suas vidas iam muito bem. Mas, e se eu te disser que, mesmo antes do retorno de IT, 27 anos depois do início de suas amizades, eles não estavam vivendo em um paraíso?

Começando pelos casos mais óbvios: Eddie e Beverly. Kaspbrak teve uma infância difícil, não só por Pennywise, mas também pela superproteção de sua mãe, Sônia Kaspbrak. A obsessão de Sônia pela segurança e saúde de seu filho veio desde antes de seu nascimento. Eddie quase morreu logo após nascer, precisando de aparelhos para conseguir respirar, o que fez com que sua mãe ficasse muitíssimo cautelosa com ele.

Aos cinco anos, Eddie perdeu seu pai, Frank, para um câncer, o que deixou Sônia ainda mais obsessiva. A dor da perda e o medo de senti-la de novo fizeram com que ela isolasse seu filho do mundo, incutindo em sua mente um pavor de todo e qualquer tipo de doença, tratando-o com placebos, no intuito de manter esse teatro vivo na mente de seu próprio filho.

Quem não se lembra, por exemplo, da bombinha de asma que ele usava constantemente, mesmo sem ter nenhum tipo de problema respiratório? Ele se transformou na personificação da hipocondria.

O garoto tinha poucos amigos, vivia com medo de tudo e todos. O amor de sua mãe acabou por destruir sua infância.

Mesmo sem querer, ela foi decisiva para que Eddie fosse um alvo fácil para Pennywise. Como prova disso, em It, 2017, temos a Coisa se apresentando para Eddie como a encarnação daquilo que ele mais teme: um leproso, um verdadeiro caldeirão de doenças ambulantes.

Felizmente, o garoto foi capaz de confrontá-la e, com o apoio de seus amigos, foi capaz de controlar seus medos, pelo menos o suficiente para derrotar It, chegando a usar sua bombinha como um jato de ácido de bateria para atacar o palhaço. Por um instante, o medroso dependente que ele foi durante toda sua vida havia partido.

Mesmo após a morte de Sônia e sua saída de Derry, Eddie jamais conseguiu superar os temores de sua infância, e isso se mostra justamente em sua escolha de casamento: Myra. Além de ser uma mulher bem acima do peso (assim como Sônia… não me processem), Myra tinha o mesmo senso de superproteção sobre seu marido que sua sogra. Eddie reuniu dois fenômenos de uma só vez: complexo de Édipo e Síndrome de Estocolmo, e morreu sem jamais ter conseguido superá-los, já que acabou morto por Pennywise no confronto final.

Mesmo estando consciente de todo o mal que sua relação com sua mãe lhe havia trazido, o homem não foi capaz de deixar seu passado para trás e acabou algemando-se com as mesmas correntes que parecia ter quebrado.

Com Beverly, o caso fica ainda mais sério. Sua infância foi repleta de abusos por parte de seu pai, Alvin Marsh, que estava sempre à espreita para violá-la. A violência física e psicológica sempre pairava à sua volta. Assim como Eddie, Beverly seguiu sua vida, deixou Derry e casou-se com Tom Hogan. O empresário inicialmente se apresentou de forma amigável, mas, após o casamento, mostrou-se tão agressivo quanto Alvin.

Mais uma vez, Beverly estava sob o mesmo teto que um homem que lhe agredia fisicamente e psicologicamente, todavia, ela não era mais uma criança de onze anos, era uma mulher com plenas capacidades de se emancipar financeiramente e denunciá-lo, para se ver livre daquele terror. Mas então, por que ela não fez isso? Simples, ela era emocionalmente incapaz.

A dor estava tão enterrada em sua mente que ela involuntariamente buscou por outro abusador, enxergando sua violência como demonstração de afeto. É inegável que ela apenas revidou as suas ameaças quando ele efetivamente tentou matá-la antes de sua volta a Derry. Beverly só é capaz de agir em último caso, quando na maior parte do tempo, permanece completamente paralisada pelo medo e pela submissão.


Mas, pelo menos, ela terminou feliz ao lado de Ben, não é? Pessoalmente, acho que não, e por um motivo muito simples: ela nunca amou Ben Hanscom, pelo menos não tanto quanto amava Bill Denbrough.

Desde a infância, ela sempre foi apaixonada pelo líder do Clube dos Otários, mesmo que Ben estivesse sempre tentando atraí-la para si. Tanto é que Marsh imaginou que o cartão dado a ela por Hanscom havia sido feito por Bill. Mesmo na fase adulta, ela continuou mantendo uma conexão fortíssima com ele, inclusive relacionando-se sexualmente com o escritor, sempre enxergando-o como o membro do grupo que mais amava. Mas, por que ela ficou com Ben? Dois motivos: Bill já era casado, e assim sendo, ela entregou-se ao homem que sempre a quis, e em quem ela confiava para enfim poder sentir-se segura.

Ben, apesar do sucesso financeiro e da forma física impecável, que serviu para enterrar suas dores do passado parcialmente, via em Beverly, sua maior “conquista”. Ele não foi capaz de alcançar a plena felicidade em sua vida, sem que uma pessoa em específico fizesse parte dela

Quanto a Stanley, não precisamos nem detalhar muito. Ele sempre foi o mais frágil dos sete, e assim que foi confrontado pela possibilidade de ter que enfrentar It novamente, ele preferiu o suicídio.

Bill provou que jamais conseguiu realmente superar a morte de George, apenas esquecendo-se dele após deixar Derry, mas automaticamente voltando a sentir o mesmo arrependimento após entrar novamente na mira do Palhaço Dançarino. Porém, no final da obra, pode-se dizer que ele supera essa mágoa.

Richie… esse merece um tópico só para ele. Mas, baseando-se especialmente em It: Parte 2, podemos resumi-lo assim: alguém que gostava da mesma fruta, e acabou perdendo aquele que mais amava.

Mike, seguramente, é o mais bem resolvido do grupo, por mais incrível que pareça. Ao contrário de seus amigos, que viraram as costas para tudo que viveram em Derry, ele jamais a deixou, permanecendo lá, sozinho, e sendo visto por muitos como um louco. Porém, além de ser o grande responsável por unir o grupo para derrotar Pennywise definitivamente, ele sentiu na morte da Coisa sua permissão para viver.

Banhado por um sentimento de dever cumprido, ele enfim deixou a cidade, como alguém que nunca fraquejou em cumprir a promessa que havia feito na infância.

Como pudemos ver, os otários em muitos casos tiveram vidas adultas tão turbulentas quanto suas infâncias, e alguns deles jamais conseguiram superar as dores que permearam sua vida.


Richie é gay, e talvez não seja o único do grupo…

A sexualidade do comediante do grupo foi melhor trabalhada em It, Parte 2 (2019), mas já havia pistas sobre a presença de um homossexual no Clube dos Otários desde a obra de Stephen King, porém, representado por outro personagem.

Richie aparenta ter um interesse amoroso sutil por Connor Bowers, primo de Henry, jogando continuamente com ele no fliperama de Derry, e chegando a oferecer-se para pagar mais fichas, para que pudessem ficar mais tempo juntos. Tudo dá errado quando Henry e seus asseclas chegam ao local, e Connor automaticamente passa a proferir ofensas homofóbicas a Richie, algo que pode parecer um mero bullying (o que seria bem comum em Derry), mas já servia de subtexto para o dito “segredinho sujo de Richie” que Pennywise tanto cita.

As piadas e a hiperatividade do garoto, com o passar do tempo, passaram a servir como ferramentas para esconder aquilo que temia afastar seus amigos caso fosse dito. Porém, a cena que simplesmente escancara sua homossexualidade é o momento em que ele risca em uma cerca a frase: R+E. Aqui, não tem segredo, ele estava se declarando para Eddie Kaspbrak, seu amigo mais próximo, mesmo nos tempos de racha dentro do Clube dos Otários.

Richie notadamente é o que mais sofre com a morte do amigo após o confronto com Pennywise, algo que reforça esse interesse romântico oculto. No entanto, muitos fãs apontam que esse desenvolvimento não condiz com o personagem, nem no primeiro filme, e muito menos no livro.

Na primeira parte do remake, Richie demonstra interesse por Beverly, assim como todos os garotos. No livro, além da notória cena de “fortalecimento de laços” entre os meninos do Clube dos Otários e Beverly, na qual Richie também participou, o garoto tem uma vida adulta repleta de relacionamentos fracassados com mulheres, o que indica que, por mais que não saiba lidar com elas, é somente por elas que ele sente qualquer tipo de atração.

A adaptação televisiva de 1990 também ecoa essa mesma personalidade, mas reforça o subtexto homossexual em outro personagem, esse sim, com raízes diretas no livro de 1986: Eddie.

Por mais que tenha se casado com Myra, existe um detalhe que aponta fortemente para sua homossexualidade: ele jamais transou com ela, algo que é inclusive dito na adaptação de 1990. Seu relacionamento não é romântico, nem sexual, é uma espécie de continuidade da relação que ele tinha com sua mãe, assim como apontamos anteriormente.

Ele a escolheu justamente pela falta de sexo, algo que superficialmente pode ser relacionado apenas à sua aversão a qualquer possibilidade de contágio (vale ressaltar que em 1986, a AIDS matava milhares de pessoas anualmente, e muito provavelmente, essa postura de Eddie ressoa o período em que a obra foi escrita), como também à possibilidade de uma insegurança quanto ao que verdadeiramente lhe atrai.

Além disso, tem-se outros trejeitos puramente comportamentais, como sua fragilidade e pouco apreço por interesses normalmente relacionados ao gênero masculino.

No remake, Richie é assumidamente gay, na versão original, Eddie é quem possivelmente assume esse papel. Então, por que Andy Muschietti simplesmente não adaptou o arco de Eddie e Richie da mesma maneira que no livro?

Aqui, estamos diante de uma decisão puramente criativa. O personagem interpretado por Bill Hader é muito mais falante e ativo (sem duplo sentido aqui…) do que o Eddie de James Ransone, o que potencializa a mensagem.

Curiosamente, Richie não escreve B de Bill ou Ben, nem M de Mike na ponte, e sim E de Eddie, servindo talvez como referência a outro possível homossexual no grupo, mas que não foi igualmente explorado nesse contexto, como havia sido originalmente. A trama não foi refeita, mas referenciada.

Infelizmente, todos sabemos que It, Parte 2, passa longe de ser tão sublime quanto seu antecessor direto ou a obra de King, podendo ter explorado mais dessas questões, de forma a não deixá-las tão deslocadas. Ainda assim, foi capaz de dar uma razão plausível para a insegurança que Richie esconde por detrás de sua máscara de humor ácido.

No fim, talvez Richie não seja apenas o palhaço do grupo, mas o mais silencioso quando o assunto é o próprio medo.


Por que os otários não têm filhos e, com exceção de Mike, ficaram ricos?

Eis aqui um dos maiores enigmas do universo de Stephen King, e que somente encontram possíveis respostas no campo da especulação e do sobrenatural. Como já dissemos antes, todos os Otários tiveram carreiras de sucesso, menos Mike, que jamais deixou Derry até que Pennywise fosse finalmente ceifado.

Será que Derry tem um dos melhores sistemas educacionais dos EUA? Todos eles eram extremamente prodigiosos? Ou será que Pennywise usou de seus poderes para mantê-los longe da cidade para sempre? Acho que a terceira opção é mais plausível…

É perceptível como todos os sete prosperaram após deixar a cidade. Possivelmente, a Coisa pode ter dado sucesso profissional a seus inimigos, de forma a fazê-los pensar melhor em voltar a Derry e pôr suas vidas em risco mais uma vez.

Outra teoria muito comentada entre os fãs é de que, em vez de Pennywise, seria a Grande Tartaruga (entidade benigna, rival da Coisa), que além de oficialmente ser a responsável por conectá-los desde a infância, teria de certa forma os abençoado, por ter aceito o desafio de impedir It, mesmo que inconscientemente.

Mas será que essa bênção serve também como maldição, no que se refere à fertilidade? O Clube dos Otários jamais firmou nenhum tipo de pacto para não terem filhos, ou seja, isso possivelmente se deve a algum tipo de infertilidade imposta por um agente externo.

Certamente, a Grande Tartaruga se beneficiaria caso eles não tivessem laços familiares fortes, que de alguma forma pudessem impedi-los de voltar a Derry quando fosse necessário. As teorias nos levam a uma conclusão lógica: eles foram agraciados com dinheiro, mas não com conexões que pudessem distraí-los de sua amizade e missão.

Narrativamente, isso também tem propósito. É muito mais fácil manter uma aura de amizade infantil entre os otários, mesmo depois de adultos, não sendo possível vê-los na mesma posição de seus pais. Esse último passo da maturidade jamais foi dado por eles. Mesmo que por um único resquício, seu lado criança ainda vivia neles, e por isso sua amizade ainda era tão forte, mesmo quase três décadas depois.

Para vencer a Coisa, eles precisavam recuperar suas crenças de criança, sua criatividade, inocência e destemor, e certamente, o peso da paternidade poderia afastá-los disso.

É claro que existe a possibilidade de que, de maneira privada, cada um deles tenha optado por não ter filhos, em especial Mike, por medo de as crianças poderem entrar na mira de Pennywise, ou sofrer com a morte não muito improvável de seus pais. Mas, no universo de It, as explicações racionais normalmente não são as certas.

Curiosamente, assim que Pennywise morre, Beverly fica grávida de Ben, indicando que, muito provavelmente, suas infertilidades estavam relacionadas a seu dever maior contra a Coisa. Bill, Richie e Mike seguiram sem filhos, mas possivelmente agora poderiam tê-los, sem essa trava invisível em suas vidas.


Quem foi o maior herói?

Essa é uma questão bastante relativa e polêmica. Sem que todos os otários estivessem unidos, seria impossível derrotar Pennywise, mas sempre tem alguém que se destaca. Todos tiveram seus momentos de força e de fraqueza e, pessoalmente, travaram suas próprias batalhas contra a Coisa.

Começando pelos que tiveram menor influência: Stanley e Ben. Stanley sempre foi o elo mais fraco do grupo, hesitando até mesmo em acompanhar seus amigos no primeiro confronto contra It nos esgotos. Uma vez lá, ele continuava incapaz de controlar seus próprios temores, sendo o ponto de ruptura entre eles.

No momento de cumprir sua promessa e retornar a Derry para matar definitivamente a Coisa, ele tirou a própria vida, por medo, não apenas de enfrentar seu terror de infância novamente, como também de que sua fraqueza pudesse condenar também os seus amigos. Ele não foi capaz de vencer a Coisa, e nem mesmo a si mesmo.

Ben, por sua vez, foi muitíssimo mais ativo, demonstrando coragem desde a infância, ao enfrentar Henry na famosa guerra de pedras, entrar nos esgotos na infância, e retornar 27 anos depois, mesmo que os fantasmas de seu passado ainda o assombrassem. Mas, pode-se dizer seguramente que, em seu retorno a Derry, a coisa mais relevante que ele fez foi dar em cima da Beverly.

Na obra de King, Ben é responsável por destruir todos os ovos deixados por Pennywise nos esgotos, garantindo que o Palhaço Dançarino nunca mais voltasse. Certamente relevante, mas não tanto quanto boa parte de seus amigos. Diferentemente de Stanley, Hanscom conseguiu superar seus traumas e terminar a história ao lado da mulher que amava desde a infância. Principalmente do ponto de vista individual, ele venceu.

Beverly e Eddie são um caso claro de quem foi vital para vencer Pennywise fisicamente, mas que talvez nunca tenham lhe derrotado pessoalmente. Como já dissemos no início, eles permaneceram presos aos traumas de sua infância mais do que qualquer outro no grupo.

Todavia, sem eles, Pennywise possivelmente teria matado o Clube dos Otários ainda em 1958 Com a bomba de asma ácida de Eddie e o estilingue com brincos de prata de Beverly, Pennywise foi obrigado a fugir, livrando-os temporariamente do pesadelo.

Eddie também foi responsável por matar o braço armado de Pennywise, Henry Bowers, quando este tentou assassiná-lo após escapar de Juniper Hills.

Richie foi vital no último conflito, sendo ele o responsável por descobrir que os xingamentos e o destemor diante de Pennywise eram a única forma de derrotá-lo. Ele transformou o temor em humor, superando sua própria mágoa no processo.

Assim, restam apenas dois: Bill e Mike, os quais creio que estejam igualados em importância. Denbrough, naturalmente como protagonista, é o responsável por unir o Clube dos Otários nos anos 1950, levá-los aos esgotos e enfrentar o trauma da morte de George.

Pode-se notar que a superação de Bill sob suas próprias trevas se mostra especialmente em sua fala. Enquanto era atormentado por Pennywise, a gagueira fazia-se presente. Quando ele deixa Derry, e após a morte da Coisa, ela se vai.

No livro, ele é o responsável por esmagar o coração de It, matando-o definitivamente, como alguém que, por mais que tenha tentado deixar suas dores no passado, não tentou fugir delas quando voltaram ao seu encontro.

Mike, por sua vez, mostrou-se primordial ao ter ficado em Derry e descoberto o Ritual de Chüd. Sem ele, talvez os Otários nem ao menos tivessem voltado para a cidade, e caso o fizessem, jamais teriam ferramentas para derrotar Pennywise. Além disso, fica claro como ele encontra sua realização pessoal após sua vitória contra a entidade.

Bill uniu o grupo, e Mike o reuniu. Bill matou o Diabo, e Mike o ensinou como fazê-lo. Apesar de pessoalmente acreditar que essa dupla tenha sido a decisiva para a queda de It, é inegável que todos tiveram sua importância. Mesmo morto, Stanley mostrou bravura, pois acreditava que sua morte era necessária para que seus amigos triunfassem, e suas cartas lidas por eles no final lhes deram a motivação necessária para conseguir.

E para você, quem foi o mais importante?

Derry, uma extensão da Coisa

Derry, localizada no estado de Maine, foi fundada por volta dos anos 1700, quando colonizadores britânicos chegaram ao local, entrando em conflito com os povos indígenas que lá viviam. O que eles não sabiam era que os nativos estavam há anos mantendo uma entidade de poder imensurável presa naquela região, e o morticínio proposto por eles havia acabado de despertar seu voraz apetite por sangue após 2 milhões de anos em hibernação.

Após massacrar os colonos, a Coisa foi selada pelos indígenas, que utilizaram partes do asteroide que a trouxe à Terra para fazer uma espécie de cerco em torno do território da cidade, mantendo a criatura aprisionada no local em que caiu.

Por mais que tivessem livrado o mundo daquele horror cósmico, os nativos haviam dado a Derry sua maior ameaça. Pennywise não apenas reside na cidade, ele É a cidade. Seu poder não se limita apenas a sair dos esgotos de 27 em 27 anos, para matar algumas dezenas de crianças. Ele, em seu poder de manipulação, mantém todo um povo preso em um estado de inação ao terror, enquanto sustenta uma falsa máscara de prosperidade e hospitalidade.

À primeira vista, Derry pode parecer uma cidade maravilhosa, linda e com um povo hospitaleiro, mas é apenas uma fachada. Na verdade, é essa fachada da qual Pennywise se utiliza não só para atrair novas vítimas ao local (que, se tivesse sua verdadeira natureza exposta, certamente seria tão deserto quanto Silent Hill), como também para isolá-las. Ninguém acreditaria que um palhaço assassino sobrenatural agiria em uma cidade tão perfeita (na verdade, isso seria difícil de acreditar em qualquer lugar…).

Inúmeros são os horrores que Derry vivenciou, e que o Palhaço Dançarino não agiu diretamente, apenas permitiu que as pessoas usassem sua própria maldade em favor dele. O massacre no Black Spot, visto na ótima série 'Bem-vindos a Derry', mostra uma chacina de dezenas de cidadãos negros pelas mãos de brancos racistas. Aqui, o ódio humano pelos seus semelhantes foi suficiente para iniciar o terror e a morte, e Pennywise apenas apareceu para se banquetear em meio ao massacre.

Temos também o famoso assassinato de Adrian Mellon, diante dos olhos de seu namorado, Don Hagarty. Mellon foi impiedosamente espancado e lançado de uma ponte. Ao cair na água, quase morto, Adrian é definitivamente morto por Pennywise, que espreitava quase como um abutre, esperando que os predadores de verdade o entregassem para ele.

Nesse caso, a violência e a intolerância de Derry simplesmente deram à Coisa um jantar com tudo pago, sem que ele precisasse fazer o menor esforço. A cidade, aparentemente pacata, era na verdade um reduto de pessoas preconceituosas ao extremo, que representam uma ameaça real a qualquer um que ameace romper com sua higiene social.

Psicopatas como Henry Bowers e seu amigo Patrick Hockstetter também são ótimos exemplos de como a cidade alimenta seu próprio monstro. Muito mais que meros bullies de filme americano, Henry e seus comparsas são verdadeiros criminosos. Henry é racista, perseguindo Mike devido à sua cor, assim como seu pai perseguiu o dele no passado.

A violência contra o Clube dos Otários não é meramente uma perseguição contra esquisitões, é um mecanismo que traz o mínimo de autoconfiança para Henry, que também vivia uma relação abusiva com seu pai, Butch. Quando seu pai o humilhava, Henry sentia-se frágil; ao bater em Ben ou Bill, Henry sentia-se forte. A força tornava-se um meio de sobrevivência física e psicológica, algo que deixava Pennywise salivando.

Patrick é um caso à parte, sendo ele um sociopata que assassinava animais apenas para vê-los apodrecer diante de seus olhos, deixando até mesmo It impressionado com tamanha insanidade.

Mas a faceta mais horripilante é a relação entre as famílias de Derry. O descaso dos pais de Bill em relação a ele após a morte de George. O abuso de Alvin contra Beverly, que vivia sob constante ameaça de ser violada pelo próprio pai. A superproteção de Sonia Kaspbrak com seu filho, Eddie, que o mantinha isolado do mundo; todos esses eram mecanismos para deixar as crianças desprotegidas até mesmo no lugar onde deveriam se sentir mais acolhidas: em suas próprias casas, com suas próprias famílias.

Pennywise alimentava e se alimentava dessas crises, pois quanto mais isolada e fragilizada uma criança estava, mais fácil seria devorá-la.

Quando uma criança não encontra proteção em seus pais, amigos, professores ou em quem quer que seja, Pennywise mostra seu poder. O medo não vem apenas das formas horripilantes que It toma para aterrorizar suas vítimas, mas principalmente do sentimento de impotência e solidão, de saber que você está totalmente sozinho.

Pennywise não é detentor apenas de um poder bruto, é uma questão de poder real. Ter em suas mãos a sua vida. Ter o poder de escolher seus caminhos, sentimentos e pensamentos. Governar sua vida e decretar sua morte.

Em Derry, o mal lhe chama para sentar em uma mesa bela e farta, mas se omite em dizer que você será o prato principal. E aí, acha que iria suportar?