OS QUADRINHOS DE TERROR: REGANDO COM SANGUE, COLHENDO CENSURA
Em dezembro de 1940, a revista Prize Comics #07, de Dick Briefer, deu início àquele que viria a ser um dos gêneros mais polêmicos e sanguinários da indústria dos quadrinhos: os gibis de terror. Essa dita HQ nos trazia uma adaptação do clássico Frankenstein, de Mary Shelley, para os dias atuais. Ao longo da década, obras icônicas como Drácula e o Médico e o Monstro também foram trazidas para as páginas. A originalidade ainda não havia dado as caras. Isso mudou em janeiro de 1947, quando a primeira edição de Eerie Comics chegou às bancas. O quadrinho antológico de Joe Kubert e Fred Kida trazia consigo seis histórias, mostrando desde lobisomens e cientistas loucos, até répteis monstruosos em uma ilha perdida. O gênero que até então vinha sendo quase totalmente dominado por heróis fantasiados como Batman, Superman e Capitão América, expandia seus horizontes para temáticas mais violentas e sobrenaturais. Os horrores da guerra fizeram aflorar na humanidade o seu lado mais cru e bruto. Talvez, o terror mostrado nas páginas nada mais fosse que um reflexo da mente dos leitores naqueles primeiros anos do pós-guerra. Vendida lado a lado com as HQs de super-herói, por não mais do que 10 centavos, Eerie Comics #1 foi um tremendo sucesso, tendo sua primeira tiragem completamente esgotada. Ainda sim, a editora Avon só deu continuidade a série em 1951, uma vez que inicialmente investia somente em One-Shots. Fato é que esse foi o pontapé inicial para um verdadeiro mar de sangue nas bancas de quadrinhos. Em 1948, Adventures into the Unknown tornou-se a primeira série contínua de contos de terror. E nos anos 1950, os dois colossos do nicho nasceram: Vault of Horror e Tales From The Crypt, ambos da EC Comics. O sucesso estrondoso desse subgênero, somado a violência gráfica chocante para a época, fez com que muitos passassem a culpá-lo pela crescente “delinquência juvenil”. Em 1953, o notório psiquiatra alemão, Fredric Wertham, publicou seu trágico livro “A Sedução do Inocente”, que caiu com uma verdadeira bomba na indústria de quadrinhos. Na obra, o autor acusava Batman e Robin de disseminar o homossexualismo. A Mulher-Maravilha de encorajar o masoquismo. Apontava o Superman como um símbolo do fascismo. Se os mocinhos foram tratados assim, imagine o que ele tinha reservado para HQs que ostentavam cabeças decepadas em suas capas? A censura dos Comics-Code, nascida da pressão do Senado Americano, simplesmente esmagou títulos como Vault of Horror e Tales From The Crypt, forçando-os aos cancelamentos pela EC Comics. A editora tentou se reinventar para manter-se relevante, mas, imersa em fracassos, acabou por investir em títulos como a saudosa revista MAD, livre das amarras do Comics-Code, tornando-se um verdadeiro marco cultural. O fim desses títulos fez dos quadrinhos de terror uma verdadeira lenda entre os fãs da nona arte, com seus poucos exemplares sendo vendidos por valores estratosféricos na internet (eu mesmo achei que conseguiria comprar ao menos uma edição para ler… leigo engano), com muita gente sendo incapaz de citar um único personagem ou HQ desse subgênero. Algumas dessas histórias foram inclusive adaptadas para seriados e filmes, outras, serviram de inspiração para sucessos ainda maiores. Mas, muito pouco se sabe sobre suas origens. Hoje, vamos conhecer algumas das histórias, personagens e artistas mais notórios desse período, e compreender como eles impactaram o seu tempo e influenciaram o futuro do terror na literatura e em tantas outras mídias. Sem mais delongas, vamos lá!
TERRORMARVEL E DC
Rafael Silva
10/20/20267 min read


Foul Play!" (Crime SuspenStories #19, 1953)


Uma das mais brutais e polêmicas da história da editora, com arte de Jack Davis e roteiro Al Feldstein. Antes de mais nada, é extremamente necessário falar sobre Feldstein. Amigo de William Gaines, recém-tornando editor da EC Comics devido a morte de seu pai, Max Gaines, Al remodelou completamente o padrão da editora, guiando-a rumo a sua era de ouro. Ele foi o cérebro por trás da carnificina que leremos mais adiante.
Se Al era o cérebro, o Crypt-Keeper (O Guardião da Cripta), era o rosto da editora. Criado por Feldstein em Crime Patrol #15, O Guardião nada mais é que um velho bizarro com uma aparência de morto-vivo, que introduz e narra as histórias, enchendo-as com comentários sarcásticos. Ele é a ponte entre o leitor e a narrativa, quase como se acompanhasse a trama ao lado dele.
Na trama, um jogador trapaceiro de beisebol chamado Herbie, decide que vale tudo para vencer, e envenena o rebatedor do time adversário, para garantir que seus arremessos passassem. Até aí, parece um drama adolescente comum, não é mesmo? Poderia ser, caso o dito rebatedor não tivesse morrido em decorrência do envenenamento.
O time adversário descobre a verdade, e faz uma visitinha a Herbie. O que acontece deixaria até mesmo Jigsaw de queixo caído… Eles o desmembraram sem piedade, fazendo seu coração como bola e seus intestinos como as linhas do campo. Antes que pudessem fugir desse jogo macabro, a polícia os encontra, o que não impediu os leitores da época de vislumbrar o que foi dito como: uma das imagens mais brutais da história dos quadrinhos.
Essa HQ foi tão violenta, que Wertham usou exatamente ela para defender sua tese, deixando Gaines e Feldstein em maus lençóis. O renomado crítico de quadrinhos, Robert Warshow, a chamou simplesmente de “O limite absoluto do mau gosto”.
Não era simplesmente a banalização da selvageria, era associá-la a um esporte que é quase um patrimônio nacional para os americanos, e fazê-lo por meio de jovens aparentemente comuns, movidos pura e simplesmente pela vingança. A EC Comics não punha o mal como algo inalcançável, reservado somente aos piores entre nós.
"Poetic Justice!" — The Haunt of Fear #12


Inspiração para o clássico "Freakshow” (1982), de George Romero e do mestre do terror, Stephen King. King descreveu a HQ como uma das mais que mais lhe fascinou na infância. Ouvir isso do cara que escreveu It, Iluminado, Carrie, Cemitério Maldito e tantos outros clássicos do terror, com certeza não é pouca coisa.
Arthur Grimsdyke era um homem velho e simples, solitário após a morte de sua esposa. Sua maior e talvez única satisfação, era consertar brinquedos quebrados do lixo e distribuí-los para as crianças humildes da sua vizinhança. Basicamente: sua rotina era fazer bem.
No entanto, isso não agradou os jovens Henry e Harold Elliott, dois irmãos ricos e esnobes, que desprezavam a humildade do idoso, e decidiram perturbá-lo sem motivo. Eles passaram a insinuar que o velho seria na verdade um criminoso, usando-se dos brinquedos para atrair as crianças. Eles também o obrigaram a livrar-se de seus cães, a única companhia que tinha em seu lar.
Por fim, no Dia dos Namorados, eles o presentearam com cartas repletas de insultos terríveis. Todo o ódio direcionado a um homem que não havia lhes feito nada. Desolado, Arthur tira a própria vida. Henry e Harold não sentiram um pingo de remorso, crentes de que haviam “limpado” o bairro daquela sujeira.
O arrependimento bateu a porta deles exatamente um ano depois, quando Arthur voltou dos mortos como um zumbi apenas para fazê-los pagar, arrancando o coração de ambos. Ele não teve misericórdia, assim como não tiveram dele.
A tragédia tem como intuito demonstrar como a maldade vai muito além de uma aparência monstruosa, vivendo principalmente, no desprezo por quem está ao seu lado. Foi justamente isso que encantou Stephen King.
Em 1972, Tales From The Crypt foi adaptado para os cinemas, trazendo uma coletânea de seus contos mais memoráveis. Arthur Grimsdyke foi interpretado pelo lendário Peter Cushing (nosso eterno Grand-Moff Tarkin), sendo considerado um dos melhores momentos do filme.
"Judgment Day!" — Weird Fantasy #18 (1953)


Possivelmente, o exemplo mais cristalino do quão nojenta a censura pode ser. A história de Al Feldstein e Joe Orlando, um astronauta chamado Tarlton chega ao planeta Cybrinia, para decidir se ele pode ou não anexar-se à República Galáctica.
O planeta é habitado por dois modelos de robôs totalmente idênticos, com exceção de suas cores: metade é azul, outra laranja. Os azuis vivem completamente marginalizados, sem moradia, com péssimos empregos e praticamente sem possibilidade de ascender socialmente. Já os laranjas, têm plenos direitos à saúde, educação e moradia digna, simplesmente pela pintura da sua lataria. Para além disso, não existe absolutamente nada que justificasse tamanha desigualdade entre os dois grupos.
Chocado, Tarlton reprova o planeta, inconformado com tamanha injustiça. Antes de deixá-los, ele diz a um dos robôs laranja: "Na Terra também parecia não haver esperança… até que aprendemos a viver juntos"
Ao tirar o capacete, Tarlton revela ser um afro-americano, alguém que muito provavelmente, sabia exatamente a dor vivida pelos azuis. A HQ faz uma sociedade odiar outra, para depois mostrar que ela estava simplesmente odiando a si mesma.
Em 1956, com o Comics-Code já em vigor, o administrador Charles Murphy simplesmente ordenou que o astronauta negro fosse removido da HQ. Não havia regras quanto a isso, era puro e simples preconceito. Medo de que aquilo pudesse fazer com que pelo menos alguns leitores refletissem sobre o mundo à sua volta.
Gaines bateu o pé, o que fez com que o título fosse cancelado. Ainda sim, ele provou que o preconceito é muito mais aterrorizante do que qualquer atrocidade que seus artistas pudessem conceber.
"Acordos de Vida ou Morte" The Vault of Horror #35 (1953)


Uma camada dupla de terror. Uma esposa gananciosa está cansada de esconder seu caso com outro homem de seu marido, e anseia por finalmente pôr as mãos em seu dinheiro. Ela então decide matá-lo, e que momento mais inoportuno para isso do que a Noite de Natal?
Após acertá-lo mortalmente com um atiçador de lareira, ela deixa seu corpo estirado na sala de estar, diante da cintilante árvore natalina, quebrando o clima em 1000%. Porém, ela não tardou em provar do seu próprio veneno.
Enquanto se empenhava em esconder as provas do crime, ela escuta a rádio local informando sobre um maníaco assassino perambulando pela região, trajando uma fantasia completa de Papai Noel. O que fazer? Chamar a polícia e passar o resto de seus dias atrás das grades? Ou arriscar tudo, e provar da maneira mais macabra possível que nem a morte era capaz de separá-los?
Ela se mantém longe do telefone, e continua limpando a cena do crime, quando de repente, o som de algo descendo pela chaminé lhe deixa em pânico. O assassino veio ao seu encontro, quase como se sentisse o cheiro de sangue. Ao ver o cadáver do homem, o maníaco surta e não tarda em dar à assassina o mesmo destino.
O conceito de justiça poética mantinha-se vivo.
A trama tensa e cheia de reviravoltas de Bill Gaines e Al Feldstein, foi adaptada no segundo episódio da série televisiva Tales from the Crypt, dirigido por Robert Zemeckis, diretor da lendária trilogia De Volta Para o Futuro.
"O Último Respeito" (Last Respects) — TALES FROM THE CRYPT (1951)


Essa talvez seja a mais nojenta de todas. Um homem desprezível chamado Tony viaja até um mausoléu isolado apenas para se despedir de sua falecida esposa. Ele não sente absolutamente nenhuma tristeza. Antes de sua morte repentina, seu casamento já estava em frangalhos. Aquilo não era nada mais do que o cumprimento de uma obrigação para ele.
Mal ele sabia que a morte deixaria os dois mais próximos do que nunca. Tony acaba preso no mausoléu quando uma ventania incontrolável bate a porta metálica atrás dele. Como boa pessoa que era, ninguém veio a sua procura. Sem comida, o homem sobrevivia de gotas de água que pingavam por entre as rachaduras da tumba.
As paredes pareciam se fechar em torno dele, sua pele não sentia a luz do sol a dias. Sua mente logo tornou-se tão debilitada quanto seu corpo.
De pouco em pouco, o medo se transformava em desesperança, e depois, na mais absoluta loucura. Tomado pela fome, ele decide simplesmente se alimentar do cadáver de sua esposa. Um último ato desesperado para manter-se vivo, mesmo que isso custasse sua própria humanidade.
Um mês se passa, e os zeladores do local finalmente abrem a tumba, onde encontram Tony já morto. De fome? Não! Ele foi envenenado pelo formaldeído usado para embalsamar sua esposa. Mesmo morta, ela achou uma forma de puni-lo por sua monstruosidade.
A necrofagia explícita e claustrofobia extrema fizeram dessa uma das HQs mais criticadas da EC, um dos alvos favoritos do Comics-Code para forçar a sua derrubada.
Muitas dessas histórias são realmente brutais e nojentas, não podendo de maneira alguma ser consumida por um público infanto-juvenil, algo que era muitíssimo difícil de se regular em plenos anos 1950. Todavia, dizer que a caça às bruxas promovida pelo Comics-Code foi somente para “defender a inocência das crianças” seria de extrema ingenuidade. A complexidade do crime, questões raciais e sociais, liberdade criativa, essas e outras questões simplesmente foram tiradas da mesa sem o mínimo de discussão. Era uma sociedade achando por meio do medo, uma forma de manter certos assuntos fora do alcance das novas gerações.
E você, conhecia qualquer um desses títulos? Gostaria de uma parte 2 explorando outros? Não deixe de comentar!
