Os primeiros anos do Batman (1939-1953)
O bastião da justiça, de moral incorruptível, Batman tornou-se referência dentre os arquétipos de heroísmo. Por mais que sua luta viesse das sombras, ela era guiada por valores claros: justiça, respeito à vida e ação com e sem máscara. Todavia, um personagem de 87 anos certamente já passou por múltiplos momentos distintos em sua vida. A caricatura dos anos 1950-1960, o ícone renascido dos anos 1970-1980, e o herói pé no chão dos anos 2000, com Christian Bale. Porém, há um período um tanto inexplorado na lore do Homem Morcego: seus primeiros anos, o tempo entre sua concepção pelas mãos de Bob Kane, e principalmente, Bill Finger, em maio de 1939, até o início dos anos 1950, onde “A Sedução do Inocente” de Frederic Wertham surgiria para dar um fim à seriedade e inaugurar as décadas da fanfarrice no gênero de super-heróis. Justiceiro sem código moral, seriados de moral para lá de duvidosa (e de qualidade igualmente duvidosa), o surgimento de seus primeiros aliados e inimigos. Hoje, vamos descobrir como a lenda do Cavaleiro das Trevas se fundamentou em seus primeiros quatorze anos. Sem mais delongas, vamos lá!
MARVEL E DC
Rafael Silva
3/1/202619 min read
O Vingador da Noite


Em 1939, a National Publications (futura DC) já vendia milhões de gibis com Superman, maior ícone da editora, lançado um ano antes. Assim, eles voltaram-se para um de seus jovens artistas, Bob Kane, para que desenvolvesse um novo herói, dando continuidade à maré lucrativa que havia se instalado na empresa desde a criação do Homem de Aço.
Inspirando-se no próprio Superman e em figuras do sci-fi como Flash Gordon, Kane deu origem ao primeiro rascunho daquele que viria a ser o rosto da DC: Birdman.
De traje avermelhado e sem capuz, Birdman ainda fazia pouca alusão ao Maior Detetive do Mundo, senão pelas suas imponentes asas negras. No entanto, seu visual definitivo seria pensado por um colega pessoal de Bob Kane: Bill Finger. Finger era leitor assíduo de Pulp Comics, fissurado por heróis mascarados e detetives de moral questionável em aventuras sombrias. Foi então que, buscando referências em figuras como o Sombra e Zorro, Bill Finger desenvolveu sua lenda. Servindo de completo oposto ao Superman, que mostra-se abertamente e age à luz do dia sem esconder-se atrás de uma máscara, Batman agiria nas trevas, oculto pela face horripilante de um morcego, de forma a demonstrar o lado mais cru e bruto do heroísmo, aquele que luta em becos escuros e esgotos, ao invés de no topo de arranha-céus.
Infelizmente, Finger, responsável por conceber não apenas a identidade visual do próprio Batman, como vários elementos de seu universo, desde Gotham até o Batmóvel, recebeu pouquíssimo reconhecimento pelo que fez naqueles primeiros anos, com Bob Kane assumindo o posto de “pai do Batman” e guiando sua série ao lado de figuras como Sheldon Moldoff, Jerry Robinson, George Roussos e outros.
Em 27 de maio de 1939, chegava às bancas Detective Comics #27, apresentando várias mini-histórias, como Speed Saunders, Vingador Escarlate, e claro, o Bat-Man (na época ainda não se escrevia junto). A primeira aventura do Homem Morcego tinha apenas seis páginas, mas já entregava o tom de seus primeiros anos.
Na trama de “O Caso da Sociedade Química”, Lambert é o primeiro de um quarteto de magnatas dos químicos a ser assassinado, seguido por Steven Crane, como parte de um plano de Alfred Stryker, membro do grupo, para obter 100% das ações da empresa.
Batman e Jim Gordon investigam as mortes, e o Cavaleiro das Trevas chega a tempo de salvar o último alvo, Rogers, de ser morto por Stryker, graças a pistas que recolheu de seus capangas, naquela que seria sua primeira aparição oficial em um quadro de gibi, logo antes de fugir da polícia, que ainda o enxergava como um marginal fazendo justiça com as próprias mãos.
Curiosamente, Gordon nutria uma amizade com Bruce Wayne, sem nem sequer imaginar que ele era o próprio vigilante que ele tanto tentava capturar.
Ao confrontar o assassino, Batman permite que ele caia em um tanque de ácido, soltando a seguinte frase enquanto ele é desintegrado: “esse é o fim adequado para gente da sua laia”. Logo de cara, nota-se um desprezo pela vida dos criminosos que não é comum nas versões mais modernas do Cavaleiro das Trevas, mas que não seria nem a primeira, nem a mais chocante das vezes em que isso ocorreu.
No último quadro, Batman revela-se como Bruce, ainda sem todo o contexto que o motivava a seguir em sua cruzada contra o crime, que hoje conhecemos.
O traço expressionista, o viés noir e investigativo, as tramas policiais realistas e a relação de amor e ódio com a polícia já se faziam presentes desde essa primeira aventura. Como é de se imaginar, o sucesso foi absoluto, e Batman tornou-se a face da Detective Comics, que viu suas vendas dispararem graças ao seu novo herói taciturno.
O herói seguiria aparecendo entre as edições 28 e 32 da revista, enfrentando desde ladrões de joias e o icônico Doutor Morte, contra quem estreou seu famoso cinto de utilidades, a sua primeira ameaça sobrenatural, o Vampiro, contra quem se viu obrigado a matar mais uma vez, utilizando-se de balas de prata.
Nessas primeiras HQs, a sede de sangue do Cavaleiro das Trevas ficava clara. Em Detective Comics #28, o herói arremessa um criminoso do topo de um prédio, e o vê se espatifar no chão, sem remorso algum. Na edição seguinte, ele põe fogo no Dr. Morte, e o assiste queimar, totalmente impassível.
O maior número de baixas se deu na #32, onde o Vingador da Noite usa seu jato para fuzilar dezenas de homens monstros, chegando a enforcar um deles ao alçar voo com uma corda anexa ao Batjato amarrada ao seu pescoço. Tamanha violência só iria se dissipar a partir de 1940, quando Kane passou a amenizar as histórias com o intuito de preservar o público infantil cada vez maior que os quadrinhos alcançavam.
Em Detective Comics #31, nos foi revelado que Batman atuava em Nova York, uma vez que a lendária Gotham City nem sequer existia.
Já em Detective Comics #33, de novembro de 1939, Batman enfrenta Carl Kruger, um louco que acreditava ser reencarnação de Napoleão Bonaparte (já nessa época, tínhamos alguns enredos incríveis como esse…) e seu Dirigível da Morte. Nas primeiras duas páginas, Finger construiu o trauma que acompanharia Bruce Wayne até o último dia de sua vida. Thomas e Martha Wayne, sendo mortos por um assaltante qualquer no Beco do Crime, um horror que infelizmente ocorre todos os dias em nosso mundo, mas para Bruce, simboliza o fim do seu próprio.
Nos dias seguintes, Bruce ajoelhou-se diante de sua cama e jurou aos céus: "E… eu juro vingança pelos espíritos de meus pais e a morte deles, passando o resto da minha vida lutando contra o crime." Aqui, morre o homem, nasce o símbolo. Wayne passaria as próximas décadas de sua vida, preso naquele momento, caído ao lado dos corpos ensanguentados de seus pais, como uma criança assustada, que jamais cresceu.
Desde então, ele viajou o mundo, aprimorando-se aos limites da capacidade física e mental humana, transformando-se em uma perfeita máquina de combate. Ele tinha o treinamento, tinha os recursos, mas ainda não tinha o método correto para fazê-los ser úteis.
Desse modo, cinco décadas antes de Batman: Ano Um, Bruce olhou para a janela de sua mansão, aquecido pelo fogo alto de sua lareira, e observou um morcego, solitário, com suas asas cortando o ar gélido da noite, e eclipsando a luz da lua sob ele. E ali estava, o animal que todo criminoso covarde e supersticioso iria temer.
Pouco após colocarem o lado humano de Batman sob os holofotes, os autores decidiram lhe dar também um parceiro, ao melhor estilo Sherlock Holmes, Watson e os garotos da Rua Baker.
Em Detective Comics #38, de abril de 1940, surge Robin, o Menino Prodígio. Finger baseou-se na versão de Robin Hood adaptada para os cinemas em 1922, interpretada por Douglas Fairbanks.
Dick Grayson oferecia ao Batman um contrapeso à sua seriedade silenciosa, com alegria e leveza. Assim como Wayne, Grayson perdeu seus pais para o crime. A família de acrobatas havia se recusado a pagar propina para o Chefe Zucco, que, como vingança, cortou as cordas de seu show, levando John e Mary Grayson à morte. Bruce, que estava na plateia, viu-se nos olhos marejados de Dick, reconhecendo sua própria dor naquele garoto.
Em virtude disso, ao melhor estilo dos anos 1940, Batman simplesmente revela sua identidade ao garoto sem pensar duas vezes e convida uma criança de pouco mais de dez anos para entrar em sua guerra contra o crime. Ele o treina tão intensamente quanto ele mesmo havia treinado, canalizando sua raiva contra Zucco em um bom propósito, impedindo que todo esse ódio se voltasse contra a sociedade, metamorfoseando Dick no mesmo mal que matou seus pais.
Bruce lhe fez jurar jamais deixar o caminho da justiça, em um momento com um peso simbólico incalculável, pois desde então, Batman havia decretado o valor mais caro de seu código moral: não matar.
Juntos, eles capturam Zucco e encerram seu reinado criminoso, solidificando-se como a maior dupla da cultura pop.
A relação etariamente desigual entre Batman e Robin, reforça o conceito que apresentamos antes. Batman jamais deixou de ser o garoto que perdeu os pais aos oito anos, e por isso, só é capaz de se abrir e conviver com pessoas que partilham da sua idade mental, e que de preferência, tenham tido vivências semelhantes. Mesmo em aventuras aparentemente superficiais, é possível perceber subtextos riquíssimos.
Batman tinha sua identidade, seu teor, seus maiores aliados, e seu sucesso apenas aumentava. No entanto, os anos 1940 seriam certamente uma de suas décadas mais inspiradas, onde seu lar, seus melhores gadgets, amigos e inimigos surgiram.
A primeira era de ouro do Cavaleiro das Trevas


Na primavera de 1940, Batman e seu pupilo receberam sua HQ solo, onde logo na primeira edição, conheceram dois de seus maiores vilões: Coringa e Mulher-Gato. Em sequência, vamos passar pelo surgimento de alguns dos personagens mais icônicos da mitologia do Batman ainda nos anos 1940.
Coringa: O Palhaço do Crime, criado por Bob Kane e Bill Finger, eternizou-se como o maior antagonista do Homem-Morcego. O Arlequim do Ódio iniciou sua onda de crimes assassinando múltiplos magnatas de Gotham, de maneiras elaboradas, desde cartas com veneno nas pontas, até esconder-se dentro de estátuas e disparar gás do riso. Seu sadismo inventivo e humor doentio faziam dele um oposto absoluto ao Batman.
A Dupla Dinâmica foi levada ao limite para detê-lo, apenas para que retornasse já na edição seguinte, onde Kane decidiu matá-lo, de forma a mostrar que o Cavaleiro das Trevas tinha um limite quanto ao nível de insanidade que era capaz de tolerar. Porém, esse final foi reeditado, pois, além de romper com a recém-criada regra de não matar, iria pôr um fim ao seu vilão mais icônico logo no princípio.
Essa relutância em ceifar uma vida que destruiu milhares de outras se tornaria o maior dilema da carreira do Cavaleiro das Trevas. Cada vez que permite que o palhaço sorria mais uma vez, o herói sabe que está também permitindo que as lápides de Gotham se tornem cada vez mais numerosas.
Ele odeia o Coringa e tudo que representa, mas sabe que se cruzar a linha, não poderá mais voltar, e acabará se tornando tão perigoso quanto ele. Ao mesmo tempo, percebe-se que ambos dependem intrinsecamente um do outro. Os dois já tiveram as vidas um do outro nas palmas de suas mãos e negaram-se a encerrá-las, quase como se a alma deles estivesse amarrada. A Piada Mortal, de Alan Moore, exploraria esse conceito décadas depois, mas, já no princípio, notava-se que a rivalidade entre Batman e Coringa era muito mais complexa do que uma simples disputa do bem contra o mal, algo que, felizmente, Bob Kane compreendeu.
O Palhaço do Crime deu um fim aos vilões genéricos como Dr. Morte, Vampiro, Carl Kruger e tantos outros personagens esquecíveis.
Mulher-Gato:
Surgida também em Batman #1, Selina Kyle era uma ex-prostituta, fascinada por gatos, e exímia ladra. Ela infiltra-se em um navio cruzeiro, onde rouba o colar de uma socialite, e assim, entra no caminho de Batman e Robin.
O Cavaleiro das Trevas consegue capturá-la, mas, devido a sentimentos crescentes por ela, permite que ela escape. Desde então, floresceu essa relação de amor e ódio entre morcego e gata. Batman abominava o crime, mas amava Selina. Odiava o pecado, no entanto, amava o pecador.
Essa relação dúbia fez com que a Mulher-Gato se transformasse, com o passar dos anos, em uma das primeiras anti-heroínas, agindo mais vezes ao lado do herói do que contra ele, mas sem nunca abraçar plenamente seus valores morais. Um conceito moderno, mas com raízes antigas.
Hugo Strange
Um dos vilões psicologicamente mais fascinantes da galeria do Batman, surgido em Detective Comics #36. Em sua primeira aparição, o psiquiatra desenvolve um nevoeiro artificial em locais específicos, facilitando roubos de bancos por criminosos (mais uma narrativa daquelas…), antes de ser preso pelo Batman.
Como um conhecedor da mente, Hugo se empenha em compreender o homem por trás da máscara do Homem-Morcego, fascinando-se por ele a tal ponto que deseja até mesmo se tornar ele, chegando até mesmo a replicar seu traje e utilizá-lo em futuras histórias.
Nas décadas seguintes, ele se tornaria o diretor do Asilo Arkham, testando pacientes e transformando-os em monstros, ao melhor estilo dos cientistas loucos dos anos 1930. Sua obsessão pelo Homem-Morcego se aprofundou tanto, que ele se tornou tão insano quanto qualquer interno do Asilo Arkham.
Espantalho
Um vilão capaz de voltar o maior trunfo de Batman contra ele. Já em sua concepção, Batman utilizava-se do medo como arma. Mesmo sem poderes, esse sentimento tornava possível que ele estivesse presente em cada beco, viela e esgoto de Gotham onde a sombra prevalecesse. Ele não pode estar em todo o lugar, mas seus inimigos não sabem onde ele está, e seu mito é onipresente (referência a The Batman feita com sucesso).
Jonathan Crane surgiu em World's Finest Comics #3, como um psiquiatra brilhante, porém amargurado, que utiliza-se do sentimento que o escravizou a vida inteira, o medo, como arma para cometer seus crimes, criando uma toxina capaz de evocar os maiores medos de quem a inala, assumindo assim a alcunha de Espantalho.
A Dupla Dinâmica consegue impedi-lo de cometer roubos, sendo capaz de manter o controle sobre suas próprias mentes. Infelizmente, assim como o Duas-Caras, o Espantalho sofreu com a censura nos anos 1950, devido ao seu visual e conceito macabro, ficando distante das aventuras do Maior Detetive do Mundo até os anos 1970, com raras exceções.
Charada.
Para muitos, aquele que deveria ser o principal antagonista do Batman, por desafiá-lo justamente em seu maior trunfo: a inteligência. Edward Nygma surgiu em Detective Comics #140 (1948), como um jovem brilhante, porém, subestimado por seu pai, levando-o a desenvolver um narcisismo e egocentrismo doentios, tornando-o capaz de tudo para superar intelectualmente todos à sua volta.
Cansado de enfrentar a incompetente polícia de Gotham, Nygma decide desafiar Batman e Robin, sendo obviamente derrotado. Claro, que ele jamais admitiu esse revés, e dedicou sua vida a provar-se tão brilhante quanto o Cavaleiro das Trevas, algo que, com o passar dos anos, o levou à completa loucura.
Surpreendentemente, o vilão não vingou logo de cara e sumiu das HQs até os anos 1960, quando foi reavivado graças à brilhante interpretação de Frank Gorshin na série televisiva estrelada por Adam West (1966-1968).
Charada foi responsável por reforçar o viés mental e psicológico dos inimigos do Batman, desafiando não apenas seu conhecimento, como também sua capacidade de interpretar a insanidade de mentes tão quebradas quanto a dele.
Ícones como: Pinguim, Duas-Caras, Chapeleiro Louco e outros, surgiram também nesses primeiros anos, trazendo ao Batman uma variedade imensa de vilões, com visuais e motivações únicas, mas que sempre batiam em um ponto específico: a insanidade, algo que o herói, por mais que muitos fãs neguem, também compartilha. Os vilões são o espelho de seu herói. Superman tinha Lex Luthor, um homem superpoderoso, não pela força, mas pelo dinheiro, e que usava disso para pôr todos à sua volta sob seus pés, subvertendo a moral defendida pelo Homem de Aço. Já Batman tinha como rivais pessoas que, assim como ele, passaram por terríveis traumas, mas que, diferente dele, não foram capazes de direcionar o ódio gerado por ele em prol da sociedade, e sim, contra ela.
Outro detalhe curioso está justamente na forma como esses vilões eram retratados do ponto de vista estético.
A frenologia, "ciência" usada no período da escravidão nos Estados Unidos para solidificar, por meio da aparência de características anatômicas, a necessidade de submissão de negros em relação a brancos, nos anos 1930, servia de base para identificar possíveis criminosos. Figuras deformadas como o Coringa, assustadoramente magras, gordas e baixas, como Espantalho e Pinguim, e que fugiam às suas funções sociais pré-definidas, como a Mulher-Gato (uma típica femme fatale), eram amplamente usadas nas HQs do Batman, de forma que sua aparência definia mais sua compulsão pelo crime do que sua moralidade. Como podemos ver, a era dos heróis "perfeitos" passava longe de realmente ser uma verdade.
Para além de seus maiores inimigos, o início dos anos 1940 simbolizou também o surgimento de outros elementos importantíssimos e hoje indispensáveis ao universo do Batman.
Em Detective Comics 48# (1941), Batman enfim recebeu seu lar: Gotham City, uma das cidades mais icônicas e de IDH mais baixo da ficção. Na obra The Steranko History of Comic (1970), o autor, Jim Steranko, afirma que Bill Finger teria tirado o nome de Gotham de uma joalheria presente em sua linha telefônica.
Baseada em Nova York e localizada em Nova Jersey, a cidade é composta por um conjunto de seis ilhas, totalizando 850 km². Na mesma edição, surgiu também a Mansão Wayne, sob a qual seria construído o QG do Homem-Morcego: a Batcaverna.
Alfred, o leal mordomo e por vezes figura paterna de Bruce, responsável por criá-lo após a morte de seus pais, surgiu em Batman 16# (1943), não como o mordomo magro, alto e de sotaque britânico que conhecemos hoje, mas, uma figura baixa e gordinha, que mais servia como alívio cômico.
De todos os apetrechos criados pelo Cavaleiro das Trevas em sua cruzada contra o crime, nenhum é tão lendário quanto o Batmóvel. O carrão do Homem-Morcego é simplesmente o veículo mais icônico do universo dos super-heróis.
A primeira aparição do Batmóvel ocorreu em 1941, na HQ Detective Comics #48. O modelo usado como base para sua concepção foi o Cord 1936 vermelho.
Logo na capa de Batman #20, vemos o possante rasgando a página em alta velocidade, dirigido pela Dupla Dinâmica, dessa vez, com um radiador estilizado para indicar seu sombrio dono. Jerry Robinson desenhou o veículo pela primeira vez em Batman #5.
Durante a Era de Prata, o visual manteve-se praticamente inalterado, perfeitamente condizente com o tom caricato da época. Apenas pequenas mudanças, como o alongamento da barbatana traseira, foram feitas para realçar seu ar fantasioso.
Nas telonas, o carro do Morcegão apareceu várias e várias vezes, tornando-se um dos conceitos mais lendários de sua mitologia. As versões de 1943 e 1949 são apenas carros comuns. Em 1943, tivemos um veículo Cadillac 1939 Series 75 conversível, totalmente preto. Já em 1949, um Mercury 1949 conversível foi usado como carro oficial da Dupla Dinâmica.
Com esse universo riquíssimo, histórias e personagens criativos, e bons roteiros e arte, Batman alcançou o posto de vice-líder de vendas, atrás apenas de Superman, vendendo de 1,1 a 1,7 milhões de HQS em cálculos bimensais, mostrando o poder da indústria dos quadrinhos naquele período. A Dupla Dinâmica na época era publicada em três títulos simultâneos: World´s Finest, Detective Comics e Batman, além das tiras de jornal.
No entanto, com a entrada dos EUA na guerra, os super-heróis seriam levados ao front junto a muitos de seus leitores. Ao mesmo tempo que o conflito levou os gibis ao auge de suas vendas, também os condenou a um período pouco criativo, moralmente questionável e à beira de uma crise que os deixaria lançaria em um abismo.
Morcego em guerra


A Segunda Guerra Mundial queimava o mundo no início dos anos 1940, e milhões de soldados americanos passaram a ser enviados para Europa, África e Pacífico, após o ataque japonês à base naval de Pearl Harbor.
Heróis como Superman, Capitão América e Mulher-Maravilha eram constantemente levados à frente de combate, servindo como símbolos patrióticos poderosos, ostentando a bandeira nacional em seus peitos.
Já Batman, como sempre, agiu nas sombras, combatendo o inimigo dentro dos EUA. O conceito crescente nas HQs acabou por se tornar o tema central da primeira cinessérie da Dupla Dinâmica, que chegava aos cinemas em julho de 1943, com entrelinhas um tanto polêmicas, especialmente quando revistas nas décadas seguintes.
O primeiro ator a vestir o manto do maior herói da DC foi Lewis Wilson, logo em seu primeiro papel como ator profissional. Ele havia sido selecionado justamente por se assemelhar ao traço de Bruce Wayne nos quadrinhos. Para contracenar com ele, veio Douglas Croft, o primeiro a viver Robin, com apenas dezesseis anos de idade (apesar de aparentar uns 40 quando punha a máscara…).
O vilão principal era Tito Daka, um sádico cientista japonês (interpretado pelo americano J. Carroll Nash, que usava uma maquiagem extremamente tosca para replicar traços asiáticos), que se infiltrou nos EUA para sabotar o inimigo. Em seu QG localizado na comunidade Little Tóquio, em Los Angeles, ele transforma cidadãos em zumbis por meio de Cérebros Elétricos, forçando Batman e Robin a capturá-lo, para assim reverter a transformação.
Daka era uma figura caricata e alvo constante de racismo por parte dos heróis, algo que demonstrava o quão sombrios eram aqueles tempos, em que, para servir a uma ideologia, até mesmo os guardiões da moral tornavam-se propagadores do ódio e do preconceito.
Ao abrir mão de adaptar vilões como Coringa, Duas-Caras e Mulher-Gato, transformar Jim Gordon no Capitão Arnold e dispensar qualquer tipo de enredo sério, parecendo mais uma Frankenstein de cenas de ação e bizarrices, a série deixou claro: somos uma propaganda militar pura e simples, não uma obra baseada em HQs.
Além do subtexto obscuro, a série é conhecida por sua baixíssima qualidade de produção. Furos de roteiro e erros de continuidade eram comuns. Em um episódio, Batman sofre um acidente de avião e levanta-se quase como se tivesse simplesmente tropeçado em uma pedra. No fundo, a série parecia mais uma comédia inconsciente do que uma aventura de ação.
O valor da série é arqueológico, pois, nos dias de hoje, seus episódios são praticamente inassistíveis. Apesar de não passarem de vinte minutos, o ritmo ainda consegue ser lento. O visual da Dupla Dinâmica também deixava muito a desejar. Douglas Croft aparentava ser velho demais para viver Robin, e Lewis Wilson não tinha a forma atlética mínima para ser o Batman (Viu, Robert Pattinson, não foi só você). O cuecão preto por cima da calça, as orelhas estranhamente pontudas e a máscara frouxa tornavam as caricatas cenas de ação tão ruins quanto elas já eram.
A única herança positiva deixada pela série foi a interpretação sublime de William Austin como Alfred Pennyworth, sendo ela responsável por mudar o visual e a personalidade do mordomo, inclusive nas HQs.
Porém, a série, em seus quinze episódios, conseguiu atingir o público que desejava: crianças e adolescentes, e foi considerada um sucesso comercial.
Desde não possuir asiáticos no elenco até relacionar comunidades nipo-americanas como bases criminosas, o seriado replicava uma realidade trágica que se desenrolava no país. Devido ao conflito sanguinário entre EUA e Japão no Pacífico, vários nipo-americanos passaram a ser perseguidos, linchados e até mesmo assassinados por nativos estadunidenses. Isso fez com que Franklin Roosevelt, presidente dos EUA, decretasse em 1942 que todos os nativos japoneses residentes no país (cerca de 140 mil pessoas) deveriam ser encarcerados em campos de concentração militares, a fim de mantê-los “a salvo” da fúria das massas.
Até 1944, diversas denúncias de abusos e maus-tratos foram feitas, e em 1945, todos os campos foram fechados. O episódio passou a ser motivo de vergonha para o governo americano, com Ronald Reagan, em 1988, realizando um pedido de desculpas público aos nipo-americanos, e concedendo a cada um dos sobreviventes uma indenização de 20 mil dólares.
Com o fim da guerra, as vendas de quadrinhos começaram a cair drasticamente, com Batman ainda sendo um dos poucos consideravelmente estáveis, por pelo menos nas páginas, não ter se vendido totalmente para o esforço de guerra. Isso permitiu que, em 1949, ele retornasse às telonas, ainda tosco, mas inegavelmente, mais original.
Com um orçamento ainda mais baixo, Batman e Robin retornaram, vividos por Robert Lowery e Johnny Duncan. A dupla enfrenta o Mago, um cientista insano, que rouba uma máquina construída pelo professor Hamill (William Fawcett), capaz de controlar todos os carros de Gotham City, podendo fazê-los colidir uns contra os outros.
O baixo orçamento não se esconde, desde a ausência do Batmóvel, sendo substituído por um Mercury, aos uniformes que continuavam tão toscos quanto a versão de 1943.
Por mais que a qualidade continuasse duvidosa, a série pelo menos prezou em adaptar elementos dos quadrinhos, trazendo Jim Gordon e Vicki Vale, dando ao Batman seu maior aliado na polícia e seu interesse romântico. Seguindo o formato de quinze episódios de pouco mais de 20 minutos, a série teve considerável sucesso e, inegavelmente, envelheceu melhor que sua antecessora.
Todavia, nas páginas dos quadrinhos, um momento bizarro ocorria, e serviria para justificiar o início da Era da Censura.
Que fã nunca ouviu o meme de Batman e Robin serem homossexuais? Pois é, isso surgiu nessa época. Em 1954, na HQ Batman #84 (1954), Bruce e Dick aparentemente acordam juntos de manhã, partilhando a mesma cama. No desenho, é possível notar que há uma divisão entre as camas, mas isso não bastou para cessar a teoria. Para Fredric Wertham, autor de “A Sedução do Inocente”, isso era uma prova incontestável de que os quadrinhos do Cavaleiro das Trevas não só incentivavam a homossexualidade, como ainda, pasmem, a pedofilia. Essa imagem foi apenas uma de muitas usadas como base para essa tese. Algumas, devo admitir, envelheceram EXTREMAMENTE mal.
Abaixo, confira a imagem em questão e o comentário de Wertham:


“Só quem desconhece os fundamentos da psiquiatria e da psicopatologia do sexo pode deixar de perceber a sutil atmosfera de homoerotismo que permeia as aventuras do ‘Batman’ adulto e seu jovem amigo ‘Robin’.”
— A Sedução do Inocente (1954, p. 189)
Esses quadros … questionáveis, somados aos comentários da obra, tornaram Batman e Robin alvos de uma massiva censura. Até mesmo a personagem Batwoman, identidade secreta da socialite Kathy Kane, foi criada justamente para amenizar essas especulações quanto à sexualidade do Homem-Morcego.
Mesmo assim, o Comics Code foi instaurado, com o intuito de obrigar as editoras a se autocensurarem, algo que levou as HQs a duas décadas de estagnação criativa. Se antes elas haviam servido de mecanismo para inflamar o furor patriótico, agora, seriam utilizadas para regular a moral dos jovens leitores.
Uma vez instaurada, a censura modificou completamente as tramas das HQs. A conotação sexual implícita desapareceu, mas a profundidade narrativa também. Não havia mais vilões sádicos, crimes elaborados ou mitologias minimamente densas; tudo fora substituído por algo extremamente infantil. Nas HQs do Batman, o Duas-Caras foi excluído por seu visual macabro.
O Coringa foi inicialmente transformado em um mero ladrão de bancos e depois praticamente sumiu dos quadrinhos. O notório Palhaço do Crime já não existia mais. Em seu lugar, o Maior Detetive do Mundo recebeu lendas como: Dr. Tzin Tzin, Homem-Pipa, Homem-Gato, Trio Terrível, Arrasa-Quarteirão e Mestre Zodíaco, todos nomes muitíssimo relevantes para a mitologia do herói até os dias de hoje… (contém ironia).
O próprio Batman foi ridicularizado ao extremo, com visuais como Batman Zebra, Bat-Mirim, Bat-Gênio da Lâmpada, Robô e até o Bat-Múmia (pegaram pesado com o cara).
Como pudemos ver, os primeiros anos do Batman foram turbulentos, mas edificantes. Se hoje temos um universo tão vasto e complexo, muito se deve às sementes que foram plantadas ainda nesses primeiros anos por Finger, Kane e outros roteiristas e desenhistas.
Nas décadas seguintes, Alan Moore, Frank Miller, Dennis O'Neil e tantas outras lendas dos quadrinhos revisitaram essas primeiras obras para construir suas narrativas.
A trajetória do Homem-Morcego também conversa com o contexto histórico de seu tempo, da guerra até a censura crescente nos EUA nos anos iniciais da Guerra Fria. Como sempre, a arte imita a vida.
E você, sabia de todas essas coisas sobre os primeiros anos do Cavaleiro das Trevas?
