Os Hutt: O Império eterno de Star Wars (Legends)

Larvas gordas, babonas e quase sempre, criminosas. É assim que boa parte dos fãs de Star Wars enxerga a espécie dos Hutt, cujo maior expoente, é Jabba, o Hutt, dono de um dos maiores impérios do submundo galáctico, fazendo da Orla Exterior o seu balcão de negócios. Todavia, cerca de 25.000 a 30.000 antes da batalha de Yavin, mais precisamente no planeta de Varl, os Hutt nasciam não como criminosos ou apostadores, mas como guerreiros. Mas, como uma espécie com essa fisionomia era capaz de lutar? Simples: antes dos palácios, naves capitais e do sedentarismo, eles eram caçadores e conquistadores. Seu corpo, apesar de limitado, era incrivelmente forte, e com treinamento, eles tornaram-se capazes de desenvolver e empunhar todo o tipo de arma, mas sua maior força vinha de sua mente.

STAR WARS

Rafael Silva

9/5/20268 min read

(Créditos: Disney/IGN Brasil)

O cérebro da espécie é extremamente desenvolvido, fazendo deles uma das raças mais inteligentes da galáxia, e quase invulneráveis a manipulações da Força, ao mesmo tempo que têm uma lábia e capacidade de persuasão inigualáveis. Eles faziam o mundo à sua volta se mover segundo as suas vontades, sem precisar mexer um único músculo.

No entanto, entre eles, apenas a manipulação não bastava. Clãs brigavam entre si pelo domínio absoluto, e o planeta vivia em meio a uma guerra civil perpétua, que gradualmente destruía completamente seu ecossistema. Eles lutaram tanto pela conquista que acabaram sem nada para conquistar.

Sem perspectiva, muitos deles migraram para o planeta de Nal Hutta ("Joia Gloriosa"), na Orla Exterior. Eles sabiam que não poderiam repetir os mesmos erros do passado. Chega de guerras, chega de destruir os seus iguais. Eles se utilizariam dos trunfos da sua espécie para dobrar as outras à sua vontade. Eles não destruíram impérios, e sim fariam-nos funcionar segundo as suas necessidades. Assim, nasceu a filosofia de Kajidic, criada pelo Grande Conselho Hutt, liderado por Budhila Hestilic Amura (nome facinho de repetir).

Segundo ela, os Hutt deveriam unir esforços e expandir seus domínios sob outros mundos e espécies, e não digladiar-se entre si, algo que os deixou à beira da extinção. Eles não dominariam por meio das armas, mas pela infiltração em diversas camadas do comércio galáctico. Com uma média de vida que ultrapassa mil anos, esses imensos criminosos possuíam conhecimento ímpar de rotas de comércio ocultas no hiperespaço, mundos desconhecidos e aliados dentro e fora da lei.

O que eles venderiam? Absolutamente tudo que existe de mais nojento: especiarias (drogas), jogos de azar e, em casos extremos, comércio de escravos em mundos isolados como Tatooine, priorizando espécies como Wookiees e Twi'leks.

Ainda assim, eles precisariam de guerreiros que empunhassem armas em seu nome, que fizessem o trabalho sujo enquanto eles desfrutavam da riqueza. O local para esse tipo de negócio era a lua de Nal Shada, conhecida como a “Lua dos Contrabandistas”. Ao longo dos milênios, vários dos maiores caçadores de recompensas da galáxia estiveram na folha de pagamentos dos lordes de Nal Hutta, desde Cad Bane e Jango Fett até Bossk e Boba Fett.

Milhares de mundos, bilhões de seres, uma região inteira da galáxia, nas palmas de suas mãos. No entanto, sua corrupção percorria as veias da galáxia, da miséria esquecida de Tatooine até a riqueza gloriosa de Coruscant. Sua quase onipresença, somada à sua influência e diversificação de atividades, fizeram do Império criminoso dos Hutt uma praga inexpugnável na galáxia, capaz de adaptar-se a qualquer situação, sem jamais cair de seu pedestal. Porém, como exatamente eles se mantiveram na sustentação do trono, independentemente de quem estivesse sentado nele? É isso que vamos descobrir!

Velha República

Muitos devem se lembrar de um dos momentos mais marcantes de Ameaça Fantasma (1999), quando Wattoo negou os créditos oferecidos por Qui Gon Jinn para comprar peças da nave de Padmé. “Dinheiro da República não vale nada aqui”, com essa simples frase, o sucateiro resumiu a realidade de Tatooine e tantos outros planetas da Orla Exterior. Mundos e mais mundos completamente negligenciados por Coruscant, onde os senadores preocupavam-se mais com seus próprios negócios do que com as mazelas da galáxia.

Na ausência da República, os Hutt assumiram seu papel como autoridade.

Todavia, essa é apenas a ponta de um imenso iceberg. Poucas obras abordam de forma tão brilhante a corrupção na galáxia quanto Darth Plagueis, de James Luceno. No capítulo 11, "O Encontro em Sojourn", Hego Damask, a face pública de Lorde Plagueis e membro do Clã Bancário Intergaláctico, reuniu-se com alguns dos seres mais poderosos da galáxia, como os senadores Pax Teem e Ranulph Tarkin, e criminosos, como Gardulla, a Hutt, rival de Jabba pela soberania do submundo em Tatooine, desejando auxílio financeiro para estruturar suas corridas ilegais de Pods.

Se Coruscant fechava os olhos para o tráfico de escravos empreendido por Jabba, ele os deixava bem abertos para quaisquer oportunidades que lhes oferecessem para enriquecer. Porém, não se tratava somente de imoralidade, mas também de incapacidade.

Desde as Reformas de Russan (apresentadas na trilogia Darth Bane, de Drew Karpyshyn), o Exército da Luz foi dissolvido e a Ordem Jedi perdeu seus poderes políticos e militares, limitando-se a missões pontuais dadas pelo Senado, quase sempre envolvendo diplomacia e apaziguamento. Guerreiros da paz vivendo em tempos em que não havia guerra, mas que definitivamente também não havia paz.

Isolados no Templo Jedi, os seguidores da luz mantiveram-se alheios às crises que dividiam a galáxia e ao crime que a devorava de dentro para fora. A República, por sua vez, não possuía a mínima capacidade de exercer sua força em uma galáxia com mais de 1 bilhão de planetas habitados, nem mesmo com seu exército clone. Em resumo: a República não fazia a menor ideia do que acontecia em vasta parte da galáxia.

Prova disso é a própria reação de Qui-Gon e Padmé aos horrores vistos em Tatooine. Um Jedi e uma senadora, pessoas teoricamente importantes e bem informadas, simplesmente não sabiam o que se passava ali.

De colônias de escravos em Sleheyron até extração e venda ilegal de coaxium (combustível hiperespacial) em Kessel, os Hutt agiam com total liberdade, seja ela ganha pela ignorância ou pela complacência.

Então, será que o governo tirânico do Império conseguiu pôr os Hutt na linha? Você já sabe que não, mas vamos entender um pouco mais.

Império Galáctico

Com a ascensão do Império de Palpatine, o Império de Jabba e seus parceiros precisou agir rápido. Diferente da República, o novo governo não iria tolerar qualquer tipo de oposição. Então, os Hutt decidiram se apresentar como parceiros.

Eles se manteriam longe dos negócios do Império, deixariam seus mercenários à sua disposição e, em troca, Vader e seu exército não iriam interferir nos negócios escusos desses criminosos.

Vader explorou ao máximo essa parceria, como podemos ver em Império Contra-Ataca (1980), quando contratou Boba Fett, Bossk, Dengar, IG-88, Zuckuss e 4-LOM para capturar a Millennium Falcon. No fim, Fett rastreou a nave de Han Solo até Bespin, ajudando o Império a capturá-lo e usá-lo como isca para atrair Luke Skywalker, sendo autorizado a levar o contrabandista congelado ao palácio de Jabba para reclamar o pagamento por ele. Uma parceria de sucesso entre dois males que deveriam ser antagônicos.

Ambos temiam o poder um do outro e mantinham uma relação amistosa de forma utilitária. Saindo um pouco dos Legends, é fascinante analisar como o cânone atual explorou essa dinâmica.

No arco “Guerra dos Caçadores de Recompensa”, mais precisamente entre as edições 4 e 5, temos uma clara noção da relação do Império com o submundo. A Aurora Escarlate, grupo criminoso trazido das cinzas por Lady Qui´Ra, realizou um leilão por Han Solo. Nele, havia membros do Sol Negro, do Cartel Hutt, como o próprio Jabba e seu arrogante primo, Bokku, e vejam só, oficiais do Império, sob comando de Sly Moore, conselheira e suposta amante de Palpatine, todos interagindo normalmente.

O Império tentou manipular as negociações, mas Jabba ainda assim venceu, e é nesse momento que Darth Vader entra em cena e mostra quem verdadeiramente dava as cartas na galáxia:

“Solo não é seu. Você. Todos aqui. Esta nave. Este planeta. Este setor. Este Império e tudo que está nele pertencem ao Imperador”. O Lorde Sith deixou claro até onde ia a tolerância de seu mestre.

Nesse momento, Jabba, mesmo contrariado, recolheu-se, sabendo que essa era uma guerra que jamais poderia vencer. Além disso, desafiar Vader seria o mesmo que fechar a sua torneira de créditos. Até mesmo ele precisava entender a hora de baixar a cabeça. No entanto, Bokku bateu o pé (ou melhor, a cauda) e convocou seus aliados para um ataque massivo à frota imperial, com o objetivo de matar Vader e recuperar o solo. O resultado, todos sabem.

Bastou que Palpatine desse a ordem para que seu executor fosse até a nave do criminoso e o exterminasse junto a vários membros do Conselho Hutt. Os Hutt sabiam agora que o único poder que de fato tinham contra o Império era a barganha.

O próprio Jabba já foi vítima do poder de Vader logo na primeira edição da revista Star Wars: Darth Vader (2015), quando o Sith fez a limpa em seu palácio e lhe estrangulou com a Força enquanto buscava informações sobre Luke Skywalker. Negociar com o Império era como andar em uma corda bamba; qualquer deslize e uma visita de Vader poderiam pôr fim ao seu reinado. Pela primeira vez, o Conselho Hutt tinha um motivo para ter medo.

No entanto, pouco depois da morte de Jabba pelas mãos de Leia Organa em Retorno de Jedi (1983), Palpatine morreu e seu Império começou a desmoronar, e, sob o jugo da Nova República, os reis do crime precisariam moldar-se para os novos tempos.

Nova República

Nos Legends, com a morte de seu líder, o clã Hutt começou a fragmentar-se rapidamente, perdendo sua influência para outros grupos. Ainda assim, a República encontrava dificuldades em impedir suas atividades criminosas, mesmo tendo conhecimento delas e conhecendo muitas de suas rotas. O motivo? Eles literalmente não tinham gente para lidar com isso.

O ímpeto que uniu a galáxia para destruir o Império não necessariamente era o mesmo para reconstruir a República. Construir era muito mais difícil do que simplesmente destruir.

Na trilogia Thrawn, de Timothy Zahn, Han, Lando e Chewbacca tentam inclusive firmar acordos com contrabandistas e mercenários como Talon Karrde, a fim de obter naves e pessoal para abastecer suas linhas de suprimentos e mostrar aos mundos ainda desconfiados que a Nova República tinha condição de ajudá-los. Em troca, eles perdoariam seus crimes e lhes dariam uma chance de recomeçar na legalidade. Uma medida polêmica, pouco efetiva, e que demonstra o quão despreparada estava a Nova República.

Isso não significa que os Hutt permaneceram totalmente passivos. O lorde Hutt Durga Besadii Tai, por exemplo, desenvolveu uma superarma conhecida como Sabre Negro, um enorme canhão construído em um asteroide, no melhor estilo da Estrela da Morte (os vilões de Star Wars são realmente viciados nisso). Tal arma foi sabotada por agentes da República e acabou sendo destruída antes mesmo de ser uma ameaça real.

Com cada vez menos poder, os Hutt seguiram se dividindo, filiando-se a outros lordes do submundo, vivos, mas sem o mesmo prestígio de outrora. Mas, fato é que nenhum dos três regimes foi capaz de contê-los efetivamente.

O Império Hutt é uma mancha que nenhum dos governos mais poderosos da galáxia foi capaz de remover de seu próprio tecido, pois ele insiste em prender-se em suas maiores falhas: a negligência, o autoritarismo ou a fragilidade logística. Ele sempre está lá, para se prender a elas e, por meio delas, permanecer vivo.

E você, conhecia a origem dos Hutt? Qual dos três governos você acha que chegou mais perto de controlá-los?

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