ONDE ESTÁ DEUS EM "O SÉTIMO SELO"?
“O que acontecerá a nós que queremos crer e não podemos? Eu quero que Deus mostre sua face, fale comigo. “Eu grito com ele no escuro.” Essa fala de Antonius Block (Max Von Sydow), protagonista do clássico sueco “O Sétimo Selo” (1957) de Ingmar Bergman, é o epicentro da trama de uma das obras mais intrigantes e religiosamente provocantes do cinema europeu. Como explicar um homem que dedicou sua vida em nome de um mundo apenas para vê-lo ruir diante de seus olhos, depositou suas esperanças em uma fé que é incapaz de sentir, mesmo que a desejasse? São esses mistérios da fé presentes nesse clássico do cinema cult que tentaremos desvendar hoje.
HISTÓRIA DA CULTURA POP
Rafael Silva
6/27/20267 min read


O filme se inicia com uma passagem diretamente inspirada no “Silêncio de Deus” no livro de Apocalipse, em que os homens tornaram-se incapazes de senti-lo.
Antonius Block e seu fiel escudeiro Jöns (Gunnar Björnstrand) retornam à Suécia após dez anos lutando nas Cruzadas na Terra Santa, passando pelos piores sofrimentos e cometendo as maiores atrocidades em nome de uma fé que já admitem não ter mais. A Europa vem sendo devastada pela Peste Negra, em meados do século XIV, e a Igreja crê que esse é apenas mais um dos castigos de Deus contra uma humanidade a cada dia mais infectada pelo pecado.
Enquanto caminham, a Morte (Bengt Ekerot) os espreita e, por mais que diga que apenas sua carne teme perecer, Block não quer partir sem ter certeza de que passou os anos mais sombrios de sua vida lutando por nada. Ele quer conhecer o Criador, tê-lo diante de si, poder senti-lo com seus sentidos, para além de promessas meio ditas. Ele estava cansado de amar às cegas; ele queria ver aquele por quem lutou por todos aqueles anos.
Assim, ele desafia a morte para um jogo de xadrez que ele sabe que não poderá vencer, mas a única coisa que ele desejava é tempo, tempo para encontrar a Deus, e também a si mesmo. A Morte aceita o desafio, colocando-se como a única certeza para todos os seres viventes. Todavia, ele definitivamente não joga limpo, pressionando Antonius com incerteza e desesperança, tentando convencê-lo a abrir mão de sua vida.
Quanto mais ele bate e não obtém resposta, mais distante da fé Antonius fica, sendo incapaz de ostentar a fé inabalável que todos à sua volta parecem ter, pois, diferente deles, ele já sofreu o suficiente em nome dela e jamais viu seus frutos.
O medo do Senhor é um dos elementos mais recorrentes da trama, sendo reforçado por meio de palavras, símbolos e imagens. Ele foi levado ao limite na chocante procissão da Autoflagelação, em que homens e mulheres doentes dilaceram seus próprios corpos com chibatadas. Enquanto isso, a fome e a sede consomem o pouco de energia que lhes resta, em uma última e desesperada penitência, para se tornarem dignos de piedade de Deus. À frente dessa caminhada visceral, um monge alerta todos à sua volta de que sua condenação é inevitável, de que suas vidas nada valem, incutindo-lhes o terror quanto à inevitabilidade do fim. Não era apenas sobre compreender a própria finitude e entregá-la nas mãos do único que pode torná-la infinita; é sobre viver unicamente em função de morrer.
Uma bruxa atrai a atenção de Block, justamente por supostamente ter se deitado com o demônio e ser capaz de tocá-lo com seus dedos, de sentir o mal em plano físico. Surpreendente, isso dá esperança ao cruzado, pois, se a encarnação das trevas existe, então o seu maior adversário certamente está em algum lugar. Porém, ao conversar com a garota, mais dúvidas passam a cercá-lo.
Ela pede que ele, o guerreiro, a olhe diretamente nos olhos e tente neles encontrar o mal que procura. Ele nada vê; no entanto, é possível tirar uma segunda interpretação desse momento. Quando a feiticeira é queimada viva, tomada pelo pavor e pela certeza de que apenas a morte a aguardava, Antonius perde a esperança. Porém, ele talvez não tenha entendido com precisão o que ela (ou aquele que falava por ela) realmente queria dizer.
"Cada um é tentado pela sua própria cobiça, quando esta o atrai e seduz. Então a cobiça, tendo concebido, dá à luz o pecado; e o pecado, após ser consumado, gera a morte." Tiago 1:14-15
Essa passagem nos traz uma importante verdade sobre a natureza do mal: ele não possui uma forma física tangível; ele age por meio de nós, explorando as fraquezas da humanidade para levá-la à destruição do corpo e da alma. Ou seja, quando a jovem disse ao guerreiro que o demônio estava em seus olhos e também em seu entorno, ela de fato não mentiu, já que, em verdade, o mal permeia todo o mundo e, em especial, o homem.
O motivo pelo qual a garota se viu completamente sozinha em seus últimos e agonizantes momentos é justamente a prova de que o mal, de fato, a usou, pois foi nesse momento que ela percebeu que apenas ela era leal àquela macabra aliança.
A própria Morte serve como uma alegoria ao inimigo, pois, além de representar o fim da vida e, consigo, da esperança, é também aquela que, a todo o tempo, por meio das palavras, tenta distanciar o protagonista de Deus, levá-lo à perdição. Ou seja, metaforicamente, nas entrelinhas, forças contrárias ao divino de fato agem de maneira a destruir completamente a fé de Block, algo que para elas seria um tremendo fruto.
Em sua conversa no confessionário, a Morte quase convence Antonius de que Deus seria um ídolo para o medo dos homens, algo que o cruzado recusa-se a aceitar, sabendo que, se não houvesse nada para além da morte, os sofrimentos da vida e as lições dadas por eles não fariam sentido algum.
Jöns possui uma visão tão deprimente quanto seu mestre, tendo o amor, em todas as suas formas, como uma grande prisão, que, na maior parte das vezes, sempre decepciona, a menos que se morra por ele.
Todavia, se Antonius e seu companheiro são incapazes de sentir a Deus, e os homens tornavam-se cada vez mais corruptos e imorais, usando-se do Santo nome para controlar a sociedade por meio do medo. Existem aqueles que, mesmo partilhando a mesmíssima crença, a vivem de forma muito diferente e um tanto mais próxima de seu bastião.
"Graças te dou, ó Pai... porque ocultaste estas coisas aos sábios e entendidos, e as revelaste aos pequeninos." Mateus 11:25
Essa bela e simples passagem exemplifica com perfeição a fé vivida pelo casal Jof (Nils Poppe) e Mia (Bibi Andersson), junto a seu pequeno bebê Mikael (Tommy Karlsson), em uma clara referência à Sagrada Família. Eles vivem segundo os princípios do Sermão da Montanha: não possuem nenhum tipo de riqueza, nenhum apego a nada material, mantendo sempre a alegria, otimismo e o amor a Deus e à família, confiando que ele lhes proverá o que é necessário para sobreviver, e apreciam cada um dos maravilhosos aspectos de sua criação, desde os campos verdejantes até saborosos morangos e o leite fresco. Enquanto Antonius falha em encontrar Deus, mesmo o procurando em toda a parte, desejando que o mistério se curve à sua razão, essa simples família vive ao seu lado sem precisar fazer nada de extraordinário.
Jof, em especial, possui uma conexão excepcionalmente bela com a fé, levando-a quase como um fascínio infantil por toda a maravilha criada por Deus. O que, por sinal, conecta-se muitíssimo bem a uma das falas mais marcantes de Cristo:
“Em verdade vos digo que, se não vos converterdes e não vos tornardes como crianças, de modo algum entrareis no reino dos céus. “, Mateus 18:3-5.
Essa crença “infantil” se faz forte no amor e na caridade. Quando, mesmo sem conhecê-los, Jof e sua família partilham frutas e leite (Pão e Vinho) com Antonius, Karin e Jöns (o estrangeiro é quem é dado de comer e beber), em uma simples e legítima forma de amor para com seus semelhantes. É nessa mesa humilde que Antonius de fato sente, mesmo que sutilmente, a presença daquele que tanto procurava.
Enquanto os homens e mulheres da cidade traem seus casamentos, agridem uns aos outros e bebem como se não houvesse amanhã, temendo o inevitável dia em que a peste enfim os alcançará, Jof e Mia seguem impassíveis, independentemente do horror que ocorra em volta deles.
É essa fé que permite a Jof ter vislumbres de beleza imensurável de Maria e Jesus caminhando pelos campos, ouvir suas vozes e, de fato, sentir suas presenças. Ao viver em comunhão com os valores centrais de Jesus, a conexão com Ele se deu de forma completamente natural. É justamente essa proximidade que permite a Jof salvar a si e sua família das garras da Morte ao fim da obra, enquanto Block e seus amigos já estavam completamente ocultos sob seu manto escuro. Block e seus amigos terminam sendo puxados pela morte, com suas sombras sendo vistas ao longe por Jof.
A tragédia do cruzado nos deixa uma forte lição: às vezes é preciso muito mais força para viver uma verdade do que para lutar por ela.
Por ser ateu desde a adolescência, Bergman não poupou críticas à Igreja, em especial à medieval, pelos conflitos em que se envolveu e pela cultura do medo que por muito tempo utilizou. Porém, pessoalmente, creio que a obra de forma alguma prega algo negativo em relação a Cristo e até mesmo à Igreja como um todo, e sim, contra a forma com a qual a humanidade, em momentos de medo, os utiliza de forma incorreta.
O medo, o caos e a guerra, muitas vezes, esgotam nossas esperanças, deixando-nos apenas com a dor, que desesperadamente tentamos usar como forma de chegar ao único que pode, de fato, nos dar a paz. Temer a Deus é importante, mas amá-lo e admirá-lo é ainda mais. Passar o sopro de tempo que chamamos de vida temendo a morte, enquanto nos esquecemos de realmente apreciar as belezas inigualáveis que Deus nos concedeu e praticar o bem que ele nos ensinou ao custo de sua própria vida, é um dos piores erros que podemos cometer.
Por esse motivo, mesmo que o diretor tenha um posicionamento crítico à crença como um todo, vejo sua obra como uma crítica válida a diversos aspectos de como a humanidade utiliza a religião, e, ao mesmo tempo, dá exemplos de como vivê-la de maneira mais prática e leve, tornando seu icônico longa, para além de uma obra ótima em termos técnicos e de escrita, um objeto de estudo valioso para todo aquele que deseje se aprofundar tanto na história do cinema europeu quanto na filosofia e na teologia.
E você, já assistiu ao Sétimo Selo? Como você avalia a crítica feita por Bergman? Não deixe de comentar!
