O QUE É UM HERÓI: O CONCEITO DE HEROÍSMO EM CADA DÉCADA

O conceito de herói em cada era: um aventureiro descompromissado? Um símbolo patriótico? Um mocinho politicamente correto e infantil? Um justiceiro humano, que também comete erros? Tudo isso ao mesmo tempo? Afinal, o que é um herói? Esse conceito tem sido discutido desde a ascensão dos quadrinhos nos anos 1930 e possui múltiplas respostas, ao depender de quando essa pergunta foi realizada, pois, como diz o ditado, "a arte imita a vida", e a vida é uma metamorfose ambulante. Bem e mal são moralmente relativos, e seus conceitos moldaram-se com o passar das décadas, e as HQS foram forçadas a seguir essa correnteza com seus heróis e vilões, por vezes, seguindo ao pé da letra os conceitos de heroísmo e vilania de cada tempo, por outras, subvertendo-os por completo. Hoje, vamos ver o que era ser um herói nos anos 1920, 1940, 1960, 1980 até os dias atuais. Sem mais delongas, vamos lá!

MARVEL E DC

Rafael Silva

1/2/202614 min read

Os Aventureiros de Banca

Em 1896, um verdadeiro fenômeno literário chegava aos EUA, quando Frank Munsey, então editor da revista The Argosy, decidiu adaptar suas revistas para um novo formato, criando assim as Pulp Comics, HQs feitas com um papel de baixíssima qualidade, por preços igualmente baixos, em torno de 5 a 25 centavos. Suas páginas ficavam amareladas e quebradiças com facilidade e, muitas vezes, eram descartadas pouco após a leitura, mas aquelas pequenas aventuras de cowboys, detetives e seres fantásticos foram o primeiro contato de milhões de jovens com aquela que se tornaria uma das indústrias mais poderosas do entretenimento.

O sucesso foi instantâneo, com a The Argosy chegando a 1 milhão de cópias vendidas mensalmente, consagrando um modelo de fácil produção e altíssima rentabilidade. Foi nas páginas amarelas da revista que alguns dos nomes mais icônicos da cultura pop clássica nasceram.

Em 1912, chegou às bancas de revistas o saudoso Tarzan, criado por Edgar Rice (um dos autores mais pródigos da época) e publicado pela The Argosy. A história, creio que todas conheçam! O nobre britânico, John Clayton, então Visconde de Greystoke, perdeu seus pais ainda bebê, durante uma viagem à África Ocidental. Sozinho, ele é adotado por gorilas, que o criam como um deles. Já adulto, ele cruza o caminho de Lady Jane, por quem se apaixona, e, por meio dela, conhece suas raízes com a humanidade, assim, tornando-se um elo entre natureza e civilização. Suas aventuras simples, como enfrentar leopardos e combater caçadores, fizeram sucesso entre o público jovem, tornando-o um dos maiores sucessos da editora. Ainda nos anos 1920, Tarzan receberia adaptações para o cinema e se consagraria como um dos maiores ícones da época. Eram tempos mais fáceis, em que uma aventura leve e descompromissada era mais do que o suficiente para divertir um público que recém havia descoberto essa nova arte.

Em 1919, já após os horrores da Primeira Guerra Mundial e da Gripe Espanhola, um desejo ascendente de escapismo e aventura surgiu nos leitores, e Zorro foi a porta de entrada para muitos deles no mundo das HQS. Criado por Johnston McCulley e publicado também pela Argosy, as HQS traziam as aventuras de Don Diego de La Vega, um galã rico e bonito, que secretamente atua como um justiceiro, combatendo o crime durante a Era da Califórnia Espanhola. Aqui, definiu-se o estereótipo do herói galanteador e mulherengo, sem lições de moral, apenas a busca pura e simples por adrenalina e justiça. Assim como Tarzan, o herói mascarado caiu nas graças do público e chegou aos cinemas em 1920, no filme mudo "A Máscara do Zorro".

Porém, a Grande Depressão, que caiu sobre os EUA e posteriormente sobre o mundo em 1929, afetou fortemente o ânimo popular. Onde antes havia otimismo, agora havia pessimismo, e onde havia aventura, reinava o pragmatismo. O problema já não eram mais caçadores e exploradores espanhóis, e sim uma criminalidade a níveis alarmantes, com um pico de homicídios nos EUA em 1933 e o surgimento dos primeiros gangsters, como Al Capone, como consequência da Lei Seca. As ruas, a corrupção, o álcool e o caos urbano tornavam-se a face da vilania, e novos heróis dos quadrinhos, mais sombrios e realistas, surgiram como resposta a essa chaga social.

Em 1931, surgiu o Sombra, o primeiro "justiceiro" propriamente dito dos quadrinhos. Brutal, sempre vestindo preto e com sérios problemas mentais, o herói de Walter Gibson se tornaria a face desse novo momento, inclusive, tornando-se inspiração direta para o Batman, de acordo com o próprio Bill Finger. Kent Allard era um piloto veterano da Primeira Guerra Mundial que, após viver os horrores do conflito, se viu em meio a um novo campo de batalha: seu próprio país. Ele então adotou a identidade do Sombra, sempre portando seu par de pistolas, pronto para acabar com a vida de qualquer criminoso que cruzasse seu caminho. Suas aventuras fizeram tamanho sucesso que foram rapidamente adaptadas para o rádio, chegando a ter uma telenovela narrada pelo lendário Orson Welles em 1937.

Porém, ainda havia espaço para heróis mais leves, como o Fantasma, que seria conhecido como o primeiro super-herói de verdade, sempre uniformizado e mascarado. Criado por Lee Falk, o herói é o alter ego de Kit Walker, um homem comum com um bom revólver e seu fiel lobo, Capeto (belo nome…), lutando contra o crime. Mesmo que hoje seja desconhecido do grande público, o Fantasma segue sendo publicado até os dias de hoje e recebeu uma adaptação para live-action em formato de seriado em 1943.

O Fantasma iria pavimentar o caminho para que a National Publications (futura DC) criasse aqueles que se tornariam os dois maiores símbolos do gênero: Batman e Superman. Por meio deles, os quadrinhos alcançariam um crescimento nunca antes visto, e o propósito do heroísmo seria, mais uma vez, modificado pela realidade do momento.


Heróis no Front

Em 1938, os amigos Jerry Siegel e Joe Schuster mostraram ao mundo aquele que estava destinado a se tornar o maior nome do gênero de super-herói, praticamente seu marco 0: Superman. O Homem de Aço encantou os leitores com seus feitos; nunca antes um herói foi capaz de rebater tiros com o peito, correr mais rápido do que um trem ou pular até o topo de um prédio. Era o início do estereótipo do herói superpoderoso. Nele, os autores depositaram também os ideais estéticos, morais e políticos dos EUA, transformando um personagem em uma bandeira nacional, na tentativa de promover o "American Way" para os jovens. Sua busca incansável pela verdade e justiça estendia-se não só aos Estados Unidos, como também a outras nações, como visto ainda na primeira HQ do herói, "Action Comics", em que ele impede uma guerra em um país da América Central, demonstrando com clareza o desejo imperialista dos EUA em expandir sua visão de mundo para o máximo de países possível.

Seu sucesso estrondoso resultou em uma HQ solo logo em 1939, que vendeu incríveis 500 mil cópias. Tal sucesso abriu portas para que os quadrinhos se encaminhassem para o seu auge. Por meio de Superman, a Era de Ouro dos quadrinhos estava anunciada.

Se Superman representava o Sonho Americano, Batman representava a luta por justiça nas trevas, nas ruas e nos becos. Desde sua primeira aparição em "Detective Comics #27", O Cavaleiro das Trevas consagrou-se por trazer tramas mais sérias e investigativas, ao mesmo tempo em que mostrava alguns ideais de heroísmo clássicos. Mesmo no tempo do bem contra o mal, do nós contra eles, Batman foi capaz de servir como ponte, mostrando o lado mais cru e bruto da justiça.

Ainda assim, o Maior Detetive do Mundo mantinha em vigor arquétipos problemáticos da época, especialmente com seus vilões. A frenologia, "ciência" essa usada no período da escravidão nos Estados Unidos para solidificar, por meio da aparência de características anatômicas, a necessidade de submissão de negros em relação a brancos, nos anos 1930, servia de base para identificar possíveis criminosos. Figuras deformadas como o Coringa, assustadoramente magras, gordas e baixas, como Espantalho e Pinguim, e que fugiam às suas funções sociais pré-definidas, como a Mulher-Gato (uma típica femme fatale), eram amplamente usadas nas HQs do Batman, de forma que sua aparência definia mais sua compulsão pelo crime do que sua moralidade. Como podemos ver, a era dos heróis "perfeitos" passava longe de realmente ser uma verdade.

A partir de 1941, com a entrada dos EUA na Segunda Guerra Mundial, a dupla assumiria um papel ainda mais importante: o de guardiões da moral americana, dentro e fora do front. Em HQs lendárias como "Como o Superman acabaria com a guerra", em que o Homem do Amanhã é visto capturando Hitler e Stalin e levando-os a julgamento, ficava claro como o herói sintetizava a imagem que os EUA desejavam ter em meio à guerra: os bastiões da democracia e da moralidade, aqueles que, por meio do poder, devolveriam o equilíbrio ao mundo. Para fortalecer essa ideia, milhões de lotes de Action Comics e Superman foram enviados para os soldados estadunidenses na Europa, África e Japão, alavancando as vendas a impressionantes 10 milhões de cópias apenas em 1941. Esse, sem sombra de dúvidas, foi o momento mais popular do herói.

Já Batman e Robin travavam a guerra em solo americano, enfrentando espiões japoneses e alemães. A primeira série live-action da dupla, lançada em 1943, bebe muito dessa fonte, mostrando a Dupla Dinâmica confrontando o temível Dr. Daka, uma caricatura extremamente racista de um nipo-americano. Essa postura claramente preconceituosa tornou a série extremamente mal vista nas décadas seguintes. Esses extremismos demonstram a máxima do período: os heróis são os símbolos máximos da perfeição, eles não cometem erros, e tudo que fugir a esse arquétipo é digno de inimizade ou escárnio.

Uma revolução trazida pelo período foi o surgimento da primeira grande super-heroína dos quadrinhos, a Mulher-Maravilha, também introduzida no contexto da Segunda Guerra. Obviamente, apesar de seu pioneirismo, a heroína não fugiu de muitas das normas da época, sendo extremamente sexualizada e subutilizada.

Já a Timely Comics (futura Marvel) lançou o Capitão América em 1941 (criado por Stan Lee e Jack Kirby, duas das maiores lendas dos quadrinhos), que, logo na capa da primeira edição, aparece dando um gancho de direita na cara de Adolf Hitler. Com as cores da bandeira em seu uniforme e escudo, Steve Rogers levava a outro patamar a infiltração da moral americana no campo de batalha. Porém, em 1945, a guerra, o evento que havia servido de catalisador para o nascimento de dezenas de personagens e milhares de histórias, acabou, e com isso, o auge dos quadrinhos. O desprezo do estadunidense voltou-se da suástica para a foice e o martelo, e a Guerra Fria seria novo palco da disputa ideológica. Pelos anos seguintes, DC e Marvel tentaram explorar essa rivalidade, mas nem de longe tiveram o mesmo sucesso que em tempos de guerra.

Esse desvio de foco acabou nos rendendo uma das fases mais inusitadas dos quadrinhos: os anos 1950, marcados por bizarrices e pelo início de uma intensa censura nos quadrinhos.

Em 1953, o psiquiatra germano-americano Fredric Wertham, movido pelos interesses de setores conservadores da sociedade estadunidense, escreveu a obra "A Sedução do Inocente", na qual, a grosso modo, imputava a culpa de 99% dos problemas sociais envolvendo jovens e crianças no país aos quadrinhos de super-herói. Wertham afirmou que as HQs continham altíssimas doses de violência, sexualidade e maus comportamentos, que influenciavam diretamente os leitores a cometerem tais atos. O sucesso do livro levou Wertham a depor em uma audiência no Senado dos EUA, o que consolidou de vez a caça às bruxas contra os gibis. Diante dessa ameaça, as editoras desenvolveram o Comics Code como uma ferramenta de autocensura para evitar problemas legais. O impacto na indústria foi devastador. Empresas menores como EC Comics faliram. Os gêneros de crime e terror foram praticamente extintos, sendo esses o alvo primordial deste ataque. Sob a autoridade do Comics Code, até mesmo Marvel (na época Timely Comics) e DC (na época National Publications) foram obrigadas a amenizar o teor de suas histórias, abrindo as portas para a saudosa Era de Prata, lar das aventuras mais cafonas da história dos super-heróis.


Diversão e fanfarrice

A Era de Prata foi um verdadeiro divisor de águas no gênero de super-heróis. Enquanto a DC apostava em histórias cada vez mais infantilizadas e sem sentido, atirando para todos os lados na tentativa de adaptar-se à modernidade, como quando Superman e Jimmy Olsen aparecem aleatoriamente em um show dos Beatles (eles tentavam de tudo), a Marvel revolucionava a indústria dos quadrinhos.

Homem-Aranha, X-Men e Homem de Ferro exploravam temáticas complexas, como abuso de drogas, preconceito, intolerância religiosa e alcoolismo, tirando os heróis de seu pedestal de perfeição moral, para torná-los mais humanos, frágeis e falhos, como os leitores que folheavam as páginas de suas HQs. Quem não se identificou pelo menos uma vez com a vida turbulenta de Peter Parker, tendo que lidar com os problemas de suas identidades? Ou com algum vício como Tony Stark tinha com a bebida alcoólica? Ou com a raiva ou sentimentos explosivos que desestabilizam nossas vidas, como Hulk? O grande trunfo da Marvel foi tornar seus heróis multidimensionais, palpáveis e "realistas".

Por sua vez, a DC apostava em personagens bizarramente caricatos. Superman destruía sistemas solares com um espirro, Batman tinha uniformes com cor de zebra, Aquaman bebia leite de polvos… Era bizarro. A moralidade ilibada permanecia intocada, mas agora era cercada pela fanfarrice da época, tornando-a cada vez mais ultrapassada.

Talvez, o maior exemplo disso tenha sido a nostálgica série do Batman de Adam West (1966-1968). Ao mesmo tempo que simbolizou o auge da cafonice do Cavaleiro das Trevas, tornando-se quase uma paródia, serviu também como um caminho para o fim desta era, já que, pouco após seu cancelamento, em 1968, as HQs do herói retomaram seu tom de seriedade.

O sucesso da Marvel com temas mais sérios, somado ao declínio da DC, deixou claro: os fãs queriam HQs mais bem escritas e sérias. A sociedade mudava a cada dia, com o público tornando-se mais crítico, como já era claro desde os anos 1950. Essa sede de profundidade se mostrou por meio da Contracultura, que agiu em várias camadas, uma das principais sendo a cultura pop.

O ponto-chave para a queda do Comics Code foi um arco nas HQs do Homem-Aranha que retrata o vício em drogas de Harry Osborn, mostrando os efeitos nocivos da droga de maneira chocante e trágica. Essa minissaga foi feita a pedido do Departamento de Saúde, Educação e Bem-Estar dos EUA, que queria alertar os jovens sobre os perigos das drogas. Spiderman 96# - 98#, de 1971, foram lançadas sem o selo da Comics Code, mostrando que sua autoridade já não tinha a mesma força.

A ascensão de editoras independentes, como Vertigo e Dark Horse, com histórias sérias e complexas, tornou ainda mais difícil manter a censura. O movimento independente ganha força progressivamente, sobretudo a partir dos anos 1980.

Com isso, o Comics Code entrou em um declínio irreversível durante os anos 1980 — e seria oficialmente abandonado décadas depois, já nos anos 2000.

O moralismo de Wertham e a rigidez do Comics Code quase destruíram o potencial artístico dos quadrinhos — mas, paradoxalmente, também prepararam o terreno para o renascimento criativo que viria nas décadas seguintes.

Ao longo dos anos 1970, com uma amenização na censura, a Marvel prosseguiu com seu estilo mais sério, tendo como seu ponto mais alto a lendária HQ “A Morte de Gwen Stacy”, que enfatizou o FIM DA INOCÊNCIA nos quadrinhos, demonstrando que nem sempre o herói vence, que nem sempre há um final feliz e que nem sempre haverá alguma ressurreição mirabolante. A seriedade batia à porta, e a Era de Prata dava lugar à Era de Bronze.

Durante os anos 1950 e 1970, o conceito de herói mudou da água para o vinho. A certeza deu lugar à dúvida, a força absoluta deu lugar à fragilidade, a perfeição quase divina foi substituída pela falibilidade humana. O que era um herói? Pela primeira vez, poderíamos ter uma dúvida na hora de responder essa pergunta até então tão simples.

O pragmatismo da DC em insistir nos velhos "dogmas" dos heróis serviu para potencializar o pioneirismo da Marvel, que foi decisivo para dar início à Era de Ouro (ou melhor, de Bronze) das HQs e da cultura pop como um todo: os anos 1980.


O Herói Humanizado

Os anos 1980/1990 simbolizaram o renascimento absoluto do gênero. No início dos anos 1980, a DC preparava um imenso reboot para o seu universo: a Crise das Infinitas Terras. Seu recomeço teria muita relação com uma HQ solo lançada em 1985: Watchmen. Escrita por Alan Moore e desenhada por David Gibbons, Watchmen narra um mundo em que os super-heróis são tão moralmente quebrados quanto seus vilões, e a sociedade é uma verdadeira doença.

A escolha de Moore de destituir os heróis de sua grandeza e dar-lhes uma face mais falha e humana foi peça-chave para dar aos quadrinhos da época o seu tom. A Guerra Fria dividia o mundo, revoluções sociais abriram os olhos de milhões, e as tradições passaram a ser questionadas. Moore soube surfar essa onda, e muitos na época tentaram fazer o mesmo.

Após a Crise nas Infinitas Terras, construída por George Pérez, os principais heróis da DC passaram por uma reformulação.

Batman foi para as mãos de Frank Miller, que escreveu Batman: Ano Um, que basicamente nos apresenta o Homem-Morcego que conhecemos: traumatizado pela morte dos pais, adotando o símbolo do morcego devido a seus próprios medos, viajando o mundo para treinar, enfrentando a corrupção sistemática de Gotham junto a Gordon. Esse toque de realismo e um tanto noir deu ao Cavaleiro das Trevas sua identidade mais conhecida. A cereja do bolo para essa fase iluminada foi, sem dúvida, o sucesso de Batman, de 1989, que faturou mais de 411 milhões de dólares, consagrando-se como a maior bilheteria daquele ano e mostrando a força dos super-heróis nas telonas.

Essa força se refletia também nas bancas, com um crescimento nas vendas, especialmente nos quadrinhos de Batman e X-Men. As bancas agora davam lugar a lojas especializadas em quadrinhos, demonstrando o interesse cada vez maior do público nesse nicho específico de entretenimento.

Seguindo por esse caminho, anti-heróis como Justiceiro e Lobo também ganharam força, com HQs mais violentas e com personagens que transitavam constantemente entre bem e mal. Nomes menos badalados, como o Demolidor, ganhavam força com arcos fantásticos como "A Queda de Murdock", que levaram o herói ao limite físico e psicológico, mostrando com clareza sua vulnerabilidade.

Heróis mais "politicamente corretos", como Superman e Capitão América, sofreram mais nesse período, mas encontraram seu rumo. Superman teve sua origem recontada, seus poderes reduzidos e motivação restaurada. Sua morte em 1993 foi notícia até mesmo no New York Times, mostrando a influência cada vez maior que o entretenimento tinha sobre a realidade. Já Steve Rogers, antes uma bandeira nacional, era agora o "Homem Sem Pátria", um herói renegado por seu país, e que agora se dispunha a fazer o certo e defender a liberdade, não importa por qual país. O bastião moral e o modelo de cidadão foram desconstruídos e humanizados.

Os anos 80 tiveram papel fundamental também na popularização de heróis negros, como Pantera Negra e Luke Cage na Marvel, que se tornaram dois nomes extremamente populares da editora nos anos seguintes, e serviriam para mostrar seu papel com agente de inclusão social. A DC, por sua vez, transformou a Batgirl na primeira heroína PCD dos quadrinhos. Barbara Gordon havia perdido o movimento de suas pernas, após o tiro que havia sofrido em Piada Mortal, e desde então, se transformou em um grande exemplo de superação.

Ser um herói não era mais ser um exemplo perfeito de moral, física ou estética, muito menos simbolizar um ideal nacional; era escolher fazer o certo, mesmo que por vezes falhasse nisso. Era superar a si mesmo. Era ser humano, independente de poderes, armas ou treinamento.

O simbolismo nacional ainda tinha seus momentos, como no Ground 0, um marco nos quadrinhos de heróis pós 11 de Setembro, que colocou novamente os heróis como bastiões do nacionalismo, como tentativa de regenerar o espírito nacional por meio da arte.

Esse preceito tem sido seguido até os dias de hoje. Mais recentemente, tivemos arcos como Injustice, que transformam heróis como Superman e Mulher-Maravilha em tiranos, mostrando quão perigosos os supers podem ser quando não se limitam por seus próprios códigos. Mas também há momentos em que o clássico cai bem, como em 2025, quando o Superman de James Gunn resgatou múltiplos elementos da Era de Prata, trazendo para as telonas o herói sorridente, bondoso e moralmente incorruptível. Esse retorno às raízes serve como uma busca pela bondade pura e simples, ideal para aqueles exaustos da "burocracia moral" que permeia nosso tempo.

Como pudemos ver, a mesma pergunta pode ter muitas respostas com o passar dos anos, adaptando-se à realidade vigente. Um herói pode ser um cavaleiro mascarado, um semideus, um palhaço, um desequilibrado ou, até mesmo, tudo isso ao mesmo tempo. E para você, qual era apresentou o melhor conceito de super-herói? Não deixe de comentar!