O QUÃO IMORAL UM HERÓI PODE SER?

Em The Avengers #213 (1981), Hank Pym, o Homem-Formiga (na época agindo com o codinome de Jaqueta Amarela), vivia um momento de altíssima instabilidade mental. Mesmo sendo um dos homens mais brilhantes do universo, ele sentia-se cada vez menor entre seus companheiros de equipe. Capitão América, Homem de Ferro, Thor, com eles, Pym parecia um homem em meio aos deuses, pequeno e frágil. Nos bastidores, ele fazia de tudo para obter quaisquer avanços científicos relevantes, qualquer coisa que o fizesse se sentir útil mais uma vez. Sem sucesso. Não eram necessárias palavras para que ele tivesse a certeza de que era descartável. Quando os Heróis Mais Poderosos da Terra são enviados para capturar a feiticeira Elfqueen, Hank decide que irá provar seu valor, atacando-a mesmo quando já havia se rendido, deixando seus colegas furiosas com tamanha covardia, levando-o a corte marcial. Em sua ânsia de se mostrar-se capaz, ele mostrou estar completamente despreparado para suportar a pressão, agindo de maneira inconsequente, algo inconcebível para um herói que esteve nos Vingadores desde a sua primeira batalha contra Loki. Em seu surto, Pym começa a desenvolver um robô sob medida para destruir os Vingadores, e somente ele teria o código para desativá-lo. Ele pôr seus amigos em risco apenas para salvá-los, em seu desespero para ser um herói, ele estava assumindo o risco de tornar-se um vilão. No entanto, sua esposa, Janet Van Dyne, a Vespa, descobriu seu plano absurdo antes que ele se consumasse. Como alguém que o amava, Janet tentou consolá-lo, dar-lhe um ombro amigo que provasse que ele não precisava ser melhor do que ninguém para ser aceito. É nesse momento, que completamente tomado pelo ódio, Hank dá um tapa no rosto de sua própria esposa, deixando-lhe um olho roxo que mudaria para sempre a história dos quadrinhos. Como ele poderia proteger as pessoas, se era uma ameaça até mesmo para a pessoa que mais deveria amar no mundo? Não estamos nos atendo aqui a casos clássicos de “herói caído”, como Superman dominando a Terra em Injustice ou Hal Jordan destruindo Oa após perde Coast City. Nem de anti-heróis clássicos, como Justiceiro, Deadpool e em dada medida, Hulk, que são guiados por traumas, loucura ou instinto, e que raramente são vistos como heróis de fato. Quando pensamos em super-heróis, pensamos quase automaticamente em homens e mulheres que ostentam os maiores valores da humanidade e lutam por um mundo melhor para todos. Eles podem ser falhos, mas suas virtudes sempre superam seus erros e seus símbolos permanecem luminosos. Mas, e quando isso não acontece? E quando nas sombras, esses mesmos heróis cometem os atos mais vis e ainda sim, são tratados como heróis não só pelo público alienado, como também, por seus próprios colegas? Até onde é possível errar e ainda ser um herói? É sobre isso que iremos falar hoje!

MARVEL E DC

Rafael Silva

9/19/20268 min read

Hank Pym

A agressão do Homem-Formiga contra a Vespa não estava inicialmente nos planos do roteirista Jim Shooter, mas, acabou sendo mal interpretada pelo desenhista Bob Hall, que desenhou um movimento de afastar como um tapa, o que mudou completamente não só a história, como a percepção dos fãs e dos personagens quanto ao cientista.

Nas HQs, Hank foi expulso dos Vingadores e perdeu definitivamente sua esposa, mas na vida real, o impacto foi ainda mais devastador. As edições seguintes da revista dos Vingadores passaram a vender uma média de 10 mil cópias a mais, seguidas por uma enxurrada de cartas de leitores criticando a decisão. O que fez bem para os cofres da Marvel, não faz o mesmo por um de seus personagens mais amados. Agora, um fundador dos Vingadores poderia ser resumido em uma frase: um covarde que bateu na sua mulher.

Nas edições seguintes, o caso ganhou repercussão, e o Homem-Formiga tornou-se um pária em um mundo acostumado a tratá-lo como exemplo.

A Marvel tentou reconstruí-lo, apresentando-o como um homem arrependido, que cometeu um erro em um momento de extrema pressão psicológica. Não colou, e ele continuou sendo mal visto pela maioria do público.

Mesmo assim, a Marvel não podia simplesmente deixá-los separados muito tempo, e tentou reaproximá-los durante os anos 1990, com Janet perdoando Hank, mas jamais sendo capaz de enxergá-lo da mesma forma. O passado poderia ser perdoado, mas não esquecido. Não importava quantos atos genuínos de bondade ele pudesse ter feito, esse único erro era capaz de enterrá-los a ponto de que muitos fãs eram incapazes de vê-lo como o herói de outrora, e novamente manifestaram-se contra a tentativa da Marvel de passar pano para um episódio como aquele.

Na HQ Supremos: Segurança Nacional (2014), Mark Millar e Bryan Hitch transformaram completamente a relação de Janet e Hank. Agora, o vingador não teria somente um surto de raiva, mas sim, um longo histórico de agressão contra Van Dyne.

Ao invés de um tapa, ele ataca Janet com uma legião de formigas no momento em que ela muda de tamanho para escapar, deixando-a à beira da morte. Capitão América e Homem de Ferro reúnem-se com Maria Hill, que revela que na verdade, Hank vinha violentando Janet desde o início de seu relacionamento, e ela, presa a uma espécie de dependência emocional, preferiu ignorar essa violência até que fosse tarde demais.

Possesso, o Capitão América rastreia Pym e o dá uma bela surra, mas, não é autorizado a prendê-lo por ordem da Shield. Ele não era só valioso estrategicamente, mas também financeiramente. Um ídolo das massas transformado em um agressor, certamente não faria bem à imagem dos recém-formados Supremos. Nick Fury preferiu manter uma imagem limpa pela mentira, do que manchá-la com a verdade.

Todavia, diferentemente dos anos 1990, Janet não lhe deu outra chance, desligando na cara dele assim que tentou fazer contato e iniciando um relacionamento com Steve Rogers. Convenhamos, a companhia é muito melhor.

Se já não bastasse ter criado o Ultron, Pym envolveu-se em uma das maiores polêmicas da história da Casa das Ideias, e levantou um dilema atemporal: é possível perdoar o imperdoável? Antes e depois dos crimes, ele seguiu sendo um herói, salvando pessoas e tentando inspirá-las, mas, será que é possível espelhar-se em alguém capaz de tamanha crueldade? Para a maioria dos heróis: Não. Para os cidadãos do universo Marvel: Não. Para uma parte considerável do público: Não. E o mais importante, para a vítima: não.

Um erro de concordância editorial acabou fazendo do Homem-Formiga um personagem irremediavelmente controverso. Uma mente genial, mas ao mesmo tempo fraca demais para suportar a frustração.

Por sua vez, ao invés da violência doméstica, a DC fez de seus heróis vítimas de uma vício que tanto combateram dentro e fora das páginas: as drogas.

Ricardito

Em The Amazing Spider-Man #96 (1971), a Marvel ousadamente desafiou a forte censura do Comics Code, e colocou o Amigão da Vizinhança na linha de frente do combate contra uma das maiores chagas da sociedade: o vício em drogas. Na ocasião, Peter salva um jovem viciado pouco antes do mesmo jogar-se do topo de um prédio, tendo um choque de realidade em relação ao problema.

Todavia, a coisa se torna muito mais pessoal na edição seguinte, quando seu melhor amigo, Harry Osborn, passa a utilizar LSD, crente de que não ficaria dependente. Um grave engano. Em certa ocasião, a dose foi tão alta, que seu corpo ficou à beira de uma overdose. A coisa saiu do controle muito mais rápido do que ele poderia imaginar.

Pelas edições seguintes, Harry travou uma verdadeira guerra contra a dependência química, contando com a ajuda de Peter, Gwen e MJ para vencê-la. Como de costume, a vida de Parker vida de ponta-cabeça no momento em que percebe que seus poderes não são o suficiente para ajudar seu amigo.

O exemplo dado pela Marvel fez dos quadrinhos um ambiente aberto para debater temas sociais mais sérios e recorrentes, e fez dos heróis baluartes da luta contra esse problema. Mas, e quando o próprio herói acaba se tornando vítima do vício? Esse é o caso de Roy Harper, mais conhecido como Ricardito.

Tanto ele quanto seu mentor, Arqueiro Verde, surgiram em More Fun Comics #73 (1941), tornando-se uma das duplas mais icônicas da DC. Assim como Robin, Roy nasceu como um exemplo para a juventude: um garoto jovem, bonito, seguidor das leis e fiel ao seu mentor. No entanto, a DC viu nele a oportunidade de mostrar que até mesmo os melhores podem ser corrompidos pelo vício.

Em Green Lantern/Green Arrow #85-86 (1971), escrita por Dennis O’Neil e desenhada por Neal Adams, Hal e Oliver estão na caça de uma gangue de traficantes, e acabam descobrindo que o próprio Ricardito estava envolvido no esquema, injetando heroína em si mesmo, dragado pelo mal que havia jurado destruir.

Queen fica furioso, chegando a esmurrar o parceiro e expulsá-lo de casa, mas posteriormente, passa a ver aquilo como fruto do seu crescente desprezo pelo seu protegido. Ele o deixou sozinho por tempo, suportando peso demais sob ombros ainda despreparados para suportá-lo, e que encontrou em algo sabidamente ruim, uma saída para uma crise aparentemente irremediável.

A DC nem ao menos precisou construir uma origem definitivamente para o vício para torná-lo entendível.

Com o tempo, Roy supera o vício com apoio da Canário Negro, reintegra-se aos Jovens Titãs e assume a identidade de Arsenal, deixando definitivamente de ser o “parceiro do Arqueiro-Verde”, ele não apenas havia superado as drogas, mas sua vitória sobre elas o fez livre para ser ele mesmo em todos os sentidos.

Era a prova de que os melhores não somente podiam cair, como também, podiam reerguer-se e tornar-se ainda mais grandiosos. Uma queda não significava o fim.

Porém, também existem aqueles que vivem uma batalha constante contra si mesmos.

Homem de Ferro

O dono de uma fortuna banhada em sangue. Durante anos, Tony Stark enriqueceu financiando guerras, comercializando a devastação e patenteando a morte. Porém, tudo muda quando ele visita um campo de batalha no Vietnã, e acaba atingido por uma de suas próprias bombas, escapando da morte por um triz, com vários estilhaços próximos de seu coração.

Após construir seu primeiro traje e escapar do cativeiro, Tony decide mudar de ramo, agindo secretamente como um super-herói, preservando vidas ao invés de tirá-las. No entanto, sua busca por redenção muitas vezes pende para o lado da obsessão, o que muitas vezes o deixa nos limites do aceitável.

As consequências dessa vida dupla logo passaram a cobrar seu preço. Entre The Invincible Iron Man #120-128 (1979), viveu um verdadeiro inferno devido ao seu crescente vício em álcool, utilizando-o como uma válvula de escape para suas incontáveis dificuldades como herói e empresário. Aquilo era demais para qualquer mente, até mesmo a dele.

Sua vida com e sem a máscara estava sendo arruinada pela sua incapacidade de conciliar ambas. E mais uma vez, o herói precisa de seus amigos para vencer a si mesmo.

Com ajuda de Jarvis e Bethany Cabe, Stark consegue controlar seu vício, que viria a dar as caras outras vezes no futuro, tornando-se uma cicatriz eterna em sua carreira.

Porém, os maiores erros do Homem de Ferro foram feitos de forma muitíssimo consciente.

O melhor exemplo dessa dualidade moral, é a saga Guerra Civil, onde em nome da Lei de Registro, Tony não apenas caça seus antigos amigos como se fossem criminosos, como também, alia-se a vilões como Mercenário e Duende-Macabro para criar uma espécie de “Polícia de Meta-humanos” com as mentes mais perturbadas da Marvel. Mas, o maior absurdo é a criação de um clone secreto de Thor, feito sem o seu consentimento, e usado em batalha de forma totalmente descontrolada, chegando a matar Golias em combate.

De fato, Tony queria fazer com que as leis impostas pela sociedade fossem cumpridas. Legalmente falando, ele estava certo. Porém, ao longo do conflito, fica claro que ele vê esse conflito de maneira muito pessoal, ele precisa provar para si mesmo que é um homem bom, que está disposto a abrir mão de si mesmo pelas pessoas, para protegê-las não importa o que ele precisa fazer, ou quem ele tenha que prender. E é essa obsessão que o faz tomar as decisões mais absurdas, traindo e até matando aqueles que um dia chamou de amigos.

Será que é possível ser um herói cumprindo a lei, mas deixando a moral de lado? Esse dilema não dividiu apenas os personagens, mas principalmente, os leitores, mostrando o quão complexa é a mente do Homem de Ferro.

Isso é porque nem falamos do caso mais sério envolvendo o Homem de Ferro: sua aliança com os Illuminati em New Avengers de Jonathan Hickman .

Ao lado de Raio Negro, Professor X, Namor. Dr. Estranho e Pantera Negra, Tony chegou ao ponto de destruir outros universos inteiros, matando trilhões de seres, para proteger o seu próprio universo das Incursões.

A sangue frio, ele e os outros heróis iam a cada um desses universos, matando seus principais defensores, e os deixavam desprotegidos aguardando a destruição. Nem a esperança lhes foi poupada.

Ele fez com que cada ser do seu universo vivesse ao custo de centenas de trilhões de outros, sem sequer saber disso. Certo? Errado? Quase impossível dizer. Stark defendeu as pessoas que confiaram suas vidas a ele, independente do quão cruel precisasse ser. Ele poderia ser um anjo salvador para os seus, mas, serviu como presságio de morte para tantos outros.

Cada caso traz consigo uma nova perspectiva: Hank cometeu um crime asqueroso, e por isso foi vilanizado pela maioria. Roy cometeu um erro cujo a maior vítima foi ele mesmo, mas, deu a volta por cima e reassumiu seu espaço. Enquanto isso, Tony se mantém no 50/50: passa a maior parte da vida errando, quando decide corrigir tais erros, alterna entre atos grandiosos de heroísmo, recaídas no álcool e imoralidades que até mesmo alguns vilões pensariam duas vezes antes de fazer.

E para você, qual desses casos é o mais interessante? Não deixe de comentar!

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