O MONSTRO "QUASE" HUMANO: POR QUÊ ELE NOS ASSUSTA?

No conto "O Estrangeiro" (1926), H.P. Lovecraft, pai do horror cósmico e monstruoso, nos entregou um de seus melhores trabalhos. Na trama, um homem sem nome vive isolado em seu enorme castelo. Por mais majestoso que seja o seu lar, algo ainda lhe falta: humanidade. Sua mente clama pelo calor de outras pessoas, e nas poucas memórias que tem de sua vida no outro lado daquelas paredes, a vontade de fazer parte de algo além de si mesmo persiste. Ele então decide fugir da prisão que um dia chamou de casa, escalando a mais alta das torres de seu castelo e descendo ao chão. Pela primeira vez, ele vê o verde das matas e o amarelo das estrelas brilhando no céu, o primeiro vislumbre do mundo que sonhava em conhecer. Ele seguiu sua jornada em direção a uma grande mansão, toda iluminada, onde uma grande festa se desenrolava. Dezenas de pessoas, rindo, comendo, bebendo, desfrutando da vida. Incapaz de esperar, mesmo que mais um segundo, ele irrompeu o salão, atraindo para si os olhares de cada um dos presentes, um olhar que, no mesmo instante, tornou-se de desespero. A sua mera presença fez com que todos começassem a fugir. Por mais que ele tentasse abraçar a humanidade, ele parecia fugir dele, escorregar por entre os braços que tentavam abraçá-la. Enquanto pedia que eles ficassem, ele não pôde deixar de notar algo curioso em suas aparências: "Não pude deixar de notar que eles possuíam rostos excessivamente pálidos e alongados, com testas estreitas e olhos fundos e inexpressivos." Ele passou anos desejando a companhia deles, mas nem ao menos era capaz de lembrar-se de como eles se pareciam. Sem entender o motivo do pânico daquelas pessoas, seu olhar fixou-se em uma apavorante forma presa a um espelho: um corpo cadavérico, remendado e putrefato. Ele se aproximou vagarosamente da coisa, e ela dele. De repente, seus dedos se tocaram com os da coisa, e tudo o que ele podia sentir era a superfície fria e rígida do espelho; só podia perceber o reflexo de si mesmo. Ele tinha os sentimentos, o desejo, traços da anatomia, mas, ao olhar-se no espelho, só uma pergunta lhe vinha em mente: como isso pode ser humano? O terror lovecraftiano é notório por suas criaturas bizarras, monstros mitológicos e extraterrestres, mas esconde seu verdadeiro horror nos resquícios de humanidade que ainda habitam esses monstros. Seja a capacidade de falar ou de sentir, sejam semelhanças físicas, o verdadeiro horror reside em olhar para a mais bizarra das criaturas e perceber que ainda existe algo humano nela, ainda existe algo nela que se parece com você. Décadas depois, um conceito viria a servir como uma explicação para esse medo: O Vale da Estranheza (sim, o mesmo que você viu em milhões de edits no TikTok). Criado em 1970 pelo professor japonês de robótica Masahiro Mori, o conceito compreende que, quanto mais humano um robô, desenho ou animação se parece com a realidade, maior é a nossa afinidade com ele. Mas, se ele tiver um mínimo detalhe, algo perfeito ou imperfeito demais, nossa ligação com ele se esvai, e o medo ou a repulsa assumem o seu lugar. Algo que falha em tentar ser humano, ou que já é humano, mas gradualmente perde suas características que o fazem assim, representa um dos medos mais irracionais da nossa mente. O gênero de terror explora essa temática desde os seus primórdios, tanto na literatura quanto no cinema. Hoje, vamos compreender como Frankenstein, Enigma de Outro Mundo e a Mosca exploram essa ideia em seu aspecto mais grotesco e, ao mesmo tempo, mais emocional. Sem mais delongas, vamos lá!

TERROR

Rafael Silva

9/7/20268 min read

Frankenstein

(Créditos: Plano Crítico)

Em 1818, a escritora britânica Mary Shelley deu vida a um dos monstros mais complexos da ficção. Um ser que transita entre o humano e o inumano. O que há de mais puro e de mais imundo na humanidade.


Criada por Victor (ou Henry, no caso do filme de 1931) Frankenstein, a Criatura foi feita para mimetizar um ser humano, para dar ao seu criador, mesmo que por um instante, a sensação de ter o poder de Deus na palma de suas mãos. Desde a adolescência, essa obsessão doentia tomava conta de sua mente, tornando-o cada vez mais mórbido e desconectado daqueles à sua volta, imerso em uma ideia que muito provavelmente era impossível, e, se fosse viável, seria uma perigosa subversão da ordem natural. Mas ele passou tanto tempo pensando em como fazer isso, que não perdeu tempo pensando se devia.

Em sua arrogância cientificista, ele julgou que seu intelecto poderia fazer da morte algo obsoleto. O corpo do monstro foi forjado a partir de dezenas de partes de outros corpos: perna de um, braço de outro, cérebro de outro. Será que tantos homens foram capazes de fazer um único?

O poder da ciência deu vida à sua criação, mas não lhe deu humanidade. A fera era deformada, mal conseguia se comunicar e causava aversão até mesmo no homem que a concebeu.


Uma concha de retalhos de mortes não foi capaz de fazer uma vida plena. Assim como o Estrangeiro de Lovecraft, Frankenstein tinha o desejo de fazer parte do mundo, como um homem, sem perceber o quão complexo e monstruoso ele era.

Mesmo assim, a Criatura desejava aprender. Ela possuía sentimentos, mas não conseguia compreendê-los; tinha desejos, mas jamais conseguia saciá-los. O homem que o fez lhe negou o direito de usufruir do mundo.
Para Victor Frankenstein, aquele monstro representava o pior da sua própria personalidade, a maior perversão que a humanidade era capaz de conceber. A falta de humanidade da criatura era a falta de humanidade em si mesma. Vê-lo era um lembrete constante de que o verdadeiro monstro era ele.


Quando a criatura escapou do laboratório, ela foi atrás da vida em todas as suas formas. Entre as pessoas, era rejeitada e temida; entre os animais, não era muito diferente. Ele nasceu para fazer parte de algo que simplesmente não lhe aceitava. Porém, a vida lhe ensinou coisas que seu mentor lhe privou: falar, caçar, fazer fogo, ler, coisas comuns, humanas.


Apenas um homem cego chamado De Lacey, que reconhecia a Criatura por suas ações, não por sua aparência, lhe acolheu como amigo. Sem um rosto para julgar, até o mais estranho dos monstros parecia normal.


A Criatura de Frankenstein é um caso curioso, em que nem o corpo nem a mente do homem foram capazes de conceber um igual que pudessem aceitar, condenando-o à exclusão, eternizando a verdade do quanto a sociedade é excludente com aquilo que não entende, e que, mesmo assim, excluídos como a Criatura ainda lutam para viver nela.


Seu distanciamento lhe fez apreciar até mesmo as coisas mais simples, que tantas vezes passam despercebidas pelas pessoas, e talvez esse seja o aspecto mais assustador do personagem.

A Mosca

(Créditos: Disney)

Um dos exemplos de body horror mais lendários (e nojentos) da história do cinema de terror, e ponto mais alto da carreira do diretor David Cronenberg. Todavia, por mais bizarro e asqueroso que possa ser, o longa traz de maneira brilhante o conceito do Vale da Estranheza, mostrando como um homem pode se transformar em um monstro a partir dos mínimos detalhes.


Na trama, Seth Brundle (Jeff Goldblum) é um excêntrico e brilhante cientista, que tem como maior objetivo construir uma máquina capaz de teletransportar seres de carne e osso de um lugar a outro, sem matá-los no processo. Para isso, ele conta com a ajuda de Veronica Quaife (Geena Davis), uma jornalista da área da ciência, por quem rapidamente se apaixona. Mal sabia ele que, em muito pouco tempo, esse relacionamento seria a única coisa capaz de lembrá-lo de que um dia ele foi humano.

Em um dos experimentos, ele tenta teletransportar-se de uma cabine a outra, sem notar que uma mosca havia irrompido em uma delas, fazendo um cruzamento genético com ele no momento em que seus corpos foram movidos. O sangue de suas espécies totalmente diferentes agora corria em suas veias, e nem mesmo ele seria capaz de mensurar as consequências disso.


Inicialmente, Seth se sente melhor do que nunca, mais forte, rápido, disposto, além de se tornar uma verdadeira máquina de sexo. A princípio, essa fusão parecia uma verdadeira bênção. Tomado pela arrogância, ele se põe como o próximo passo da evolução humana, melhor do que qualquer homem jamais foi.


Todavia, o horror começa quando o preço da “perfeição” é posto sob a mesa. Seus dentes e cabelo começam a cair, cerdas surgem em suas costas, sua pele torna-se grudenta e translúcida, seus desejos já não podem mais ser saciados, deixando-o cada vez mais agressivo. O amor que antes sentia por Veronica tornou-se possessivo; a preocupação dela com sua transformação é silenciada por sua arrogância. O instinto do animal começava a superar a racionalidade do homem.


Ele ainda é humano, mas gradualmente vai deixando de ser, e o pior de tudo: ele não faz nada para impedir essa transformação, mesmo com a pressão de Veronica. A cada dia que passa, sua mutação avança, até que seus últimos traços de humanidade se despedem, com antenas assumindo o lugar de suas orelhas, seu nariz desaparecendo e sua pele tornando-se totalmente viscosa. Ao falar, uma espuma branca e ácida jorra de sua boca. Tudo nele era repulsivo, animalesco, bestial.


Ao olhar para si mesmo, Seth se lembra do que um dia foi, mas reconhece que jamais poderá alcançá-lo novamente. Ele queria ser o maior entre os homens, e agora, nem sequer era um.
Por mais que Quaife tenha medo e nojo da aberração diante de seus olhos, seu coração ainda é capaz de ver para além deles. Ele poderia não ver o homem dentro de si mesmo, mas ela sim.
No entanto, é impossível mudar quem já decidiu no que quer acreditar.

"Estou dizendo que sou um inseto que sonhou que era um homem e agora o sonho acabou."

Nesse momento, ele desistiu de agarrar-se ao passado e tentou adaptá-lo ao seu presente, fazendo Veronica e o bebê que carregava em seu ventre monstros, assim como ele. Ele desejava uma grande família de monstros.
Veronica o impede, destruindo a máquina e disparando contra ele. À beira da morte, ele não sente medo ou ódio, mas alívio e remorso pelo que fez. Ela o abraça, independentemente do quão repugnante ele pudesse ser, pois seu amor era maior que sua aversão.

Brundle havia aceitado ser um monstro, corpo e mente, mas o último ato de amor que fez como um homem permaneceria vivo por meio de seu filho. Sua humanidade ia além de sua própria vida. O final ambíguo deixa incerto se o bebê teria ou não a mesma mutação que o pai, mantendo a tensão viva mesmo nos créditos finais.

Diferente de Frankenstein, que nasceu como um monstro e lutou para ser um homem, Seth Brundle nasceu com humanidade, mas, ao desejar tornar-se maior que ela, acabou perdendo-a por completo. De formas totalmente diferentes, os dois morreram certos de que eram monstros, diferente do terceiro e último caso, em que não lhes resta nem ao menos essa certeza.

O Enigma de Outro Mundo

(Créditos: Cine Pop)

Quando o terror sci-fi cinquentista cruzou-se com o body horror oitentista. Um grupo de cientistas, liderado por MacReady, é surpreendido por um helicóptero norueguês disparando contra um cão, próximo à sua base no meio da Antártida.


Ao sair para verificar, tornam-se alvo dos disparos, sendo obrigados a derrubá-los. Em busca de pistas, MacReady e Cooper vão ao acampamento dos noruegueses próximos à Estação 31, onde encontram uma verdadeira carnificina.

Lá, eles encontram informações sobre uma nave alienígena de mais de cem mil anos, que havia descongelado pelos noruegueses, e que supostamente continha uma forma de vida completamente desconhecida e perigosa. Eles também encontraram o suposto corpo da criatura, já sem vida. O que eles não sabiam era que esse alien comportava-se como uma parasita, podendo simplesmente deixar um corpo e tomar outro, assumindo a forma que bem entendesse.


De volta ao QG, os cientistas teorizam sobre o que poderia ter acontecido, sem saber que a Coisa estava, na verdade, no cão que eles burramente salvaram das balas norueguesas.


No canil, o alien toma forma, rasgando o corpo do pobre animal e massacrando todos os cães ali presentes. Eis o segredo: com esse ser, você não pode confiar em nada nem ninguém. Em um instante, ele pode ser seu melhor amigo; no outro, transformar-se na fera mais horrível que a mente humana é capaz de conceber.


Parasitando o corpo do cão, a Coisa invade a base e começa a espelhar-se entre os cientistas. O primeiro a sentir os efeitos é Norris, que aparenta estar sofrendo uma parada cardíaca e é levado às pressas para o centro médico, onde o Dr. Cooper tenta reanimá-lo com um desfibrilador.
Todavia, no momento em que Cooper tenta usá-lo, o peito de Norris simplesmente abre, e dele surge uma cabeça humanóide completamente bizarra (uma das coisas mais feias que o cinema já fez), e simplesmente devora as mãos do médico, matando-o. Sem aviso prévio, um homem aparentemente normal se revelou como um monstro inexplicável e matou aquele que tentava salvá-lo.


MacReady age rápido, queimando-o até as cinzas, sabendo que essa era a única forma de deter essas criaturas. No entanto, era impossível saber o quanto a infecção havia se alastrado. Era impossível saber se quem estava ao seu lado era de fato humano.


Essa incerteza ganha um peso ainda maior quando se analisa o contexto. Eles estavam no meio de um deserto quase infinito de neve. A estação era o seu mundo, e as pessoas dentro dela eram a única humanidade com a qual tinham contato há meses. Se eles não pudessem confiar nela, iriam confiar em quem?


A estranheza surge justamente da surpresa. Em um momento, tudo normal; no outro, um monstro inenarrável surge no lugar daquilo que lhe deveria ser familiar. Fechar-se em sua própria mente e confiar somente em si mesmo poderia ser uma saída, mas nenhum deles sabia ao certo como era uma infecção antes de ser consumada; não sabiam se sua mente era capaz de identificar a invasão antes que ela a dominasse por completo.


Eles poderiam não ser mais humanos, e nem sequer sabiam disso.
A paranoia atinge níveis estratosféricos e, após a morte de quase todos da equipe, os sobreviventes, MacReady e Childs derrotam Blair, que havia se tornado uma criatura gigantesca, detonando-o com uma dinamite.


A base estava em frangalhos, todos dentro dela, mortos. Um olha nos olhos do outro e não tem certeza do que habita por trás deles, e nem mesmo dos seus. Talvez um deles esteja infectado, talvez nenhum, talvez os dois; é impossível ter certeza. Só o que lhes resta é esperar.


Diferente dos dois casos anteriores, não estamos falando de uma busca, mas sim de uma dúvida sobre o que se é e o que o cerca.
De maneiras diferentes, Frankenstein, A Mosca e O Enigma de Outro Mundo apresentam diferentes maneiras de ver e ser um monstro, perturbando pela forma humana com a qual eles se parecem ou tentam se parecer. O medo nasce da imperfeição e da imprevisibilidade.

E para você, qual dos três tipos de monstro é o mais assustador ou mais interessante? Comente!

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