O Medievalismo Idealizado: Como a Disney fez do passado algo mágico?
Quando pensamos nos grandes clássicos da Disney, como Bela Adormecida, Bela e a Fera ou Branca de Neve, vem à mente quase de imediato a forma mágica e majestosa com a qual o passado é retratado: castelos grandiosos, florestas repletas de vida e animais falantes, e vilarejos vivos e acolhedores, onde todos os moradores estão prontos para cantar assim que a protagonista abrir a boca. Todavia, a Disney apenas adaptou séculos de obras literárias, modas de vestimenta e estilos arquitetônicos para idealizar o passado para o presente, para dar-lhe a magia que tanto nos encanta. O impossível nascendo do incompreensível, os relacionamentos idealizados, as lições de moral intrínsecas a cada uma das histórias, tudo isso já existia muito antes dos clássicos. Porém, a Disney não se limitou somente a contar as histórias; ela precisava torná-las realmente fantásticas. A beleza e o encanto deveriam ser tamanho, que o espectador deveria sentir-se em um sonho. Para isso, mais referências históricas foram aproveitadas. Quem não se lembra, por exemplo, do magnífico castelo do Príncipe Encantado da Cinderela? Cuja a altura das torres brancas desafia até mesmo a das nuvens, e de uma bela imponente que deixa a todos de joelhos. Não era apenas uma maravilha de pedra, era um retrato de poder, respeito e, para Cinderela, da realização de um sonho, de um alento após as injustiças sofridas por anos nas mãos de sua madrasta. A ela foi reservado um vislumbre do paraíso ainda em vida, enquanto dançava com seu amado em um salão sem fim, tão brilhante e ornamentado, que nenhum homem seria capaz de estimar seu valor. Parece muito fora da realidade, não é mesmo? Não para o Rei Luís II, da Baviera, responsável por ordenar a construção do inigualável Castelo de Neuschwanstein, inspiração direta para o castelo do filme, prostrado sob uma montanha, com detalhes em branco e uma grande torre, muito parecida com a vista em Cinderela. A ficção extraiu da realidade o visual e o significado. No entanto, não somente a realeza foi lembrada por Walt Disney. A belíssima vila onde Pinóquio e Gepeto vivem no clássico de 1940 é diretamente inspirada no vilarejo de Rothenburg ob der Tauber, na Alemanha (lhe desafio a falar esse nome). As ruas estreitas cobertas por pedra, as casas com o clássico visual germânico, a sensação de acolhimento e tradição, todas transcritas da realidade para a fantasia. Hoje, vamos descobrir como três dos maiores clássicos das animações ajudaram a eternizar o “medievalismo Disney” em nossos corações e mentes. Então, sem mais delongas, vamos lá!
HISTÓRIA DA CULTURA POP
Rafael Silva
8/25/20267 min read
Bela Adormecida (1959)
Visualmente, talvez a obra mais magnífica da Disney: o corajoso príncipe enfrentando o terrível dragão no topo de uma montanha. A linda princesa deitada, enquanto os raios de sol suavemente tocam seu rosto impecável. As fadas tomando chá em sua calorosa cabana em meio à floresta. A bruxa má observava todo o reino do topo de sua torre negra.
Confesse: quando você pensa em contos de fadas, alguma dessas imagens com certeza vem à mente. A magia, a beleza, o amor, a natureza e a grandeza que podem ser construídas pelas mãos do homem, todas essas sensações traduzidas por meio de decisões artísticas que moldaram um momento da humanidade para bilhões de pessoas de maneira tão encantadora quanto ilusória.
Liderada por Eyvind Earle, a equipe de design visual fez do clássico uma espécie de “livro de contos em formato de filme”. Os traços leves de Branca de Neve e Cinderela foram trocados por traços rígidos e pontiagudos, e fundos de imagem que levavam dias para ficarem prontos. O cenário não era um pano de fundo, era parte da história.
A animação foi fotografada em formato Super Technirama 70, trazendo uma amplitude impressionante e um senso real de espaço e grandiosidade. Essa escolha combina perfeitamente com a proposta visual do filme: os castelos não deveriam parecer apenas construções, mas monumentos capazes de dominar toda a paisagem.
Logo no início, quando milhares de súditos marcham em direção ao castelo real para testemunhar o nascimento da princesa Aurora, um verdadeiro espetáculo visual nos é mostrado. Cada pessoa, soldado, casa e estandarte possui cor, peso e vida; você de fato sente como se estivesse em meio a uma grande celebração medieval, inundado pelo que havia de mais belo na arquitetura da época e pelo calor humano, enquanto avança em direção a um castelo tão magnífico quanto.
A relação de Aurora com a floresta durante seu “exílio” também é de se ressaltar. O verde é um organismo vivo, cuja vida conecta-se diretamente com a protagonista de diversas maneiras, especialmente por meio dos animais. Assim como em Branca de Neve, essa foi a maneira da obra de mostrar a pureza e a bondade da protagonista, mostrando sua sensibilidade para com todos os seres vivos e como eles vivem em comunhão com ela.
O momento em que Aurora e Phillip dançam em meio à floresta deixa claro o quão única é a estética dessa obra.
As árvores mais se parecem com torres, as montanhas imitam diretamente formas geométricas, as construções inspiraram-se diretamente em ilustrações de manuscritos.
A floresta parece expor a pureza do amor que habita em seus corações, e a clareira se abre como um altar para que demonstrem essa paixão por meio da dança, enquanto os bichos observam atentos ao maior dos sentimentos, tão puro e poderoso, que parece tocar até mesmo os seres irracionais.
A maior inspiração para essa arte foram as tapeçarias confeccionadas séculos antes, como A Caça ao Unicórnio e A Senhora e o Unicórnio (Século XV), que traziam florestas, campos e vilarejos de maneira lúdica e quase irreal.
Não era sobre mostrar ao público como era a Idade Média, era construir a ideia com a qual ele imaginaria aquele momento histórico até os dias de hoje.
Bela Adormecida consolidou os padrões de Cinderela e Branca de Neve, e definiu para sempre o que é um conto de fadas clássico. No entanto, o medievalismo da Disney pode ir muito além das princesas, reinos, riqueza e magia, estando presente também na pobreza, na miséria, na injustiça, onde um ladrão tenta nos convencer de que, às vezes, um ladrão pode ser um herói.
Robin Hood (1973)
Saindo dos reinos encantados direto para as vilas da Inglaterra, a Disney nos mostrou um pouco mais do lado mais “sujo" do medievalismo, e talvez, o mais próximo da dimensão cotidiana que costumamos esquecer quando pensamos nela.
Os castelos, que antes eram retratos de pureza e poder, tornam-se símbolos de opressão, erguidos sobre a exploração de seu povo.
O vilarejo em Sherwood não é o lar de seres mágicos e monstros bizarros; é onde os camponeses fogem da ganância e dos impostos do mimado Príncipe João, e onde Robin Hood e seu parceiro John encontram abrigo. Se para as princesas a floresta era um refúgio, para eles era uma realidade.
Por mais belo que seja, o visual que Ken Anderson e sua equipe deram à animação não tem medo de mostrar as roupas surradas, estradas estreitas e cheias de lama, as casas apertadas e mal cuidadas, os reflexos da tirania da desigualdade que Hood decide combater. Essa mudança de tom se faz presente em todas as esferas da trama.
Em vez de uma princesa certinha, temos um ladrão sarcástico, fora da lei, do tipo que canta com seus amigos no pub e não com animais aleatórios no meio do mato.
Robin Hood fez da Idade Média algo palpável para os normais. Bela Adormecida nos mostrou um mundo, e Robin Hood nos mostrou uma sociedade.
Apesar do viés crítico, o filme não abre mão da magia, afinal, Robin Hood é uma raposa, e seu melhor amigo é um urso. Não é de algo realista que estamos falando. Por sinal, a decisão de fazer de Robin uma raposa tem propósito narrativo, já que o animal em questão é conhecido por sua ardilosidade e facilidade em escapar, habilidades muito úteis para um fora da lei.
Do ponto de vista técnico, a animação é simples, exemplificando os primeiros sucessos da Disney pós-Walt. Alguns movimentos foram reutilizados de outros longas como Mogli, Aristogatas e Branca de Neve, e aquele apreço por uma identidade visual única e uma atmosfera majestosa foi deixado de lado em favor de uma história que, ironicamente, parece desconstruir essa mesma premissa que a Disney abraçou no passado.
Robin Hood mostrou ao público que a Idade Média pode, sim, ser feita de magia, mas também de problemas reais. De príncipes encantados e também de rebeldes. Do topo de um castelo ao banco de um bar. Foi uma realidade complexa e multifacetada, em que o belo se mostra de diferentes formas, para diferentes gostos, e em que a mesma história pode ter vários lados.
Para consumar essa lógica, nada melhor do que um clássico que subverte os arquétipos, quebra as expectativas e os reconstrói por meio do amor.
Bela e a Fera (1991)
O encontro de dois mundos estéticos e emocionais. A direção de arte de Brian McEntee brinca com duas realidades: uma caricatura de um vilarejo humilde no interior da França, com casinhas de madeira, moinhos e padarias, e os magníficos castelos góticos, que, mesmo abandonados pelo tempo, jamais perdem sua beleza.
Quando Bela deixa a vila que jamais lhe compreendeu para assumir o destino de seu pai, Maurice, como prisioneira da Fera, ela tem a oportunidade de enxergar a semelhança entre a jaula e o monstro preso nela.
O castelo do Príncipe Adam (não é o He-Man, hein), antes deslumbrante, foi devastado pelo peso de seu próprio ego, quando, ao negar ajuda a uma velha bruxa, acabou sendo enfeitiçado por ela, assim como todos os seus servos. A bela fachada do palácio foi tomada por gárgulas horrendas, rachaduras, teias de aranha e pela mais profunda escuridão. A beleza externa tornou-se incapaz de ocultar a feiúra de seu interior, e essa passou a ser a única face.
O poder e a riqueza haviam se tornado a sua maldição.
Todavia, Bela é capaz de devolver a vida ao lugar com nada além de seu coração, que se liberta ao ver as portas que aquela prisão lhe abria. Alguém com uma mente livre jamais poderia ser presa por grades ou muros.
A biblioteca e o salão são grandes exemplos disso, enchendo-se de vida graças a ela, pois, ao regenerar o coração da Fera, ela reconstruiu também o mundo ao seu redor. A maior das belezas jamais deixou o castelo, mas seu dono até então não soube apreciá-las.
A biblioteca era o reflexo dela, o castelo, um reflexo dele, e o salão, o reflexo do que ambos poderiam ser juntos.
Quando o feitiço enfim se quebra, tudo ganha vida novamente. Todos retomam suas formas humanas, e a luz brilha sob o palácio novamente.
Ao mesmo tempo que critica a arrogância e o desprezo da aristocracia para com os mais pobres, assim como Robin Hood fez, Bela e a Fera retorna à Bela Adormecida, com a magia, com a última grande dança entre príncipe e princesa, com a ideia de que o amor verdadeiro é maior do que qualquer maldição. E essas duas ideias tão diferentes se fazem presentes visualmente a todo o tempo.
Bela anseia por algo além do que a simplicidade de uma vida no interior poderia lhe oferecer, enquanto Adam precisava da humildade que só uma vida assim poderia ensiná-lo. Os cenários se encontram, aprendem um com o outro e constroem uma realidade.
Historicamente, a aldeia e o castelo parecem pertencer a um passado europeu indefinido, mas o filme trabalha muito com referências francesas posteriores à Idade Média, especialmente o Rococó e a tradição decorativa francesa do século XVIII. O próprio Metropolitan Museum of Art estudou justamente a influência das artes decorativas francesas do século XVIII sobre A Bela e a Fera.
Tecnicamente, A Bela e a Fera também marcou uma nova etapa para a Disney. O filme foi um dos primeiros longas do estúdio a utilizar o CAPS, sistema que permitia combinar digitalmente a animação tradicional com os cenários, e levou essa experiência ao limite durante a famosa dança. O salão de baile foi construído em computação gráfica, permitindo que a câmera se movimentasse pelo espaço de maneira inédita para a animação do estúdio.
Como podemos ver, o medievalismo Disney nunca foi uma representação fiel de um período histórico. Ele foi uma coleção de memórias, estilos, lendas e imagens transformadas pela animação em algo novo.
Bela Adormecida nos deu o sonho. Robin Hood nos mostrou a sociedade por trás dele. Bela e a Fera nos ensinou a olhar novamente para aquilo que acreditávamos conhecer.
Talvez seja justamente por isso que essa Idade Média nunca tenha deixado de existir. Ela provavelmente nunca existiu daquela maneira, mas existe, até hoje, na nossa imaginação.
Mas, para você, qual deles é o mais encantador? Faltou alguma obra? Não deixe de comentar!
