Nosferatu: Quando a Sinfonia torna-se a voz do horror

Sexta-Feira 13, Halloween, Psicose: com algum esforço, você certamente consegue se lembrar da trilha sonora de cada um desses clássicos do horror. A música é algo primordial em qualquer obra, especialmente no terror. Ela dita a tensão, apresenta o perigo e anuncia a calmaria. É uma voz indispensável no coral do medo. Mas e se a música for a única voz a ser ouvida? No cinema mudo, a trilha era tão indispensável quanto nunca. Ela era a alma da narrativa, dando voz aos personagens, vida aos ambientes e sentido à narrativa. O clássico Nosferatu (1922), de F. W. Murnau, talvez seja o grande retrato dessa era de ouro do cinema mudo de terror. A composição de Hans Erdmann inclui 10 faixas, totalizando 40 minutos, e conduz com maestria a jornada de morte anunciada pelo nefasto Conde Orlok (Max Schreck). Hoje, vamos analisar algumas das sinfonias desse irrepetível clássico do terror e entender qual o propósito de cada uma delas no conjunto dessa narrativa mais do que centenária. Sem mais delongas, vamos lá!

TERROR

Rafael Silva

11/5/20264 min read

Ellen e Hutter: A Calmaria Antes da Tempestade

A sinfonia que introduz o casal de protagonistas: o corretor de imóveis Hutter e sua esposa, Ellen. O casal jovem e apaixonado exala vivacidade e alegria, uma luz que enfraquece gradualmente conforme o mal ascende sobre eles.

A melodia, baseada em cânticos folclóricos alemães, traz em suas cordas a leveza lírica necessária para compreender a magnitude do sentimento que os une e reforça a sua importância para o decorrer da trama, que, mesmo sem palavras, deixa claro que o amor é talvez o único sentimento capaz de superar até mesmo a finitude da morte.

Porém, mesmo aqui a tensão se faz presente. O momento em que Hutter recebe o chamado para viajar rumo ao coração das trevas: o castelo do Conde Orlok, na Transilvânia. Mesmo diante do desconhecido, o jovem não se amedronta, dispensando a preocupação de sua esposa em favor da oportunidade única que seu bizarro chefe, Knock, havia lhes dado.

Por mais que não sejam exatamente idênticos, acordes semelhantes são usados em outros momentos da trama, como no primeiro dia de Hutter no castelo de Orlok, onde, após uma primeira noite sob o mesmo teto que o estranho Conde, o nascer do sol traz consigo a vida que parecia tê-lo deixado assim que atravessou os portões daquele reino obscuro.

A calmaria trazida por tal melodia consegue trazer Hutter, mesmo que por um instante, de volta à luz que perdeu no momento em que deixou Wolfsburg.

Todavia, essa é apenas a primeira das três peças que consideramos essenciais para compreender essa ópera mortal conduzida por Orlok!

A Jornada ao Castelo de Orlok/Ellen Andando

Uma mistura de fascínio e encanto com o misterioso e o aterrorizante. A trilha começa suave, representando a chegada de Hutter a um pequeno vilarejo nos Cárpatos, onde ele se cerca de pessoas estranhas aos seus olhos.

Parafraseando o clássico de Bram Stoker, ele diz estar indo em direção ao castelo de Orlok, ao que todos reagem com espanto, afinal, ele estava caminhando sem medo aos braços do mal.

Todos tentam alertá-lo, mas a superstição do povo é respondida com o seu desdém. As lendas, os avisos, os temores: nada fazia sentido para ele. Os horrores descritos por aquela gente pareciam, seguramente, pertencer a um outro mundo, a um tempo onde a razão ainda não imperava.

A magia continua enquanto a carruagem o leva a explorar a grandeza e a beleza dos insondáveis montes, porém, quando a escuridão assume seu lugar, leva consigo a luz, tornando o que era fascinante aterrorizante.

O cocheiro recusa-se a continuar, tomado pelo pavor de estar sob o jugo da noite e daquele que vem com ela. Pela primeira vez, o corretor repensou se tudo o que ouviu não poderia de fato ter um fundo de verdade.

Hutter é deixado a pé, até ser encontrado por um estranho cocheiro, que, na realidade, era o próprio vampiro, que o leva a uma velocidade assombrosa em direção ao seu castelo, enquanto os lobos uivam em seu entorno.

Ao chegar ao seu horripilante destino, Hutter é recebido pelo gélido Conde, que lhe apresenta seu decrépito lar, onde vive quando não está apagando as luzes do Siri Cascudo.

Uma vez lá dentro, Hutter percebe a verdade na fala dos camponeses que desdenhou. A aparência do homem é estranha, sua fala é fria, sua figura é quase inumana. Quando escreve para Ellen, seu coração, mesmo cercado pela morte, se aquece. No entanto, o mal daquele lugar não tarda em consumi-lo.

É acompanhado por essa trilha que Hutter é encurralado por Orlok em seu quarto, dando origem a uma das cenas mais lendárias do cinema de terror. Quando o mal se mostrou inegável diante de seus olhos, Ellen pôde sentir sua tormenta ao longe, sendo automaticamente tomada por um perigoso sonambulismo.

A sinfonia abraça essa instabilidade, esses momentos de tensão e tranquilidade, calmaria e alerta, mostrando o quão incerta é a situação do protagonista. As certezas que tinha foram jogadas ao chão, mostrando-lhe que o mundo escondia um mal que nem ao menos poderia mensurar. E esse mal agora estava indo em direção a Ellen, e, por onde quer que ele fosse, a morte era sua sombra.

O mal irrompeu a paz preestabelecida, e a última peça desse quebra-cabeça orquestral depende da sua destruição.

O PODER DE ORLOK/A MORTE DE ELLEN

As cordas trêmulas agora retornam para anunciar o drama da tragédia vindoura. A viagem de Nosferatu a bordo do Deméter transformou os ratos que fielmente o acompanhavam em um presságio de morte.

Agora instalado em Wisborg, o monstro espalhou a peste negra por toda a cidade, matando centenas de pessoas dia após dia. As autoridades nada podem fazer, sem entender a maldade indescritível com a qual estão lidando. A morte é anunciada nas ruas, eternizada na porta de cada uma das casas. Nosferatu estava construindo para si um reino de cadáveres. Sua infindável pós-morte mantinha-se por meio da destruição da vida.

Apenas duas pessoas sabem a verdade: Hutter e Ellen.

De volta ao lar, Hutter tenta evitar a criatura, mas sua mulher sabe que a única forma de deter o mal é despi-lo do motivo. Ele desejava seu sangue, e, se o bebesse sem interrupções, distrair-se-ia por tempo suficiente para que a luz do sol, a mesma que anunciou a vinda daquele terror, o ceifasse.

Sua morte significava a vida para todos que ainda respiravam. É nesse momento que a sinfonia abandona previamente o suspense aterrorizante e abraça o drama. Ellen abre as janelas de seu quarto e afasta Hutter, entregando-se de bom grado aos lábios da morte, que se banham com seu sangue insaciavelmente, até que o primeiro feixe de luz a romper o véu da noite desse fim à sua cruel eternidade e permitisse um recomeço a todos aqueles que permaneceram.

O terror atingiu seu ápice, com a sombra de Orlok subindo as escadas quase como um espectro, para então desfazer-se ao ser confrontada pelo sacrifício.

Na ausência da voz, a trilha brilhante de Hans Erdmann conduz essa trágica e grandiosa narrativa, construindo a emoção de maneira tão sublime que é possível compreendê-la, mesmo sem palavras. E você, já assistiu a esse clássico? Qual sua trilha favorita do filme? Comente!

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