NORMAN E ANTHONY: QUANDO O PAPEL SE TORNA O ATOR
Quantas vezes já ouvimos a frase “Esse ator definitivamente nasceu para esse papel!”, para aquelas atuações que, por vezes, marcam a carreira de um ator ou atriz pelo resto de sua vida, tornando-se impossível não associá-lo àquele personagem específico, não importa quantos outros ele interprete. Todavia, nunca na história do cinema houve uma relação tão amalgamada entre ator e personagem quanto a que existiu entre Norman Bates, o icônico vilão de Psicose, e aquele que lhe deu vida, Anthony Perkins, um dos atores mais notórios da Hollywood dos anos 1960, não apenas por sua brilhante interpretação, mas principalmente pela forma que expressava aquilo que sempre foi, por meio de Norman. Quando interpretava o assassino, Anthony Perkins interpretava a si mesmo, sem necessidade de esconder-se por trás de uma máscara social cuidadosamente construída por anos na indústria cinematográfica. Hoje, vamos conhecer um pouco mais sobre essa relação de dualidade entre criador e criatura e entender o quanto ator e personagem se assemelham, de forma que parecem ter sido concebidos um para o outro.
TERROR
Rafael Silva
1/7/20267 min read


Anthony Perkins nasceu em 1932, filho de Osgood Perkins, famoso ator da Hollywood Clássica, conhecido por interpretar Johnny Lovo em Scarface (1932), e Janet Esselstyn Rane, com quem teria uma relação muitíssimo conturbada. Desde cedo, Anthony manteve uma relação distante com seu pai, que preferia viver cercado de seus amigos hollywoodianos do que de sua família. Isso fez com que o jovem passasse praticamente toda sua infância junto de sua mãe, por quem desenvolveu um ciúme extremo, chegando a desejar a morte do próprio pai, para tê-la somente para si.
“Eu o amava, mas também queria que ele estivesse morto; assim, poderia tê-la só para mim”, declarou Perkins à Revista People, antes do lançamento de Psicose II. Logo de início, nota-se a primeira semelhança entre Norman e Anthony: a dependência emocional de suas mães. Até mesmo o distanciamento e ciúme em relação à figura paterna são em comum entre eles, uma vez que Norman não só aliviou-se com a morte de seu pai, como também, no clássico de 1960, assassinou Norma e seu amante, por não suportar dividi-la com mais ninguém.
Outra faceta existente na relação mãe/filho de ambos é o abuso. Em Psicose 4, dirigido pelo próprio Anthony Perkins, nos são mostrados indícios de uma relação incestuosa entre Norma e Norman, que teria sido decisiva para o distúrbio que o vilão passaria a ter no futuro. Em sua vida pessoal, Perkins alega ter passado pelos mesmos abusos nas mãos de Janet, mesmo em sua vida adulta. Por vezes, a realidade tende a ser tão horrenda quanto a ficção.
Em sua adolescência, Perkins passou a sofrer abusos físicos e psicológicos por parte dela, usando-se do teatro para distrair-se daquela realidade. Desde jovem, Anthony utilizava-se da arte como válvula de escape para expressar o que sentia e mostrar quem realmente era, pois o mundo jamais permitiu que ele o fizesse, nem mesmo sua própria família. Foi no teatro, onde Anthony oficialmente assumiu-se homossexual, um tabu ainda fortíssimo na sociedade dos anos 1950. Seu talento, somado à sua capacidade única de trazer emoção e sensibilidade, lhe garantiu futuro não só na Broadway, como também nas telas do cinema, com seu primeiro papel sendo o de Fred Whitmarsh, em The Actress (1953).
Ao longo de sua carreira, Anthony equilibrou papéis notórios em filmes como Homem dos Olhos Frios e Sublime Tentação, que o transformaram em sex symbol de masculinidade (com programas televisivos chegando a chamá-lo de o próximo Clark Gable), com seu relacionamento público com o também ator Tab Hunter, que desafiou múltiplos tabus da época e pôs em xeque a diferença entre quem ele era diante e atrás das câmeras.
"Diferentemente de seus tempos de teatro, ele agora precisava sintetizar força e virilidade, abandonando a timidez característica. Essa máscara devia se manter além das telas para preservar sua carreira. Tal pressão foi a causa de seu rompimento com Hunter e de sua futura busca por terapias de conversão — hoje comprovadamente falhas. Vale ressaltar que, na época, a homossexualidade era considerada doença, inclusive Perkins escapou de ser enviado para a Guerra da Coreia (1950-1953) ao alegar ser um homossexual praticante.
Naquele tempo, alguém pertencente a esse grupo poderia ser comparado a um esquizofrênico ou demente. É impossível olhar para essa trajetória sem perceber que Psicose não surgiu como um acaso em sua carreira, mas como uma convergência inevitável.
Todavia, no fim de 1959, Anthony recebeu um convite do Mestre do Suspense, Alfred Hitchcock, para estrelar o filme que mudaria sua vida para sempre. Após isso, ele jamais voltaria a ser o galã másculo que a Paramount tanto tentava vender.
O romance Psicose havia sido lançado em 1956, por Robert Bloch, que se baseou no caso real do notório serial killer de Wisconsin, Ed Gein, para conceber seu assassino.
Norman Bates era um reles proprietário de um motel de beira de estrada, que, secretamente, era um assassino com transtorno de dupla personalidade, que, por vezes, imaginava-se como sua finada mãe, uma fanática religiosa e controladora, que deturpou completamente sua mente desde a infância.
Na fase adulta, Norman era incapaz de relacionar-se com mulheres, pois lembrava-se do desgosto que sua mãe tinha de todas elas, e caso ele insistisse em se entregar àquele desejo, “ela” tomava conta de suas ações e mataria qualquer um que tentasse destruir a pureza de seu filho. E Marion Crane, que fugia de Phoenix com 20 milhões de dólares, estaria fadada a cruzar o caminho desse maníaco, com consequências certamente catastróficas.
Tanto Perkins quanto Hitchcock sabiam que Norman Bates se encaixaria perfeitamente com Anthony, como dois homens que escondiam sua verdadeira natureza e desejos, como se fosse um lado doente de si mesmos. Alfred era notório por sua habilidade em perceber e explorar traumas pessoais de seus atores, para usá-los em favor do papel, e ninguém como ele para ver todo o potencial que havia em alguém como Anthony Perkins. Certamente, não havia diretor melhor para adaptar aquele vilão.
Em sua primeira aparição, Norman é visto como um sujeito sereno, tímido e extremamente educado, tratando Marion Crane de forma muitíssimo cortês; porém, conforme seus sentimentos por Crane afloram, Norman começa a se transformar e acaba por assassiná-la, vestido como sua mãe, simbolizando que, naquele momento, o outro lado dele havia assumido o controle.
É aqui que mora a grande virada de chave da metáfora Bates/Perkins. O lado “Norman” de Bates seria a representação de sua homossexualidade, do seu verdadeiro eu, pelo menos, em seu ponto de vista pessoal. Do ponto de vista social, aquela persona "normal" seria a verdadeira face de Perkins, a face que seria aceita pela sociedade.
Já “Norma” carrega o simbolismo inverso. Para Perkins, os momentos em que se travestia de mulher não eram de forma alguma uma referência à sua orientação sexual, e sim uma sátira invertida da máscara que teve que usar durante sete anos de indústria para conseguir crescer no ramo.
Enquanto para a maioria do público, era uma demonstração dos perigos da homossexualidade, com uma pessoa supostamente transexual, abusada pela mãe e incapaz de compreender seu próprio desejo sexual, acabando por cair em loucura e cometer atrocidades, sendo a cena da captura de Bates pelas mãos de Sam Loomis, vestido com as roupas surradas de sua mãe e com um sorriso completamente perturbador esculpido no rosto, o retrato dessa linha de pensamento. Internamente, a loucura era manter a verdade oculta; externamente, era mostrá-la para o mundo.
Como se pode ver, concepção e percepção podem passar muito longe de ter o mesmo sentido.
Outro momento-chave é justamente após a captura de Norman, quando seu distúrbio de dualidade é explicado por um psiquiatra (em um diálogo para lá de expositivo, por sinal), enquanto Bates permanece sentado na sala ao lado, parecendo lutar pelo controle de sua própria consciência.
O rosto abatido e triste sintetiza a fraqueza e submissão que Norman sempre demonstrou, e o sorriso macabro no último instante demonstra a atividade e agressividade vinda de sua mãe, simbolizando outra metáfora: o fim dos disfarces, a aceitação do ser. Norman admite o controle de Norma sobre seu corpo, assim como Perkins, aceita seus desejos, acima até mesmo do arquétipo que havia construído.
Existem ainda momentos mais sutis que revelam muito sobre como o ator se espelhava em seu papel. Nos vários momentos em que Bates conversa ou observa Marion, é possível perceber sua tentativa de seduzi-la, por mais desajeitada que seja. Porém, é possível sentir certo receio em suas ações, como se aquela atração fosse, de certa forma, anormal ou proibida para ele. No ápice dessa relação, tem-se a fatídica cena em que Norman observa Marion no chuveiro por meio de um furo na parede, momento esse em que fica subentendido que Bates estaria realizando atos libidinosos consigo mesmo (na falta de um termo melhor…).
No entanto, Norman acaba parando, possivelmente, detido por sua "mãe". Aqui, a metáfora reside justamente na incapacidade de Perkins de sentir atração por mulheres; por mais que tentasse ou vendesse isso para o público, aquele “fantasma” do descontentamento sempre o assombraria, e ele sempre seria visto como um anormal. Se para Norman havia uma vontade impossível, para Anthony era impossível ter vontade.
Após o considerável sucesso de Psicose (apesar da baixa bilheteria), Perkins seguiu atuando em filmes "alternativos", nos quais, por mais de uma vez, interpretou personagens gays, inclusive em peças. Como era previsto, Hollywood passou a vê-lo com outros olhos, estereotipando-o como um "ator de filmes perturbadores". Com o cachê do longa, ele mesmo comprou o restante de seu contrato e passou a viver na França.
Apesar de seu casamento com a jornalista Berry Berenson (com quem teve dois filhos), Anthony jamais abandonou sua conduta sexual, continuando a envolver-se secretamente com homens, em um paralelo que novamente parece conversar com seu papel mais notório.
Após vinte e três anos, Psicose voltou aos cinemas, tentando surfar na onda das infinitas continuações de terror slasher dos anos 1980, trazendo Tony de volta ao papel principal. De Psicose II até Psicose IV, ele teve participação ativa em roteiro, produção e, por vezes, até mesmo na direção, o que explica o porquê de tantos elementos de sua própria experiência de vida estarem presentes na trajetória de Norman.
Por fim, é inegável que Anthony Perkins envolveu-se profundamente com Norman Bates, de forma que ambos parecem ser reflexos opostos e ao mesmo tempo idênticos da mesma pessoa. Por meio de Bates, Perkins pôde ser quem sempre foi, protegido pela magia da Sétima Arte. Norman Bates não foi o papel que aprisionou Anthony Perkins; foi o papel que lhe permitiu existir.
E você, o que acha da trajetória de Perkins como astro de Psicose?
