Monstro do Pântano e Homem-Florônico: Homens ou monstros? (Lição de Anatomia)
Em Saga of the Swamp Thing #19 (1983), o ser que um dia foi Alec Holland travou um intenso duelo contra um de seus maiores inimigos, Arcane. Uma fusão bizarra entre carne, verde e tecnologia, Arcane desprezava os humanos, não por seus atos, mas por suas limitações, mais especificamente, a morte. Para superá-la, ele estava disposto a abrir mão de sua própria humanidade. Transformando-se em uma espécie de zumbi, Arcane formou um pequeno exército de mortos-vivos conhecidos como Un-Men para, por meio deles, capturar o Monstro do Pântano e transferir sua mente para o seu corpo aparentemente imortal, eternizando a si mesmo por meio do verde. Felizmente, ele falhou, sendo derrotado por Holland e colidindo sua nave entre as montanhas da Louisiana. Seu maior medo finalmente o alcançou. Incerto quanto à morte de seu nêmesis, Alec o procurou entre os escombros até finalmente encontrar seu corpo sem vida e, por incrível que pareça, a única coisa que sentiu naquele momento foi solidão. “Você foi meu oposto. Eu tive minha humanidade roubada e venho tentando agarrá-la de volta. Você foi humano e jogou sua humanidade fora de propósito. Nós definíamos um ao outro, não é mesmo? Ao entender você, eu cheguei perto de entender a mim mesmo. Mas você morreu. O que vou fazer agora?” O Monstro do Pântano não precisava mais proteger as pessoas de um vilão, não precisava provar a ninguém um ponto de vista, não tinha um motivo plausível para continuar lutando por seu passado. Sem um rival, ele era simplesmente um monstro encolhendo-se em sombras cada vez menores. Do outro lado, temos Jason Woodrue, mais conhecido como Homem-Florônico, ecoterrorista e responsável, inclusive, pela criação de outros vilões, como Hera-Venenosa. Desde seu surgimento nas HQs, nos anos 1960, Woodrue via a raça humana como uma doença que afligia a Terra. Uma doença que precisava ser curada. Cortando laços com sua raça, ele realizou experimentos que o transformaram em uma espécie de híbrido entre homem e planta, concedendo-lhe dons semelhantes aos de Hera. Mesmo assim, ele ainda era incapaz de aceitar plenamente o que havia se tornado, desenvolvendo um spray que restaurava temporariamente sua aparência humana. Ele tinha nojo dos seus, mas ainda desejava andar entre eles. Tanto ele quanto Alec, em diferentes níveis, possuíam dois mundos dentro de seus corpos. Sentiam muito além deles mesmos e, por isso, foram excluídos, perseguidos, vistos como monstros. Mas o que eles realmente são? Homens? Plantas? Uma incógnita entre os dois reinos? Para responder a essa questão, vamos visitar a HQ Lição de Anatomia (1984), de Alan Moore e Stephen Bissette, uma das mais aclamadas do selo Black Label da DC e que trabalha de forma brilhante essa dualidade entre os dois. Sem mais delongas, vamos lá!
MARVEL E DC
Rafael Silva
9/12/20267 min read


A Verdade da Ciência
Logo após derrotar Arcane, o Monstro do Pântano passa a ser perseguido por militares que, com uma rajada de tiros, conseguem deixá-lo à beira da morte, mantendo-o preso em uma arca criogênica e levando-o às empresas Sunderland, do General Nathan Sunderland.
Foi ele o responsável por promover o primeiro encontro entre Woodrue e Holland, convidando o condenado a trabalhar para ele em troca de uma redução de sua pena. Para Jason, aquela era a realização de um sonho: estar diante daquilo que almejava se tornar, o bastião do verde.
Sunderland o acompanhava de perto, mas desprezava completamente seus métodos, sua curiosidade, buscando somente o resultado. Ele era o principal motivo pelo qual Woodrue desprezava os humanos. Nathan comandava um prédio inteiro por meio de botões, sem entender 1% do seu funcionamento, vivendo da riqueza construída por centenas de homens mais inteligentes do que ele. Ligado ao verde, Jason entendia cada etapa do desenvolvimento de uma vida, sua utilidade para o todo, sem desprezar um único detalhe. Em sua mente, somente ele dava o devido valor ao verde.
Suportando as zombarias do magnata, o Homem-Florônico conduziu uma autópsia minuciosa, descobriu pulmões e outros órgãos comuns ao corpo humano, mas sem função alguma no corpo vegetal. Por que, então, eles permaneceram ali? Foi então que ele descobriu a verdade que mudaria a visão de ambos sobre o que realmente eram: o Monstro do Pântano jamais foi humano.
Logo após consumir a sua fórmula biorrestauradora e sofrer um atentado a bomba, o corpo desintegrado de Alec foi lançado no fundo do pântano e rapidamente começou a ser devorado pelas planárias nas profundezas de suas águas.
A fórmula biorrestauradora entrou em contato com os microrganismos do pântano, produzindo um organismo completamente novo, que absorveu as memórias e a personalidade de Alec Holland e passou a acreditar que era ele. Lendo a HQ, parece que Woodrue fumou uma erva muito específica de sua amada flora antes de explicar sua tese a Sunderland.
A grosso modo: Holland havia, de fato, morrido. O que restou é, de fato, o Monstro do Pântano, cuja mente de Alec segue ancorada graças a uma confusão do verde.
Com a informação em mãos, Sunderland demite Woodrue, que, como vingança, liberta o Monstro do Pântano. Ao ter acesso ao relatório sobre si próprio, ele fica possesso e, pela primeira vez, tira uma vida humana, obviamente, a de Nathan Sunderland.
A humanidade que ele incansavelmente buscava restaurar simplesmente nunca existiu. Seu novo eu não era apenas definitivo, era único. Sabendo que jamais poderia ser o que um dia desejou, ele deitou-se em seu pântano, conectando-se diretamente com seu solo, e tornou-se definitivamente uma planta, para o delírio de Woodrue, que agora tinha total liberdade para analisá-lo.
Sentimentos pós-humanos
Os antigos amigos de Alec, Matt e Abigail, o encontram e, mesmo vendo o que ele havia se tornado, recusam-se a abandoná-lo. Não importa se o homem que conheceram não estava fisicamente lá. Para eles, o que verdadeiramente o definia eram suas lembranças, sentimentos e pensamentos, e isso jamais lhe seria arrancado. Ele sempre seria Alec Holland, independentemente da forma que tivesse.
Enquanto isso, uma verdadeira enxurrada de pensamentos se digladiava no subconsciente do monstro desacordado. De pouco a pouco, suas lembranças como Alec, seu amor por Linda, seus amigos, tudo passou a ser varrido, dando lugar a algo ainda mais complexo.
Ele podia sorrir com uma gota de chuva revigorando as folhas de uma árvore em meio a um deserto e, ao mesmo tempo, sofrer quando um vaso de plantas era esmigalhado junto a uma pequena muda, quando uma criança qualquer o quebrasse por acidente. Ele podia sentir tudo, estar em tudo, menos em si mesmo. Ele compreendia as trilhões de formas de vida ligadas a ele, mas não entendia qual era o seu próprio papel nessa inimaginável soma.
Até aquele momento, foram as lembranças do seu eu de carne e osso que o haviam movido. O carinho por seus amigos, o ódio por seus inimigos, a saudade do seu passado. Simples sentimentos humanos eram o combustível para um ser que podia comandar 31% da superfície da Terra.
Seu emocional era a âncora que o mantinha ligado ao seu antigo eu, que o impedia de transformar-se definitivamente em uma planta.
Se sua mente servia como uma corrente metafórica, a perseguição que sofria de tudo e todos era bastante palpável. Seus dons despertavam medo nos comuns e desejo nos poderosos e, enquanto fosse assim, a sociedade apontaria seus holofotes para as sombras que lhe serviram de refúgio, deixando claro que, naquele mundo, não havia lugar seguro para os monstros.
Psicologicamente e fisicamente, ele sabia que não poderia ignorar a humanidade. Ela sempre o chamaria de volta, por bem, por mal ou pelos dois meios.
Isso é mostrado de maneira visual na HQ, com Holland carregando seu próprio esqueleto, protegendo-o dos monstros que tentavam tomá-lo. Sua humanidade era dele e de mais ninguém, e ela mesma lhe disse o motivo:
“Sou importante. Sou sua humanidade. Sou o que leva você adiante. Você pode abrir mão de Linda (sua esposa), mas não de mim. Ah, tudo bem, eu posso estar caidaço, mas ainda valho o esforço, não acha? Afinal, sem mim, que sentido faria você correr?”
Simplesmente, um dos seres mais poderosos da Terra não teria motivos para existir se não fosse por suas raízes humanas, e ele jamais entregaria o seu livre-arbítrio ao verde.
Enquanto isso, o Homem-Florônico seguiu pelo caminho oposto, ligando-se diretamente ao Monstro do Pântano e tomando para si seus poderes. Ele agora possuía a mesmíssima conexão que ele com a fauna global, mas a forma com a qual usaria esse poder seria beeem diferente…
Monstro de Fato
Cheio de ódio, o Homem-Florônico inicia um verdadeiro massacre contra todo e qualquer humano que cruzasse seu caminho, ou, em suas palavras: “Esse churrasco barulhento”. Ele agora não tinha mais motivos para fingir ser o que jamais quis ser, nem para sentir vergonha do que realmente era. Agora, ele tinha poder para fazer “justiça” ao verde.
Chegando à pequena cidade de Lacroix, Woodrue destrói casas, esmaga pessoas com suas plantas e obriga os cidadãos a filmarem o terror, enquanto espalha uma espécie de gás que rapidamente se espalha por tudo, fazendo com que, caso qualquer um acendesse um mísero fósforo, ateasse fogo em tudo à sua volta. Nem mesmo a Liga da Justiça sabia como proceder contra um vilão que estava disposto a acabar com literalmente tudo em nome de uma vingança contra todos que respiram pelos pulmões.
No entanto, sua presença destrutiva foi sentida pelo verde e, mesmo em uma espécie de coma, Alec pôde senti-lo como o organismo destruidor que era. No mesmo instante, Abigail, sua melhor amiga, surgiu em sua busca, implorando que ele se erguesse contra o terror de Woodrue. Mais uma vez, dois sentimentos totalmente distintos, mas igualmente poderosos, o traziam de volta: o amor e o ódio.
O amor por Abigail, pelas pessoas, pelo verde, e a fúria pela forma como o Homem-Florônico estava destruindo tudo isso. As emoções do homem trouxeram o monstro à tona.
Ele confrontou Woodrue, que tentou convencê-lo de que estava certo. Apelar para o seu lado humano era inútil, pois, segundo ele mesmo: “Eu nunca fui humano”.
De fato, talvez ele nunca tenha sido, pelo menos em seus pensamentos. O morticínio impensado que ele estava realizando era a prova disso. Nada daquilo era pelo verde, era pura e simples fúria contra quem ele julgava inferior a si. Sua mente perturbada sempre o colocou acima de todos e, agora, ele de fato era, mas não podia aceitar isso sem um propósito supostamente nobre que justificasse tais atos.
E é a partir disso que Alec o derrota, voltando os fatos contra ele.
“Não é esse o caminho da natureza, é o caminho do homem. O seu caminho, Woodrue.”
Em meio à sua cruzada genocida, Jason não pensou no que deveria ser óbvio para um botânico da sua estirpe: sem animais e homens, o processo de produção de oxigênio colapsaria e o verde sucumbiria. A flora não poderia viver sem a fauna, e vice-versa. Agindo da mesma forma que os piores entre os homens, como o próprio Sunderland, Woodrue fechou os olhos para a lógica e os abriu somente para o que desejava, sem se importar com o processo, apenas com o resultado. Ele estava fadado a tornar-se aquilo que jurou destruir.
Inconformado, Jason fugiu pela mata, desprendendo-se do verde, que agora o rejeitava tanto quanto a humanidade. Percebendo a aproximação de Lanterna Verde e Superman, ele desajeitadamente tenta passar seu spray para parecer humano, falhando miseravelmente, tornando-se uma aberração para os dois mundos, humilhada e fraca. Um verdadeiro monstro, tomado pelo medo.
Vitorioso, o Monstro do Pântano vai ao encontro de Abigail, que lhe faz a pergunta decisiva: “Quem é você?”
E ele responde: “Eu sou o Monstro do Pântano e estou feliz assim.”
Juntos, eles caminham de volta ao pântano, conduzidos pelo amor.
Holland e Woodrue eram monstros, mas nem de longe eram a mesma coisa. O Monstro do Pântano não era humano, mas possuía em seu coração empantanado os melhores valores da espécie, sendo capaz de amar, sofrer, alegrar-se e entristecer-se, de ver o todo e, ao mesmo tempo, dar atenção ao que parece insignificante perante ele.
Por sua vez, o Homem-Florônico, tomado pelo ódio contra os homens, acabou por ostentar seu pior lado, cometer seus mesmos erros, ser consumido pela sua mesma ignorância destrutiva e, no final, para escapar das consequências, apelou para a verdade sobre si mesmo que havia jurado expurgar. No fundo, ele era, sim, humano, mas com um coração e uma mente que o faziam pior do que um monstro de fato.
Lição de Anatomia é uma verdadeira obra-prima, figurando entre os melhores trabalhos do brilhante Alan Moore. Para quem já tem sucessos como Piada Mortal, Watchmen e O Que Aconteceu ao Homem de Aço? no currículo, isso, com certeza, é muita coisa. A dualidade construída entre protagonista e antagonista é sublime, mostrando como dois seres totalmente diferentes podem, em muitos aspectos, ser completamente iguais.
E você, já leu a HQ? Acha que os dois são realmente monstros? Não deixe de comentar!
