México: O Azteca da Cultura Pop

Em fevereiro de 1519, uma expedição não autorizada pelo governador Diego Velázquez deixava Cuba, em direção à Ilha de Cozumel. 500 homens dispunham-se entre onze navios, sob a liderança de Hernán Cortés, seguindo para a península de Iucatã, para explorá-la, não para conquistá-la, o que desagradou Velázquez. Como de costume nas primeiras grandes navegações, as condições eram péssimas, como má higiene entre os tripulantes, falta de alimentos e doenças, algo que tornou essa simples aventura em uma verdadeira tortura para todos os envolvidos. Após dois árduos meses de viagem, Cortés e sua frota atracaram no litoral mexicano, mais especificamente, na região do atual estado de Veracruz. Para evitar que seus homens contrariados voltassem atrás, ele ordenou que aqueles leais a ele queimassem as onze embarcações, deixando-os presos por tempo indeterminado naquele novo e desconhecido território. O que o jovem navegador espanhol não poderia prever era o quão grande aquela nova descoberta se tornaria. O país de seriados como Chaves e Chapolin, de eventos únicos como o icônico Dia dos Mortos, de novelas que se tornaram mundialmente reconhecidas, como Maria do Bairro (1995), tornando-o possivelmente o país mais culturalmente influente de toda a América Latina. Sua cultura nasceu de uma miscigenação fascinante de povos, culturas e religiões, algo comum por toda a América do Sul e Central, gerando uma identidade única. Hoje, vamos conhecer um pouco da história e da cultura mexicana, passando por suas maiores potencialidades, e atrelando-as ao contexto histórico vivido por seu povo. Sem mais delongas, vamos lá!

HISTÓRIA DA CULTURA POP

Rafael Silva

10/15/202630 min read

História I: Um Pacto Sangrento

Ao chegar em solo mexicano, Hernán e seus homens sofreram com escassez de recursos, doenças desconhecidas, algo que Cortés remediou aliando-se aos povos nativos da região de Cempoala, mais precisamente, as tribos Totonacas, Texcocanos, Tlaxcaltecas, entre outros povos inimigos ou submetidos ao poder supremo daquele território: o Império Azteca, governado pelo então Imperador, Montezuma.

Com sede na cidade de Tenochtitlán (hoje a Cidade do México, capital do país), o Império Asteca era seguramente a civilização mais desenvolvida de toda a América, do ponto de vista político, social e militar. A capital era uma verdadeira maravilha arquitetônica, com aquedutos, pontes móveis e templos magníficos, sendo até hoje, pontos turísticos extremamente visados por sua beleza e história.

Para alimentar suas centenas de milhares de habitantes, os astecas desenvolveram as chinampas, ilhas artificiais de cultivo, feitas com materiais orgânicos, com produtividade surpreendente, o que mantinha a fome consideravelmente controlada.

A sociedade era rigorosamente dividida. Nobres e guerreiros de elite estavam no topo, seguidos por comerciantes (pochtecas), artesãos e, na base, agricultores e escravos. Diferente da sociedade feudal, havia considerável mobilidade social, especialmente por meio de feitos militares.

A autoridade máxima era o Imperador, na época, Montezuma II, que era tido como a encarnação do poder divino dos múltiplos deuses que cultuavam. Apesar da aparente prosperidade, os astecas, em menor escala, replicaram métodos semelhantes aos colonizadores europeus em suas colônias, contra os povos que lhes eram subservientes: diferenciação social, supressão violenta de revoltas e altos impostos, e essa montanha de problemas foi justamente o trunfo da Espanha contra eles.

Agora, com apoio expresso da Coroa Espanhola, na época na cabeça de Carlos I, Cortés e seus homens deram início a seus planos de dominação.

Doña Marina (também chamada Malinche), nativa local, foi responsável por traduzir o dialeto das tribos para os espanhóis, o que facilitou a comunicação entre futuros colonizadores e colonizados. Os espanhóis prometiam aos locais mais terras e menores tributos, além de força o suficiente para sair do domínio asteca.

Hernán aproveitou-se do ódio pré-existente contra o Império para reunir dezenas de milhares de guerreiros, equipados com espadas de metal, pequenos canhões e armas de fogo que, apesar de rudimentares, eram muitíssimo superiores a quaisquer armas forjadas pelos Astecas.

Em 1521, dois anos após o desembarque espanhol, entrou em início a operação que ficaria conhecida como o “Cerco a Tenochtitlán”, onde, após uma série de combates decisivos, os espanhóis e seus aliados tomaram a capital e capturaram o Imperador Cuauhtémoc, dando fim a um conflito que, em sua fase final, custou entre 200 e 300 mil vidas.

Apenas entre 1519 e 1520, estima-se que entre 5 e 8 milhões de nativos morreram de varíola, trazida da Europa pelos espanhóis. Os números mais conservadores apontam que, até 1550, mais de 15 milhões de pessoas morreram em decorrência dos espanhóis, seja por meio de conflitos, seja pelas doenças que exportaram.

Como já era esperado, a promessa de melhores condições de vida dada pelos espanhóis não foi cumprida. Com a chegada de cada vez mais navios vindos da Espanha, o Império Espanhol passou a utilizar as tribos como mão de obra barata para agricultura e mineração, enquanto destruía totalmente seu estilo de vida.

Seus templos e estátuas em homenagem aos seus deuses foram sistematicamente destruídos pelos espanhóis, que passaram a impor o catolicismo como religião vigente. Europeus e indígenas relacionavam-se, tinham filhos e, em raros casos, até mesmo se casavam, o que deu início ao processo de miscigenação que fez do México o que é hoje. O catolicismo é dominante, mas existem múltiplas outras vertentes religiosas fortes no país até hoje, e seu povo é dos mais diversos étnicamente.

Nomeado governador pelo Rei Carlos I, Cortés nomeou seu território recém-conquistado como Nova Espanha, a joia da coroa espanhola. No entanto, seu domínio foi breve, uma vez que os escândalos de corrupção em torno de seu nome deixaram-no em total descrédito com sua Majestade, que deixou o controle da colônia sob responsabilidade de funcionários reais.

Durante três séculos, a Espanha manteve a Nova Espanha sob o regime do Sistema de Castas, onde os chamados Peninsulares, homens nascidos na Espanha, ocupavam cargos de chefia na administração e na igreja. Os crioulos eram filhos de espanhóis, mas nascidos na colônia, o que lhes garantia fortuna, todavia, acompanhada de pouco poder político. Seria desse grupo que a independência mexicana iria alcançar seu sucesso.

Mestiços compunham grande parte da população, indígenas viam seus índices demográficos caírem drasticamente, indo de 15 milhões de pessoas em 1519 para menos de 3 milhões em 1821, ano da independência. E claro, havia a casta mais humilhada entre todas essas: os escravos, vendidos na África por traficantes regionais, e levados para trabalhar forçadamente sob condições sub-humanas até o fim de suas vidas, vivendo como meros animais de carga nas mãos de seus senhores. Certamente, o ponto mais sombrio da história do colonialismo espanhol.

Com uma população crescente, economia diversificada e vasto território, a Nova Espanha tornou-se rapidamente uma das colônias mais ricas da América, comparando-se com as Treze Colônias Britânicas (futuro Estados Unidos da América) e com o Brasil Colonial. Todavia, uma grande crise assolaria a Europa e iria fazer ruir todo o Império colonial espanhol nas Américas, e essa crise viria por meio de um nome: Napoleão Bonaparte.

Após assumir o cargo de Imperador da França logo em seguida à Revolução Francesa, Napoleão iniciou sua cruzada contra as monarquias europeias, derrotando potências como Dinamarca, Prússia e Áustria, para em 1808, invadir a Espanha, para então, alcançar Portugal, que insistia em fazer negócio com o Reino Unido, mesmo após o Bloqueio Continental, que proibia qualquer país europeu de manter relações comerciais com os britânicos.

Em 1808, teve início a Guerra Peninsular, resultando na deposição do então Rei Fernando VII, em favor do irmão de Bonaparte, José. Isso resultou em um conflito generalizado, com forças portuguesas e espanholas, usando-se de guerrilhas para sangrar o poderio francês. Enquanto isso, o Império Britânico utilizava-se de sua imbatível Marinha Real para derrotar os franceses em alto-mar, enquanto mantinha sua própria economia em crescimento e financiava revoltas por toda a Europa, fazendo o Império Napoleônico ruir de dentro para fora.

Tudo isso culminou na derrota de Napoleão na Batalha de Waterloo, na Bélgica, onde uma coalizão entre Reino Unido, Rússia, Áustria e Prússia deu fim ao aparentemente invencível exército francês, e após quase uma década de conflito, trouxe paz à Europa.

Mesmo vitoriosa, a Espanha pagou caro por essa guerra. Sua economia estava em frangalhos, seu exército e marinha, fragilizados, e isso tornou impossível sustentar um império intercontinental.

Entre 1808 e 1826, a Espanha perdeu Argentina, Chile, Grande Colômbia (que viria a se transformar nas atuais Colômbia, Equador, Venezuela e Panamá), Paraguai, Bolívia, e é claro, o México. O país já vivia tensões criadas pela elite crioula, que desejava cada vez mais poder, e não havia momento melhor para tomá-lo do que em meio a uma guerra europeia.

O primeiro grito de liberdade foi dado pelo padre Miguel Hidalgo y Costilla, que liderou um exército composto majoritariamente por indígenas e mestiços em 16 de setembro de 1810, buscando igualdade social e independência. Após a execução de Hidalgo e de seu sucessor, José María Morelos, o movimento enfraqueceu. No entanto, ganharia força nos anos seguintes, atraindo cada vez mais setores da sociedade.

As crescentes revoltas eram dominadas pelas classes populares, o que poderia ameaçar a elite Crioula Conservadora, que, espertamente, uniu-se aos revoltosos, com o intuito de conservar seu poder após a inevitável independência.

O general realista Agustín de Iturbide aliou-se a Vicente Guerrero (líder rebelde), em 1821, no Plano de Iguala, que consistia em três garantias: independência, religião católica como única, e união entre criollos e peninsulares, formando o Primeiro Império Mexicano sob uma monarquia constitucional.

Para o mundo, o México era agora uma nação soberana, algo que a Espanha só viria a reconhecer em 1836, após uma fracassada tentativa de reconquista em 1829. Fato era que, após 300 anos de exploração, o povo mexicano era enfim livre para decidir seu próprio destino.



Uma Cultura Miscigenada

Como qualquer ex-colônia, o México tem sua cultura, linguagem, sociedade, religião e tudo que define sua identidade, como fruto da relação de múltiplos povos, tanto americanos quanto europeus.

Isso fez do México um país de cultura riquíssima, repleta de tradições e lendas que tornaram-se conhecidas mundialmente. Nada melhor do que conhecer um pouco sobre ela.

O Dia dos Mortos:

O elemento mais icônico da identidade cultural mexicana, reconhecido pela UNESCO como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade, e a maior prova do caldeirão cultural que compõe sua cultura.

As raízes da celebração ocorrida entre os dias 1 e 2 de novembro encontram-se enterradas há mais de 3 mil anos na região, tendo sido difundida entre astecas, maias e toltecas, que cultivavam crânios e viam a morte como parte de uma jornada para o submundo (Mictlán).

Logo de cara, já compreende-se o intuito da festa, não se trata de desdenhar da morte, ou de qualquer tipo de ritual pagão, e sim, de demonstrar amor por aqueles que se foram, por meio da esperança de que a morte, na realidade, é o início de nossa verdadeira vida, e por isso, não deve haver tristeza ou medo em enfrentá-la.

Com o início da colonização espanhola, a tradição teve que ser adaptada, sendo fundida aos feriados católicos do Dia de Todos os Santos e o Dia de Finados. Duas religiões, duas visões de mundo, unificadas em torno de uma única celebração.

Os familiares decoram os cemitérios, usam as roupas do falecido, preparam sua comida favorita, põem fotos dele pela casa, não permitindo que ninguém seja esquecido pelo tempo. As cores vibrantes e a vivacidade fazem da morte tão colorida quanto a vida.

La Catrina é uma das figuras mais icônicas da cultura mexicana, atuando como o símbolo principal da celebração do Día de los Muertos (Dia dos Mortos). Originalmente criada pelo ilustrador e caricaturista José Guadalupe Posada no início do século XX (por volta de 1910-1912) com o nome de La Calavera Garbancera, ela surgiu como uma crítica social e política, satirizando os mexicanos que renegavam suas raízes indígenas para adotar costumes europeus, buscando uma aparência da alta sociedade.

Esse ícone traz um subtexto político à celebração, construindo-a como uma festa de ricos e pobres, onde todos se reúnem independentemente de sua classe social, pois tanto poderosos quanto miseráveis, no final, terão o mesmo destino, e terminarão levando a mesma coisa: nada, além daquilo que sua própria alma possui.

Em um país de 130 milhões de habitantes, é difícil que qualquer um deles permaneça alheio ao Dia dos Mortos, seja pelos motivos religiosos, seja pela pura e simples festa. Anualmente, cerca de 7,5 milhões de turistas visitam o país para passar o feriado, mostrando sua grandeza inclusive no âmbito internacional.

São incontáveis as obras cinematográficas, tanto mexicanas quanto hollywoodianas, inspiradas no Dia dos Mortos. Entre as mais famosas, temos: Viva, a Vida é uma Festa (2017), A Lenda de Nahuala (2007), Festa no Céu (2014) e tantas outras.

Trata-se de um evento que apresenta o México para o mundo.



A Maldição da Llorona

A mais famosa lenda urbana do México, que foi adaptada de maneira infeliz para os cinemas em 2019. Baseada em crenças indígenas sobre deusas que choravam, a lenda hispano-americana narra a história de uma jovem apaixonada por um nobre espanhol, com quem viveu um romance proibido, sob o nariz de sua família.

Não sendo-lhes permitido casar-se, mantiveram sua relação mesmo assim, e dois filhos nasceram fruto dela.

No entanto, o homem continuou sob influência de sua família, que lhe arranjou um casamento “legítimo” com outra mulher, que manteria a nobreza da família intacta, assim como sua honra. Sem pestanejar, ele abandona sua mulher e filhos, deixando sua esposa imersa em uma tristeza inimaginável.

Todavia, a tristeza logo deu lugar à raiva. Se ele a deixou, então, ele iria destruir quaisquer resquícios dele que ainda persistissem em sua vida. Ela levou seus dois filhos para um rio e os afogou.

Quando seus corpos sem vida emergiram diante de seus olhos, seu ódio deu lugar a um arrependimento impossível de suportar. Sua ira egoísta havia destruído o que restava de seu próprio mundo, matando dois seres inocentes.

Incapaz de suportar a culpa, ela condena a si mesma ao mesmo fim que eles, afogando-se no mesmo rio. Porém, sua alma não encontrou paz. Ao invés disso, seguiu presa à terra, sempre à espreita para capturar outras crianças próximas aos rios, sempre chorando, e condená-las ao mesmo destino de seus filhos.

Porém, o que poucos sabem é que essa lenda pode ter sido inspirada em uma personalidade importantíssima na história mexicana, seu colonizador, Hernán Cortés. Ele e Malinche (indígena que traduzia para ele o dialeto local) tiveram um filho, ao qual ele não assumiu, e recusou-se a casar com ela, casando-se futuramente duas vezes com espanholas. Obviamente, Malinche afundou-se em tristeza.

Apesar de não ter assassinado seu filho (ainda bem…), a nativa foi tida como uma traidora de seu povo, por ter indiretamente ajudado em sua própria aniquilação, ao ajudar um estrangeiro mal-intencionado. Assim como os assassinatos de Llorona condenaram sua alma, a traição de Malinche condenou a sua.

El Charro Negro

O lado mais sombrio do folclore mexicano. El Charro é um homem elegante, montado em um vistoso cavalo, que cavalga pelas estradas mais afastadas do México, buscando sempre pessoas solitárias, em especial, desesperadas por qualquer motivo.

Ao encontrá-las, ele as oferece dinheiro ou carona na viagem. Caso a pessoa aceite, sua alma será entregue a ele, como um pacto, e ela assumirá seu papel como o novo Charro Negro.

Em outras versões, ele busca aqueles que venderam sua alma a alguma entidade, para levá-los para sua punição. A lenda foi difundida como um ensinamento quanto aos perigos do oculto e de sucumbir às tentações.

O monstro tornou-se um dos vilões mais icônicos da cultura mexicana, sendo o antagonista no filme preto e branco El Charro Negro (1940) e da série de mesmo nome lançada pela Netflix em 2018.

A Ilha das Bonecas:

A Ilha das Bonecas (Isla de las Muñecas), localizada nos canais de Xochimilco, ao sul da Cidade do México, é um dos locais mais macabros e turísticos da região, conhecida por suas centenas de bonecas velhas e deterioradas penduradas em árvores.

Segundo a lenda local, um homem chamado Julián Santana teria encontrado o corpo de uma menina que havia se afogado na região. Após tirá-la das águas, ele observou uma boneca flutuando nas águas, que assemelhava-se muitíssimo a ela.

Tremendo que seu espírito pudesse ter sido perturbado por aquela terrível morte, ele espalhou bonecas por toda a ilha, sentando-as no solo, pendurando-as nas paredes e galhos, para que a menina não se sentisse sozinha. Ele as encontrava no lixo ou trocava por plantas de sua horta, tudo para manter sua suposta obsessão.

Em 2001, algo bizarro aconteceu. Santana morreu, afogado no mesmíssimo lugar que havia alegado ter visto a tal menina. Isso bastou para que a ilha atraísse atenção não só de todo o país, como também do mundo. A Ilha das Bonecas tornou-se um ponto turístico para os amantes do medo e das lendas, com sua bizarrice, tornando-se um tremendo trunfo.

Os Aluxes:

Os aluxes (ou alux) são pequenas criaturas místicas provenientes da mitologia maia, frequentemente descritas como duendes ou espíritos guardiões que habitam a península de Yucatán e outras áreas do México.

Originados tradicionalmente a partir de ídolos de barro moldados por xamãs, acredita-se que eles ganham vida para proteger a natureza, colheitas e casas. Especialmente ativos à noite e sob a lua cheia, gostam de vagar por bosques e campos, sendo descritos como seres travessos que, se bem tratados com oferendas, protegem a propriedade, mas, caso contrário, podem pregar peças e causar pequenos problemas. Na cosmovisão mesoamericana, sua presença é simbolicamente importante em rituais agrícolas e eles são vistos como guardiões territoriais.

Como podemos ver, as lendas e tradições que compõem a cultura mexicana pautam-se na fusão de crenças europeias com a de povos originários, o que dá a ela seu diferencial. Trata-se de uma cultura fortemente ligada à religião, valores e à alma.

Como poderemos observar na sequência, tais características jamais deixariam a cultura mexicana, estando presente em suas novelas, filmes e música, porém, adaptados aos novos tempos.

História II: Um País em Construção

Os anos que se seguiram à conquista da independência podem ser ditos como no mínimo “turbulentos”, e que levaram o México a forjar sua relação com aquele que por dois séculos seria um dos seus maiores aliados, e também inimigos, um país vizinho, muito mais rico e poderoso, os Estados Unidos.

Os onze anos quase ininterruptos de guerra civil deixaram o país em uma profunda instabilidade. Agustín de Iturbide foi coroado o primeiro Imperador do México, nomeado Agostinho I. Seu foco principal era a manutenção dos privilégios da elite crioula, o que despertou conflitos crescentes entre conservadores e liberais, que fizeram ruir a Monarquia Constitucional Mexicana logo em 1823, com a abdicação de Agostinho e a instauração de uma República Federativa.

Ainda assim, as divergências continuaram por décadas, e fatores externos as fariam agravar-se ainda mais.

Nos EUA, prevalecia a Doutrina do Destino Manifesto, que defendia o direito dos estadunidenses em expandir seu poder e influência sobre toda a América do Norte, e isso incluía um território muito valioso aos mexicanos: o Texas.

Desde 1821, o governo mexicano permitiu que colonos americanos se instalassem na região, de forma a povoá-la e desenvolvê-la, mas isso rapidamente se provou um problema. Os costumes dos dois povos eram diferentes demais, especialmente a manutenção da utilização de mão de obra escrava pelo lado americano, que em 1835, já era maioria na região.

Os colonos estavam perigosamente alinhados aos Estados Unidos, e o presidente Antônio López de Santa Anna não quis se dar ao risco de perder mais de 1 milhão de km² para seus vizinhos e revogou a autonomia da região, o que resultou em uma revolta generalizada.

As tropas mexicanas, na Batalha do Álamo, suprimiram as revoltas em 1836 com violência extrema. Poucas semanas após a vitória, Anna ordenou a execução de mais de 400 prisioneiros texanos, o que enfureceu ainda mais os nativos.

O comandante texano, Sam Houston, aproveitou o intervalo para reorganizar suas tropas, com apoio logístico e financeiro dos EUA. Enquanto isso, os texanos fugiam aos montes para o leste, rumo aos Estados Unidos.

Houston contra-atacou, na famosa Batalha de San Jacinto, onde, em apenas 18 minutos, suas forças aniquilaram os ocupantes mexicanos, forçando sua retirada e proclamando a República do Texas, cujo México jamais reconheceu.

Enquanto o México renegava seu filho bastardo, os EUA mantinham relações cada vez mais próximas, e em 1845, o presidente americano James K. Polk foi eleito prometendo anexar o Texas.

Houve um plebiscito, onde os texanos, em maioria, apoiaram a unificação. Nos EUA, o Senado inicialmente rejeitou a ideia, mas acabou cedendo. O norte do país temia que o Texas viesse a se tornar mais um estado escravista aliado ao sul, enquanto os sulistas apreciavam a anexação justamente por esse motivo.

Com a anexação formal decidida, ainda havia uma dúvida: até onde iria a fronteira? Para os EUA, ia até o Rio Grande, para o México, até o Rio Nuances. Polk enviou tropas americanas para o Rio Grande sob o comando do general Zachary Taylor. O México viu aquilo como o início de uma invasão, e tropas foram enviadas para rechaçar a patrulha estadunidense, causando inúmeras mortes.

O presidente e o Congresso Americano não pestanejaram em declarar guerra. Em 1846, tropas americanas invadiram o México por múltiplas frentes, do Norte do país até a Califórnia e Veracruz.

Por mais que o exército americano fosse mais enxuto, era mais profissional, bem equipado e ladeado por uma indústria e logística superiores. Em 1847, a Cidade do México foi cercada, e no ano seguinte, o Tratado de Guadalupe Hidalgo foi assinado, cedendo aos EUA não só o Texas, como também os territórios de: Califórnia, Nevada, Utah, Arizona, Novo México, Colorado, Wyoming, Oklahoma e Kansas, o que representava cerca de 55% do território mexicano.

Uma nação havia partido literalmente ao meio.

Se antes o país já estava em crise, essa humilhante derrota tornou tudo ainda pior. Crise fiscal sem fim, moral destruída e total instabilidade política. Santa Anna foi deposto pelos Liberais em 1855, que, liderados por Benito Juárez, deram início a La Reforma, que consistia em separar a igreja do Estado, confiscar os bens eclesiásticos e redigir a constituição de 1857.

Até mesmo o imperador francês, Napoleão III, interviu no México, aproveitando-se das crises para instaurar o arquiduque Maximiliano I como imperador do México. Seu reinado se estendeu de 1862 até 1867, quando foi deposto e executado por republicanos, que retomaram o poder.

O caos político no país só foi freado pelo autoritarismo de Porfírio Díaz, que, por meio da Rebelião de Tuxtepec, derrubou o presidente Sebastián Lerdo (o nome já não ajuda) e deu início a uma ditadura militar que se estendeu por três décadas.

Sob o lema de “Pouca política e muita administração”, Díaz reelegeu-se consecutivamente, suprimindo opositores e modernizando o país, expandindo portos e ferrovias, além de introduzir a energia elétrica.

Esse imenso desenvolvimento tecnológico deu-se especialmente para reduzir a dependência econômica do México para com os EUA, o que nos rendeu a célebre frase:

"Pobre México, tão longe de Deus e tão perto dos Estados Unidos", atribuída a Porfírio.

O enorme crescimento industrial rendeu seus frutos a apenas uma pequena parcela da população, com as desigualdades sociais tornando-se cada vez mais acentuadas.

Por volta de 1910, a oposição tornou-se impossível de suportar. Francisco Madero, um político da elite, desafiou Díaz nas eleições de 1910 com a plataforma antirreleicionista. Após ser preso e ter sua vitória roubada por fraude, Madero fugiu para os EUA e lançou o Plano de San Luis Potosí, convocando a população a pegar em armas em 20 de novembro de 1910.

O chamado de Madero uniu diversos grupos insatisfeitos: camponeses sem terra, trabalhadores rurais, operários e parte da elite local. Lideranças como Emiliano Zapata no sul (defendendo a reforma agrária) e Pancho Villa e Pascual Orozco no norte moldaram o movimento armado, derrotando as forças federais em várias frentes.

Em 1911, Porfírio foi obrigado a fugir do país, exilando-se em Paris, e a democracia enfim retornou ao país, com uma nova constituição sendo concebida em 1917.

Monarquia Constitucional, República Federativa, uma segunda monarquia, dessa vez com intervenção francesa, uma nova república, uma ditadura e, por fim, um retorno à democracia. Em menos de cem anos, o México passou por todos os extremismos políticos imagináveis, desfigurou-se e reconfigurou-se várias e várias vezes.

Como era esperado, foi por meio da cultura que a alma do México encontrou o abrigo que a manteve intacta, mesmo em meio às crises cíclicas de sua história. Quando o território diminuía, a identidade se expandia.





Cultura II: Arte de Identidade

Certamente, todos conhecem os Mariachi, músicos típicos mexicanos, famosos por seus inconfundíveis sombreros e coletes curtos, e a melodia nascida da junção de instrumentos que vão de trompetes e violinos até o violão clássico.

Sua relação com a música mexicana é tão amalgamática que é possível imaginar sua sinfonia como a trilha sonora da nação. Mas, desde quando os Mariachi estão presentes na cultura mexicana?

A tradição surgiu no século XVIII, como uma fusão de influências indígenas, espanholas e africanas. O nome Mariachi advém de raízes indígenas ligadas ao nome da madeira usada para construir os tablados onde se dançava o fandango.

A base da música mariachi tradicional provém de instrumentos trazidos pelos espanhóis, como o violino, a harpa, a vihuela (uma pequena viola espanhola) e o violão. As vestimentas típicas, baseadas nos cavaleiros andaluzes, também encontram suas raízes na Espanha.

Já a estrutura rítmica, especialmente em formas musicais da costa do Pacífico (terra caliente), incorpora polirritmias e síncopes típicas da música da África Ocidental.

Um ritmo feito por todos e para todos.

Após a Revolução de 1910, era necessário buscar algo que unificasse o povo mexicano, que por décadas manteve-se dividido por inúmeras disputas, e nada melhor do que a música para cumprir essa missão.

Por anos, o Mariachi era visto como um estilo vulgar, mas passou a ser enxergado como a encarnação do mestizismo que compunha a cultura do país. Seja nas ruas ou nos grandes palcos, o estilo era agora o mais representativo do México, sendo utilizado como trilha sonora para praticamente todo o tipo de evento: casamentos, serenatas românticas, festas de quinze anos, funerais, batismo e festas patrióticas.

As canções geralmente apresentam vocais apaixonados, muitas vezes com harmonias vocais, cantando temas de amor, a vida rural, a revolução mexicana e tradições.

Entre as canções mais populares do Mariachi, algumas tornaram-se verdadeiros símbolos nacionais:

La Cucaracha: talvez a música mexicana mais famosa do mundo. Embora suas origens sejam antigas, ela se tornou o hino não oficial da Revolução Mexicana. Suas letras eram modificadas para satirizar personagens políticos (incluindo o próprio Porfírio Díaz e o General Huerta). É a prova de que o Mariachi era a "voz do jornalismo popular".

Cielito Lindo: A música do "Ay, ay, ay, ay, canta y no llores". É o hino da resiliência. Ela personifica o espírito que discutimos: a ideia de que, diante da tragédia ou da dificuldade, o mexicano escolhe cantar para não chorar. No Brasil, ela é presença garantida em qualquer representação festiva do México.

El Rey (de José Alfredo Jiménez): Se o Mariachi tem um hino de orgulho, é este. A letra diz: "Não tenho trono nem rainha, nem ninguém que me entenda, mas continuo sendo o rei". Ela resume perfeitamente a figura do Charro e do homem comum que, apesar da pobreza ou das perdas territoriais que vimos na história, mantém sua dignidade e soberania espiritual intactas.

La Adelita: Um corrido (balada) dedicado às mulheres que lutaram na Revolução (as Adelitas). É uma música que humaniza o conflito armado, trazendo o romance e a lealdade feminina para o centro da narrativa histórica.

Porém, a revolução cultural mexicana ia além das artes sonoras e tinha também um forte apelo para as artes visuais, que serviriam para contar ao povo a história de sua própria nação.

Em 1910, cerca de 72,3% dos mexicanos eram analfabetos, incapazes de entender sua própria história. Visto isso, o então Ministro da Educação, José Vasconcelos, chegou a uma conclusão: se eles não sabem ler as palavras, então vão ler as paredes. Assim, ele convocou três dos artistas mais renomados do México: José Orozco, David Alfaro e Diego Rivera, para pintar a história de sua nação pelas paredes da Cidade do México, Guadalajara, Chapingo e Cuernavaca.

No Palácio Nacional, sede do governo mexicano, Diego Rivera pintou a Epopeia do Povo Mexicano, narrando desde a colonização espanhola até a Revolução de 1910. Ao subir as escadas e avançar pelos corredores, a história de todo um país passa diante de seus olhos.

Na Secretaria de Educação, Rivera pintou mais de 200 painéis. No Palácio do Governo de Jalisco, Orozco pintou um mural em homenagem a Miguel Hidalgo. O trio fez um trabalho tão fantástico que foi chamado para pintar em cidades como Detroit, nos Estados Unidos, e em Chillán, no Chile.

Por meio de seus pincéis, Rivera, Orozco e Alfaro desenharam a alma do México. Porém, ainda havia de vir uma artista tão icônica quanto eles, que viria a se tornar a mais reconhecida de todo o México: Frida Kahlo.

Esposa de Diego Rivera, Kahlo foi tão importante quanto ele para a arte mexicana. Enquanto seu marido pintava em praças e palácios, ela pintava para si mesma, em resposta a suas próprias dores. Logo aos dezoito anos, sofreu um acidente que poderia ser fatal, com uma barra de ferro perfurando seu corpo de um lado ao outro.

Resiliente desde cedo, sobreviveu, mas passou o resto de sua vida utilizando-se de aparelhos e coletes para manter-se ereta. Isso a fez ver o corpo não como uma ferramenta, mas um templo para as dores do ser humano.

Inicialmente, sua arte intimamente ligada à sua própria vida, a manteve distante dos olhares populares, que viam aquilo como um hobby doloroso de uma mulher excêntrica, mas atraiu atenção do ciclo intelectual do país, que a admirava pela crueza e originalidade de suas obras.

Por mais que artistas renomados como André Breton a levassem a Nova York e exaltassem seu talento, sua primeira e única exposição individual ocorreu apenas em 1953, um ano antes de sua morte. Sua saúde era tão frágil que a pintora teve que ser levada para a exposição de ambulância e transportada de maca pela Galeria de Arte Contemporânea.

Entre as obras expostas, tivemos quadros como Duas Fridas (1939) e O Veado Ferido (1946), que encontram-se entre as mais notórias de seu acervo.

Todavia, como é comum a muitos artistas, sua glória veio apenas após sua morte, no caso dela, cerca de dezesseis anos depois. Com a nova onda do feminismo estadunidense, as obras de Frida foram redescobertas e ressignificadas com um propósito de luta e resistência. Como tantas outras mulheres pela história, Kahlo viveu à sombra de seu marido, mesmo que fosse tão talentosa quanto ele Sua ressurreição artística se deu como uma forma de manter viva a história de uma artista que poderia vir a ser apagada pela história.

Alguém que, por mais que sofresse de incontáveis limitações, encontrou na arte um refúgio, uma forma de se expressar, e, por meio do trabalho de sua vida, inspirou mulheres e homens por todo o mundo a fazer o mesmo. Eis o poder da arte em sua forma mais pura.

Em 1983, a autora Hayden Herrera trouxe nas 624 páginas de sua obra as dores, inspirações e motivações de Frida Kahlo, permitindo que seus fãs, enfim, conhecessem de fato a artista por trás da arte. Essa exploração de sua vida a tornou ainda mais icônica e, acima disso, um símbolo político e ideológico.

Como pudemos ver, o pós-Revolução Mexicana foi um período conturbado de reconstrução, mas que serviu para reconectar o México a suas raízes por meio da música e exportá-lo para o mundo por meio de suas pinturas. No entanto, ainda há de vir o momento em que a cultura mexicana extrapolou todas as barreiras, e se fez presente nas televisões de todo o mundo, em especial, as do nosso Brasil.

História III: Do “Milagre” aos dias atuais

Trinta anos após a Revolução de 1910, um movimento massivo de famílias deixando o meio rural para viver e trabalhar nas grandes cidades passou a se intensificar, em um êxodo rural que se estenderia até meados de 1970.

Em 1940, 65% do México vivia em zonas rurais; trinta anos depois, esse número caiu para 32%. Entre 1940 e 1970, a população urbana saltou de 4 milhões para 21 milhões, e apenas a Cidade do México passaria a abrigar mais de 8,5 milhões de habitantes.

Isso se deu principalmente pelo rápido processo de industrialização do país, que abriu múltiplos postos de trabalho nos centros urbanos enquanto, paulatinamente, reduzia a oferta no campo devido à mecanização da mão de obra.

O PIB mexicano crescia em média 6,5% ao ano e a modernização era visível, trazendo transformações profundas para a estrutura social da época.

O “milagre” econômico mexicano, porém, acabou seguindo à risca o velho ditado: quanto maior o salto, maior a queda. Os gastos excessivos do Estado durante décadas cobraram um alto preço quando, no início dos anos 1970, um endividamento elevado e o aumento da taxa de juros tornaram inviável a continuidade do modelo. Em pouco tempo, a dívida mexicana superou o próprio PIB, e a fase de forte prosperidade deu lugar a sérios problemas econômicos.

As tentativas de intervenção e nacionalização enfrentaram grandes dificuldades, fazendo com que o crescimento do PIB desacelerasse e, em certos períodos, entrasse em retração. A consequência direta foi o aumento do desemprego e o agravamento das desigualdades sociais.

No entanto, é comum na história que momentos de crise acabem por revelar o lado mais perseverante (e criativo) da humanidade. Foi justamente nesses anos difíceis que o México viu nascer seu maior fenômeno cultural, aquele que faria as tardes da televisão brasileira muito mais divertidas: Roberto Gómez Bolaños.


Cultura III: Todos atentos, olhando para a TV.

Em 31 de agosto de 1951, o Canal 4 foi inaugurado no México, dando início à Era de Ouro da TV mexicana, sendo essa a primeira transmissão de televisão em toda a América Latina.

Todavia, diferente dos EUA, onde mais de 64% dos lares já possuíam televisores por volta de 1955, no México, esse número mal passava de 1%. O crescimento foi expressivo com o passar das décadas, e nos anos 1970, nasceria o maior conglomerado de televisão do país, e um dos maiores de toda a América: a Televisa.

Logo em 1973, ano de sua fundação, a Televisa traria ao México seu maior expoente. Bolãnos havia iniciado sua carreira na publicidade nos anos 1950, onde passou a esboçar seus primeiros roteiros para cinema e rádio, dando origem a um de seus primeiros sucessos, como Los Legionarios.

Em 1969, Bolãnos chegou à Televisión Independiente de México (TIM), e em menos de três anos, lançou seus quatro maiores sucessos: A Mesa Quadrada, Cidadão Gómez, Chapolin Colorado, e claro, Chaves.

A série mexicana amada por todos os brasileiros. El Chavo Del Ocho (ou Chaves) saiu da mente brilhante de Roberto Gómez Bolaños, apelidado carinhosamente como Chespirito (Pequeno Shakespeare), que desenvolveu um sitcom de comédia brilhante, reunindo atores experientes para papéis infantis, em um cenário simples, assim como o humor da série, o que talvez tenha sido o toque que a tornou tão especial.

Lançada em 1972, a série foi um sucesso estrondoso e, logo no ano seguinte, espalhou-se por toda a América Latina, obtendo uma média de 8,3 milhões de espectadores por dia, números inéditos para qualquer série latino-americana. No auge, a imprensa chegou a noticiar que quase metade das TVS do país estavam sintonizadas no Canal 8 no horário de Chaves, em um momento histórico que foi chamado de “La Chespiritomanía”.

Os personagens, todo mundo conhece, o infantil Chaves, o Invejoso Kiko, a Chorona Chiquinha, a Mãe Protetora Florinda, o Galanteador Girafales, a "Bruxa do 71" Clotildes, e o meu favorito, o "Vagabundo", Seu Madruga, o mais amado pelos brasileiros.

O Pequeno Shakespeare fazia um humor espontâneo, sem extremismos ou previsibilidade. Os visuais, tramas e cenário representavam o próprio estado de espírito de seu país na época. Chaves era um garoto pobre. Seu Madruga, por mais que trabalhasse, jamais tinha dinheiro suficiente para pagar seu aluguel. Um povo sofrido, mas que nas coisas mais comuns, encontrava motivos para sorrir.

O humor simples e o roteiro, que mesmo previsível, divertia a todos, desde as brigas entre Chaves e Kiko, o triângulo amoroso interminável entre Florinda e o Professor, até o aluguel nunca pago do Seu Madruga, que sempre enrolava o Seu Barriga.

Porém, problemas internos entre os atores fizeram a série perder força. Com a saída de Seu Madruga (Ramón Valdes) e Kiko (Carlos Villagrán), a série viu sua audiência despencar, resultando em seu encerramento em 1980, após 312 episódios em 7 temporadas. Mesmo com esse fim melancólico, a série foi o maior sucesso da história do México, com os atores tornando-se verdadeiros astros. As premiações foram diversas, mas a maior delas foi o Prêmio de Melhor Programa Humorístico Mexicano em 1973.

No Brasil, a série chegou a nossas casas através do SBT, bancada pelo próprio Silvio Santos, que acreditou no potencial do seriado, e ele estava certo. A série se tornou um verdadeiro sucesso, até hoje, rendendo memes e tendo seus personagens como ícones populares.

No auge do programa no SBT, não era raro que a audiência passasse dos 30 pontos, com cada um deles representando centenas de milhares de pessoas diante da TV, divertindo-se com o humor simples e improvisado de Bolãnos e sua equipe.

Episódios como Viagem a Acapulco, Ladrão na Vila e Na Casa da Bruxa (o mais assustador da série) foram reprisados inúmeras vezes e são, até hoje, os mais vividos na mente dos brasileiros.

Já o alter ego de Chaves, Chapolin Colorado, que já havia dado as caras em esquetes ainda em 1970, recebeu seu programa solo em 1973, em um momento em que a Televisa queria pôr seu astro no máximo de produções possíveis.

Com 260 episódios e uma incrível média de 20 a 30 pontos de audiência no México, Chapolin tornou-se o segundo maior sucesso da Televisa e foi igualmente bem recebido no Brasil.

Diferente de Chaves, que tinha seus enredos centrados na Vila e em seus exóticos moradores, Chapolin brincava com filmes de terror, super-herói e faroeste, colocando seu herói para enfrentar diversos dos vilões mais temíveis da ficção, desde Alma Negra até o Quase Nada (só nomes de arrepiar).

Pode-se dizer que o elenco de ambas as séries foram as primeiras supercelebridades mexicanas, viajando o país em apresentações circenses, aparecendo em comerciais e estampando revistas. Suas intrigas de bastidores eram pauta nos maiores jornais do país.

Quando desembarcavam em países como Brasil, Chile ou Venezuela, eram aclamados por centenas, quando não, milhares de pessoas. O México, talvez pela primeira vez em sua história, tinha ícones de massa com reconhecimento praticamente mundial.

Porém, a saída de Carlos Villagrán, o relacionamento conturbado entre Roberto, sua esposa e Florinda Meza, o alcoolismo de Ramón Valdéz e diversos outros rachas internos, fizeram com que aquele elenco estrelado rapidamente dissolvesse sua constelação.

Bolãnos jamais abandonou o projeto, mas viu sua glória escorrer por entre seus dedos. Fato é que, mesmo após seu ápice, e com as inúmeras polêmicas em torno de seu nome, tanto ele quanto todo o elenco da série mantiveram-se marcados para sempre na cultura pop mexicana e também brasileira.

Porém, não foi só com o humor que o México invadiu a TV brasileira Logo nas décadas seguintes, um novo fenômeno faria um sucesso tão grande quanto Chaves e Chapolin.

A dramaturgia mexicana tornou-se um fenômeno internacional sobretudo a partir da década de 1970, quando as produções da Televisa começaram a ser exportadas para dezenas de países. No Brasil, essas novelas ganharam enorme espaço principalmente na programação do Sistema Brasileiro de Televisão, que encontrou nelas uma forma eficiente de competir por audiência com outras emissoras. Algumas produções se destacaram por seu impacto cultural e popularidade, tornando-se referências tanto no México quanto entre o público brasileiro.

Los Ricos También Lloran (1979)
Protagonizada por Verónica Castro e Rogelio Guerra, essa novela é frequentemente considerada a primeira grande exportação global da televisão mexicana. A trama acompanha Mariana, uma jovem pobre que acaba se envolvendo com uma família rica e passa a enfrentar intrigas, conflitos amorosos e disputas de poder dentro da elite mexicana. O sucesso foi tão grande que a novela foi vendida para mais de uma centena de países e exibida em diversos idiomas. Em alguns lugares, especialmente na Europa Oriental, alcançou índices de audiência impressionantes. No Brasil, exibida pelo SBT no início dos anos 1980, ajudou a consolidar o espaço das novelas mexicanas na televisão aberta e introduziu ao público brasileiro o estilo melodramático típico dessas produções.

Rosa Selvagem (1987)
Também estrelada por Verónica Castro, essa novela conta a história de Rosa, uma jovem humilde e impulsiva que vive praticamente à margem da sociedade. Sua vida muda ao se apaixonar por um homem pertencente à elite, o que provoca forte rejeição por parte da família dele. A trama explora o choque entre classes sociais e a luta da protagonista para conquistar respeito e reconhecimento. No México, a novela foi um grande sucesso e reforçou a popularidade de sua protagonista. No Brasil, exibida anos depois pelo SBT, também alcançou bons índices de audiência e ajudou a consolidar o arquétipo da “mocinha rebelde”, uma personagem forte e espontânea que desafia as convenções sociais.

Maria Mercedes (1992)
Nos anos 1990, a televisão mexicana voltou a dominar o mercado latino-americano com produções estreladas por Thalía, que rapidamente se tornou um dos rostos mais conhecidos da dramaturgia do país. Em Maria Mercedes, a atriz interpreta uma jovem extremamente pobre que vive nas ruas e aceita se casar com um milionário gravemente doente para garantir sustento à sua família. Após a morte do marido, ela se vê envolvida em conflitos relacionados à herança e precisa enfrentar o desprezo e a hostilidade de parentes ricos que não aceitam sua presença. A novela foi um grande sucesso em vários países e marcou o início da chamada “Trilogia das Marias”, responsável por consolidar a fama internacional da atriz.

Maria do Bairro (1995)
Também protagonizada por Thalía, essa novela tornou-se uma das produções mexicanas mais populares de todos os tempos. A história acompanha Maria, uma jovem muito pobre que sobrevive recolhendo materiais recicláveis nas ruas até ser acolhida por uma família rica. A tentativa de integrá-la à alta sociedade provoca conflitos intensos dentro da família, especialmente com a antagonista Soraya Montenegro, uma das vilãs mais memoráveis da história das telenovelas. O exagero dramático e as situações intensas da trama contribuíram para sua enorme popularidade. No Brasil, exibida pelo SBT, a novela conquistou grande audiência e permaneceu por muitos anos na memória do público, sendo frequentemente reprisada.

A Usurpadora (1998)
No final da década de 1990, outra produção da Televisa conquistou enorme sucesso internacional: A Usurpadora, estrelada por Gabriela Spanic e Fernando Colunga. A história gira em torno de duas irmãs gêmeas idênticas, mas com personalidades completamente opostas. Uma delas é rica e manipuladora, enquanto a outra leva uma vida simples e honesta. A vilã obriga a irmã a assumir sua identidade e ocupar seu lugar dentro da família por um período, desencadeando uma série de conflitos e revelações. A trama, cheia de reviravoltas e intrigas familiares, tornou-se um dos maiores sucessos da televisão mexicana e ganhou inúmeras reprises em diversos países. No Brasil, a novela se tornou um clássico do SBT e é considerada uma das produções mexicanas mais conhecidas pelo público.


Por meio desses sucessos, percebe-se não só as semelhanças entre as culturas brasileira e mexicana, como também a resiliência da cultura do México mesmo em meio às tormentas. Crises, guerras, divisões, não foram capazes de abalar o espírito de seu povo, que sempre encontrou, por meio da arte, não só uma forma de se expressar, como também, de manter-se unido.

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