Marvels: como uma câmera revelou a verdadeira face do heroísmo?

Entre 1993 e 1994, o roteirista Kurt Busiek e o lendário artista de HQs Alex Ross uniram suas mentes para dar vida ao que, para muitos, é um dos quadrinhos mais incríveis da Casa das Ideias: Marvels. Aquela história deveria ir para além das páginas, mostrando a trajetória do universo Marvel desde o fim dos anos 1930 (quando ainda se chamava Timely Comics) até o início dos anos 1990, passando pelos maiores eventos da história da editora: o surgimento do Tocha-Humana, a fundação dos Vingadores e do Quarteto Fantástico, a caça aos X-Men, a vinda de Galactus, a invasão Skrull e tantos outros eventos tão conhecidos dos fãs de quadrinhos. Contudo, nós não acompanharíamos esses momentos épicos pela perspectiva dos super-heróis, muito menos pela dos supervilões, e sim pelo que realmente somos: pessoas comuns. Pelas lentes do fotojornalista Phil Sheldon, sentiríamos o pavor e o fascínio, o medo e a esperança, a infindável mistura de sentimentos que apenas seres tão fantásticos são capazes de proporcionar. Mas, afinal, o que um homem que dedicou sua vida a registrar as maiores glórias e fracassos dos heróis mais poderosos da Terra tem a nos ensinar sobre eles? É isso que vamos discutir hoje!

MARVEL E DC

Rafael Silva

10/31/20269 min read

Maravilhas Inexplicáveis

Em 1938, os EUA ainda enfrentavam os efeitos devastadores da Grande Depressão, enquanto o pavio de pólvora da Europa estava prestes a explodir. Mais uma vez, a humanidade estava levando a si mesma ao limite. No meio disso, estava Phil Sheldon, um fotógrafo qualquer, apaixonado pela jovem Dóris Jacquet.

Ele sonhava com seu casamento, com uma casa simples onde pudesse criar seus filhos. Imaginava que talvez, se fosse enviado para a Europa como fotógrafo de guerra, pudesse consolidar sua carreira. Mal sabia ele que algo muito mais grandioso estava prestes a nascer diante de seus olhos. Nova York se tornaria o palco para o que havia de mais incrível e estranho no universo. Dali em diante, os cidadãos não seriam mais do que meros espectadores enquanto seres muito além da sua compreensão ditavam o futuro da humanidade.

Primeiro, o Tocha-Humana, conhecido também como Jim Hammond, fruto de um experimento fracassado do cientista Phineas Horton. Ao ser apresentado ao público, foi imediatamente hostilizado, tido como uma aberração. Nem mesmo Sheldon, enviado para fotografá-lo, teve coragem de olhá-lo por muito tempo. Pouco importava se havia um homem por trás daquela forma flamejante: seu poder era estranho demais, inexplicável demais.

Quando Jim escapou, acabou causando inúmeros estragos pela cidade, uma vez que ainda não era capaz de controlar seus dons. As manchetes eram divididas entre ele e o atlante Namor, que constantemente ameaçava a humanidade devido ao descaso dela para com o oceano.

Mesmo que fosse temido pelos homens, Jim ainda era filho de um deles e não iria abandoná-los, enfrentando o Rei de Atlântida mais de uma vez para defender os nova-iorquinos. Todavia, enquanto os dois super-seres rasgavam os céus, as pessoas os observavam ao longe, impotentes, e, quando tudo terminava, o que restava aos meros mortais era recolher os escombros deixados pela fúria desses deuses.

“O dia amanheceu como se nada tivesse acontecido. Todo mundo se pôs a trabalhar, consertando os danos como se fôssemos formigas. E todos reclamaram. Todos disseram que alguma coisa deveria ser feita… Mas o que havia para se fazer? O que meros mortais poderiam fazer?”

As rédeas do mundo estavam sendo tiradas das mãos do homem diante de seus olhos. Os impactos disso foram muito além da destruição material, mas também da confiança. Que certeza é possível ter em um mundo onde um único ser é capaz de varrer uma cidade inteira a seu bel-prazer? Um mundo onde a força de um homem não significa mais nada?

Essa incerteza faz, inclusive, com que Phil adie seu casamento com Dóris, descrente de que seja possível construir uma família em meio a tanta desconfiança. Ele queria acreditar que aquilo não duraria para sempre, que, em algum momento, o mundo iria voltar aos eixos. Mas, novamente, a realidade o surpreendeu, e de muitas formas.

Diferentemente do Tocha-Humana e de Namor, o Capitão América surgiu como motivo de orgulho nacional. O Sentinela da Liberdade emulava os melhores valores dos EUA e estava disposto a lutar por eles.

Ele podia amassar tanques com suas mãos, desviar de balas, dizimar batalhões inteiros apenas com a força de seus músculos. Tecnicamente falando, ele era tão anormal quanto aqueles que o sucederam. Mas havia uma diferença gritante entre eles: todos sabiam a quem pertencia a lealdade do super-soldado.

As crianças liam suas revistas, brincavam com seus bonecos, tinham orgulho do que ele representava.

“O mais impressionante era que ninguém tinha medo dele. Apesar de ser uma maravilha, como o Tocha ou Namor, as pessoas não viam o Capitão como uma ameaça. Será porque os dois eram forasteiros, e o Capitão era um dos nossos?”

Ele ostentava as cores da bandeira em seu peito, liderava os soldados na luta pela liberdade, e sua aparência era tudo, menos monstruosa. Basicamente: ele era um monstro explicável. Seu simbolismo fez com que até mesmo Namor e o Tocha-Humana passassem a ser bem vistos pela opinião pública ao lutar ao seu lado contra o Eixo. Gradualmente, o medo se transformou em admiração, que se tornou a certeza de que, em pelo menos alguns daqueles super-seres, era possível confiar.

Todavia, essa confiança cega foi abalada por uma nova investida de Namor contra a humanidade, que obrigou o Tocha-Humana a novamente enfrentá-lo, em um duelo que custou a Sheldon um de seus olhos, enquanto tentava fotografar o messiânico embate entre os titãs.

Surpreendentemente, ele não sentiu raiva deles. Ele estava encantado, não apenas por seus poderes, mas principalmente pelos dilemas que carregavam. Cada vez mais deles apareciam dia após dia, e ficava claro que a sua era nunca terminaria, e a única coisa que ele queria era estar no centro de tudo isso, registrando-a com sua câmera.

Steve Rogers provou às pessoas que, por trás daqueles poderes inigualáveis, máscaras e aparências muitas vezes grotescas, havia bons homens e mulheres, dispostos a arriscar suas vidas pelas delas. Ele mostrou que não precisavam ter medo. E foi por meio dele que as maravilhas caminharam em direção ao seu apogeu.

Humano, deus ou demônio?

Pouco mais de uma década se passou para que a opinião pública acerca dos super-heróis mudasse quase por completo. Os Vingadores e o Quarteto Fantástico travavam duelos épicos rotineiramente, e, em vez de fugirem, as pessoas paravam para admirá-los. Não havia motivo para correr, afinal: eles estavam lá para protegê-las.

Mais que justiceiros, muitas maravilhas tornaram-se verdadeiras celebridades. Filas enormes se formavam para comprar fantasias da Vespa ou para fazer um corte de cabelo no estilo da Mulher-Invisível. De alguma forma, as pessoas queriam fazer parte daquilo.

Phil registrou o deslumbrante casamento de Sue e Reed Richards, em uma magnífica cerimônia repleta das maravilhas que tanto admirava. Era o retrato de que, mesmo sendo tão poderosos, eram, no fundo, pessoas comuns, capazes de se dobrar até mesmo ao mais humano dos sentimentos, como o amor. Isso fez com que as pessoas sentissem que podiam tocá-los, que podiam, de alguma forma, coexistir no mesmo plano que eles.

Ainda assim, havia os perseguidos. Homem-Aranha, Hulk, Coisa, Demolidor: seres assustadores e, em alguns casos, instáveis e perigosos, mas nenhum deles se comparava aos X-Men. Não era somente pela sua aparência, nem pela natureza de seus poderes, mas pelo fato de que praticamente qualquer um poderia ser um mutante. Seu marido, seus filhos, seu irmão: o perigo poderia estar ao seu lado.

A obsolescência da humanidade viria do seu próprio sangue.

Eles eram o próximo passo da evolução humana e, provavelmente, os causadores da sua extinção.

Por mais que os alunos do Professor X apenas desejassem fazer o bem, suas ações eram sempre hostilizadas. O próprio Phil ajudou uma multidão a apedrejá-los nas ruas, logo após o grupo salvar um peão de morrer em uma queda. Eles não estavam sofrendo pelo que faziam, mas sim pelo que eram. O medo irracional fazia com que a humanidade os temesse mais do que qualquer supervilão.

“Eles eram o lado sombrio das maravilhas. Enquanto o Capitão América e o Senhor Fantástico inspiraram o melhor de nós, os mutantes eram a morte. Os cientistas diziam que eles não precisavam fazer nada para isso. Nós, Homo sapiens, éramos obsoletos, e eles eram o futuro. Iam cuspir em nossos túmulos”.

Seu ódio desvairado só se esvai quando suas filhas, Beth e Jenny, dão abrigo a uma pequena e estranha criança mutante, que vinha sendo perseguida por toda a vizinhança. Ao ver seus grandes olhos marejados, ele viu a inocência de uma criança que nem mesmo os pais quiseram acolher e que suas filhas, com os corações ainda totalmente livres do ódio do preconceito, foram capazes de abraçar.

Ele entendeu que estava errado, se deu conta de que seus vizinhos, amigos de décadas, incendiariam sua casa com ele dentro se soubessem que havia um mutante entre suas paredes. Ele percebeu que a raiva com a qual estava compactuando era tão terrível quanto aquela que testemunhou ao fotografar os horrores da Segunda Guerra Mundial, quando uma raça dita como superior, movida pelo medo, julgou-se no direito de destruir aquilo que a “ameaçava”.

Para se redimir, ele entregou Maggie aos X-Men, onde estaria a salvo entre os seus. Isso era o prelúdio do que estava por vir, o momento em que percebeu que a única coisa capaz de unir as pessoas, além da admiração pelas maravilhas, era o ódio por elas.

O Choque de Realidade

Enquanto trabalhava em um livro sobre suas fotografias, Sheldon viu a opinião pública sobre os heróis mudar drasticamente. Os Vingadores não eram mais salvadores, mas precursores do apocalipse. O Homem-Aranha, um assassino desprezível. O Quarteto Fantástico, um bando de farsantes.

O mundo havia entregado as chaves do destino nas mãos deles e agora se sentia desconfortável com isso. Eles começaram a se espalhar cada vez mais, como uma doença. Eles não eram simplesmente guardiões: eram pessoas que, assim como eles, tinham problemas, falhas e inseguranças e, quando elas saíam do controle, os resultados eram devastadores.

Viúva Negra sendo processada pelo Estado, Hulk destruindo cidades, o Homem-Aranha sendo acusado pelo assassinato de George Stacy. O caos estava instaurado.

Mesmo após o Quarteto Fantástico impedir que Galactus destruísse a Terra, veículos como o saudoso Clarim Diário fizeram questão de dizer que todo aquele confronto não passava de uma encenação para alavancar ainda mais a moral do Quarteto.

Sheldon, que estava cada vez mais fissurado nas maravilhas, deixando cada vez mais de lado a sua família em favor do trabalho, sentiu-se na obrigação de fazer algo, de demonstrar gratidão em nome da humanidade.

Ele então recorreu a Gwen Stacy, filha de George, para que inocentasse o Amigão da Vizinhança. A belíssima jovem não culpava o herói pela morte de seu pai, certa de que ele, na verdade, queria salvá-lo. Sheldon entendeu que era para proteger pessoas como essas que os heróis existiam.

Esse momento foi tão especial que motivou Sheldon a escrever um segundo livro, não sobre as maravilhas, mas sobre como as pessoas reagiam a elas. Um livro onde ele pudesse de fato se pôr no lugar de cada uma das fontes, como alguém deslumbrado por tudo aquilo.

Todavia, tudo caiu por terra na noite em que Gwen foi morta pelo Duende Verde diante de seus olhos, a noite em que o Homem-Aranha, uma maravilha, falhou em salvar uma pessoa que confiava nele. Ver o Aranha com o corpo sem vida de Stacy em seus braços, como um retrato da falibilidade das maravilhas, simplesmente destruiu o encanto do fotógrafo.

A morte da garota ficou na décima página, enquanto o duelo entre Homem-Aranha e Duende Verde estampava a revista. A desgraça de um herói parecia ser mais importante do que a vida que ele falhou em proteger. Ele entendeu que o erro da sociedade, o seu erro, não foi nem amar nem odiar demais as maravilhas, mas permitir, de livre e espontânea vontade, que elas se tornassem maiores do que a humanidade.

Não foram os heróis que os puseram na condição de formigas, foram eles mesmos. Capitão América, Homem-Aranha, Thor, os X-Men, amados ou odiados, dia após dia, lutavam por suas vidas, não para que vivessem em nome deles. Enquanto muitos deles tentavam se reconectar com a humanidade, muitos homens e mulheres faziam dela algo insignificante.

A adoração e o desprezo nada mais eram do que os efeitos colaterais dessa perda de propósito. Do Tocha-Humana até o Homem-Aranha, os heróis sempre foram fantásticos, mas também perigosos. Estavam dispostos a dar suas vidas pela do próximo, ao mesmo tempo que o descontrole de seus poderes punha esse próximo em risco. São humanos, capazes de bondades incomparáveis e de horrores inenarráveis.

Eles podem ter crescido e se espalhado, mas essa verdade se manteve irrepetível. O que mudou com o passar dos anos foi a forma com a qual as pessoas lidavam com ela. Elas poderiam ser apenas espectadoras dos seus feitos inigualáveis, mas eram elas que definiam o que eles de fato significavam.

Phil Sheldon abriu mão da câmera, passou a dedicar-se às suas filhas, as maravilhas que sempre teve ao seu lado, mas às quais até então não havia dado o devido valor, e nem por isso o mundo de extraordinários que o cercava parou de girar.

O roteiro de Busiek e a arte sempre deslumbrante de Ross fazem de Marvels um clássico irrepetível, por mostrar o heroísmo pelos nossos olhos. Como reagiríamos aos X-Men em nosso meio? Não ficaríamos impressionados com os Vingadores batalhando diante dos nossos olhos? Não teríamos medo do Hulk? No fim, não é tudo sobre os heróis, e sim sobre como nós os rotulamos.

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