LITERALMENTE EU: QUAL O MAIS PROBLEMÁTICO?

As redes sociais são uma verdadeira máquina de memes e bordões, que organicamente, alcançam centenas de milhões de pessoas ao redor do mundo. Um dos mais engajados dos últimos tempos, são os personagens “literalmente eu”, onde as pessoas se comparam a um personagem com que se identificam. Homem-Aranha, Batman, Superman, esses são alguns exemplos positivos disso, mas, não são maioria. Vilões e anti-heróis como Patrick Bateman, Thomas Shelby e até mesmo o Coringa, são os maiores ícones desse nicho, e mostram uma verdade um tanto assustadora em nosso próprio subconsciente. Por que nos identificamos com esse tipo de personagem? O que eles têm a nos ensinar? E principalmente: por que devemos evitar ao máximo nos espelhar neles? É isso que vamos descobrir hoje!

MARVEL E DCHISTÓRIA DA CULTURA POP

Rafael Silva

4/12/202614 min read

Patrick Bateman: O narcisismo perfeito

O maior “sigma” da internet, presente em centenas de milhares de edits no TikTok e Instagram. Baseada na obra de Bret Easton Ellis (1991), Psicopata Americano (2000) estrela Patrick Bateman (Christian Bale), um empresário milionário e narcisista, com uma obsessão quase doentia pela perfeição.

Bateman faz sucesso na internet, por mostrar um ideal masculino de força, sucesso e frieza emocional. Fisicamente e emocionalmente, ele é intocável. Ao mesmo tempo que é sociável, Patrick é solitário, centrado em si mesmo, autossuficiente (pelo menos é o que parece). Para um jovem em busca de identidade, alguém que se garante por si só e consegue a admiração dos outros por meio disso, sem deixar de ser quem é, com certeza é atrativo. Infelizmente, todos sabemos que essa descrição não poderia bater menos com quem Patrick Bateman realmente é.

Sua rotina regrada de exercícios e alimentação lhe concedeu um corpo perfeito, e sua habilidade para os negócios (somada à sua habilidade de ser filho do dono da empresa em que trabalha…) lhe fez vice-presidente da Pierce and Pierce. Rico e influente, Bateman dispõe de carros e apartamentos luxuosos, viaja pelo mundo e faz jantares nos melhores restaurantes, acompanhado sempre das mais belas mulheres. Ele é a encarnação do sucesso do Sonho Americano, do desejo que tantos homens passam a vida inteira almejando.

Parece que ele é um bom exemplo de disciplina e sucesso, né? Bom, essa ilusão termina quando conhecemos o homem por trás das máscaras faciais de erva e menta: um assassino completamente descontrolado.

“Eu simplesmente não existo”, a saudosa frase dita por Patrick logo no início do longa resume seu personagem. A sua “perfeição” é uma forma de esconder seus verdadeiros desejos e inseguranças.

Bateman se enfurece quando Paul Allen surge com um cartão mais bonito que o dele (é sério) e o mata por causa disso. Sua obsessão pela perfeição é tamanha que ver alguém roubá-la para si abre um vazio intolerável no âmago de Patrick. Ele simplesmente não aceita perder. Alguém que mata por causa da gramatura de um papel e da fonte Pale Nimbus não é um “frio e calculista”, é um cara inseguro com um terno Valentino.

Mulheres e funcionários, nada mais que objetos para servir seus desejos sexuais e práticos, mostrando como o poder os desumaniza por completo. Ninguém à sua volta pode estar ao seu lado ou acima dele; todos devem enxergá-lo como o topo da pirâmide, em todos os sentidos.

Nem mesmo sua namorada, Evelyn Williams, é respeitada. Patrick ignora seu vício em drogas, enquanto a trai com prostitutas, com as quais se relaciona olhando para si mesmo no espelho, tamanha sua adoração pelo próprio corpo. Qualquer encontro com uma mulher era, na verdade, um encontro consigo mesmo, com a única pessoa que ele tinha algum desejo.

Ah, ele pode ser um assassino e um babaca, mas pelo menos ele é badass, não é mesmo? Bom… nem isso. Ao ser investigado pelo detetive Donald Kimball (Willem Dafoe) pela morte brutal de Paul Allen, Bateman se contradiz inúmeras vezes, ficando completamente aterrorizado com as perguntas do agente. Seu egocentrismo caiu por terra quando alguém finalmente começou a vê-lo por trás dos ternos caros.

No final, ele confessa seus crimes para seu advogado, em um fim ambíguo, em que não sabemos ao certo se ele matou ou não todas aquelas pessoas. Fato é que, das duas formas, ele continua sendo um péssimo exemplo. Se for verdade, ele assassinou homens e mulheres a sangue frio, traiu sua namorada e mostrou-se um verdadeiro covarde ao ser confrontado pela justiça. No outro, ele é um homem tão vazio que precisou extravasar os delírios de sua mente em seu diário para dar algum sentido à sua existência. Acho que nenhum dos dois é um bom projeto de vida…

Ninguém condena que homens se inspirem em sua confiança e disciplina física, ou pela graça do meme, que, na maioria dos casos, é realmente o grande motivo do interesse pelo personagem. Mas inspirar-se nele por sua moral é um colossal problema.

Se quer se inspirar em um papel de Christian Bale, inspire-se no Batman e proteja Gotham por nós!

Coringa: A fuga da loucura

Seguramente, o mais problemático de todos. Em 2019, o Coringa de Todd Phillips e Joaquin Phoenix tornou-se o primeiro filme para maiores de 18 anos a bater a marca de 1 bilhão de dólares, um feito histórico, especialmente para um filme de quadrinhos.

Todavia, esse sucesso revelou em suas entrelinhas graves problemas sociais. Na obra, Arthur Fleck é retratado como um homem comum, com problemas psicológicos e financeiros, o que, sejamos honestos, hoje em dia quase todo mundo é. Gotham é um verdadeiro inferno, repleto de pessoas terríveis e mesquinhas, que descontam suas frustrações nele, por ser mais fraco ou mais pobre. Ele era o tapete onde todos limpavam seus pés antes de entrar na casa. Porém, quando se maquiava como Coringa, ele sentia outra energia.

Os limites impostos pela sociedade se esvaem, e agora ele era livre para seguir seus instintos. Rir do que não deveria, fazer o que não poderia e matar, sem medo das consequências. Como seu antecessor, Heath Ledger certa vez disse: “A loucura é como a gravidade, só precisa de um empurrãozinho”, e Fleck teve vários empurrões bem fortes ao longo de sua vida, que o lançaram na lama várias vezes, e ainda assim, ele tentou ser normal, até o momento em que decidiu pôr para fora toda a sua ira.

No momento em que matou Murray em rede nacional, o Coringa inflamou os ânimos de milhares de gothamitas, que, cansados de viver no mesmo inferno que ele, foram às ruas, alagando-as com seu ódio reprimido. O rosto pálido e sorriso ensanguentado tornaram-se um símbolo perigoso de liberdade. Mesmo atrás das grades, suas ideias seguiam livres pela cidade, infectando cada vez mais pessoas e lançando Gotham no mais absoluto caos.

No Brasil, o “literalmente eu” relacionado ao Coringa é muito mais um meme do que qualquer outra coisa (quem não viu o meme de Phoenix usando os jogos do Vasco para enlouquecer antes de fazer o papel…), mostrando as dificuldades e absurdos que cada um de nós passa vivendo em um país com tantas mazelas, e como às vezes (várias vezes, na verdade), temos vontade de “tacar o fod#! *”, e enlouquecer, pois estranhamente, o descontrole parece ser muito reconfortante, pois nele não existem mais correntes.

Porém, todos sabemos que isso não é verdade. A loucura, na realidade, nos acorrenta ao nosso pior lado, e, no caso do Coringa, essa “liberdade” custou a vida de centenas de pessoas e deixou crianças como Bruce Wayne órfãos, condenando-as a viver na "ditadura da loucura" imposta por ele, onde a insanidade, tornar-se o único alívio para o caos gerado por aqueles que já se renderam a ela. Será que a paz de uns vale a dor de tantos outros? Você pode se perguntar: mas pelo menos o Coringa parece mais feliz que o Batman. Em certos casos, sim, mas isso não garante que ele realmente goste da loucura. Na verdade, ele a abraça por não saber como é viver sem ela.

Em Piada Mortal, de Alan Moore (vulgo melhor HQ do Batman), o Cavaleiro das Trevas se oferece para ajudar o Palhaço a regenerar-se, ao que ele responde de maneira simples: “é tarde demais para isso”. Ele não ama viver daquele jeito, mas não é forte o suficiente para mudar.

No próprio mundo das HQs, heróis como Homem-Aranha, Demolidor e até mesmo o Batman passaram por traumas tão grandes quanto os do vilão e seguiram, mesmo que com problemas psicológicos claros, o caminho da justiça, lutando para consertar a sociedade e não destruí-la, lutando para ser a solução, e não o problema.

Talvez Parker seja o melhor exemplo nesse caso. Ele tão fodid# quanto qualquer brasileiro: é pobre, perdeu pessoas que amava, vive desempregado, reprova na faculdade, é largado pela namorada (nem o Coringa ia querer ter a vida desse cara), e ainda assim, segue no caminho da justiça, em honra à promessa que fez no túmulo de seu tio Ben.

Uma missão de redenção sempre será uma saída muito melhor para a dor do que simplesmente deixá-la destruí-lo por completo. A insanidade deve ser tratada, não glorificada. A vida é difícil, de maneiras diferentes para cada um de nós, mas render-se à insanidade é abrir mão dela. Por isso, usar o Coringa como meme é extremamente válido e, muitas vezes, realmente engraçado, mas ir além disso é deveras problemático.

Homelander: o complexo de deus

O cara que fica com tudo preto no teste de Yin Yang. Interpretado brilhantemente por Anthony Starr, o “herói” número 1 da Vought é seguramente o personagem mais FDP de The Boys, e pode ter certeza, esse título não é nada fácil de conquistar.

A adoração por ele surge de sua persona superpoderosa, sem limites, a qual todos baixam a cabeça quando entra na sala. É uma necessidade de aprovação constante, a qual esse tipo de personagem ajuda a consolidar, mesmo que seu propósito seja satirizar esse estereótipo.

“Eu sou o Capitão Pátria, e faço a porra que eu quiser.” Essa fala resume perfeitamente o personagem e tudo que aqueles que se espelham nele admiram. Ele é apaixonado pelo poder e pela adoração. Ninguém diz não para ele, nenhuma corrente pode contê-lo, pelo menos não por muito tempo.

Como iremos ver mais adiante, além de definitivamente não ser o “verdadeiro herói”, ele também é um vilão frágil em vários momentos.

Homelander foi criado com base nos genes de Soldier Boy, a invenção mais poderosa da Vought até então. Ele nasceu para ser mais rápido, mais forte, mais esperto, melhor em todos os sentidos. Sua infância limitou-se a uma cela de paredes brancas, onde seus dons foram testados e sua mentalidade foi forjada. A ideia era criar um produto limpo, mas a ausência de qualquer relação verdadeiramente humana acabou por destruir seu psicológico por completo, logo na infância.

Ele deveria mostrar força, confiança, patriotismo e, acima de tudo, obediência. Ele não era um herói; era uma marionete de Stan Edgar, feita não para proteger o mundo, e sim para gerar dinheiro.

Ao ser apresentado ao público, o ego do Capitão Pátria foi inflado ao limite. Ele amava os holofotes, os aplausos, as manchetes, as mulheres… Não era só poder físico, era uma onipotência concedida pela admiração, quando não pelo terror. Todo o carinho que lhe foi negado na infância só lhe seria dado caso ele o conquistasse.

Logo em sua primeira missão, com apenas dezoito anos, ele comete erros que causam a morte de inocentes durante um sequestro com reféns. Em vez de tentar ajudá-los, ele simplesmente mata todos os sobreviventes e destrói a fábrica com a ajuda de Black Noir, apagando completamente os vestígios. Ele foi de um narcisista egocêntrico para um herói inexperiente e arrependido, tudo em nome de uma imagem ilibada. Já em sua primeira ação, ele percebeu que o que importava não era quem ele era, e sim quem o mundo precisava pensar que ele fosse.

Ao longo da série, sua ficha criminal só fica mais recheada: abusa da mulher de Billy Bruto, abandona um avião em queda livre, deixando centenas de pessoas morrerem. Mata Chelsea, forçando-a a lançar-se do telhado. Trai e mata Black Noir, em uma das várias traições e abusos que cometeu contra os Sete e outros heróis da Vought.

Cada um desses crimes carrega consigo um significado, em especial o caso do vôo. No avião, Pátria destrói os controles da aeronave enquanto combate os terroristas que a roubaram.

Ele até chega a pensar em segurar o avião, mas achava-se incapaz de fazê-lo sem nenhum apoio. Ele poderia simplesmente pegar um passageiro por vez, usando-se de sua velocidade para levá-los rapidamente ao chão. Todavia, ele preferiu olhar nos olhos de todos aqueles que viam em seu maior herói sua única chance de sobreviver e lhes virar as costas, dando-lhes uma última esperança antes de cair para a morte.

Sua frieza mostra exatamente o que ele foi moldado para ser: uma propaganda. Um herói teria feito de tudo para salvar aquelas pessoas, mesmo que estivesse certo de que iria fracassar, mas alguém que se importa somente com seu próprio ego não hesita em virar as costas para um desafio que não pode superar e se resumir a dar uma entrevista fingindo choro em rede nacional.

Ao mesmo tempo que tenta mostrar-se quase como um deus, ele é extremamente frágil nos bastidores. Ao longo da série, ele busca abrigo em figuras como Tempesta, Stan Edgar e até mesmo a Fogueteira, da qual bebeu seu leite materno, em uma cena extremamente bizarra. Isso demonstra uma mente totalmente disfuncional e incapaz de sustentar sua farsa onipotente, e que ainda parece demonstrar traços infantis, os quais não pode ter na infância, graças ao isolamento que lhe foi imposto.

Por mais ameaçador que seja, Homelander ainda é fraco. Ele pode, sim, destruir a humanidade sem dificuldades, mas não o faz, porque a sua maior e talvez única limitação é a sua busca por aprovação. Se não restar mais ninguém para ovacioná-lo, o que adianta ser tão poderoso? Sua vida só encontra sentido na atenção.

Outros personagens superpoderosos, como Superman, tratam seus dons de forma muito diferente. Não tentam diferenciar-se; pelo contrário, tentam misturar-se ao máximo com as pessoas, para sentirem-se em casa. Suas maiores provas de força não vêm de seus feitos messiânicos, e sim de seus pequenos atos de bondade. É a falta de caráter que torna Homelander fraco, pois, sem os poderes, não lhe sobra nada, especialmente a capacidade de ser relevante na vida daqueles a sua volta.

K

A face do meme. Desde Ken em Barbie até Sebastian em La La Land, Ryan Gosling vem se tornando a encarnação do “literalmente eu”, graças a seus papéis ou extremamente emocionais, ou extremamente caricatos. Alguns dizem que apenas esperam seu novo papel para descobrir qual personalidade irão adotar. Nosso eterno futuro Pantera Negra certamente tem o molho, mas vale focar somente em um de seus papéis: K, em Blade Runner 2049.

Como um replicante com memórias implantadas pelo Departamento de Polícia de Los Angeles, K dedica sua vida a caçar replicantes mais antigos, eliminando-os em nome da segurança da humanidade, apenas uma das muitas mentiras que foi condicionado a acreditar.

Sua vida é uma mentira do momento em que levanta da cama até o momento em que torna a se deitar; tudo à sua volta é artificial. Em suas falsas memórias, ele crê ser uma espécie de milagre, um Escolhido nascido e não criado; o que o faria diferente, o faria especial, mesmo como uma mera engrenagem de um mundo totalmente impessoal.

Sua única companhia é a IA Joi (Ana de Armas), que, apesar de ser um colírio para os olhos, é talvez a sua maior fraqueza. Sua única função é lhe dizer tudo que ele quer ouvir, alienando-o ao máximo quanto à sua própria vida. Sua tragédia é tamanha que a única coisa que ele ama nem sequer existe. O pior de tudo é que ele sabe da farsa em que vive, mas prefere acomodar-se nela do que sentir a dor da realidade.

Em um mundo de artificialidade, é comum que muitos, especialmente jovens, se identifiquem com K. Sentimo-nos cada vez mais distantes, isolados, mesmo que ladeados por outras pessoas, pois, na realidade, cada um de nós vive em seu próprio mundo, alheio a quem está ao nosso lado, principalmente com o advento da tecnologia.

É muito fácil fazer como ele e conversar com algo ou alguém que simplesmente nos diga o que queremos ouvir, que não apenas nos dê razão, mas que principalmente nos ouça em nossos momentos de fraqueza.

A famosa cena em que K se vê em meio à chuva, olhando para a gigantesca imagem de Joi diante de vários prédios neon, é o retrato de tudo isso, de um mundo solitário, onde a ilusão é tudo que lhe resta. Mas, confesso que só pelo visual a cena já se paga, sim…

No fim, K encontra Deckard (Harrison Ford), reunindo-o com sua filha, antes de morrer em missão, largado na neve, esquecido, muito diferente do destino que se espera para um “Escolhido". Só naquele momento, ele percebeu o quão pequeno realmente era. Não haveriam músicas exaltando-o, ou estátuas em sua homenagem; sua vida e sua morte foram as de um simples homem.

Porém, este simples homem foi capaz de reunir uma família, de mudar o destino de um pai e de uma filha, em um ato de grande coragem.

K, literalmente, representa muitas pessoas (olha o meme aí). Não é egocêntrico ou anarquista; ele simplesmente busca um propósito, busca ser alguém, mas, ainda assim, é um tanto problemático. Ele simboliza o comodismo do fracasso, que tende a nos afundar cada vez mais em nossas próprias mágoas, ao invés de nos motivar a superá-las.

Thomas Shelby

O frio e calculista, visto inúmeras vezes fumando um cigarro e com a seguinte frase no Instagram: "Quer ser a pessoa mais inteligente da sala?" Clique e saiba mais! O vilão interpretado por Cillian Murphy na série Peaky Blinders fez um tremendo sucesso não só pela qualidade da atuação e da série, mas especialmente pela sua presença.

Sempre bem vestido e pontual, Shelby parece ter controle absoluto em qualquer situação, estando sempre dois passos à frente. Não importa contra quem seja, ele jamais perde o controle. Quem na vida não gostaria de ser assim? Quem não gostaria de conseguir o que quer na lábia? Ou simplesmente impor respeito por onde passa?

Porém, será que um gangster apostador é realmente um bom exemplo de homem de negócios? E, principalmente: será que ele é tão frio e sem emoções quanto aparenta?

Os Peaky Blinders começaram sua vida no submundo das apostas, mas rapidamente se envolveram no tráfico de álcool e armas, alimentando vícios e guerras, como a Guerra da Independência da Irlanda. A imagem de negociadores desonestos se desfaz quando seus negócios passam por um verdadeiro mar de sangue. No quesito moralidade, Tommy já fica mal na fita.

Shelby vem de uma família de criminosos; a manipulação e a imponência já estão em seu sangue. Seus quatro anos de guerra na França só o deixaram mais resiliente, mas também lhe deram cicatrizes. Todas as noites, o dito “homem sem emoções” acordava gritando, relembrando os horrores das trincheiras, diante dos quais, até mesmo ele era só uma criança para compreender. Ele podia controlar Birmingham, mas não o próprio subconsciente.

Ele mata, suborna e manipula todos, desde civis até autoridades, com facilidade, mas tem um ponto fraco claro: sua família. Ao melhor estilo Don Corleone, Shelby constrói sua gangue como uma grande família, protegendo-a a todo custo.

Quando o Inspetor Campbell (Sam Neill) prende Michael Shelby e usa Polly para manipular Tommy, o chefe da família criminosa vê sua principal fortaleza desmoronar e passa a agir de maneira descuidada e mais suja do que o habitual. O mesmo acontece após a morte de Grace, seu grande amor, que faz com que Shelby abandone totalmente suas intenções de viver na legalidade. Sua razão se vai quando as emoções se tornam impossíveis de controlar.

Por mais inquebrável que Tommy pareça, ele, assim como todo mundo, tem fraquezas, e, para o seu azar, ele construiu seu império criminoso colocando todas elas bem próximas dele.

Isso mostra que, por mais manipulador que Shelby seja, sempre há alguém capaz de fazê-lo jogar o mesmo jogo que esteve acostumado a jogar com os outros. Seu controle absoluto, na realidade, jamais existiu, provando para ele, que nem sempre ele seria a pessoa mais inteligente, e nem mesmo a mais ousada na mesa.

Basear-se em Shelby na forma com a qual protege e ama sua família é válido e mostra que, mesmo entre criminosos, existe honra. Mas, quando vamos para o campo do comportamento, a coisa muda. Além de seus crimes destruírem incontáveis vidas, Shelby mostra-se frágil do início ao fim da série, passando longe de ser o “iceman” pintado nos memes.

Por fim, é claro que memes são memes, e foram feitos, sobretudo, com o objetivo principal de nos divertir, algo em que eles são muitíssimo efetivos. Todavia, moldar a si com base neles (especialmente em loucos como Homelander ou Coringa), nem sempre é uma boa ideia.

Muitas vezes, eles refletem algo em nós que deve ser compreendido, não idolatrado e idealizado. E para você, qual o pior exemplo de “literalmente eu” na net? Não deixe de comentar!