Jurassic Park: Terror Jurássico

A franquia Jurassic Park marcou a infância de muitos, sendo uma das franquia mais populares da cultura pop, chegando a bater 1 um bilhão de dólares em todo o mundo, no ano de 1993. No entanto, a obra original, escrita pro David Crichton, é um tanto mais sombria e tensa que os filmes, trazendo uma atmosfera aterrorizante para o mundo jurássico. Nessa série de pequenos contos, vamos embarcar no lado sombrio dos graciosos e poderosos dinossauros da saga, que acima de tudo, são verdadeiras quimeras, seres geneticamente modificados, criados fora do seu tempo, e acima de tudo, não são dinossauros.

TERROR

Rafael Silva

9/10/202611 min read

1. O Monstro no Quintal

San Diego, 1971. Era mais uma noite pacata na cidade estadunidense, e a jovem Lisa tomava seu chá quente em meio àquela noite chuvosa. Um filme antigo de Godzilla passava no televisor, com os berros e urros da criatura fictícia reverberando pela casa inteira. Preferindo a tranquilidade do campo, Lisa alugou uma bela casa em um bairro mais afastado em busca de paz.

No entanto, aquela noite seria tudo, menos tranquila. Na baía da cidade, uma fera pré-histórica havia se libertado, trazida diretamente da Ilha Sorna, Sítio B da Ingen, e agora estava completamente descontrolada, devorando qualquer forma de vida que atravessasse seu caminho.

Sentada em sua cadeira, a jovem começa a sentir alguns leves tremores no chão, como se um trem de carga passasse próximo dali. Era possível ouvir o balanço das árvores e alguns gritos na longínqua vizinhança. Desconcertada, a garota põe seu casaco e abre a porta para verificar seu quintal. A noite era fria e chuvosa, com uma névoa consideravelmente densa cobrindo boa parte do seu campo de visão. No entanto, ainda era possível vislumbrar o balançar das árvores e, segundos depois, o causador disso.

Uma forma colossal adentra o campo aberto, caminhando a passos rápidos em direção à casa de Lisa, que fica paralisada pelo medo. Um arrepio percorre sua espinha, e seu corpo permanece inerte. A criatura era bípede, com pelo menos 6 metros de altura e 12 de comprimento, e dezenas de dentes afiados, sujos de carne ensanguentada. Era uma fera saída diretamente dos seus piores pesadelos de infância: o Tiranossauro Rex.

Recuperando suas forças, ela se esconde em sua casa, subindo as escadas rumo ao segundo andar. A criatura bestial derruba sua cerca como se não fosse nada e se aproxima da janela, encarando a garota com seus enormes olhos amarelos. De maneira quase irracional, ela fecha as cortinas e permanece imóvel diante do olhar letal do T-Rex, com um tremor tomando conta de seus braços e pernas, e o suor descendo pelo rosto, apesar das baixas temperaturas. Minutos se passam sem que ela realize nenhum movimento; por mais que seu instinto ordenasse sua fuga, sua consciência a mantinha imóvel. A criatura emite ruídos altíssimos até que, por fim, volta a andar, rompendo o contato visual com ela.

Alguns instantes se passam antes que ela recupere o controle sobre seus músculos e ande em direção ao telefone. Com as mãos ainda tremendo, ela tenta chamar as autoridades, conseguindo, com muito custo, apertar os botões. Após um longo tempo de espera, finalmente é ouvida e descobre que o T-Rex havia destruído o navio em que foi trazida e já ceifado uma dezena de vidas naquela cidade. O medo volta a tomar conta de seu corpo, e mais uma vez ela recorre à janela, verificando os arredores, sem sinal da criatura através da noite escura. O silêncio naquele momento era tão aterrador quanto os rugidos da fera que passara.

A polícia pede sua localização, mas ela jamais teria tempo de dizê-la. Com uma força sobrenatural, o T-Rex derruba a parede que os dividia com uma única e poderosa cabeçada, abocanhando a perna da jovem, que não poderia medir forças com um ser tão poderoso, sendo puxada como uma pena para fora. O telefone continua ligado, com a voz apreensiva da policial lhe chamando, mas ela jamais responderia, sendo audíveis apenas os rugidos bestiais de seu algoz.

Com os esforços de Ian Malcolm e Sarah Harding, o T-Rex e seu filhote foram devolvidos à embarcação da Ingen, mas aquela noite entraria para a história de San Diego como uma data de tragédia. Lisa foi colocada entre as pessoas desaparecidas naquela noite; porém, apenas o animal sabia o verdadeiro fim da garota.

2. A Caça e o Caçador

Mike e Henry eram irmãos e funcionários do Jurassic Park no ano de 1968, em que o parque ainda era um projeto inacabado, cujas bases saíam da fortuna quase sem fim do magnata John Hammond, um homem sem escrúpulos, que, por meio do dinheiro, acreditava ser digno de reconstruir o mundo à sua imagem, recriando seres extintos pela ordem natural, e pouco se importando com o bem-estar deles, assim como de seus funcionários.

Suas criaturas eram geneticamente forjadas para serem as mais agressivas, para, digamos, apimentar o espetáculo. O T-Rex, sem dúvida, era fera, mais chamativa e temida do parque, mas havia uma que se destacava por sua inteligência, agressividade e, acima de tudo, sede de sangue humano: os Velociraptores.

Ao ser contratado para trabalhar na Ilha Nublar, Mike recebeu um salário vistoso para trabalhar diretamente com esses animais, servindo-lhes comida todos os dias, uma tarefa aparentemente simples, mas surpreendentemente perigosa. A transferência da Raptor, conhecida como "Big One", resultou na morte de dois tratadores, que foi exemplarmente abafada por John, com uso do seu aparato financeiro. Mike usava o guindaste para lançar bezerros vivos dentro do viveiro das feras, contemplando a brutalidade de seus ataques coordenados. A líder avançava diretamente em direção ao alvo, chamando a atenção do gado completamente para ela, enquanto outras duas feras se posicionavam em seus flancos, lhe atacando desprevenido, usando suas garras para causar o máximo de ferimentos possíveis, levando o pobre animal a uma morte lamentável.

O vídeo disponibilizado por John instruía os tratadores em como lidar com os raptores. Uma breve aula de anatomia e comportamento rapidamente se tornou quase uma ameaça velada. Hammond afirma que esses animais têm certo... gosto por caçar humanos, e, caso um deles esteja em seu encalço, é melhor correr; lutar não é uma opção, apesar de que, no fundo, você sabe que ele corre mais que você.

Henry trabalhava no monitoramento do Parque, em uma sala aquecida e tranquila, longe das ameaças do Parque, e até mesmo se entretinha com os sufocos passados por seu irmão. Cada tratador possuía uma câmara acoplada ao seu capacete, garantindo-lhes monitoramento vinte e quatro horas por parte de Henry.

A fatídica noite do desastre chegou. Dennis Nedry, movido por uma ganância e sede de dinheiro tão grande quanto a de John, roubou os genes de dinossauro do laboratório do parque para revendê-los a um concorrente, desligando todos os sistemas de segurança da instalação durante o processo, mantendo apenas a câmera na cabeça dos funcionários funcionando.

A ganância de Nedry cobrou seu preço, pois, antes de conseguir escapar rumo à fortuna que lhe esperava, acabou batendo seu carro e sendo encurralado por um aparentemente inofensivo Dilofossauro, que encerrou sua vida cruelmente, usando seu veneno para confundir sua visão e suas garras para destruí-lo por completo.

Mike e outro funcionário estavam nas redondezas do cercado dos raptores e não sabiam da queda de energia nas cercas, mantendo, esperançosamente, a falsa sensação de proteção. Antes que pudessem fazer algo, um estrondo explodiu logo atrás deles, seguido por um enorme rombo na cerca elétrica, agora desligada. Um arrepio subiu pela espinha de Mike, sabendo que agora estavam sendo caçados pelos Raptores. Na sala de controle, Henry penava para tentar entender o problema, mas sem sucesso. Voltando novamente para as câmeras, ele identifica a localização de seu irmão, porém não conseguia se comunicar com ele.

Mike e seu companheiro se embrenhavam na mata, voltando para seu veículo, apenas para assistir, quase chorando, o ar jorrar para fora da borracha furada dos pneus. Os raptores eram mais astutos do que eles poderiam imaginar. Com seus bastões elétricos em mãos, eles continuavam a caminhada em direção ao centro de controle mais próximo. O campo aberto lhes permitia ver tudo à sua volta; não seriam pegos de surpresa pelos caçadores à espreita.

Porém, gritos desesperados rasgavam a noite chuvosa, gritos de alguém entre a vida e a morte. O apelo agonizante daquele homem vinha diretamente da mata; agora, cabia a eles como agir: abandoná-lo à própria sorte? Ou salvá-lo e pôr em risco sua própria vida? Uma bússola moral correta nesse momento poderia custar suas vidas. Agindo de forma altruísta, eles embarcam na mata fechada e encontram o homem, mas não sozinho. Pisando ferozmente sobre seu pescoço, havia a fera pré-histórica que Mike mais temia, com seus dentes serrilhados se fechando em uma espécie perturbadora de sorriso. Com sua maior garra, ele rasga o pescoço da vítima e, agora, emite um ruído, uma espécie de chamado, convocando seus companheiros. Tomados pelo pânico, os homens correm pela mata, abandonando suas armas ao solo, e se embrenhando cada vez mais na mata fechada. Mike tropeça, enquanto seu colega continua correndo sem olhar para trás, sendo surpreendido por um Raptor, que pula sobre suas costas, o levando ao chão, e rapidamente o finaliza com uma mordida precisa.

Henry acompanhava tudo da cabine de segurança, mas sabia que, se não fizesse algo, sua irmã estaria condenada. Saindo em disparada, Henry chega ao pátio, procurando uma viatura do parque ainda disponível. Ao longe, ele avista uma única viatura e corre rapidamente em sua direção, como água no deserto. Ele encosta na maçaneta, mas, antes de puxá-la, houve um tremor semelhante a um terremoto sob seus pés. Olhando para trás, ele se depara com um Tiranossauro Rex, avançando em sua direção. Henry corre em direção a um container próximo e se esconde no fundo do seu interior, enquanto o T-Rex tentava virar a caixa de aço para tirá-lo de lá, mas sem sucesso. Percebendo a saída do caçador, Henry correu em direção a seu carro, dando partida antes que o colosso abocanhasse o veículo.

Desesperado, Mike consegue sair da mata e se esconde dentro da sala de força do local. Henry conseguia acompanhar sua trajetória por um painel dentro do veículo que dirigia. Sorrateiramente, os três raptores adentraram a sala e, tão rápido quanto surgiram, desapareceram na escuridão.

Andando lentamente, o homem tremia, suando frio, sabendo que em algum lugar as criaturas lhe fitavam com desejos mortais. Ele se lembra das instruções de Hammond, que agora não tinham mais nenhuma utilidade. Henry para seu carro na entrada da sala de máquinas e corre em direção à porta, abrindo-a sem pensar nos perigosos seres que habitavam o local.

Mike se escondia no armário de uniformes, enquanto os Raptores tentavam interceptar seu cheiro no ar. No entanto, o suspense se transforma em medo total quando ele ouve a porta abrir e seu irmão entrar apressadamente no local, sem perceber as três ameaças presentes lá dentro. Rapidamente, os raptores o cercam e atacam sem piedade.

Como uma máquina de matar coletiva, um predador avançou pela frente, chamando a atenção da presa, enquanto um segundo vinha pelas costas, cravando sua gigantesca garra em suas costas, abrindo-a de um lado ao outro, enquanto o sangue quente jorrava em seu rosto gélido e escamoso. Henry caiu, reunindo forças para gritar, mas perdendo-as no instante em que o primeiro raptor mordeu seu pescoço, matando-o como um animal. 

Mais uma vez, ele contemplava alguém precisando de sua ajuda, algo que já havia custado duas vidas naquela noite. Dessa vez, ele apenas assistiria, debulhando-se em lágrimas, ao fim de seu próprio irmão.

3. Titãs em Sorna

1971, Ilha Sorna. O sítio B da Ingen foi alvo de uma investida ousada de Peter Ludlow, sobrinho do magnata John Hammond, que havia perdido o controle de sua empresa após o desastre estrondoso do Jurassic Park e os diversos crimes pelos quais ele respondia naquele momento. Tão ganancioso quanto seu tio, Ludlow simplesmente herdou o monopólio de seu tio e decidiu expandi-lo, capturando diversos dinossauros do sítio B e transportando-os para San Diego, onde seriam a atração de seu novo parque temático, muito mais lucrativo e grandioso do que o pensado originalmente.

Uma expedição foi liderada por Peter Ludlow e o caçador Roland Tembo, resultando na rápida captura de diversas criaturas, incluindo um filhote de T-Rex. Porém, John estava decidido a destruir a operação de seu sobrinho; se ele não poderia enriquecer com a Ingen, ninguém mais poderia. Assim, ele manipula a mente de Nick Van Owen, um antigo funcionário do Jurassic Park, para acreditar que estaria embarcando em uma missão de resgate, libertando os dinossauros das mãos cruéis dos magnatas da empresa.

Van Owen, ao lado de Ian Malcom e Sarah Harding, liberta todos os herbívoros capturados, causando uma briga generalizada entre humanos e animais. Logo, o casal de T-Rex foi atraído ao acampamento em busca de seu filhote, caçando todos ali presentes. O grupo liderado pelo sargento Lerry Hogdson se separou do esquadrão durante a fuga, ficando perdido na mata. A equipe foi embora da ilha e lhes deixou à própria sorte, sem comida, comunicação ou abrigo. Por uma semana, eles dividiriam os poucos recursos que tinham, até que, por uma nefasta coincidência, seis dos oito membros da equipe morreram, vítimas de uma suposta intoxicação alimentar. Apenas Lerry e o cadete Finnigan haviam sobrado. O jovem se recusava a comer o alimento do resto da equipe, comendo apenas frutas que encontrava pelo caminho. Assim, ele ligou os pontos, percebendo que Hogdson era responsável por aquelas mortes.

Revirando seus pertences durante o sono do superior, ele se depara com diversos frascos de veneno, todos pela metade ou vazios. Ele confronta Hogdson, que diz que fez aquilo para salvar suas vidas, para que lhes restasse comida. Revoltado, ele avança sobre Lerry com sua faca, atingindo sua perna em cheio. Percebendo a desvantagem, o meliante sutilmente saca seu revólver e dispara duas vezes contra Finnigan, matando-o. O som havia sido ensurdecedor, e logo a fauna local viria em sua direção.

Mancando rumo a um lugar seguro, Hogdson percebe o balanço das árvores e espera a chegada de um T-Rex, ficando imóvel, quando, na verdade, estava sendo caçado por algo maior. Um Espinossauro colossal vinha em sua direção, e ele corre o máximo que pode, mas seus ferimentos lhe impediam. Quando a fera estava prestes a encerrar sua vida, um terceiro elemento aparece na situação. A T-Rex fêmea que lhe havia atacado no acampamento agora avançava contra seu futuro algoz. O Espinossauro tenta contê-la com a força de seus braços, mas a força da Rainha dos Dinossauros é tão absurda que se livra desse abraço fatal, atingindo o tórax do rival com uma cabeçada potente. Sem ar, o animal se expõe a uma mordida decisiva no pescoço, que encerra sua vida.

Enquanto o duelo se desenrolava, Hogdson corria rumo a um barranco, de onde escorregou e caiu vários metros abaixo. Ferido e ofegante, ele descansa. Seus crimes eram imperdoáveis, em parte cometidos por instinto de sobrevivência, em outra, por pura insanidade. Antes que ele pudesse continuar refletindo, alguns Compsognatos o cercaram.

Ele inicialmente os desprezou, afinal, não mediam mais que 30 cm e piavam como passarinhos de gaiola. Todavia, eles pareciam se multiplicar. Onde antes haviam dez, agora haviam 20, instantes depois 30, depois 40. Uma legião de pequenos carniceiros, convidados pela ferida aberta em sua perna.

Ele tentou apedrejá-los, mas não acertou nenhum dos muitos alvos à sua frente. Ele não poderia correr; seu corpo não lhe permitiria. Lutar era impossível, eram muitos deles. Seu karma havia lhe alcançado muito mais rápido do que ele poderia esperar. Ele imaginava viver por mais algumas décadas, com o peso da traição esmagando seus ombros, mas a vida lhe reservou algo diferente: um pagamento na mesma moeda.

Atacando-o por todos os lados, e, apesar de pequenos, o feriam seriamente. Ele os afastava com socos e chutes desajeitados, mas nada parecia capaz de deter o enxame de unhas e dentes que recaía sobre ele. Ele pagou por seus crimes, pedaço por pedaço.

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