JAPÃO: O VERDADEIRO IMPERADOR DA CULTURA POP

Sempre que pensamos em Impérios do Entretenimento, nossa mente viaja até os EUA, até Hollywood, com os grandes astros e heróis da cultura pop. Mas existe outro país que criou personagens tão icônicos quanto as lendas estadunidenses e, por vezes, tão rentáveis e populares quanto elas: o Japão, o verdadeiro Imperador da Cultura Pop. Como uma nação tão antiga tornou-se uma das maiores potências econômicas e culturais do mundo, abrindo-se a ele, sem nunca abrir mão de sua cultura, valores e, principalmente, sua identidade? Muitos impérios caem para nunca mais se levantar. O Japão, porém, nos ensinou que a verdadeira soberania não se conquista apenas com exércitos, mas com imaginação. De uma nação em cinzas em 1945 a um Trono Global de entretenimento, vamos desvendar como o espírito do Samurai se esconde por trás de cada controle de videogame e cada página de mangá.

MARVEL E DCTERROR

Rafael Silva

1/12/202636 min read

Capítulo 1: FORMAÇÃO DE UMA NAÇÃO

O embrião do Estado Japonês como conhecemos hoje se deu entre os séculos VI e VIII, com a introdução do budismo como religião central do país junto ao xintoísmo e do código de leis chinês como regimento interno da nação.

A linhagem imperial japonesa é a monarquia hereditária mais antiga do mundo, tendo origem em 660 A.C., com a subida do imperador Jimmu ao trono, declarando-se descendente direto da deusa Amaterasu, do Sol, uma das figuras centrais da religião xintoísta De 660 A.C. até os dias atuais, o Japão já teve 126 imperadores, alguns lendários, como Meiji, que, por meio de uma verdadeira revolução tecnológica, impediu que seu país fosse vítima do voraz imperialismo britânico, que já havia tomado a China, mas também de figuras controversas, como o Imperador Hirohito, que alinhou seu país ao Eixo, levando-o a cometer vários dos piores crimes da Segunda Guerra Mundial, em nome de sua autoridade “divina”.

No entanto, o que vale ressaltar nesse início é justamente o papel que a Monarquia e as religiões budistas e xintoístas tiveram na formação da cultura e do caráter nacional japonês.

Raízes Culturais

Certamente, todos devem conhecer os samurais (Bushi), tão centrais na tradição japonesa. A “lei” desses guerreiros era quase que inteiramente moldada em torno dos valores dessa religião: pureza e retidão moral, honra e respeito aos ancestrais e às autoridades, coragem e destemor à morte, enxergando-a não como um fim, mas como início de algo novo, o que deu origem ao desprezo absoluto dos samurais pela rendição ou captura, algo que acompanharia não só as forças armadas japonesas, como todo o seu povo por milênios.

Não à toa, a cultura do país enxerga o sucesso profissional e intelectual como o objetivo central da vida de todo o cidadão, o que explica o empenho, a disciplina e busca constante pela excelência que se tornaram marca registrada do país até os dias de hoje e que, em certos momentos, foram radicalizados.

Assim, sendo, a religião tornou-se estatal, e o Imperador, como chefe desse Estado, transformou-se em uma liderança não só política, como também divina, com muitos o enxergando como sobre-humano. Portanto, todos os valores morais da nação estavam simbolizados em um único homem, fazendo dele o exemplo a se seguir e respeitar.

Assim, a nação foi se desenvolvendo pelos milênios que se seguiram, como um país poderoso regionalmente e com uma cultura atrelada aos vizinhos chineses e coreanos, apesar dos constantes conflitos entre eles, desde 663 D.C. Porém, com o passar da História, a realidade se moldou, e o Japão deixaria de ser uma mera potência regional e tornar-se-ia um dos maiores impérios do mundo moderno, por pura e espontânea pressão (e algumas doses cavalares de racismo).

Após a Primeira Guerra do Ópio (1839-1842), em que os britânicos tomaram Hong Kong das mãos dos chineses e impuseram imensa humilhação sobre eles, um sinal de alerta soou pelo continente asiático. Assim, o Japão, como uma das ilhas mais distantes da Ásia, passou a modernizar-se e industrializar-se, com o intuito principal de manter as garras do imperialismo europeu longe de suas terras.

A chegada de Comodoro Matthew, oficial da Marinha estadunidense, que forçou o Japão a abrir seus portos ao comércio ocidental, apenas aumentou esse sentimento de impotência perante as grandes nações e acendeu a chama de um nacionalismo exacerbado e perigoso nos corações japoneses. Curiosamente, esse episódio também marcou o primeiro contato direto entre o Japão e o país que, ao mesmo tempo que se tornaria seu maior inimigo, também seria o seu mais notório aliado: os Estados Unidos da América.

Revolução e Guerra

A Revolução Meiji foi um período de profunda modernização e transformação no Japão, iniciado em 1868, que encerrou o governo feudal do Xogunato Tokugawa e restaurou o poder ao Imperador, que adotou o nome Meiji, transformando o país em uma potência industrial e militar, ocidentalizando suas estruturas políticas, econômicas e sociais e evitando uma colonização por potências estrangeiras, marcando a transição do Japão para um estado-nação moderno.

Desde então, o país passou a mesclar as estruturas econômicas e sociais do ocidente, com suas tradições e disciplina exemplar, e assim obteve um sucesso econômico notável. Prova disso é o crescimento acelerado do PIB, que passou a crescer em média 6,3% ao ano.

O crescimento foi impulsionado por uma industrialização rápida, com investimentos públicos e privados em setores como têxteis, construção naval, maquinaria e produtos químicos. Essa indústria emergente foi alimentada com matéria-prima de países vizinhos, o que deu início ao crescente imperialismo japonês. A Primeira Guerra Sino-Japonesa resultou na tomada de Taiwan pelo Império e, posteriormente, a Coreia também foi vítima de invasão. As ilhas japonesas eram pobres em recursos naturais e, por isso, era de vital importância para o fortalecimento industrial nacional que aquelas terras fossem tomadas. Porém, isso tornaria o Japão uma ameaça a países muito mais poderosos do que ele.

Esse fortalecimento notável da economia, somado à icônica vitória japonesa na guerra russo-japonesa (1904-1905), mostrou com clareza não só o tamanho do poder do Japão, como também o seu desejo de se colocar entre as maiores potências do mundo. No entanto, o racismo e o medo de que o Japão pudesse enfraquecer sua influência colonial na Ásia fizeram com que os europeus enxergassem os japoneses com certo desprezo, prova disso sendo a negativa no pedido de igualdade racial do Japão na Liga das Nações (equivalente da ONU, criada após a Primeira Guerra Mundial), gerando um ressentimento crescente entre asiáticos e europeus.

Em 1930, o país passou a sofrer com um estrangulamento econômico constante dos europeus por meio de embargos, que era muito sentido por um país que dependia quase exclusivamente do comércio marítimo com outras nações. Assim, o novo Imperador, Hirohito (1926-1989), decidiu aliar-se com dois países europeus que tinham ambições semelhantes ao Japão naquele período, Alemanha e Itália, assinando junto a eles o tratado Anti-Comintern, criado para “impedir o avanço da União Soviética na Europa e Ásia”, e assim se formou o Eixo. Já sabem o que vai acontecer a partir daqui, né?

O Japão invadiu a China uma segunda vez, dando início à Segunda Guerra Sino-Japonesa (1936-1945), na qual cometeu vários dos crimes mais brutais da história moderna. Assim como os colonizadores europeus, os japoneses passaram a aplicar uma ideologia de superioridade racial entre eles e os chineses, tratando-os como “seres inferiores”. O Japão manteve uma ocupação na Manchúria até sua derrota em 1945.

Quando a Segunda Guerra Mundial começou formalmente, o Japão continuou enfrentando os comunistas e republicanos chineses, ao mesmo tempo que tinha de lidar com a URSS e as colônias britânicas. De quebra, os EUA passaram a enviar navios com suprimentos para a região, em auxílio aos chineses. Isso arruinou definitivamente as relações entre ambos e fez com que o Imperador assinasse um pacto de auxílio militar com Alemanha e Itália, com o intuito de amedrontar os EUA e fazer com que não se envolvessem no conflito no Pacífico Sanções econômicas americanas batiam forte no Japão, forçando-os a abrir negociações com Washington a partir de 1941.

No entanto, em dezembro daquele mesmo ano, em um ato aparentemente insano, a Força Aérea Japonesa realizaria um ataque brutal à base naval de Pearl Harbor, onde caças e submarinos convergiram em um ataque massivo e surpresa contra a Marinha Americana, resultando na morte de 2403 pessoas. Isso motivou os EUA a definitivamente entrarem na guerra, e dali em diante, o Japão viveria os dias mais sombrios de sua história.

Enfrentando um país muito mais poderoso e experiente em combate, o Japão resistiu por pouco tempo e logo passou a sofrer derrotas avassaladoras, como na Batalha de Midway, em que perdeu mais de 3000 soldados e múltiplos navios e aviões de batalha. Nesse período, os famosos pilotos Kamikaze se tornaram populares. Homens que, ao perceber a derrota iminente, simplesmente se suicidavam ao chocar suas aeronaves com alguma embarcação ou avião inimigo, em um ato que só pode ser explicado como o ápice do fanatismo ideológico. A derrota era uma vergonha, e viver com ela era um sofrimento insuportável para um guerreiro japonês.

A propaganda americana apenas fortaleceu o racismo contra os japoneses, com cartazes simplesmente inacreditáveis, como esse mostrado abaixo, que os retrata como primatas bestiais:



A guerra seguiu, e cada vez mais o país sucumbiu ao poder combinado dos Aliados, trazendo fome, morte e miséria ao povo japonês, e uma crescente desconfiança no poder de Hirohito, que agora parecia não passar de um refém nas mãos de seus generais. As derrotas perante os Aliados nas Batalhas de Iwo Jima e Okinawa e a invasão do Exército Vermelho na Manchúria, que encerrou a ocupação na China, deixaram as ilhas japonesas expostas a bombardeios incessantes, que levaram mais de 100 mil civis à morte, apenas em Tóquio. Em outras 66 cidades, os números variam entre 350 e 500 mil mortes.

No entanto, o Imperador e seus generais recusaram-se a se render, mesmo que o país não tivesse nem soldados nem indústria para continuar resistindo. Então, em 6 e 9 de agosto de 1945, os EUA testaram pela primeira e até hoje última vez em um campo de batalha o poder das bombas atômicas, que varreram as cidades de Hiroshima e Nagasaki, matando de imediato cerca de 160 mil pessoas. Como o único país na história a sofrer com tamanho poder, o povo japonês obteve uma espécie de fascínio mórbido pelo terror nuclear, que faria parte de sua cultura pelas próximas décadas.

Após esses massacres, o Imperador enfim se rendeu, sendo forçado pelo Exército Americano a anunciar a rendição na rádio nacional, algo inédito até então. Além disso, o Soberano foi obrigado a admitir ser humano, acabando com a aura divina que permeava a Monarquia japonesa nos últimos 2 mil anos. Desde então, seu poder seria somente simbólico, e nunca mais um imperador levaria o país à ruína, como Hirohito havia feito.

Ainda em 1945, os EUA, algoz do Japão, passaram a financiar a reconstrução do país, com um investimento de 15 bilhões de dólares, voltado à recuperação das cidades e reestruturação da indústria, fazendo com que rapidamente o país voltasse aos eixos (o investimento foi contínuo até 1952). Havia, é claro, um estranhamento por parte das massas, mas não havia escolha senão aceitar o auxílio.

Obviamente, os estadunidenses tinham seus interesses, vendo o Japão como um aliado em potencial para seu novo conflito ideológico com a URSS, inclusive usando-o como base de operações para a Guerra da Coreia (1950-1953).

Desde então, as relações entre os antigos inimigos passaram a estreitar-se, e, com auxílio americano, o Japão entraria em uma espiral de desenvolvimento histórico, pavimentando seu caminho para tornar-se definitivamente um dos protagonistas do xadrez global, finalmente exportando sua arte e sua cultura pelos quatro cantos do mundo.

Enfim, chegou a hora de ver como todos esses séculos de história influenciaram a cultura pop japonesa e sua ascensão pelo mundo.

Capítulo 2: O nascimento e evolução do cinema japonês

A Sétima Arte nasceu em 1888, no Reino Unido. "Roundhay Garden Scene", o curta-metragem de apenas dois segundos filmado em Leeds, foi o primeiro contato do público com essa que viria a se tornar, possivelmente, a maior indústria do entretenimento global.

O Japão produziu seu primeiro filme, Geisha no te odori (Bailado de Geishas), em 1899, um curta-metragem apresentando uma apresentação da dança tradicional Gueixa. Apesar de simples, esse curta significou a entrada do país na emergente indústria cinematográfica.

A indústria cresceu rapidamente, produzindo filmes mudos de aventura e história de samurais, influenciados pela rica cultura e história japonesa. Nos anos 1930, o Estado passou a incentivar e financiar filmes com viés patriótico, o que resultou no aumento gradativo das produções.

Porém, a produção mais conhecida desse período, Madamu to Nyôbô (1931), foi notória por nadar contra essa maré e fazer uma comédia familiar aos moldes do cinema estadunidense, o que gerou certa revolta no país. Esse também foi o primeiro filme totalmente falado produzido no país. Outros sucessos, como Filho Único (1936) e A Humanidade e seus Balões de Papel (1937), foram importantíssimos para a solidificação do cinema japonês.

A partir de 1937, cada vez mais filmes com viés militarista passaram a ser produzidos, como A Terra (1939), que representava o sofrimento dos soldados e do povo japonês durante a Guerra Sino-Japonesa. Foi no contexto da guerra que o maior expoente do cinema japonês surgiu, Akira Kurosawa, que seria responsável por tornar o cinema feito no Japão conhecido no Ocidente.


A Era Kurosawa

Em 1943, Akira fez sua estreia na direção, com Saga Judô (o conceito de saga tornaria-se muito popular no país futuramente; não é à toa que seus animes têm mais de 1 mil episódios…), drama histórico sobre a luta pela supremacia entre os praticantes do judô e jiu-jitsu Seu primeiro longa pós-guerra foi Não Lamento Pela Minha Juventude, de 1946. A trama retrata Yukie, filha de um professor universitário, em suas revoltas contra o crescimento do fascismo em seu país nos anos 1930. Essa nova leva de filmes nasceu fruto da nova política de censura estadunidense em sua ocupação no Japão: quebra dos valores tradicionais e patrióticos do antigo regime.

Assim, muitos diretores, como o próprio Kurosawa, passaram a trabalhar constantemente com a Toho (A “MGM” japonesa), que, na época, foi o estúdio mais “liberal” e poderoso do Japão. Foi em parceria com a Toho que Akira produziu seu primeiro sucesso internacional, Rashomon (1950).

O suspense é a mistura da estética e da tradição japonesa, como os thrillers policiais americanos, com um tom bastante poético. Na trama ambientada no Japão Medieval, um lenhador e um bandido são acusados de estuprar uma mulher e assassinar seu marido. A mulher, o lenhador, o bandido e o espírito do samurai contam suas versões da história, mas cada uma contradiz a anterior. Essa contradição deu origem ao “Efeito Rashomon”, usado em situações na arte ou na vida, em que não é possível saber a verdade, devido à diversidade de versões com as quais ela se apresenta.

Quanto a isso, Akira comentou o seguinte: “Os seres humanos são incapazes de serem honestos quando falam de si próprios. Eles não sabem falar sem fantasiar ou embelezar. Este roteiro trata desses seres humanos”. Nesse filme, Kurosawa subverteu o milenar conceito de honra japonês, em uma parábola entre dois covardes, incapazes de assumir seus erros. Rashomon bateu recordes de bilheteria na época e fez com que o cinema japonês passasse a ser consumido fora do país. Prova disso foram as diversas obras de Hollywood que se baseiam em seu roteiro: Quatro Confissões (1964), Os Suspeitos (1995) e Garota Exemplar (2014).

Apesar desse sucesso, essa ainda não havia sido a cereja do bolo da carreira de Kurosawa. Em 1954, com produção da Toho e direção de Akira, Os Sete Samurais chegava aos cinemas, para revolucionar definitivamente o cinema do Japão.

O épico de três horas retrata um vilarejo de camponeses pobres no Japão feudal, que, ameaçados por bandidos que roubam suas colheitas, contratam um grupo de sete samurais (ronins) para defendê-los, ensinando-os a lutar em troca de comida, resultando em uma épica história de honra, sacrifício, luta de classes e heroísmo contra a adversidade. Aqui, os valores antigos, pelos quais o Japão tornou-se conhecido no mundo, reapresentaram-se. Toshiro Mifune, responsável por interpretar Kikuchiyo, transformou-se em um dos atores mais populares do país, chegando a receber um convite de George Lucas nos anos 1970 para interpretar Obi Wan Kenobi em Star Wars: Uma Nova Esperança.

Como pudemos ver, o cinema japonês deu seus primeiros passos rumo ao estrelato, por meio de dramas que simbolizavam seus valores, traumas e subversões. No entanto, ainda falta falar da franquia cinematográfica que verdadeiramente introduziu o Japão no ciclo da cultura pop mundial: Godzilla.


O Kaiju Bilionário

O pós-Segunda Guerra Mundial ficou marcado pela onda de filmes sci-fi, com seres de outros mundos, mutantes e monstros gigantes, algo que até mesmo a Universal, consagrada por seus filmes de monstros clássicos, já vinha explorando. No entanto, para o Japão, isso tinha um significado muito mais profundo. Dirigido por Ishiro Honda, Godzilla (1954) serviu como a síntese do terror do povo japonês perante a destruição irrefreável da Segunda Guerra Mundial. O poder incomparável do Kaiju, que mostrava-se imune a tiros de aviões, tanques e qualquer outro tipo de arma humana, simbolizava a impotência de um povo diante de um poder inalcançável para ele. Nos ataques do monstro, Honda mostra cidades devastadas, pessoas correndo para abrigos subterrâneos, enquanto explosões luminosas irradiavam sob todo o país, em clara referência aos bombardeios americanos, ocorridos 9 anos antes.

Honda viu Godzilla como um meio para absorver na cultura japonesa o ataque das bombas atômicas.

Saindo do contexto histórico, a obra estrelada por Takeo Murata foi a primeira de uma leva de filmes de baixo orçamento produzidos pela Toho, que usavam mais sugestões e do terror psicológico para causar medo. Na maior parte do longa, a criatura permanece submersa, aparecendo de corpo inteiro em raros momentos (algo que Tubarão, de Steven Spielberg, iria popularizar duas décadas depois).

Após o tremendo sucesso do longa, uma sequência rapidamente foi providenciada, com “Godzilla Ataca Novamente” chegando aos cinemas já em 1955. Ao todo, apenas nas mãos da Toho, Godzilla estrelou 33 filmes, sendo o último deles o ótimo Godzilla Minus One, que nos trouxe uma das versões mais próximas da original de 1954, com 50 metros de altura. A versão mais monstruosa já feita do monstro foi concebida em Godzilla Earth, com incríveis 318 metros de altura. Na obra, o monstro tem mais de 20 mil anos de idade e atingiu o máximo de seu tamanho.

Nos EUA, quatro filmes do monstro foram feitos, com um viés um tanto diferente. Se para os japoneses, Godzilla é um símbolo de morte e destruição, para os estadunidenses, especialmente no recente Monsterverse, ele é visto como um guardião da humanidade (apesar de matar muitos humanos enquanto tenta salvá-los…).

O Kaiju japonês chegou a trocar alguns sopapos com outra fera americana, o King Kong, em três ocasiões. A primeira, em 1962, em que os duelos entre os dois titãs são no mínimo questionáveis… Já mais recentemente, tivemos Godzilla vs. Kong (2021) e Godzilla e Kong: O Novo Império (2024), com duelos fenomenais entre ambos, que dividiram a torcida dos fãs.

A franquia japonesa de Godzilla arrecadou um total de 67,84 bilhões de ienes, apenas em bilheteria, tornando-se um dos maiores sucessos comerciais do país no ramo do entretenimento.

No entanto, nem só de dramas e monstros se faz o cinema japonês. A partir dos anos 1960, o cinema nacional evoluiu ainda mais, o que permitiu que, nas décadas seguintes, ainda mais produções notáveis surgissem.


A Magia das Animações

O Estúdio Ghibli, fundado em 1985 por Hayao Miyazaki, Isao Takahata e Toshio Suzuki, apresentou ao mundo um estilo completamente diferente de animação, com narrativas que misturavam fantasia com temas incrivelmente humanos e naturais, somados a um visual deslumbrante, baseadas no folclore e na literatura clássica japonesa, além, é claro, dos mangás.

O primeiro grande sucesso do estúdio, e também o primeiro a usar computação gráfica, foi A Princesa Mononoke, de 1997. A trama segue o príncipe Ashitaka, amaldiçoado por um deus javali, que busca a cura e se vê no centro de um conflito épico entre a industrializada Cidade do Ferro, que destrói a floresta para obter minérios, e os espíritos da natureza, defendidos por San, a "Princesa Mononoke", uma jovem criada por lobos.

Além de uma nota vistosa de 8,3/10 no IMDB, o longa-metragem conta com premiações como o Japanese Academy Prize, na categoria de Melhor Filme. No entanto, esse nem de longe seria o auge do estúdio nos cinemas; ainda haveria de vir a animação que tornaria o estilo Ghibli de fazer animações uma febre global (e possivelmente tornou possível você ter usado esse filtro no seu Instagram, não disfarce, todo mundo usou aquilo…).

Em 2001, chegava aos cinemas A Viagem de Chihiro, sob direção de Hayao Miyazaki. Viagem de Chihiro segue Chihiro, uma menina de 10 anos que, ao se mudar, acaba em um mundo espiritual secreto com seus pais, que são transformados em porcos após comerem comida de um banquete. Para resgatá-los e voltar para casa, Chihiro precisa trabalhar na casa de banhos da bruxa Yubaba, que rouba seu nome, transformando-a em "Sen".

Sua narrativa vívida e seu estilo de animação novamente sublime renderam ao filme o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, trazendo pela primeira vez esse título ao Japão. A obra é até hoje considerada uma obra-prima do gênero, um voo glorioso pela imaginação, baseado na ideia de “Portal Mágico” de tantas ficções infantis.


Terror Sem Limites

Todo mundo já deve ter visto pelo menos uma vez no YouTube aqueles vídeos sobre lendas urbanas japonesas e pensado: isso sem dúvida renderia um ótimo filme. O folclore do país é, seguramente, um dos mais ricos e horripilantes do mundo, com lendas macabras como Kuchisake-onna (Mulher da Fenda), Aka Manto (Capa Vermelha) e Hanako-san (a “Loira do Banheiro” japonesa). Com tantas lendas icônicas, seria impossível que o cinema japonês não explorasse a fundo tais conceitos.

Pode-se dizer que cinema de “terror” iniciou-se nos anos 1950 com Godzilla, mas teve seu grande boom com os J-Horror dos anos 1990, como um contraponto ao avacalhe de continuações slasher do cinema estadunidense.

Sob direção de Hideo Tanaka, Ringu (1998), baseado no livro homônimo de Kôji Suzuki (1991), tornou-se, talvez, o filme de terror mais icônico já feito no Japão, servindo inclusive de inspiração para a famosa franquia O Chamado, da saudosa Samara Morgan. Na trama, estudantes passam a receber um vídeo estranho, com anéis de luz e uma estranha garota penteando seus cabelos, e uma última mensagem: vocês morrerão em sete dias. Cabe à protagonista, Reiko, desvendar o passado obscuro por trás daquela fita para, assim, salvar sua própria vida e a de seus amigos. O conceito inovador foi um sopro de inovação em meio à mesmice hollywoodiana e rendeu ao Japão a pecha de possuir um cinema de terror mais “cult”, voltado para lendas e assombrações bem trabalhadas.

Obviamente, seria impossível falar de todos os gêneros, diretores e obras que moldaram o grandioso cinema japonês, mas, para encerrar dignamente este bloco, vamos dispor uma lista das obras mais premiadas do cinema japonês:


Capítulo 3: Mangás/Animes: A Face de uma Nação

Eis a parte que todos estavam esperando. Muitos no Brasil tiveram seu primeiro contato com a cultura japonesa por meio de lendas como Goku, Naruto, Jaspion ou Power Rangers, por meio da TV Globinho ou dos desenhos do SBT. Mas muitos não sabem o quão antiga é essa tradição no Japão e, especialmente, como ela se moldou ao longo dos anos.

Começando pelos mangás, suas origens advêm do século XII, por meio dos Emakimono, tipos de pergaminhos ilustrados, que contam histórias conforme vão sendo desenrolados. Suas histórias iam de romances e da vida cotidiana dos camponeses até o sobrenatural e as lendas folclóricas. Em 1814, Katsushika Hokusai popularizou o termo mangá com seu livro de desenhos, o "Hokusai Mangá". Eis algumas artes desse, que viria a se tornar um dos maiores artistas da história japonesa:

Todavia, o formato em quadrinhos como conhecemos hoje só viria a surgir após uma importantíssima revolução ocorrida nos EUA. Em 1896, um verdadeiro fenômeno literário nascia em solo americano, quando Frank Munsey, então editor da revista The Argosy, decidiu adaptar suas revistas para um novo formato, criando assim as Pulp Comics, HQs feitas com um papel de baixíssima qualidade, por preços igualmente baixos, em torno de 5 a 25 centavos. Suas páginas ficavam amareladas e quebradiças com facilidade e, muitas vezes, eram descartadas pouco após a leitura, mas aquelas pequenas aventuras de cowboys, detetives e seres fantásticos foram o primeiro contato de milhões de jovens com aquela que se tornaria uma das indústrias mais poderosas do entretenimento.

O sucesso foi instantâneo, com a The Argosy chegando a 1 milhão de cópias vendidas mensalmente, consagrando um modelo de fácil produção e altíssima rentabilidade. Foi nas páginas amarelas da revista que alguns dos nomes mais icônicos da cultura pop clássica nasceram, como Tarzan e Zorro.

No Japão, a cultura passou a popularizar-se graças a Shonen Club, uma revista focada em garotos jovens (especialmente entre 10 e 19 anos), e que, até os anos 1930, viria a evoluir para um formato semelhante aos pulps estadunidenses, com traços mais simples, papel barato e produção massiva. Porém, uma verdadeira revolução nasceria após a derrota japonesa na Segunda Guerra Mundial, e ela se daria por meio de um nome que hoje carrega o título de “deus dos mangás”: Osamu Tezuka.


Em 1947, Tezuka adaptou a obra “Ilha do Tesouro” do autor britânico Robert Louis Stevenson, dando origem à “Nova Ilha do Tesouro”. A trama segue um garoto chamado Pet (equivalente a Jim Hawkins no original), que encontra um mapa do tesouro entre os pertences de seu falecido pai. Determinado a encontrar o tesouro, ele procura um capitão, amigo da família, para levá-lo à ilha.

Tezuka baseou-se no estilo da Disney em suas animações, com múltiplos quadros, para dar sentido de movimento, além dos olhos grandes, que se tornaram marca registrada dos quadrinhos japoneses. A Nova Ilha do Tesouro foi um bestseller imediato, vendendo 400 mil cópias, alavancando definitivamente a carreira do quadrinista.

Em 1952, Tezuka viria a criar seu personagem mais icônico: Astro Boy, que seria o primeiro contato do público com algo que se tornaria recorrente na cultura pop japonesa, a coexistência entre humanos e robôs.

As HQs contam a história de Atom (Astro), um poderoso menino-robô criado pelo Dr. Tenma para substituir seu filho morto, Tobio, mas é rejeitado e vendido para um circo, onde é explorado antes de ser resgatado pelo Professor Ochanomizu, que o torna um herói com habilidades para lutar contra o mal e proteger humanos e robôs, explorando temas como identidade, humanidade e o futuro da convivência entre espécies, tudo em um mundo futurista onde robôs e humanos coexistem.

Novamente, Tezuka alcançou o sucesso, e Astro Boy virou uma febre não só no Japão, como também foi adaptado para outros países, incluindo o Brasil, tendo diversas edições republicadas pela JBC. Também foi ele um dos primeiros heróis de mangá a receber um “anime” ou desenho animado televisivo. Iniciado em 1963, Astro Boy teve transmissão da TV Fuji e estendeu-se até 1966, com 1993 episódios.

Os animes já existiam no Japão desde 1903 e vinham fortalecendo-se desde 1917, com Jun'ichi Kōuchi criando Namakura Gatana (A Espada Sem Corte). Porém, foi Astro Boy quem não apenas tornou o gênero famoso, como também serviu de ponte entre as páginas dos mangás e as telas de TV de todo o Japão e, posteriormente, do mundo.


As Maiores Lendas

Mas, já que entramos no campo de adaptações de mangás para animes, chegou o momento de falar sobre os maiores ícones do gênero: Naruto, Goku e Cia. Daqui em diante, iremos dissertar simultaneamente sobre o mangá e o anime que o adaptou, de forma a ressaltar a relação recíproca entre as duas artes, que foi tão decisiva para a popularização desse gênero.


Dragon Ball:

O lendário Goku, tido por muitos como o personagem mais poderoso dos animes, surgiu nas HQs em 1984, criado por Akira Toriyama e publicado na revista japonesa Weekly Shōnen Jump.

Dragon Ball segue Son Goku, um garoto com rabo de macaco, desde sua infância inocente até se tornar o maior guerreiro do universo, focado em proteger a Terra de ameaças cósmicas, com a jornada começando com a busca pelas lendárias Esferas do Dragão com a inteligente Bulma, evoluindo para lutas épicas, descobertas sobre sua origem Saiyajin e amizades duradouras (que todos já saibam a história, mas sempre vale relembrar).

Com mais de 800 episódios, ao longo de seis séries principais. Nos mangás, mais 300 milhões de cópias foram vendidas, sendo um dos maiores sucessos da história da indústria dos quadrinhos no Japão. Além de incríveis transformações, cenas de ação eletrizantes e trilha sonora icônica, a série traz em sua alma valores como superação e aperfeiçoamento pessoal, dois elementos típicos da cultura japonesa.


Naruto:

Concebido pelas mãos de Masashi Kishimoto, o Ninja da Aldeia da Folha nasceu em 1999, chegando à TV apenas 2 anos depois, dando início a um anime que, no total de suas duas séries (Naruto e Naruto Shippuden), tem 720 episódios, além de 11 filmes oficiais, lançados entre 2004 e 2015.

Na trama do primeiro anime, Naruto Uzumaki, um órfão rejeitado em sua vila ninja que sonha em ser Hokage (líder), descobre ter a Raposa de Nove Caudas selada dentro de si e forma o Time 7 com Sasuke e Sakura, enfrentando missões, inimigos como Orochimaru e a Akatsuki, e aprofundando-se no passado do mundo ninja e na rivalidade com Sasuke, tudo enquanto busca reconhecimento e laços de amizade, culminando em grandes conflitos e na luta pela paz no mundo shinobi.

Um ponto que vale ressaltar é o famoso Oiroke, jutsu que transforma Naruto em uma garota seminua (às vezes nua, mas oculta por uma nuvem), que serviria de inspiração para um lado um tanto obscuro da indústria de mangás, cujo nome começa com H e termina COM Y, e com certeza você já viu… digo, recebeu de um amigo e apagou imediatamente. Desde a ascensão desse subgênero com o crescimento da internet, os personagens centrais da série, especialmente Naruto e sua esposa, Hinata, receberam dezenas de milhares de adaptações, para um mercado que hoje é considerado extremamente problemático no Japão, mas que inegavelmente (e infelizmente) é tido como uma das referências quando se fala de sexualidade na cultura japonesa. Bom, voltemos ao assunto mais leve, antes que o clima pese…

Ao lado de Goku, o jovem ninja viria a se tornar um dos maiores ícones da cultura pop japonesa, gerando, inclusive, uma rivalidade crescente entre ambos. Em combate, é inegável que Goku é mais poderoso, com poderes em níveis planetários, mas, no que se refere à qualidade de escrita de ambos os personagens, a questão passa para um campo totalmente opinativo. E aí, qual deles você prefere?


Cavaleiros do Zodíaco:

Criado por Masami Kurumada, em 1986, o mangá Cavaleiros do Zodíaco tornou-se um dos maiores sucessos dos anos 1980, recebendo sua adaptação em animação no mesmo ano. No Brasil, a série só deu o ar da graça em 1994, com transmissão da Rede Manchete.

Os Cavaleiros do Zodíaco (Saint Seiya) seguem jovens guerreiros, os Cavaleiros, que vestem armaduras místicas baseadas em constelações e lutam para proteger a reencarnação da deusa Atena, Saori Kido, contra forças malignas que ameaçam a Terra, com foco em temas como amizade, honra e sacrifício, em sagas como a do Santuário, Poseidon e Hades, em que Seiya de Pégaso e seus companheiros (Shiryu, Hyoga, Shun, Ikki) defendem a humanidade. A mistura ousada entre a mitologia grega e japonesa gerou um dos universos mais ricos dos animes, com uma proporção cósmica até então nunca vista.

Como sempre, é possível perceber a conexão entre o universo da série e as tradições japonesas, que podem ser percebidas no viés cósmico e espiritual da série, além da moralidade de seus protagonistas.

A série principal conta com 114 episódios entre 1986 e 1990, além do spin-off de Hades, que possui 31 episódios, lançados entre 2002 e 2008.


One Piece

O maior fenômeno da história dos mangás japoneses. Iniciado em 1997, a saga do pirata Luffy vendeu ao todo cerca de 500 milhões de cópias, garantindo-lhe um lugar no pódio de HQs mais vendidas da história, ao lado de Batman e Superman, que foram criados no final dos 1930, o que engrandece ainda mais o feito do mangá. Até mesmo o Guinness Book reconheceu o tamanho dessa conquista.

Sua adaptação para anime se deu em 1999 e continua até os dias de hoje, totalizando mais de 1150 episódios (desafio qualquer um a conseguir assistir todos). Por incrível que pareça, One Piece NÃO é o anime mais longo já produzido e, inclusive, não passa nem perto de ser. Esse título pertence a Sazae-san, em exibição desde 1969 e com incríveis 8500 episódios lançados (os autores sem dúvida têm criatividade).

A trama de One Piece segue Monkey D. Luffy, um jovem com corpo de borracha que sonha em se tornar o Rei dos Piratas, navegando pelos mares com sua tripulação, os Chapéus de Palha, em busca do tesouro lendário "One Piece", deixado pelo antigo Rei dos Piratas, Gold D. Roger, enquanto vivem aventuras e enfrentam inimigos em um mundo vasto (assim como a série) e perigoso (assim como quem conseguiu assisti-la inteira).


Demon Slayer:

Saído da mente de Koyoharu Gotouge, Demon Slayer é um dos sucessos mais recentes dos quadrinhos japoneses, chegando às bancas em 2016, e já em 2019, tornou-se um anime. Seu sucesso foi tamanho que, em 2020, seus mangás venderam impressionantes 82 milhões de cópias em um único ano, superando, com praticamente o dobro de vendas, o vice-campeão, One Piece.

A trama de Demon Slayer segue Tanjiro Kamado, um jovem bondoso que, após sua família ser massacrada por demônios e sua irmã Nezuko transformada em um deles, se junta ao Corpo de Caçadores de Demônios no Japão da Era Taishō para encontrar a cura para Nezuko e vingar sua família, enfrentando demônios poderosos e descobrindo o Rei Demônio Muzan Kibutsuji.

A saga de Kamado chegou aos cinemas em 2025, com Demon Slayer e o Castelo Infinito, e consagrou-se como a maior bilheteria de um filme baseado em anime de todos os tempos, faturando 1 bilhão de dólares em bilheteria. Muito além de bilheteria, a obra conquistou uma nota consistente de 8,4 no IMDB, sendo também um dos filmes mais bem avaliados do gênero na plataforma.


Pokémon:

Eis aqui o caso mais curioso e seguramente o de maior sucesso financeiro desta breve lista. Pokémon não nasceu nem de um mangá, e muito menos de um anime, e sim de um jogo de Game Boy lançado em 1996, e que deu origem às outras duas mídias, que, em conjunto, fundaram o império mais lucrativo da cultura pop. Seu lucro estimado (somando filmes, séries, mangás, jogos, produtos de todos os gêneros) é de 115 bilhões de dólares, colocando-se à frente de outros nomes colossais, como Star Wars, Harry Potter, MCU, Hello Kitty (que também é japonesa) e outros gigantes do entretenimento.

O primeiro contato do nosso saudoso povo tupiniquim com Pikachu e companhia se deu em 1999, no Programa da Eliana, da Record. A história acompanha a jornada de Ash Ketchum, um garoto que sonha em ser um Mestre Pokémon, viajando por diversas regiões com seu parceiro Pikachu para desafiar Líderes de Ginásio, participar de Ligas Pokémon e capturar novos monstros, enquanto frustra os planos da Equipe Rocket, uma organização vilanesca que tenta roubar Pokémon raros, tudo isso enquanto faz amigos e aprende sobre o mundo Pokémon.

A série evoluiu, introduzindo novos protagonistas e arcos, como em Pokémon Horizontes, que foca em Liko e Roy em busca dos "Seis Heróis" de Lucius, mas a essência de aventura, amizade e superação permanece.

Pokémon supera One Piece em número de episódios, com mais de 1300 episódios ao longo de 28 temporadas. Claro que existem os famosos capítulos perdidos, que todos nós já ouvimos falar no YouTube (e provavelmente nunca iremos assistir, porque provavelmente são falsos), mas a forma com a qual a Ash permanece com o corpo de um garoto de 10 anos, quando mais de 25 anos já se passaram, sem dúvida merece uma explicação plausível…


Fãs pelo Mundo

E é claro que todas essas histórias incríveis teriam um público altamente engajado para acompanhá-las. A Marvel tem seus marvetes, a DC, seus DCnautas (ao qual estou incluso), e os animes como um todo possuem um enorme fandom apelidado carinhosamente de Otakus.

Por anos, esse termo foi usado de maneira pejorativa, para referir-se a pessoas fissuradas em animes e mangás, e que não saíam de casa por conta disso. Os nerds dos quadrinhos estadunidenses, por anos, sofreram com o mesmíssimo estigma, que, com o passar dos anos, foi se amenizando, uma vez que tal indústria passou a ser consumida por praticamente todos, em maior ou menor escala.

Hoje, esse imenso grupo conta com milhões de fãs no Japão e no mundo, com o Brasil sendo parte considerável desse grupo. Em 2024, a revista Geek Power constatou em pesquisa que cerca de 59,4% dos brasileiros assistem a animes semanalmente, mostrando a força e a vastidão desse grupo e dessa cultura, mesmo em um país com uma cultura e língua tão diferentes. Essa é uma prova cabal do poder que a arte possui de unir povos distintos.

Como pudemos ver, não restam provas de que o Japão é o verdadeiro Imperador da Cultura POP, tendo em suas mãos os personagens mais rentáveis, as séries mais extensas e um dos públicos mais fiéis. Mas ainda resta uma faceta desse Reino do Entretenimento, que precisa certamente ser analisada, para que possamos demonstrar essa verdade de maneira incontestável para você, leitor: os games. Mas antes disso, confira a tabela dos mangás mais vendidos de todos os tempos.


Capítulo 4: Games: O Império mais rentável do Japão

Muito antes de sonhar com o PS5 e XBOX Series (e ter pesadelos só de pensar em ter que pagar dois salários mínimos para tê-los), os videogames tiveram seu início, em 1972, quando Ralph Baer desenvolveu seu Magnavox Odyssey. O aparelho conectava-se ao aparelho televisivo, sendo possível jogar por meio da inserção de cartuchos, jogos simples com linhas e pontos, totalizando 28 jogos disponíveis em sua primeira versão.

O Japão entrou de vez na indústria dos games apenas três anos depois, com TV Tennis Electrotennis, um simples jogo de tênis para Magnavox, mas que serviu como Marco 0 para uma das indústrias mais poderosas do mundo.

Em 1983, os games passaram por uma crise brutal, com a indústria do gênero colapsando nos EUA devido à saturação. Foi nesse momento que a Nintendo, a maior empresa de videogames do Japão (e possivelmente do mundo), foi responsável por salvar a indústria.

A Nintendo surgiu em 1889, fundada por Fusajiro Yamauchi. Na época, obviamente não havia videogames. O nicho da empresa eram cartas para jogos de carteado tradicionais no Japão. Com o passar dos anos, a empresa modificou seu foco. Nos anos 1960, ela passou a investir em brinquedos inovadores, como o Ultra Hand.

Sua ascensão na área dos jogos eletrônicos se deu em 1977, com o lançamento de seu primeiro console: o Color TV-Game.

No dito crash de 1983, a empresa agiu inteligentemente, ocupando o vácuo deixado pela indústria estadunidense e lançando o console mais lendário da década de 1980: NES (Nintendo Entertainment System). O console 8 Bits trouxe consigo jogos lendários, como Super Mario Bros. e The Legend of Zelda. Com esses títulos, o NES vendeu 61 milhões de unidades ao redor do mundo, dando um novo gás aos consoles e entregando ao Japão as rédeas dessa indústria crescente.

Curiosamente, esse sucesso comercial coincidiu com um feito histórico na história japonesa: tornar-se o segundo maior PIB do mundo, superando a URSS e ficando atrás apenas dos EUA. Os anos 1980 foram o auge do poder econômico e cultural do Japão, e os games foram um reflexo desse apogeu.

Em 1989, o Game Boy entra em cena, trazendo um conceito inédito (ou quase): a possibilidade de jogar videogame em literalmente QUALQUER lugar, tornando-se o responsável por popularizar essa novidade. Entre seus maiores sucessos, temos: Tetris, Pokémon Red/Blue/Gold/Silver, The Legend of Zelda: Link's Awakening, Super Mario Land 2, Metroid II e, no GBA, Wario Land 4, Castlevania: Aria of Sorrow, Mario Kart: Super Circuit e Pokémon FireRed/LeafGreen.


PlayStation vs Xbox

Em 1994, a Nintendo ganhou uma rival à altura dentro do país: a Sony e seu mais novo console, o PlayStation. O console trouxe uma verdadeira revolução, com gráficos e jogabilidade muito mais fluida, e jogos lendários como Metal Gear Solid, Tomb Raider, Resident Evil (saga favorita do nosso saudoso Mago Davy Jones) e Castlevania: Symphony Of The Night (que, por sinal, é um jogaço).

Em 2001, a Sony lança o PlayStation 2, que se tornou o console mais vendido de todos os tempos, com 160 milhões de unidades vendidas ao redor do mundo. Com games como GTA: San Andreas, Mortal Kombat e God Of War (todos fantásticos…), o console sagrou-se como o videogame mais nostálgico e icônico de todos os tempos, tendo feito parte da vida de milhões de pessoas, inclusive em nosso país.

A Nintendo acabou por perder força na atualidade, devido aos preços absurdamente altos de seus jogos e seus processos nada camaradas contra qualquer que ouse fazer alguma produção com seus personagens (por favor, não me processem também…). Ainda assim, foi ela a responsável pelo lançamento de um novo console, que ampliou a concorrência entre PlayStation e Xbox, o Switch, em 2017, que permite ao jogador passear por diversos clássicos da empresa, em qualquer lugar.

O triunfo japonês sobre a indústria estadunidense de games é inegável. Além de ter salvo a mídia do colapso nos anos 1980, seus consoles historicamente vendem mais, a exemplo do próprio PS5, que vendeu 84 milhões de exemplares até 2025, contra 23 milhões do Xbox. Não queremos desencadear uma nova guerra de consoles por aqui, mas fato é fato…

Todavia, não apenas de vendas, consoles e empresas se fazem os jogos, e sim, de games e personagens. Na sequência, vamos conhecer alguns personagens icônicos apresentados em jogos japoneses e, por meio deles, a história de suas franquias.


Sonic

O ouriço da Sega é conhecido como um dos personagens mais rápidos da ficção e o ícone máximo da empresa, sendo seu personagem mais rentável, com mais 1,5 bilhão de jogos vendidos. Sonic foi criado por Yuji Naka e Naoto Oshima para substituir Alex Kidd como mascote da Sega. Ele deu as caras pela primeira vez em Sonic: The Hedgehog, de 1991, lançado para Mega Drive.

A maioria dos jogos do Ouriço são no formato 2D de rolagem, em que o velocista precisa impedir seu arqui-inimigo, Robotinik, de dominar o mundo com seus robôs. Muitas vezes, ele atua ao lado de seu melhor amigo, Tails, nessas missões.

Sonic possui mais de 40 jogos e tornou-se um dos nomes mais icônicos da cultura pop. Sua fama foi muito além dos videogames, chegando aos quadrinhos e até mesmo ao cinema.

Nas telonas, o Ouriço Azul possui uma trilogia, iniciada em 2020 e concluída em 2024. Em um dos raros casos em que uma adaptação de jogo realmente agradou as pessoas, a trilogia foi um tremendo sucesso, investindo muito na comédia.

Porém, assim como os outros citados, Sonic sofreu com os mods e também com as fanfics da internet. Quem não ouviu falar do famoso Sonic EXE? Uma fita do jogo que amaldiçoava o jogador que a usasse. E outras ainda mais elaboradas, em que Sonic tomava uma forma física, com olhos vermelhos e dentes enormes, e perseguia o jogador no mundo real. Viajado é pouco para essas histórias!

Recentemente, uma relação foi feita entre Sonic e as pessoas do Espectro Autista, que parecem ter um imenso carinho pelo personagem. Isso começou como uma mera especulação, uma vez que muitos autistas, tanto crianças quanto adultos, amavam Sonic e seus jogos. No entanto, isso tem raízes científicas. Em pesquisa realizada pela Bridge Care ABA, o motivo desse hiperfoco está na repetição da jogabilidade, nas cores vibrantes e nas músicas altas e envolventes. Como prova disso, todos os jogos da saga que fogem o mínimo dessa fórmula são considerados os piores dela.

Porém, isso não é uma regra. Eu mesmo, como membro da comunidade, nunca fui fã da saga...

Por sua tremenda popularidade entre as massas e por facetas tão interessantes que permeiam sua figura, Sonic merecia, sem dúvida alguma, uma vaga entre as maiores lendas dos videogames.


Mário

Que Mário? O da Nintendo... é claro! Muitos não sabem, mas o encanador mais famoso da cultura pop não apareceu pela primeira vez em um jogo solo, e sim como um mero NPC conhecido como "Jumpman", no clássico Donkey Kong de 1981.

Seu primeiro jogo oficial foi Super Mario Bros., de 1985, lançado originalmente para NES. O game simples no formato de rolagem lateral rendeu mais de 200 continuações, tanto principais quanto spin-offs, desde Donkey Kong até as últimas adaptações para Nintendo Switch.

Seu império nos jogos é um dos maiores da ficção, rendendo mais de 30 bilhões de dólares em todo o mundo e mais de 840 milhões de cópias vendidas, sendo a franquia mais vendida dos videogames, com quase o dobro de vendas do segundo lugar, Tetris. O Japão pode ter perdido no campo de batalha, mas venceu os EUA múltiplas vezes no meio cultural!

No entanto, esse sucesso inicialmente não se refletiu em suas adaptações cinematográficas. Em 1993, Mario e Luigi chegaram aos cinemas, em uma obra no mínimo inusitada. Atuações terríveis, trama bizarra e visuais dignos de uma paródia fizeram desse filme um dos primeiros de muitos desastres em adaptações de jogos. Um orçamento de 41 milhões de dólares rendeu apenas 38, enterrando o Encanador até 2023.

Pelas mãos da Illumination, Mário recebeu uma adaptação em 3D. Os irmãos italianos acabam caindo no Reino Cogumelo, abandonando suas vidas tediosas como encanadores e salvando a Princesa Peach das mãos de Bowser. Ao contrário da primeira tentativa, aqui temos uma aventura cativante, esteticamente belíssima e agradável aos fãs. Não por menos, a bilheteria ultrapassou 1,3 bilhão de dólares.

Quando se fala de videogames, Mario é simplesmente o rei. Mario não é só o mascote da Nintendo — ele é o símbolo de toda uma geração que aprendeu a jogar sorrindo.


Link:

Lançada em 1986 pela Nintendo, The Legend of Zelda nasceu no Famicom Disk System, no Japão, e rapidamente se consolidou como uma das franquias mais importantes da história dos videogames. Em uma época dominada por jogos simples e lineares, Zelda apresentou um mundo aberto, exploração livre, quebra-cabeças complexos e uma narrativa que se construía mais pela experiência do jogador do que por longos diálogos.

Desde o início, a série se destacou por sua atmosfera mística, trilha sonora marcante e um senso de aventura raramente visto até então. Ao longo das décadas, Zelda atravessou gerações de consoles, do NES ao Nintendo Switch, reinventando-se sem perder sua essência. Em meio a títulos revolucionários como A Link to the Past, Ocarina of Time, Majora’s Mask, Twilight Princess e Breath of the Wild, um personagem permaneceu como o fio condutor dessa saga: Link.

Mesmo sem falar, Link se tornou um dos protagonistas mais reconhecíveis da cultura pop. Sua túnica verde, o gorro característico, a Master Sword e o Hylian Shield formam uma das silhuetas mais icônicas dos games. Diferente de heróis verborrágicos ou excessivamente carismáticos, Link foi concebido para ser um reflexo do próprio jogador, um avatar silencioso, cuja coragem se expressa por ações, não por palavras.

Ao longo da franquia, Link não é sempre o mesmo indivíduo, mas diferentes encarnações de um mesmo espírito heroico, destinado a enfrentar o mal que ameaça Hyrule. Em cada era, ele surge como um jovem comum, arrancado de uma vida simples e lançado em uma jornada épica contra Ganon ou outras forças do caos, sempre guiado pela Princesa Zelda e pela Triforce da Coragem. Essa recorrência simbólica fortaleceu o personagem como um arquétipo do herói clássico: humilde, persistente e altruísta.

Fora de sua série principal, Link também deixou sua marca. Tornou-se um dos personagens mais tradicionais de Super Smash Bros., estando presente em praticamente todas as edições do jogo, consolidando-se como um dos lutadores mais utilizados da franquia. Sua presença ajudou a apresentar Zelda a públicos que talvez nunca tivessem tocado em seus jogos originais, ampliando ainda mais seu alcance cultural.

Curiosamente, apesar de ser o rosto da franquia, Link frequentemente é confundido com Zelda, erro comum que se tornou quase um meme entre jogadores. Ainda assim, essa confusão só evidencia o quão profundamente o personagem está enraizado no imaginário popular, mesmo fora do círculo mais próximo dos fãs de videogame.


Pac-Man

Criado em 1980, Pac-Man é um dos jogos mais nostálgicos de todos os tempos, por mais que não seja grande coisa no quesito narrativo. Sua jogabilidade simples, resumida a mover Pac-Man pelo labirinto e devorar os fantasmas presentes nele, encantou o público, rendendo mais de 200 games e aparições.

O game é conhecido por seus entusiastas, jogadores que devotam suas vidas a quebrar todos os recordes possíveis e imagináveis dentro do game; um bom exemplo disso é Billy Mitchell. Ele se tornou o primeiro jogador a reivindicar publicamente uma pontuação perfeita em 3 de julho de 1999. Ele completou o feito em aproximadamente seis horas, e sua conquista foi tão notável que os criadores do jogo, que nunca tinham visto o final, o coroaram o "jogador de videogame do século". Embora seus recordes tenham passado por controvérsias e anulações temporárias, o feito histórico é amplamente reconhecido.

Graças à carga nostálgica que carrega e aos fãs ferrenhos como Billy, Pac-Man ganhou sua primeira e até o momento única adaptação para live-action em Pac-Man e suas Aventuras Fantasmagóricas (que posso orgulhosamente dizer que assisti…), em que Pac e seus amigos, como o título sugere, enfrentam fantasmas. Infelizmente, a série conheceu seu fim já na terceira temporada, encerrando-se com apenas 52 episódios. A nota de 4,2/10 no IMDB pode indicar o motivo desse cancelamento precoce…

Fato é que Pac-Man ainda é um dos maiores ícones dos games, e como seria impossível falar muito sobre todos eles, segue uma breve lista com alguns nomes importantíssimos:

  • Pikachu (franquia Pokémon): O mascote elétrico é o símbolo da franquia de mídia mais lucrativa do mundo, reconhecido por pessoas de todas as idades globalmente.

  • Cloud Strife (franquia Final Fantasy): O protagonista de Final Fantasy VII é um dos personagens de JRPG mais icônicos, conhecido por seu cabelo espetado, espada Buster Sword e história complexa e emocional.

  • Solid Snake (franquia Metal Gear Solid): O espião e soldado de operações secretas, mestre em infiltração, é um dos personagens mais definidores do gênero de stealth action.

  • Ryu (franquia Street Fighter): um dos "deuses dos jogos de luta" originais, Ryu é um lutador em busca da perfeição marcial, famoso por seu golpe "Hadouken".

Abaixo, confira as franquias de games mais rentáveis do Japão:


E assim, concluímos nossa viagem pela cultura pop japonesa, provando, com base em múltiplos fatos, que podemos dizer seguramente: O Japão é o verdadeiro imperador da cultura pop. Um país que fez de sua maior derrota seu combustível para conquistar o mundo, não com armas, preconceito ou ódio, e sim com criatividade, empenho e uma capacidade única de unir tradição e modernidade em seus produtos culturais.

Vale ressaltar também que, embora “pouco” consumido mundialmente, o mercado de música japonês é o segundo mais rentável do mundo (atrás apenas dos EUA), mas, focado quase exclusivamente no consumo interno, o que explica nosso contato limitado com suas obras.

Essa série foi fruto de um extenso trabalho; por isso, peço encarecidamente que compartilhe com o máximo de pessoas que puder, para que possamos continuar com essas grandes análises! Por fim, qual área da cultura japonesa você mais gosta?