Hinos Nacionais: e seus propósitos

O hino do país que tanto cantamos nos feriados nacionais, início das aulas ou nos infelizes dias em que precisamos achar mil e uma desculpas para não servir às Forças Armadas (eu sei que você já fez isso…), são muito mais que um cântico de respeito e lealdade a uma bandeira; eles são símbolos de unidade para milhões de pessoas e, quase sempre, falam muito da história da nação que representam. Hoje, vamos conhecer um pouco sobre a verdade por trás dos hinos nacionais mais icônicos de todos os tempos, o britânico, o americano, e o soviético, analisando suas letras, origens e maiores interpretações. Antes de mais nada, vale ressaltar que faremos as análises em tom contemplativo, tanto para com a letra quanto para o contexto idealizado por trás dela. Os esqueletos no armário que todos esses países têm em maior ou menor quantidade serão deixados de lado (pelo menos hoje…). Sem mais delongas, vamos lá!

MÚSICA

Rafael Silva

4/2/20269 min read

Deus Salve o Rei (a Rainha)

Reino Unido

Talvez, o mais famoso de todos os tempos e inspiração para dezenas de outras monarquias por toda a Europa. Embora frequentemente atribuída aos compositores ingleses John Bull ou Henry Purcell, não há provas concretas da real autoria da canção. Usada como palavra de ordem pela Royal Navy desde o século XVI, a famosa frase tornou-se o título do hino nacional britânico em 1745, no Teatro Real.

Na ocasião, o cântico foi usado como forma de apoio ao atual monarca, George II, após a derrota do exército britânico na Batalha de Prestonpans, durante a Revolução Jacobita.

O hino cruzaria os oceanos e faria do monarca a quem homenageou o símbolo máximo da unidade do Império onde o sol nunca se punha. A letra pedia que o Deus Todo Poderoso não apenas o abençoasse, como também o guiasse com dons que levassem seu império à vitória, que frustrassem seus inimigos e que, no fim, o fizesse digno de que o povo cantasse não apenas com sua voz, mas principalmente com seu coração. Pois cantavam em nome de alguém em quem depositavam suas esperanças e que, acima de tudo, merecia a coroa sobre sua cabeça.

Tornou-se comum que a canção fosse tocada nas coroações dos reis e rainhas na Abadia de Westminster a partir de 1821, na coroação de George IV, dando à música um peso ainda maior.

Durante a Pax Britânica (1815-1914), em que o Império Britânico consolidou-se como a maior potência econômica, militar e tecnológica do mundo, Deus Salve o Rei tornou-se sinônimo de poder e glória absoluta. Naquele momento, aquela música simbolizava o maior Império que o mundo já havia visto, fazendo-o respeitado e, por vezes, temido, ao redor dele.

Porém, o mesmo som que antes simbolizava um poder intocável também foi símbolo de resistência na turbulenta primeira metade do século XX. Uma das interpretações mais fantásticas do hino britânico foi a coordenada por Wilfrid Pelletier em 1940, durante a Segunda Guerra Mundial, em homenagem a George VI, o rei que escolheu permanecer em Londres ao invés de fugir para o Canadá, mesmo em meio aos bombardeios nazistas na cidade.

O coral, majoritariamente feminino, exalta não apenas a grandeza da coragem de Sua Majestade em meio ao terror da guerra, como também sua humanidade, em sangrar junto a seu povo, não pondo-se sobre ele, e sim ao seu lado.

Todavia, foi sua filha, Elizabeth II, quem tornou a música quase um hit pop e praticamente se apropriou da canção. Durante setenta anos, em mais de 32 Estados pelo mundo, os servos da coroa se acostumaram a cantar “Deus Salve a Rainha” como as palavras que uniam todos aqueles povos, de todos os cantos do globo.

Ao longo de meio milênio, a canção inspirou os hinos imperiais de países como Império Alemão, Império Russo, Liechtenstein, Noruega, Suíça e, por um tempo, até mesmo os Estados Unidos da América.

Deus Salve o Rei é muito mais que um simples hino nacional, é uma trilha unificadora, resiliente e gloriosa, que adaptou-se aos momentos mais brilhantes e mais sombrios do Reino Unido e da monarquia mais longeva da história.

Isso se deve ao fato de que para muitos britânicos, a monarquia está acima da política ou das ideologias, talvez até mesmo da cultura; é algo que simplesmente está na alma do povo britânico e a música, fala sobre o que a mente não é capaz de compreender sem o coração.

Letra completa:

Deus salve nosso bondoso Rei

God save our gracious King

Longa vida ao nosso nobre Rei.

Long live our noble King

Deus salve o Rei

God save the King

Que o faça vitorioso.

Send him victorious

Feliz e glorioso

Happy and glorious

Que tenha um longo reinado sobre nós.

Long to reign over us

Deus salve o Rei

God save the King

Oh, Senhor, nosso Deus, venha

Oh, Lord, our God arise

Dispersar seus inimigos

Scatter his enemies.

E fazê-los cair

And make them fall

Confunda sua política

Confound their politics

Frustre seus truques fraudulentos.

Frustrate their knavish tricks.

Em Ti depositamos nossa esperança.

On Thee our hopes we fix.

Deus salve a todos nós

God save us all

Os melhores presentes

Thy choicest gifts in store

Que seja agradável lhe dar

On him be pleased to pour

Que seu reinado seja longo.

Long may he reign

Que ele defenda nossas leis.

May he defend our laws

E sempre nos dê motivo

And ever give us cause

De cantar com o coração e a voz

To sing with heart and voice

Deus salve o Rei

God save the King

Deus salve o Rei

God save the King

A Bandeira Estrelada

Estados Unidos

O maior grito de liberdade já dado por uma nação. Entre 1775 e 1783, os Estados Unidos (até então chamados de Treze Colônias) lutavam por sua independência do Império Britânico, sendo esse o conflito decolonial mais importante de todos os tempos.

Vitoriosos, os EUA tornaram-se a primeira democracia das Américas e cresceram rapidamente, mas os britânicos não desistiriam tão facilmente de sua ex-colônia. Devido a restrições comerciais impostas pelos britânicos, além do apoio de tribos indígenas contrárias à expansão estadunidense, um segundo conflito se iniciou em 1812, ficando conhecido como Guerra Anglo-Americana.

No auge do conflito, o advogado Francis Scott Key foi tomado como refém pelos britânicos e assistiu de camarote ao bombardeio inimigo ao Forte McHenry. O som das bombas ensurdece seus ouvidos, seu impacto faz o chão sob seus pés tremer, os clarões vermelhos rasgam o céu diante de seus olhos, seguidos por uma fumaça que a tudo escureceu. Diante de tanto poder de fogo, quem poderia resistir? Foi então que, em meio à fumaça, Scott Key pôde ver a bandeira estrelada brilhando diante de seus olhos, simbolizando a liberdade que os americanos haviam conquistado e da qual jamais iriam abrir mão.

Não havia dúvida de que a América não era só a terra da liberdade, mas também de homens e mulheres corajosos o suficiente para lutar por ela.

Liberto, Francis Scott escreveu a letra em 1814, em homenagem à perseverança do exército estadunidense naquela noite de glória para a nação, aproveitando-se de uma canção britânica para compor a melodia. Como era de se esperar, a canção tornou-se hino nacional em 1931, durante a Grande Depressão, em uma jogada para reacender o ânimo americano em meio ao período mais sombrio de sua história. A esperança brilhando em meio às cinzas.

A bandeira estrelada foi hasteada no sul do país, simbolizando a libertação dos escravos, ergueu-se na ilha de Iwo Jima, no Japão, para declarar a queda do fascismo, e ecoou em Berlim, quando o nazismo foi ao chão perante o poder americano. Para muitos, o vermelho, branco e azul significava que, por meio da coragem, a opressão havia acabado.

Incontáveis performances lendárias foram feitas para o hino nacional dos Estados Unidos, com vozes como as de Lady Gaga, Marvin Gaye, Demi Lovato e a mais lendária, Whitney Houston.

Em 27 de janeiro de 1991, na abertura do Super Bowl XXV, a então vencedora do Emmy fez o que para muitos foi a melhor performance da canção, diante de 73 mil pessoas no Tampa Stadium, mais de 115 milhões nos lares do país e mais de 750 milhões ao redor do mundo. Enquanto sua poderosa voz ecoava pelo estádio, representantes dos 50 estados americanos empunhavam suas bandeiras, mostrando a diversidade presente na colossal bandeira que se prostrava galantemente sobre todos eles, mas que, ao mesmo tempo, fazia-se pequena para encaixar-se nas mãos e nos corações de milhares de torcedores.

Não foi apenas uma grande apresentação, foi a síntese de tudo que a sociedade americana desejava demonstrar: diversidade, patriotismo, força e união, valores esses que todo o mundo pôde conhecer naquele fatídico dia, em que Houston pareceu ter narrado os 215 anos de história americana por meio de sua interpretação magistral.

O hino americano mostra o quão grande e majestosa uma nação pode ser e, ao mesmo tempo, ver seus valores refletidos em cada um de seus cidadãos, presentes em cada uma de suas vívidas estrelas. De forma que, em seus últimos dias de vida, Francis Scott Key pudesse voltar-se para quem quer que estivesse perto dele e perguntar-lhe de todo o coração: "Me diga, me diga que a bandeira estrelada ainda tremula sobre a terra dos livres e a casa dos corajosos…". Um homem velho, que lutou pela liberdade, perguntando para as novas gerações se sua luta valeu a pena.

Letra completa:

Oh, diga, você pode ver

Oh, say can you see

Na primeira luz da aurora

By the dawn's early light

O que tão orgulhosamente saudamos

What so proudly we hailed

No último brilho do crepúsculo?

At the twilight's last gleaming

Cujas largas faixas e estrelas brilhantes

Whose broad stripes and bright stars

Através da luta perigosa

Through the perilous fight

Sobre os baluartes nós assistimos

O'er the ramparts we watched

Tão galantemente tremulando

Were so gallantly streaming

E o clarão vermelho dos foguetes

And the rockets red glare

As bombas estourando no ar

The bombs bursting in air

Deram prova durante a noite.

Gave proof through the night

Que nossa bandeira ainda estava lá

That our flag was still there

Oh, diga se aquela bandeira estrelada ainda tremula

Oh, say, does that star-spangled banner yet wave

Sobre a terra dos livres e o lar dos bravos?

O'er the land of the free and the home of the brave

Hino Soviético

União Soviética

Em 22 de junho de 1941, Adolf Hitler deu início à Operação Barbarossa, a maior operação de invasão da história, contra a URSS. As perdas chegaram na casa dos milhões logo nos primeiros meses, e a guerra de extermínio entre comunistas e nazistas tornava-se rapidamente o palco mais sangrento da Segunda Guerra Mundial.

Cidades inteiras reduzidas às cinzas, fome e sede sistemáticas, milhares morrendo não pelas balas alemãs, mas sim pelas doenças ou, simplesmente, pelo frio cortante do inverno russo. Como medida de contenção, o Exército Vermelho ordenou que as famílias forçadas a retirar-se das cidades incendiassem suas casas, não deixando nada que o inimigo pudesse utilizar.

O povo soviético abriu mão de suas casas, de suas famílias, de suas vidas, em nome da vitória final contra o mal absoluto. No decorrer das batalhas de Stalingrado e Leningrado, o mar vermelho a jorrar das veias da pátria acabou por afogar os invasores nazistas, às custas de milhões de mortes. O sacrifício pela existência havia superado a estratégia e a superioridade tecnológica.

Em homenagem a isso, em 1944, Josef Stalin substituiu o cântico da Internacional Comunista, oficializado como hino nacional desde 1931, pela melodia composta por Alexander Alexandrov em 1939, acreditando que ela motivaria mais seus soldados. É impossível dizer que ele não estava certo.

A indestrutível união das quinze repúblicas soviéticas suportou as tormentas, guiada pelo estandarte vermelho que terminou hasteado no topo do Reichstag em maio de 1945. A pátria invencível provou que suas ideias estavam além do que o fogo e as balas eram capazes de destruir.

Na Praça Vermelha de Moscou, a marcha foi tocada não mais como uma canção de resistência, mas como uma homenagem aos mortos e uma demonstração de força de uma nação que agora se punha como a segunda maior potência do planeta, atrás apenas dos EUA.

Assim como Deus Salve o Rei, a canção sofreu modificações com o tempo. No caso do hino britânico, foram variações para adaptar-se ao gênero do monarca; já no caso da URSS, o buraco era mais embaixo.

Originalmente, a canção exaltava Stalin em determinados momentos, algo que mudou durante a era de Khrushchev à frente do Kremlin, que passou a trabalhar incansavelmente para dissolver a influência stalinista do país.

"Stalin nos inspirou a trabalhar e agir, nos deu coragem e glória"

Por duas décadas, o trecho em específico deixou de ser cantado para, em 1977, ser definitivamente alterado em exaltação a Lênin, figura central na criação da União Soviética.

“E Lênin, o grande, iluminou-nos o caminho”

Por mais que a imortalidade soviética tenha caído por terra com seu colapso em 1991, a canção que detinha sua alma permaneceu viva no hino russo até os dias de hoje, que usa da mesma melodia, em homenagem ao esforço dos 34 milhões de soldados do Exército Vermelho que lutaram pela existência da nação, em especial, pelos 20 milhões que morreram em nome dela.

Letra completa:

A união indestrutível das repúblicas livres

A Grande Rússia uniu-se para sempre

Viva a única e poderosa União Soviética, criada pela vontade do povo.

Glória à nossa Pátria livre

Baluarte confiável da amizade entre os povos!

O Partido de Lenin – a força do povo

Ele nos conduz ao triunfo do comunismo.

O sol da liberdade brilhou sobre nós através das tempestades

E o grande Lenin iluminou nosso caminho

Ele elevou os povos a uma causa justa.

Ele nos inspirou ao trabalho e ao heroísmo.

Glória à nossa Pátria livre

Baluarte confiável da amizade entre os povos

O Partido de Lenin – a força do povo

Ele nos conduz ao triunfo do comunismo.

Na vitória das ideias imortais...