França: O Monsieur da Cultura Pop

Em 18 de junho de 1815, a Batalha de Waterloo, na Bélgica, trazia fim às Guerras Napoleônicas, que há treze anos banhavam a Europa com o sangue de mais de 5 milhões de pessoas. O poderoso exército francês enfrentava a coalizão anglo-aliada liderada pelo arqui-inimigo de Napoleão, Duque Wellington, contando com tropas britânicas, germânicas, holandesas e belgas. Tais forças pressionaram os franceses durante a tarde, abrindo caminho para um ataque decisivo por parte das forças prussianas comandadas pelo marechal Gebhard Leberecht von Blücher à noite. Napoleão, que tinha a conquista quase absoluta da Europa em suas mãos em 1812, agora via seu aparentemente invencível império desmoronar perante seus olhos. A incapacidade em romper o sufocante bloqueio naval britânico e a tentativa catastrófica de invadir o Império Russo mostraram que até mesmo o mais brilhante dos estrategistas pode errar, e quanto mais alto se sobe, maior é a queda. Entre 23 e 40 mil soldados franceses foram mortos na batalha. Napoleão, antes o terror da Europa, tentou fugir, mas foi capturado pela Marinha Britânica e forçado a render-se oficialmente, dando fim ao maior conflito em solo europeu até então. O pequeno corso foi mantido preso na Ilha de Santa Helena até sua morte em 1821, aos 51 anos. Em seus últimos dias, ainda redigia cartas destinadas à França, com sugestões de como melhorar o país nas mais diversas esferas. Sua megalomania custou caro, mas seus efeitos não apenas sobre o continente, quanto sobre o mundo, são inegáveis. O império francês obteve um alcance que nenhum exército é capaz de conquistar. A mão francesa agora era usada nos carros de toda a América e boa parte da Europa; sua língua, literatura e arquitetura eram vistas como símbolos de luxo e elegância, e sua cultura agora tinha alcance mundial. De Victor Hugo a Gaston Leroux, dos romances clássicos à Nouvelle Vague, dos uniformes perfeitamente ajustados às grifes de Coco Chanel e Christian Dor, hoje iremos descobrir o quão presente no vasto universo da cultura pop a alma francesa está. Sem mais delongas, vamos lá!

HISTÓRIA DA CULTURA POP

Rafael Silva

7/26/202643 min read

História I: A Revolução Definitiva

A Dinastia Bourbon chegou ao trono francês em 1589, com Henrique IV, após as devastadoras Guerras de Religião, envolvendo católicos e huguenotes. Pelos próximos dois séculos, a família teria poder absoluto sobre um dos maiores impérios do planeta, cercando-se com um luxo impensável para qualquer camponês.

Suas riquezas só não superaram as suas responsabilidades. No auge do absolutismo, o monarca tinha pleno direito de criar e revogar leis, ditar a economia e comandar as forças armadas, não apenas em solo francês, mas em todas as suas colônias, parte de um império que atravessava todos os oceanos.

Durante o reinado de Luís XIV, famoso pela icônica frase “O Estado sou eu”, essa grandiosidade atingiu seu ápice com a construção do majestoso Palácio de Versalhes, uma das obras mais deslumbrantes já feitas pela mão humana. Sua beleza é tamanha que fez com que a elitista aristocracia francesa se sentisse em outro mundo, isolada por completo da realidade. Um Estado rico, um povo faminto e uma elite completamente desconectada.

O antigo pavilhão de caça foi completamente transformado por arquitetos como Louis Le Vau e Jules Hardouin-Mansart, o paisagista André Le Nôtre e o pintor Charles Le Brun, que transformaram cimento, ouro e azulejos em uma verdadeira maravilha arquitetônica.

Obviamente, o gasto foi estratosférico, ultrapassando 83 milhões de libras (equivalente a 2 bilhões de dólares na atualidade), quase falindo o país, algo nada incomum para os Bourbon, mas que, nos séculos seguintes, faria suas cabeças rolarem pelas ruas de Paris.

DEMOCRACIA FORA, AUTOCRACIA DENTRO

A rivalidade sanguinária dos franceses contra a Inglaterra também drenava milhões em recursos todos os anos. As duas Guerras dos Cem Anos e a Guerra dos Sete Anos acirraram a disputa entre as duas maiores potências do continente; todavia, ficava cada vez mais clara a inferioridade militar e econômica francesa.

Do outro lado do Canal da Mancha, o absolutismo já havia sido superado, e a monarquia atuava como apenas um dos pilares do poder político. Isso permitiu um envolvimento maior da burguesia no Estado, algo de vital importância para a Primeira Revolução Industrial, que transformou Londres no centro financeiro do mundo, diversificando sua economia, reduzindo fome e desemprego e fortalecendo seu Império.

Enquanto isso, a França continuava debatendo-se entre crises e crises. Ainda assim, o sucessor de Luís XIV, Luís XVI, insistiu em financiar os colonos americanos em sua guerra contra o Reino Unido na América, enviando dinheiro, navios, armas e até mesmo soldados, totalizando mais de 1,3 bilhão de libras investidas em uma vingança pessoal contra os britânicos, enquanto seu país enfrentava fomes sistemáticas e uma dívida cada vez mais insuperável.

A aristocracia e o clero eram completamente isentos fiscalmente, e moldavam a sociedade segundo a sua vontade, depositando o peso de sustentar o Império nas costas de camponeses e comerciantes, que pagavam taxas cada vez mais exorbitantes.

Revoltas cada vez mais constantes explodiam pelo país, vindas principalmente de dois grupos: os jacobinos, camponeses e pessoas de classes mais baixas, e os girondinos, membros da burguesia insatisfeitos com o reinado de Luís. Nessa dualidade, nasceu o conceito político de direita e esquerda que usamos até os dias de hoje.

A solução que o rei encontrou para conter seus dissidentes era sua prisão, ou, em muitos casos, execução. Para ele, seu direito de reinar era divino, e nenhum mortal deveria ousar questionar sua autoridade. Infelizmente para ele, nada mudou.

Em 1789, a Bastilha, prisão que simbolizava o poder e a arbitrariedade da Monarquia, caiu, e, mesmo que apenas sete presos tenham sido libertos, o peso daquele momento era incalculável. Uma construção secular desmoronando pela vontade do povo era o início do fim para o modelo de poder que governava a Europa há séculos.

Luís XVI foi obrigado a ceder poder à Assembleia Nacional, tornando-se um refém de seu próprio povo, sendo inclusive transferido forçadamente de Versalhes para o Palácio das Tulherias, em Paris, onde o povo poderia “fiscalizá-lo” mais de perto.

Em 1791, Luís e sua esposa, Maria Antonieta, tentaram fugir da cidade com auxílio dos poucos soldados que ainda lhe eram leais. No entanto, foram recapturados e condenados como traidores da revolução, o que os levou à guilhotina em 1793, por uma margem mínima de votos.

O rei que lutou pela democracia na América agora era decapitado por ela em seu próprio país. Quando a cabeça do homem “escolhido por Deus” para reinar rolou pelo chão ao som de gritos de celebração e rufos dos tambores, o dogma de que o monarca era sagrado caiu por terra. Daí em diante, a França viveria um dos momentos mais sangrentos e sombrios de sua história.

Os girondinos acreditavam que a Revolução já havia ido longe demais e foram contrários ao assassinato do rei e da rainha. Todavia, os jacobinos liderados por Robespierre acreditavam que ela ainda estava longe de terminar e só seria plena se todos aqueles que se opusessem a ela fossem “tirados da jogada”.

SANGUE: ALIADO DO CAOS E DA ORDEM

Entre 1793 e 1794, a França viveu o período do Terror, com a Ditadura Jacobina assassinando pelo menos 17 mil pessoas pelos mais diversos motivos, desde compactuar com os Girondinos ou com Monarquistas até não se mostrar “entusiasmado o suficiente” com a Revolução, como foi o caso do Jacobino Georges Danton, condenado à guilhotina por pedir o mínimo de moderação por parte de seus aliados.

Clássicos literários como Os Miseráveis, de Victor Hugo, habitam-se nesse que talvez tenha sido o período mais decisivo e conturbado da história francesa.

Nem mesmo a religião foi poupada, com a Igreja Católica sendo alvo de ataques, em uma tentativa dos Jacobinos de “substituir Deus” pela razão absoluta do homem. O plano original dos Girondinos, de implantar uma Monarquia Constitucional aos moldes britânicos, foi destruído pela fuga impensada de Luís XVI, e seu sonho republicano inspirado nas ideias iluministas de pensadores como Montesquieu parecia cada vez mais distante.

Por mais que a República tivesse sido proclamada em 1792, a ausência de democracia e a desordem sistêmica persistiam.

Em 1794, Robespierre foi condenado à morte por um complô de deputados, dando início ao Governo do Diretório, menos sanguinário, mas tão corrupto quanto o anterior. A revolução parecia fadada ao fracasso, e pouco havia mudado após a queda de Luís, e foi desse vácuo de poder que nasceu o maior nome da história francesa: Napoleão Bonaparte.

Consagrado líder militar após sua milagrosa vitória no Cerco de Toulon (1793), Bonaparte mostrava-se como um líder militar forte e unificador, capaz de pôr um fim ao caos que tomava as ruas da França.

Em sua campanha na Itália, onde derrotou o exército austríaco, Bonaparte encontrou seu maior trunfo: o marketing pessoal. Ele fundou jornais como o Le Moniteur Universel, que narravam suas vitórias como feitos quase divinos. Ele saqueava bens de alto valor dos países ocupados e os levava aos museus franceses, dando ao povo a sensação de que seu país era poderoso e capaz de subjugar qualquer outro.

Mesmo campanhas desastrosas como a do Egito (1797-1798), em que as forças francesas, sofrendo com o clima e escassez de recursos, foram derrotadas pelas tropas de Horatio Nelson na Batalha do Nilo, foram transformadas em feitos gloriosos pela imprensa nem um pouco imparcial.

Todavia, foram esses fracassos que motivaram Napoleão a investir ainda mais em seu poderio bélico, acreditando que apenas a força bruta levaria a França ao lugar que merecia entre as potências globais.

O ABSOLUTISMO REPUBLICANO

Em 1799, o Diretório foi destituído e Napoleão autonominou-se Primeiro Cônsul, dando a si mesmo poderes quase ilimitados. Cinco anos depois, na Catedral de Notre-Dame, na presença de figuras ilustres como a do Papa Pio VII, Bonaparte autoconvocou-se Imperador da França, logo depois de o Senado restituir o modelo de governo autocrático.

Os privilégios aristocráticos dentro das Forças Armadas foram dissolvidos, dando lugar a uma meritocracia absoluta. A coragem e o talento, e não mais o sangue, garantiriam o prestígio. Os investimentos em infantaria e artilharia cresceram dramaticamente, e um verdadeiro exército das massas foi criado, com todos os homens entre 18 e 24 anos sendo obrigados a prestar serviço militar. Logo nos primeiros dois anos das Guerras Napoleônicas (1803-1805), a França já possuía entre 200 e 400 mil soldados bem treinados e prontos para a ação.

Com a paz selada com os britânicos em Amiens sendo definitivamente rompida em 1803, Napoleão preparou uma invasão em larga escala por praticamente toda a Europa, com um único objetivo: destruir todas as monarquias da Europa e tornar a França o país mais poderoso do continente.

Países como Áustria, Dinamarca e Prússia tombaram logo nos primeiros anos, sendo obrigados inclusive a arcar com os custos de seus conquistadores por meio de taxas abusivas.

Dom João VI fugiu de Portugal, enquanto Fernando VII da Espanha era deposto em favor de José Bonaparte, irmão de Napoleão. Ainda assim, a dupla ibérica seguia resistindo por meio de guerrilhas, conhecidas como “Úlcera espanhola” por Napoleão e suas tropas.

O Bloqueio Continental imposto por Napoleão contra o Reino Unido, em uma tentativa de matar os britânicos de fome ao vedar o comércio com a Europa, passou longe de surtir o efeito esperado.

A poderosa Royal Navy de George III mantinha o Império Britânico completamente conectado por meio dos mares, único lugar onde o poderio francês jamais foi capaz de equiparar-se ao de seus rivais. Mantendo relações comerciais com suas colônias na Ásia, como a Índia, na Oceânia, como a Austrália, e na América, como o Canadá, os britânicos mantiveram-se firmes e muito bem armados e, principalmente, em condições de armas aqueles insatisfeitos com o domínio opressor da França.

O dinheiro e a pólvora britânica permitiriam que rebeliões explodissem na Dinamarca enquanto mantinham viva a resistência luso-espanhola entre 1808 e 1812.

Se as coisas já pareciam difíceis no Ocidente, a investida massiva de Napoleão contra a Rússia foi uma verdadeira corda no pescoço. Mais de 600 mil soldados marcharam em solo russo, contando não só com franceses, mas também com prussianos e austríacos. Os russos, com mais de 250 mil soldados, mas com uma tecnologia muito inferior, aproveitaram-se do clima severo do inverno de seu país para utilizar-se da mesma estratégia que usaria no século seguinte para prender os nazistas em um inferno congelante: a terra arrasada.

Civis e militares recuaram país adentro, incinerando campos e casas, deixando apenas cinzas para os invasores que os perseguiam. A campanha, que durou de 1812 a 1814, custou ao Pequeno Corso mais de 300 mil soldados, baixas demais para uma potência que via seu Império recém-construído autodestruir-se de dentro para fora.

DOMÍNIO PARA ALÉM DOS MARES

É fato que a influência francesa alcançou patamares inéditos até então, estendendo-se às colônias portuguesas e espanholas nas Américas, tornando sua língua, arquitetura e estilo de vida, da comida aos perfumes e vestimentas, símbolos não só de status, mas principalmente de poder. Era o soft power puro e simples, muito antes do conceito sequer existir.

Dom João VI e a aristocracia portuguesa refaziam o Rio de Janeiro sob a luz da arquitetura de Paris, tornando a capital francesa referência em beleza, luxo e modernidade.

As obras de Victor Hugo e Balzac viraram moda e sinônimo de cultura e intelectualidade; o drama e o jeito francês de ver o mundo ficavam cada vez mais populares.

No entanto, o domínio francês tornou-se insustentável a partir de 1813, quando russos e prussianos passaram a pressioná-los por um extremo, enquanto Lorde Wellington pressionava pelo outro.

O futuro primeiro-ministro britânico foi certamente o maior rival que Napoleão poderia ter, e, ao mesmo tempo, era sua completa antítese Bonaparte prezava por uma ofensividade exacerbada, em conquistar rápido, enquanto Wellington era paciente, metódico e mestre na arte da defesa.

Ele foi o responsável por fortalecer a artilharia usada pelos ibéricos, tornando Portugal uma muralha intransponível para as forças francesas.

E foi a partir de Portugal que o contra-ataque liderado pelos britânicos se deu. Após a derrota decisiva na Batalha de Leipzig em 1813, a França passou a sofrer derrotas consecutivas, até a tomada de Paris em 1814, quando Napoleão foi obrigado a abdicar, sendo exilado para a Ilha de Elba junto aos homens que ainda lhe eram leais.

E o mais chocante: os Bourbon, cuja morte serviu de estopim para todo aquele conflito, foram colocados novamente no poder por meio de Luís XVIII. A monarquia havia retornado à França, apenas vinte anos depois de ser decapitada.

Em 1815, Napoleão tentou uma última investida em Waterloo, na Bélgica, onde mais de 70 mil franceses enfrentaram mais de 100 mil britânicos e seus aliados, resultando em uma última e decisiva vitória anglo-aliada. Napoleão foi finalmente capturado e mantido preso na Ilha de Santa Helena.

Sob ocupação britânica, a França foi obrigada a pagar uma indenização de mais de 700 milhões de francos (dezenas de bilhões de euros em valores atuais), perdeu colônias como Tobago, Malta e Ilhas Maurício, que ajudaram o Império Britânico a consolidar a Pax Britânica, dando início a mais cem anos de domínio quase absoluto como maior potência econômica, militar e cultural do planeta Terra.

Um dos maiores líderes militares de todos os tempos, viveu seus últimos anos com o sabor amargo da derrota persistente em sua boca, vendo o país que tentou levar ao máximo esplendor afundar-se em uma crise tão severa quanto aquela que acreditou ter o salvo quase duas décadas antes.

Todavia, se Napoleão perdeu a guerra, a França venceu algo muito maior: a forma como o mundo conta histórias.

A LITERATURA FRANCESA: O AMOR E A DOR

Você certamente conhece clássicos da Disney como A Bela e a Fera, A Bela Adormecida, Cinderela e O Corcunda de Notre Dame. Tais clássicos podem ter chegado aos holofotes por meio do império do entretenimento estadunidense, mas encontram suas origens na caneta francesa.

Charles Perrault, considerado por muitos como o pai dos contos de fadas, deu origem a diversas das histórias mais icônicas de nossas infâncias entre 1690 e 1700, por mais que em suas mãos elas tenham sido mais perturbadoras do que muitos filmes de terror.

Cinderela, originalmente chamada Cendrillon, recebeu de Perrault seus notórios sapatinhos de cristal, assim como aulas de etiqueta com a Fada Madrinha, em contraste com o vestido e a vistosa carruagem mágica que hoje conhecemos. O comportamento era mais valioso que a magia.

Gato de Botas ou le Chat Botté, hoje conhecido como o melhor amigo de Shrek, surgiu como uma sátira à engenharia social da França monárquica, fazendo das botas de couro luxuosas uma justificativa para que um animal se pusesse em posição de igualdade. O ter era mais importante que o ser.

Suas adaptações de Chapeuzinho Vermelho e A Bela Adormecida talvez tenham sido as obras mais bizarras de sua carreira. Em vez de ser engolida por um lobo, Chapeuzinho é implicitamente violentada por um predador sexual, e ninguém vem ao seu socorro, em um alerta do autor para as jovens. Já em Bela Adormecida, após cair em um sono profundo e eterno, que é imposto a todo o reino como uma forma de absolutismo literário, a protagonista também é violentada, desta vez pelo príncipe, e seus filhos, que rompem seu feitiço ao nascer, acabam sendo devorados por sua sogra, descendente de uma filha de ogros (sim, isso é real).

Como podemos ver, os contos de fadas franceses não economizavam na bizarrice e na brutalidade, assim como na crítica à sociedade da época, extremamente materialista e fissurada em status. Perrault sintetizou muitíssimo bem as falhas e as glórias da França de seu tempo, mas o pós-revolução francesa seria o palco das maiores lendas de sua literatura, mudando o foco do glamour da realeza e apresentando ao mundo o sangue e a marginalização das ruas de Paris.

Os Miseráveis

O clássico absoluto do mestre Victor Hugo, lançado em 1862 durante seu exílio imposto pelo Imperador Napoleão III. Jean Valjean, um jovem pobre de Paris, desesperado para dar o que comer aos seus mais de sete sobrinhos famintos, rouba um mísero pão, indiferente em meio à fartura sob a mesa. Alguns centavos para um significavam a vida para ele e sua família. Ele poderia ter pedido pelo pão, mas seu orgulho falou mais alto.

Todavia, ele não era capaz de prever as consequências que aquele simples furto traria para sua vida, era incapaz de perceber o quão a sociedade poderia ser cruel com aqueles que pouco têm, enquanto ignoravam os atos mais vis daqueles que a comandam.

Jean foi preso e condenado a 19 anos de prisão por furto e pelas repetidas e fracassadas tentativas de fuga nas ruas, cumprindo pena principalmente em Toulon. Valjean enfrentou fome e trabalhos forçados brutais, levando sua forma física ao limite, ao mesmo tempo que alimentava ainda mais seu ódio contra a sociedade.

Um homem perdia metade de sua vida, servindo ao sistema que mantinha sua família na miséria extrema.

Ao ser liberto, sem perspectiva ou esperança, ele retorna quase que automaticamente ao crime, tentando roubar a prataria da casa de um bispo chamado Myriel. Ele é recapturado e já se preparava para passar mais duas décadas no inferno, quando o bispo interveio por ele, afirmando que havia dado os castiçais a Jean. Em seguida, o religioso lhe deu o que comer, mostrando a Jean que, mesmo na sociedade que ele tanto odiava, havia pessoas boas e caridosas. Nesse instante, sua mentalidade mudou por completo. O ladrão de esquina morreu, e o Sr. Madeline, um industrial poderoso de Paris, assumiu seu lugar.

Mas, para ele, vencer para si mesmo não bastava; ele precisava olhar para trás e ver quem ainda estava lá.

Com o poder real em mãos, ele passa a ajudar uma jovem operária chamada Fantine, que se viu obrigada a render-se à prostituição para conseguir sustentar sua filhinha, Cossete, por quem Jean nutre um carinho quase paternal. Ao mesmo tempo, Javert, policial que foi seu carcereiro em seu tempo na prisão, passa a suspeitar de sua nova identidade.

Ao fim da trama, uma década se passa e Jean Valjean se vê em meio à Insurreição Republicana de 1832, em que Cosette e seu namorado, Marius, lutaram pela queda da Monarquia e pelo mínimo de dignidade ao povo. No conflito, Jean tem a chance de matar Javert, o homem que o humilhou por quase vinte anos. Completando sua redenção, ele não se rendeu à sede de vingança, fazendo jus à confiança que o bispo havia lhe depositado, e mostrou-se melhor que cruel o homem da lei diante dele.

Jean vê a filha que a vida lhe deu se casar com Marius, assumindo novamente sua verdadeira identidade e isolando-se para que Cosette pudesse viver em paz. No fim, ele morreu iluminado pelos castiçais roubados/dados por Myriel, o homem que iluminou sua alma quando ela estava imersa nas trevas.

Os Miseráveis é uma crítica ardente à desigualdade social e à injustiça penal francesa, ao mesmo tempo que traz um poderoso arco de redenção, de um homem injustiçado que transforma seu ódio pela sociedade em uma busca por torná-la mais justa, espalhando o amor e empatia que recebeu de um desconhecido para aqueles que precisavam tanto quanto ele.

Em 2012, a obra de Victor Hugo chegou às telas do cinema, estrelada por Hugh Jackman, recebendo oito indicações ao Oscar e faturando duas estatuetas, incluindo melhor atriz para Anne Hathaway no papel de Fantine.

Esse clássico certamente definiu sua carreira, mas, como iremos ver em seguida, Victor definitivamente não é um maestro de uma nota só.

O Corcunda de Notre-Dame

Uma obra sobre a verdade do ser e de como a superficialidade traz um julgamento quase sempre equivocado. Escrita em 1831, a obra de Hugo não se propunha a ser um drama clássico, e sim uma carta de amor à velha catedral parisiense, que, com sete séculos de história, já estava caindo aos pedaços, à beira da demolição. Capítulos inteiros eram dedicados a demonstrar a formosura e a grandiosidade daquele monumento histórico, que em seu interior abrigava dois monstros: um pela aparência, outro por seu coração.

Quasimodo nasceu corcunda, uma condição que o amaldiçoou desde o nascimento a ser visto como uma aberração, inclusive, por aqueles que o geraram. Abandonado à própria sorte ainda bebê. Felizmente, ou nem tanto, ele é acolhido por Claude Frollo, arquidiácono da Igreja, que o cria secretamente como sineiro.

Frollo rapidamente se provou um homem severo, humilhando o garoto e doutrinando-o com um fanatismo religioso perigoso. Claude via a si mesmo como um bastião da fé e da pureza, punindo todo aquele que despertasse nele qualquer sentimento pecaminoso. Alguém sempre precisaria pagar pelos seus pecados.

Sua vida limitou-se às paredes espessas da catedral, longe do olhar de todos aqueles que, por meio de seu sinal, vinham de encontro à sua fé. O jovem via a si mesmo como um monstro, especialmente pela forma com a qual Frollo lhe tratava. Porém, ele rapidamente descobriria que a humanidade tinha inúmeras formas de julgar e condenar alguém.

Após mais de duas décadas enclausurado, vendo o mundo exterior como uma realidade alternativa, Quasímodo decide disfarçar-se e deixar a Notre-Dame para participar da Festa dos Tolos. Lá, ele conhece Esmeralda, uma cigana deslumbrante, que usa dessa beleza para conseguir dinheiro por meio da dança. Distraído ao observá-la, Quasímodo é desmascarado e humilhado diante de toda Paris, ganhando o título de Homem Mais Feio da Cidade.

Ele é carregado e aplaudido pelos cidadãos, sem entender que, na verdade, tudo aquilo não é admiração, é um desprezo cruelmente sarcástico. Ao retornar, Frollo o repreende por essa exposição ridícula e exige que ele faça algo para corrigir seu erro: sequestrar Esmeralda.

A cigana mexia profundamente com os sentimentos e com os desejos de Frollo. Ele dedicou sua vida ao celibato, e aquela pagã punha à prova essa devoção sagrada.

Ele a observava secretamente sob um manto negro, fascinado com sua beleza e seus dons, mas enojado com sua religião e pelo que ela lhe fazia sentir. Ele não poderia permitir que aquela imundice tomasse conta de seu coração.

Se ele não era capaz de superar essa tentação, então ela deveria ser caçada e destruída, e ninguém melhor para isso do que uma criatura descartável, que não faria falta caso falhasse.

Quasímodo, mesmo contrariado, tenta capturar Esmeralda, mas acaba preso por Phoebus, um nobre e belo soldado, por quem Esmeralda se apaixona. No entanto, o soldado pouco se importava com a cigana, enxergando-a como mais uma conquista banal. Ironicamente, ela dá uma chance ao único dos três homens que verdadeiramente não a deseja. Phoebus quer usá-la, Frollo quer possuí-la e Quasímodo quer amá-la.

O Corcunda é açoitado em praça pública, visto como um monstro agora não só por sua aparência. A única a se solidarizar com sua dor é a própria Esmeralda, que o liberta e lhe dá um pouco de água, fazendo florescer ainda mais o sentimento entre eles.

Ele então a protege das investidas de Frollo, mantendo-a em santuário na Igreja, onde estaria a salvo. Sabendo que sua aparência a assustava, ele a alimentou, deixando a comida pelos cantos e conversando com ela, sempre oculto pelas paredes. Surdo graças aos anos batendo os sinos da catedral, Quasímodo lhe entrega um apito, que, segundo ele, iria chamá-lo por sua alma.

Porém, após uma invasão dos ciganos para tentar libertá-la, Frollo a leva para execução, dando-lhe uma última alternativa: amá-lo ou morrer. Ela prefere a morte a deixar-se ser tocada pelo religioso, que ordena sua morte diante do público em êxtase, entre eles, Phoebus e Quasímodo.

Furioso, o Corcunda arremessa o homem que o criou do topo da catedral, vendo seu corpo espatifar-se brutalmente na praça. Phoebus deixou a cidade, Frollo foi consumido pelo fogo infernal que tanto condenou as suas vítimas, enquanto Quasímodo provou que nem mesmo a morte era capaz de vencer seu amor por Esmeralda e decidiu deitar-se ao lado dela em seu caixão, sendo enterrado vivo ao seu lado, morrendo ao lado do cadáver gélido da única pessoa que viu o humano por trás do monstro.

Muito diferente do clássico da Disney de 1996, o clássico de Victor Hugo é brutal e com uma crítica religiosa tão ferrenha quanto. O puritanismo de Frollo o torna tão imundo quanto qualquer ser humano que se julgue digno de condenar, enquanto Quasímodo e Esmeralda, pessoas com um coração legitimamente puro, foram caçados por simplesmente serem quem são.

A icônica adaptação da Universal em 1922 com Lon Chaney no papel principal, talvez seja a mais fiel e impactante entre todas elas, e demonstra a atemporalidade da temática explorada por Victor Hugo. Falando em Universal e monstros clássicos, nada melhor do que explorar o grande terror da ópera de Paris.

O Fantasma da Ópera

Descendo dos pináculos de Notre-Dame para os labirintos subterrâneos da Ópera Garnier, Gastón Leroux nos apresentou em 1910 um romance que serve como retrato da Belle Époque francesa, mostrando a sujeira e a escuridão oculta por trás da grandiosidade, do otimismo e do avanço tecnológico.

Nascido com uma terrível deformidade na face, Erik, assim como Quasímodo, foi desprezado por sua mãe, que não suportava olhar para o ser que havia dado à luz. Ainda na infância, Erik fugiu para a Normandia, onde passou a viver em feiras de horrores, recebendo o apelido de “cadáver vivo”.

Lá, ele aprendeu truques de mágica e ilusionismo. Diferente de Quasímodo, o futuro Fantasma da Ópera era intelectualizado, apaixonado pela literatura e pela poesia, nutrindo um fascínio específico pela arquitetura, o que o levou ao Irã, onde se tornou arquiteto favorito do Xá (Rei) iraniano.

Suas obras pareciam ser um reflexo de seu interior. Sua beleza era inegável, mas internamente, por trás do luxo e dos adornos, escondiam passagens secretas e câmaras de tortura, onde seu ódio pelo mundo podia enfim se libertar.

Sabendo do sadismo de seu arquiteto, o Xá utilizou-se como seu assassino particular, matando quaisquer inimigos com uma simples corda de seda. Porém, quando seu conhecimento quanto aos podres da Majestade não veio de encontro à confiança que tinha dele, o soberano mandou assassiná-lo, para que seus crimes jamais fossem descobertos.

Por sorte, ele é salvo por um persa chamado Daroga e retorna a Paris, onde trabalhou por 15 anos na construção da Ópera Garnier, aproveitando para construir um complexo subsolo, que se tornaria seu castelo oculto.

Enquanto a elite de Paris contemplava o melhor da música e da dança no alto de seus camarotes, o homem que desenhou e construiu aquelas paredes assistia aos espetáculos oculto nas sombras.

Aproveitando-se de seu domínio absoluto do ambiente e sua habilidade em truques, ele passou a “assombrar” a Ópera, com vozes pelas paredes, lustres caindo na plateia e funcionários “suicidando-se” com cordas invisíveis. Para conter o terror do Fantasma, os Srs. Debienne e Poligny, administradores da Ópera, pagavam ao inimigo invisível 20 mil marcos de tempos em tempos, comprando uma paz temporária.

No entanto, tudo muda quando seus caminhos se cruzam com o de Christine Daaé, a nossa voz da Garnier. O pai da garota havia lhe dito antes da morte que um anjo iria ajudá-la a conquistar seus sonhos. O que ela não poderia esperar é que seu anjo seria um assassino escondido em um porão alagado.

Ele sabota outras cantoras, motiva Christine por meio das paredes, fortalecendo o laço entre eles, mesmo sem nunca terem se visto face a face. Porém, quando Daaé inicia seu romance com o jovem, belo e rico, Raoul, o Fantasma se vê tomado pelo ciúme e captura a jovem, levando-a para seu reino obscuro. Mesmo mantendo-a presa, Erik tentou conquistar seu amor a todo custo, com música, poesia, boa comida, e sem nunca mostrar seu verdadeiro rosto, sempre oculto por uma horripilante máscara branca. Tragicamente, movida por uma curiosidade fatal, Christine arranca a máscara de seu rosto, ficando paralisada com o horror que viu diante de seus olhos.

Sem sua máscara, não apenas a feiura externa de Erik era exposta, mas principalmente aquela impregnada em seu coração. Sabendo que jamais teria o amor de sua musa, ele decide tomá-la à força, capturando Raoul e ameaçando matá-lo diante dos olhos dela, explodindo-o junto com a Ópera. Ele estava disposto a destruir tudo que lhe era comum, movido pela dor de um coração partido, com os olhos marejados pelas lágrimas de um homem que jamais alcançou a felicidade. Felizmente, ele foi remendado pelas lágrimas da própria Daaé, que chorou com ele, mostrando que entendia a dor de não ter o carinho de quem amava. Isso o fez arrepender-se de seus atos.

Ao libertar Raoul, Erik permite que o casal deixe o subsolo, deixando-o morrer sozinho na escuridão úmida.

Erik sempre foi um gênio, mas o desprezo da sociedade por sua aparência o levou a ser visto somente por meio do medo. Mesmo que, no fundo, tanto ele quanto aqueles que o temiam se escondessem em suas próprias máscaras, escondendo suas verdadeiras naturezas.

Christine se vê quase como um objeto, disputada por dois homens, mostrando que naquela época nem a fama, nem o dinheiro e nem o talento eram capazes de dar à mulher uma voz que pudesse de fato ser ouvida, mesmo em cima de um palco.

Nos anos seguintes, outros gênios como Maurice Leblanc, autor de “Arsène Lupin: Ladrão de Casacas”, e Marcel Proust de “Em Busca do Tempo Perdido” fizeram história na diversa e efervescente literatura francesa. Se na literatura a França ensinou o mundo a sentir, no século XX ela passaria a ensinar o mundo a ver, com o nascimento do cinema.

História II: Um Império Sangrando nas Trincheiras

Após a derrota monumental nas Guerras Napoleônicas, a França passou por uma profunda reestruturação política, militar e cultural. O país era reconstruído sob a liderança de um rei que parecia ter vivido em uma caverna nos últimos 25 anos, enquanto 150 mil soldados estrangeiros ocupavam o país, rendendo-lhe mais uma humilhação histórica.

O reinado de Luís XVIII foi caótico do início ao fim. Seu irmão, Carlos, liderava os ultra-reais, que desejavam a volta do absolutismo vetado pela nova constituição outorgada sob supervisão britânica. O próprio soberano tentou impedir isso, temendo a instabilidade que tal manobra traria ao país, que já se encontrava em ruínas.

Do outro lado, havia os liberais, que desejavam tirar ainda mais poder da coroa, e com um claro viés republicano. Fato é que o início do reinado de Luís foi surpreendentemente bem-sucedido, pagando antecipadamente a dívida colossal com os anglo-aliados e garantindo a desocupação do país ainda em 1818. A majestade respeitava a constituição, ao contrário de seu irmão, que, mesmo a contragosto do soberano, agia ativamente para eliminar bonapartistas e republicanos, usando-se de uma milícia monárquica para tal.

TEMPOS DE INSTABILIDADE

Isso fez com que a França entrasse nos anos 1820 imersa em uma nova crise política, especialmente após o assassinato do Duque de Berry, sobrinho do rei, pelas mãos de um simples operário chamado Louis Pierre Louvel, um bonapartista assumido. Novamente, um homem comum, sem nome, foi capaz de destruir um poderoso. Mais uma vez, o povo começava a mostrar-se mais forte que a ordem vigente.

Isso, obviamente, não ficaria barato, e Carlos tornou-se cada vez mais feroz em sua luta contra os republicanos, aproveitando-se da saúde cada vez mais frágil de seu irmão para governar nos bastidores. Leis como o voto duplo, que dobrava o peso dos votos da aristocracia (o que garantia maioria monarquista no Parlamento), e uma censura intensa na imprensa marcaram os anos 1820.

Em 1824, Luís morreu, e Carlos finalmente tinha o poder e a glória em suas mãos. Nada de “o poder emana do povo” ou monarquia parlamentarista; Carlos teria o poder absoluto, “dado” a ele pelo próprio Deus Criador.

Ele dissolvia assembleias, usava dinheiro público para dar terras a nobres e cerceava cada vez mais a liberdade de imprensa. Isso resultou em uma série de revoltas populares em 1830, todas suprimidas com violência extrema. No entanto, os protestos continuavam a queimar as ruas de Paris, forçando o rei a abdicar e fugir para o Reino Unido.

Temendo que o país entrasse em uma nova onda de caos, a burguesia organizou-se rapidamente e nomeou Luís Felipe I como novo rei da França, sem trajes extravagantes ou coroas incrustadas de diamantes, um homem de terno e cartola, elegante e “do povo”.

Foi em suas mãos que o Império Francês abraçou definitivamente a Revolução Industrial que tanto invejava no outro lado do Canal da Mancha. Milhões deixavam os campos para trabalhar nas grandes cidades industriais em exaustivas jornadas de 14 horas diárias, que, na maioria das vezes, não significavam nenhuma prosperidade para aqueles trabalhadores.

Esse descontentamento deu origem a uma nova revolta em 1832, que foi esmagada pela Guarda Real, mostrando que, por mais que o novo rei fosse “liberal”, ele não hesitaria em destruir qualquer ameaça ao seu poder.

Todavia, seu reinado teve o mesmo destino que o anterior: crise, abdicação e fuga para o Reino Unido (isso já estava virando tradição). O que abriu caminho para um retorno um tanto quanto inusitado ao trono da Segunda República Francesa: Bonaparte, mas não Napoleão, e sim, Luís Bonaparte, seu sobrinho, eleito por voto direto.

Eleito em 1848, Napoleão não hesitou em dar um golpe na constituição logo na reeleição em 1851 e tornou-se imperador da França. Em suas mãos, a arcaica Paris deu lugar a uma cidade moderna, com ruas largas, bem iluminadas e com uma arquitetura mais leve e adequada aos novos tempos.

Porém, assim como seu tio, Luís não era capaz de rejeitar um convite para a guerra. Em 1870, o chanceler prussiano Otto von Bismarck, líder da unificação alemã, manipulou as mensagens trocadas entre o rei da Prússia, Guilherme I, e o embaixador francês Vincent Benedetti. O objetivo era simular uma discussão acalorada entre os dois, quanto à nomeação de Leopoldo de Hohenzollern ao trono espanhol. Isso deixaria os franceses encaixotados por germânicos em suas duas fronteiras.

Antecipando-se, Bismarck adiantou um conflito possivelmente inevitável e uniu os quatro reinos germânicos contra um inimigo em comum, o que foi decisivo para a unificação do Império Alemão logo após a guerra.

No campo de batalha, a França novamente se deu mal. Os prussianos possuíam artilharia pesada e precisa, telégrafos que facilitavam sua comunicação, linhas de trem que agilizavam a chegada de recursos e soldados que caminhavam para serem os mais bem treinados do mundo.

Após seis meses e 140 mil soldados mortos, a França via Guilherme I ser coroado imperador do recém-formado Império Alemão, dentro do Palácio de Versalhes, enquanto Napoleão III era mantido como prisioneiro de guerra na Prússia, em uma última e cruel humilhação.

Napoleão foi libertado e passou a viver em exílio… você já sabe onde… no Reino Unido! Dando sinal verde para a Terceira República Francesa.

Porém, se nos campos de batalha a França foi humilhada, sua vingança viria na mesa de negociações, com auxílio vindo do lugar mais improvável.

A PARTILHA DA ÁFRICA

Durante séculos, a África, conhecida pelos europeus apenas como “continente negro”, era uma terra consideravelmente inexplorada, cuja influência geralmente não ia além de feitorias construídas em seus litorais, onde trocas comerciais eram feitas. Porém, a segunda revolução industrial tornava-se um animal cada vez mais faminto por recursos como borracha, óleo e cobre, matérias-primas que a região tinha aos montes. Assim, Otto Von Bismarck convocou uma série de reuniões em Berlim entre 1884 e 1885, com lideranças das principais potências europeias: Reino Unido, Alemanha, Itália, Bélgica, Portugal, Espanha e, é claro, a França.

Eles planejavam apresentar-se como estrangeiros em uma espécie de missão civilizatória, oferecendo aos africanos os valores, a democracia e a língua europeia. E claro, quando isso não bastasse, a força das armas os convenceria.

Com lápis e régua, os líderes europeus cortaram 30 milhões de km² em território, separando famílias, povos e religiões, em nome única e exclusivamente do poder. Na época, ter colônias era um símbolo de status, e o Reino Unido, como a maior potência da Europa e do mundo, adiantou-se em ocupar boa parte da África, criando uma linha direta do Egito até a África do Sul, priorizando uma administração indireta, nomeando líderes regionais subordinados à coroa.

Já os franceses abocanharam a maior parcela de território, com mais de 35% da África sob seu domínio, ocupando do Oceano Atlântico ao Mar Vermelho, com países como Senegal, Mali, Níger, Costa do Marfim, e outros domínios espalhados, como a Ilha de Madagascar.

Diferente dos britânicos, os franceses queriam de alguma forma assimilar os africanos ao seu Império, tornando-os parte de sua cultura, mas sem lhes dar nenhum tipo de direito. Obviamente, houve resistência em inúmeros países, como Guiné, onde Samori Touré, fundador do Império de Wassoulou, resistiu por mais de 20 anos ao domínio absoluto francês, construindo um exército extremamente profissional.

Regiões como Benin, Senegal e Mauritânia também apresentavam resistência, forçando Paris a gastar milhões de francos para enfim tê-los sob seu controle absoluto, e essa instabilidade não passou despercebida pelo Império Alemão. Os alemães haviam se sentido injustiçados com os poucos territórios que receberam, como Tanzânia e Camarões, e faziam o possível para desestabilizar os domínios franceses.

Os alemães viam sua indústria crescer exponencialmente, chegando a ameaçar a hegemonia francesa e britânica na Europa. Isso fez com que dois inimigos de séculos formassem uma aliança improvável em 1904, a Entente Cordiale, com exímia participação do Rei Edward VII, que, apesar de britânico, nutria imensa admiração pela França e suas belezas.

Essa manobra para reprimir a Alemanha foi certamente um dos principais fatores para o início da Primeira Guerra Mundial, com alemães voltando-se para a Itália, Império Otomano e Império Austro-Húngaro em busca de alianças, enquanto britânicos e franceses aliaram-se aos russos e belgas. Mesmo que a paz parecesse intacta, uma verdadeira corrida armamentista se desenrolava nos bastidores, e um patriotismo exacerbado passou a ser incutido nos cidadãos, assim como um desprezo sistemático aos ditos “inimigos da nação”.

Antes de as sombras da guerra escurecerem o horizonte de toda a Europa, a Belle Époque fazia das ruas estreitas e antiquadas da velha Paris belos e modernos boulevards, repletos de cafés e teatros sob o brilho da iluminação pública cada vez mais presente.

Inaugurada em 1889, a majestosa Torre Eiffel tornou-se um símbolo máximo da grandeza e do poder francês, tornando-se o cartão-postal para os milhares de turistas que passaram a visitá-la todos os anos. A cidade da luz agora era conhecida em todos os cantos do mundo como o centro urbano mais belo do planeta.

Todavia, essa prosperidade foi forjada com o ouro extraído pelo sangue e suor de povos escravizados, e em pouquíssimo tempo o preço de toda essa exploração seria pago em sangue.

A GUERRA PARA ACABAR COM TODAS AS GUERRAS

Em meados de 1914, a Europa finalmente caiu no abismo que passou décadas cavando. O assassinato do Arquiduque Francisco Ferdinando na Áustria-Hungria pelas mãos de um nacionalista sérvio fez explodir a crise nos Bálcãs, na qual o Império Alemão tomou o lado dos austro-húngaros, enquanto os russos tomaram o lado dos sérvios, fazendo com que todas as políticas de alianças secretas fossem enfim postas à prova. Em 28 de julho de 1914, exatamente um mês após a morte do nobre, o mais brutal conflito da história humana até então teve seu início.

A aristocracia alemã temia que o socialismo e a democracia dessem um fim ao mundo em que viviam, e por isso empenharam-se ainda mais em vencer a França e o Reino Unido o mais rápido possível, por meio do Plano Schlieffen, em que 90% das forças alemãs seriam enviadas para a Bélgica, para derrubá-la em poucas semanas e então varrer Paris. Infelizmente para eles, mesmo com o domínio quase absoluto da Bélgica, nem todo o seu poder de fogo foi capaz de atravessar as defesas francesas, reforçadas com soldados britânicos.

O general Joseph Joffre agiu rapidamente para mobilizar mais de 600 táxis para transportar mais de 6 mil soldados da reserva até a fronteira belga, o que tornou possível o impedimento da invasão alemã, em um dos episódios mais exóticos desse devastador conflito.

Na Europa, 2,5 milhões de franceses, auxiliados inicialmente por pouco mais de 100 mil soldados britânicos, número que cresceu exponencialmente ao longo do conflito, enfrentaram mais de 2,5 milhões de alemães no Oeste Europeu.

Todavia, esse era apenas um dos muitos palcos da Grande Guerra. Na África, as colônias alemãs eram rapidamente tomadas pela Entente, privando-as de vastos recursos. Ao mesmo tempo, tropas vindas do Senegal e do Norte da África eram enviadas para solo francês, para lutar em nome daqueles que os escravizavam. Isso levantou um questionamento decisivo: se somos bons o suficiente para morrer pelos franceses, por que não somos bons o suficiente para viver como eles?

Tais dilemas acabaram ofuscados pelas brutais Batalhas de Verdun e Somme, que levaram a França à beira de um colapso, mesmo tendo saído vitoriosa. As tropas sob comando de Robert Nivelle e Pétain passaram a recusar-se a cumprir ordens para ataques suicidas. A vida nas trincheiras era infernal, e muitos daqueles homens já estavam em seu limite físico e psicológico, recusando-se a servir como bucha de canhão para as metralhadoras alemãs.

A crise era clara e, caso a inteligência alemã tivesse sido capaz de prever esse impasse interno nas linhas francesas, poderia ter dado um fim a seu maior adversário logo em 1917.

Após a queda do Império Russo nas mãos do bolchevismo em 1917, os alemães puderam finalmente voltar todas as suas forças contra os franceses, mas já era tarde demais. Os EUA haviam entrado no conflito, inundando as trincheiras com milhões de novos soldados, tanques e armas. Os britânicos, por meio de sua marinha, já haviam arruinado o comércio naval alemão, além de terem praticamente despedaçado o Império Otomano ao alimentar conflitos internos na região.

Agora, lideradas por Philippe Pétain, que lhes concedeu melhores condições de descanso e alimentação, as revigoradas tropas francesas marcharam em uma última ofensiva junto a britânicos e americanos.

A ofensiva de cem dias, realizada entre agosto e novembro de 1918, destruiu definitivamente as defesas alemãs, levando-as ao colapso junto a todos os seus aliados. Em 11 de novembro de 1918, às 11 horas da manhã, após 1,4 milhão de mortes francesas, a guerra finalmente havia acabado para eles.

A beleza e a prosperidade foram substituídas pelo caos e pela miséria. Mais uma vez, a França estava em frangalhos, mas dessa vez, alguém iria pagar por isso, literalmente. O ódio francês pelos alemães era incalculável, o que o fez ignorar completamente as 12 propostas do presidente estadunidense Woodrow Wilson para uma paz duradoura na Europa e impor, com apoio britânico, uma multa de mais de 200 bilhões de marcos, junto a várias outras exigências humilhantes por meio do Tratado de Versalhes, assinado em 1919, na mesmíssima Sala dos Espelhos, onde os alemães antes haviam forçado os franceses a coroar seu Imperador.

A rixa entre as nações continuava, enquanto as potências europeias viam seus domínios coloniais lentamente escorrem por entre seus dedos, enquanto uma dívida explosiva inflamava as ruas com trabalhadores cada vez mais fascinados com as perspectivas de uma sociedade “igualitária” nos padrões soviéticos.

Nesses anos sombrios, nenhuma arte foi tão importante quanto o cinema, e a França soube fazer dele um reflexo de sua própria realidade. Mais uma vez, a França não apenas sobreviveria à história, ela ajudaria a moldar a forma como o mundo a enxergaria.

Aqui está o texto ajustado exatamente com as correções pontuais de enredo e fatos históricos, mantendo integralmente a sua estrutura, tom e ritmo original:

Em 1895, na estação de La Ciotat, os irmãos Louis e Auguste Lumière deram os primeiros passos da história da Sétima Arte, fazendo da França o seu berço. Sem atores, iluminação ou roteiro, apenas um antigo Cinématographe, que servia como filmadora, projetor e reveladora ao mesmo tempo, gravando a rotina de uma das estações de trem mais movimentadas do sudeste francês. O clipe tem pouco mais de 50 segundos e mostra apenas as idas e vindas de dezenas de transeuntes em suas vidas normais. A arte começava como um simples experimento.

Talvez o relato mais chocante do primeiro curta-metragem da história do cinema tenha sido a sua exposição no grandioso Grand Café de Paris, onde a elite francesa teve o primeiro contato com o cinema. Os jornais da época fizeram matérias um tanto quanto… sensacionalistas acerca das reações do público com aquela verdadeira maravilha da modernidade, chegando a afirmar que alguns gritavam e levantavam-se das cadeiras por medo de serem atropelados pelo trem, o que seria o equivalente a pular da cadeira assistindo a um slideshow. Mesmo para 1895, essa é inacreditável.

Porém, os irmãos não foram os únicos franceses a brilhar nos primórdios do cinema. Em 1902, Georges Méliès adaptou a obra “Viagem à Lua” de H.G. Wells e Júlio Verne, redefinindo o padrão de custo e produção das obras da época, fazendo do cinema um portal para os sonhos, e não apenas um reflexo da realidade.

Na trama, um grupo de astronautas realiza uma expedição para a lua (que, por sinal, tem uma expressão bizarra, típica do Coringa), sendo capturados pelos selenitas, nativos que os levam à presença de seu rei. O pequeno grupo consegue escapar e, de volta à Terra, conta as maravilhas e horrores que viram por lá.

A obra tornou-se referência técnica na época, eternizando Georges como um verdadeiro mestre dos efeitos visuais, aos quais dominava como um mágico no palco. Em doze minutos, Georges Méliès mostrou a grandeza das maravilhas que o cinema poderia criar.

Ele também é conhecido por lançar o primeiro curta-metragem de terror de todos os tempos, “O Castelo do Diabo”, de 1896, em que o temível mago Mefistófeles passa 3 minutos invocando criaturas bizarras para chocar o público, de hordas de morcegos até esqueletos que andavam completamente sozinhos.

A França foi a precursora do cinema mágico e grandioso, mas mostrou-se capaz de adaptar-se a diferentes contextos, diferentes eras, e sempre entregar um cinema diferente, mais profundo, complexo e íntimo. Então, vamos conhecer alguns desses clássicos, de diferentes momentos do cinema francês.

Zero de Conduta (1933)

Enquanto a Alemanha dominava o cinema europeu com o Expressionismo, e os EUA construíram um verdadeiro império do entretenimento, fazendo das celebridades verdadeiros semideuses com fama e rios de dinheiro, a França investiu na característica mais reconhecível de sua identidade cultural: a rebeldia.

Dirigida por Jean Vigo, filho de anarquistas, a obra foi financiada anonimamente por um homem que desejava ter a sua vivência em um internato transformada em filme. Essa felicidade seu dinheiro pode comprar.

A trama vai na contramão do cinema do período, que retratava as crianças de maneira moralista e idealizada, fazendo-as pôr o internato abaixo no momento em que seu direito de deixá-lo no final de semana lhes é negado por seus professores ridiculamente rígidos e estereotipados. Os garotos organizam uma verdadeira revolta no local, promovendo uma intensa guerra de travesseiros que devasta completamente seu dormitório, seguida por uma marcha quase militar, em um caos revolucionário que parece correr pelo sangue francês, mas sem o peso dramático habitual, sendo trazido como uma pura e simples desobediência infantil.

Como era de se esperar, o filme foi censurado pelo governo francês no mesmo ano de seu lançamento, acusado de promover o mau comportamento entre as crianças. Vigo acabou falecendo pouco tempo depois, vítima da tuberculose aos 29 anos, e jamais teve a chance de ver seu filme ser aclamado em 1945, quando sua restrição finalmente caiu.

Boulevard do Crime (1945)

Um longa-metragem gravado enquanto sensores nazistas fiscalizam o elenco, uma verdadeira produção de risco, em que o diretor Marcel Carné abrigou mais de 1800 soldados da Resistência Francesa na produção, em um corajoso ato de heroísmo clandestino.

Rodado em Nice, no sul da França, o filme aborda a incontrolável paixão de quatro homens totalmente distintos por uma mesma mulher: a cortesã Garance. Eles são:

  • Baptiste (Jean-Louis Barrault): um mímico melancólico e genial (baseado no mímico real Jean-Gaspard Deburau).

  • Frédérick (Pierre Brasseur): um ator vaidoso, ambicioso e extravagante.

  • Lacenaire (Marcel Herrand): um criminoso elegante, cínico e calculista.

  • Conde de Montray (Louis Salou): um aristocrata rico e possessivo.

Como era de se esperar em uma grande tragédia romântica, a obsessão por aquela mulher traz a ruína para a vida de cada um deles, culminando em crime, desilusão e na solidão de Garance ao ser engolida pelas ruas de Paris.

Um majestoso espetáculo de teatro lançado no cinema sob a mira das armas. O cenógrafo Alexandre Trauner, proibido de trabalhar pela Gestapo nazista, trabalhava desenhando os cenários em Paris, enviando os rascunhos secretamente para que Carné os utilizasse. Eles estavam literalmente dando a vida pela arte.

Todavia, o bastidor mais curioso desse clássico atemporal é o caso romântico da protagonista Arletty com o piloto, membro da Luftwaffe, Hans Jürgen Soehring, que a fez ser acusada de colaboracionismo com a ocupação inimiga. O ódio das massas contra a atriz foi tamanho, que ela se viu obrigada a assistir seu próprio filme de máscara, por medo de ser linchada pelo próprio público.

Além de um drama romântico incrível, a obra é um verdadeiro retrato da coragem e persistência de um povo, que não abandona suas raízes nem mesmo em suas horas mais sombrias.

A Bela e a Fera (1946)

Para você que achava que a Disney tinha adaptado a obra pela primeira vez aos cinemas! O maior clássico de fantasia francês retrata a jovem Bela, presa em um enorme castelo, governado por uma terrível Fera, que, por mais horrorosa e agressiva que seja, tenta convencê-la a amá-la, algo que a garota consegue fazer aos poucos, ao enxergar o bem que existe para além de suas presas e garras.

O castelo e a magia davam ao longa um ar lúdico e deslumbrante, mas, o diretor Jean Cocteau fez questão de deixar muitíssimo claro, a ponto de aparecer no início escrevendo em uma lousa que aquilo se tratava de uma lição de vida, e não de uma reles fantasia.

Ao invés dos clássicos castiçais e bules de chá falantes, a jovem é servida por mãos que saem literalmente das paredes, misturando conceitos de Salvador Dalí com os contos dos Irmãos Grimm. O visual horripilante, as velas que acendem e apagam sozinhas, as mãos surgidas das sombras, tudo isso criou vida por intermédio de efeitos práticos inovadores, décadas antes do famigerado e hoje criticado CGI.

Era um toque de magia em um país que havia acabado de sair das trevas.

Acossado (1960)

Dirigido por aquele que é considerado por muitos como o maior diretor francês de todos os tempos: Jean-Luc Godard, o pai da Nouvelle Vague.

Inspirando-se nos clássicos filmes noir americanos dos anos 1940, Godard narra a história de Michel Poiccard, um jovem delinquente que, após matar um policial, decide fugir para Paris, onde conhece Patrícia, uma jovem vendedora de jornais americana por quem se apaixona, e tenta convencê-la a fugir com ele para a Itália.

Os dois servem quase como uma antítese um do outro: Michel é dotado de uma moral totalmente niilista, pouco se importando com o mundo à sua volta, focado apenas na própria adrenalina. Enquanto Patrícia, com uma veia intelectual, teme tornar-se refém da loucura imprevisível do bandido. Isso leva a uma traição inesperada por parte dela, denunciando-o à polícia. Ao descobrir, Michel não se irrita. Exausto de fugir, ele aceita seu destino, mas ainda tenta uma corrida desesperada pela rua ao ver os agentes, sendo baleado pelas costas. Caído na calçada nos seus segundos finais, ele encara Patricia e murmura sua última e amarga frase, em um final um tanto anticlimático, mas perfeitamente coerente com a proposta inovadora da obra.

A obra destaca-se por simplesmente ignorar quaisquer manuais hollywoodianos que pareciam regra na época. Os atores descobriam os diálogos literalmente no momento das gravações; o baixo orçamento fazia com que os câmeras filmassem as cenas externas transportando os equipamentos em carrinhos de entrega, e o material final do filme foi cortado quase pela metade pelo diretor.

O Fabuloso Destino de Amélie Poulain (2001)

Amado pela crítica francesa, o diretor Jean-Pierre Jeunet não se deu nada bem no cinema estadunidense, após dirigir o catastrófico Alien 4, voltando para a França com o currículo manchado, para só então dirigir seu trabalho mais notório.

Amélie (Audrey Tautou) é uma jovem ingênua e introvertida que vive no bairro de Montmartre. Após encontrar uma caixinha de lembranças escondida no seu apartamento e devolvê-la ao antigo dono, ela decide mudar a vida das pessoas ao seu redor por meio de pequenos e anônimos gestos de gentileza. No processo, ela se apaixona por Nino (Mathieu Kassovitz), um rapaz tão peculiar quanto ela, que coleciona fotos descartadas em cabines fotográficas.

Amélie Poulain virou um fenômeno cultural global. O filme revitalizou o "soft power" parisiense nos anos 2000, vendendo uma visão poética, colorida (com a famosa paleta verde e vermelha), romântica e nostalgicamente perfeita de Paris. É a obra que fez gerações de jovens no mundo inteiro sonharem em passear pelas ruas da capital francesa ao som do acordeão de Yann Tiersen.

História III: A Queda do Império

Mesmo emergindo vitoriosa na Primeira Guerra Mundial, a nação francesa saiu de quatro anos de conflito completamente devastada. Se já não bastassem os 1,4 milhão de mortos nas trincheiras, muitos deles tinham entre 20 e 30 anos, o que causou um impacto devastador na força de trabalho do país pela próxima década. Mais de 700 mil mulheres ficaram viúvas, e mais de 1,1 milhão de crianças tornaram-se órfãs. A alma de um país de mais de 38 milhões de habitantes havia sido devastada.

Mais de 800 mil prédios e residências foram completamente destruídos, com cidades como Reims sendo quase completamente obliteradas. Se em 1914 a França era uma das credoras do mundo, agora era um dos países mais endividados, com mais de 157 bilhões de francos-ouro de rombo. Seus principais credores eram justamente seus dois maiores aliados: o Império Britânico e os Estados Unidos da América.

Isso fez com que o governo francês tomasse a decisão mais óbvia e, ao mesmo tempo, a mais desastrosa a se tomar naquele momento: obrigar a Alemanha a pagar absolutamente tudo por meio das imposições do Tratado de Versalhes.

Isso fomentou o ódio entre franceses e alemães, mesmo em tempos de paz, algo que duas décadas depois custaria muito caro à França.

Se internamente a França sofria, seu Império Colonial tornava-se maior do que nunca. Camarões, Togo, Líbano e Síria foram alguns dos novos domínios anexados pós-guerra, fazendo com que o Império Francês alcançasse nada mais, nada menos que 11,5 milhões de km² de extensão, perdendo apenas para o Império Britânico, com 35.500.000 km².

Porém, o seu domínio abusivo desses vastos territórios tornava-se cada dia mais contestado. A Guerra do Rif e a Revolta na Síria foram alguns dos episódios mais sangrentos do colonialismo francês. No caso sírio, bombardeios foram realizados pela Força Aérea Francesa contra a cidade de Damasco, chocando até mesmo as outras potências coloniais com tamanha barbárie.

Com a quebra da bolsa de Wall Street em Nova York e o início da maior crise econômica de todos os tempos, a Europa enfrentou um de seus piores momentos, e a França não foi exceção. Com a quebra do mercado internacional, o governo francês iniciou uma intensa política de protecionismo colonial. Todas as colônias francesas foram forçadas a ceder-lhes matéria-prima a preços baixíssimos, e eram terminantemente proibidas de industrializar-se. Elas serviriam como uma imensa fazenda para os franceses.

Para disfarçar o viés racista e oportunista desse ato, o governo francês realizou a enorme Exposição Colonial Internacional de Paris, em 1931, atraindo 33 milhões de visitantes à capital francesa, fascinando-se com o sucesso da dita “missão civilizatória” empreendida pelo Império Francês, enquanto, na realidade, revoltas continuavam a nascer em todos os cantos.

Ao mesmo tempo, França, Reino Unido e, em certos momentos, a União Soviética, passavam a discutir quanto ao ressurgimento da Alemanha como uma potência militar perigosa. Sob o comando de Adolf Hitler, a Alemanha Nazista passou a ignorar completamente o Tratado de Versalhes e passou a exigir a reanexação da Áustria e, posteriormente, a junção dos Sudetos aos seus domínios. Ambas as exigências foram aceitas por franceses e britânicos, visando evitar um conflito que sabidamente seria devastador.

Os Aliados deixaram apenas uma condição clara: se Hitler se expandisse contra qualquer outro país do Leste Europeu, a guerra seria declarada.

Quando o então Primeiro-Ministro britânico, Neville Chamberlain, surgiu ao lado de Vossa Majestade, o Rei George VI, prometendo “paz para o nosso tempo”, muitos respiraram aliviados, menos os que sabiam a verdade inevitável por trás daquelas palavras: a guerra era inevitável.

O Reino Unido acreditava desde 1919 que as imposições do Tratado de Versalhes haviam sido injustas em muitos aspectos, e não se importava que os alemães estivessem descumprindo várias de suas linhas, pois, a grosso modo, somente a França de fato lutou para seu cumprimento. O desespero foi tamanho que a França tentou aliar-se até mesmo com a Itália Fascista, algo que quase deu certo, se não fosse pela catastrófica invasão da Etiópia por parte dos italianos, que manchou completamente a sua imagem no cenário internacional.

Hitler fazia manobras provocadoras, como a remilitarização da Renânia, bem na fronteira francesa, apenas para analisar sua reação. A França não agiu, muito menos o Reino Unido, e a URSS, vacilante, acabaria assinando um pacto de não agressão com os nazistas. O cenário da revanche se desenhava perfeitamente para a Alemanha.

Numericamente, a França possuía soldados e equipamento mais do que o suficiente para repelir uma iminente invasão nazista, mas o despreparo de seu exército e a velocidade impressionante do combate alemão seriam sua ruína.

Quando o exército nazista invadiu a Polônia, o terror que a Europa passou vinte anos tentando evitar era de novo uma realidade. O Reino Unido demorou para mobilizar um número considerável de tropas em solo, fazendo com que a França se tornasse a principal força terrestre a combater a Alemanha. De nada adiantou. Mesmo com mais de 3,3 milhões de tropas, a França e seus aliados sofreram derrotas consecutivas. Polônia, Noruega, Dinamarca, Bélgica, todos tombando perante aquela que parecia ser uma máquina de guerra praticamente invencível.

A França apostou alto na intransponível linha Maginot, com uma vastidão de bunkers, canhões e armadilhas, a qual a Alemanha jamais conseguiria atravessar. Para seu azar, o inimigo simplesmente ignorou essa muralha e invadiu o território francês por meio das Ardenas, encurralando os franceses, que, com uma péssima comunicação e coordenação, tinham suas forças dispersas, sendo massacradas pelos nazistas.

No confronto direto, os tanques e a artilharia francesa equiparavam-se e, em muitos casos, superavam o poderio alemão, mas a falta de reforços e logística levou à ruína. Com a derrota iminente, mais de 330 mil soldados britânicos e franceses escaparam em Dunquerque, atravessando o Canal da Mancha sob fogo inimigo, rumo à Grã-Bretanha, onde os rumos da guerra começaram a mudar.

Semanas mais tarde, temendo que a frota francesa caísse nas mãos nazistas após o armistício, a Royal Navy britânica atacou navios franceses em Mers-el-Kébir. Eram antigos aliados matando uns aos outros em nome da própria sobrevivência.

Em junho de 1940, Paris tombou, e a suástica foi hasteada no topo da Torre Eiffel, fazendo do monumento mais icônico do país um símbolo máximo da sua humilhação.

Nesse momento, o General Charles de Gaulle tornou-se a última centelha de esperança para o povo francês, tendo escapado para Londres para liderar a resistência francesa na “segurança” do Reino Unido, que se tornou a única força a enfrentar o Eixo no Ocidente.

Em solo francês, o Marechal Pétain foi transformado no líder do Regime de Vichy, um governo colaborador alinhado à Alemanha.

A relação de De Gaulle com Churchill e Franklin Roosevelt (Presidente dos Estados Unidos) era bastante instável, com Roosevelt acreditando que o general francês tinha aspirações um tanto quanto ditatoriais, tendo ele mesmo alguns “planos” para o futuro francês sob administração americana.

Após o Dia D na Normandia em 1944, que culminou na libertação de Paris pelas forças aliadas, De Gaulle rapidamente reuniu as forças francesas para garantir a soberania do país e participar da reta final do conflito na Europa, assegurando à França um lugar entre os vitoriosos na queda da Alemanha Nazista.

600 mil mortes, dívida batendo de 160% a 200% do PIB, um Império Colonial em frangalhos e um orgulho nacional terrivelmente ferido. Essa era a França em 8 de maio de 1945, quando a guerra na Europa conheceu seu fim.

A ordem europeia havia sido irreversivelmente balançada.

Da Moda à França Contemporânea

Se a Segunda Guerra Mundial deixou a França materialmente destruída e com o orgulho ferido, a sua reconstrução não se deu apenas através do cimento, do aço ou da política. Para reerguer o espírito nacional e reconquistar o status de farol cultural do Ocidente, a França recorreu a um de seus pilares mais antigos e simbólicos: a alta-costura.

Ainda nos anos de ocupação, o setor têxtil e os grandes ateliês de Paris resistiram bravamente às tentativas do regime nazista de transferir a capital da moda europeia para Berlim ou Viena. Com o fim do conflito, a indústria da moda tornou-se o principal motor de soft power e de recuperação econômica do país. Em 1947, Christian Dior lançou o emblemático “New Look”, com saias volumosas e cinturas marcadas que rompiam radicalmente com a austeridade dos anos de guerra. O movimento não apenas devolveu a Paris o título inquestionável de capital mundial da moda, mas também simbolizou o renascimento da própria feminilidade e da sofisticação francesa perante o mundo.

Nas décadas seguintes, nomes como Yves Saint Laurent, Coco Chanel (em seu retorno) e Givenchy transformaram o fazer artesanal em um império industrial e corporativo. A moda deixou de ser um mero luxo da aristocracia para se tornar uma das maiores indústrias exportadoras do país, culminando no surgimento de conglomerados gigantescos como o LVMH e a Kering, que hoje figuram entre as empresas mais valiosas do planeta e sustentam centenas de milhares de empregos diretos e indiretos na França moderna.

Hoje, a França do século XXI é um reflexo complexo desse passado de glórias, traumas e reinvenções. Quinta ou sexta maior economia do mundo, o país ostenta um dos padrões de vida mais elevados da Europa, sendo a nação mais visitada por turistas no planeta, atraídos por sua história, gastronomia, arquitetura e, claro, pelo charme atemporal de Paris.

No entanto, as marcas do império e das crises econômicas ainda ecoam com força no cenário contemporâneo. A França lida diariamente com os desafios de uma sociedade profundamente multicultural e polarizada, marcada por tensões sociais nas periferias (banlieues), debates acalorados sobre integração e secularismo (laïcité), e uma constante insatisfação popular que se manifesta em protestos massivos e greves históricas, uma tradição política viva do espírito revolucionário francês.

Entre a grandiosidade de seu patrimônio histórico e as incertezas do cenário geopolítico global, a França segue buscando equilibrar o peso de seu passado imperial com a necessidade de se manter como uma das líderes incontestáveis da União Europeia e da cultura global.

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