DC VS Marvel: Quando o Fanservice supera a lógica
Em 1996, Marvel e DC fecharam um acordo histórico, realizando o sonho de milhões de fãs de quadrinhos: um crossover unindo os heróis e vilões de ambas as editoras, e o mais importante: fizeram todos eles saírem na porrada. Como unir esses dois universos… Bom, eles não passaram muito tempo pensando nisso. Dois seres celestiais irmãos têm um atrito e, ao invés de resolverem no braço, pois sabem que isso destruiria completamente o universo, convocam os seres mais poderosos de suas realidades e os colocam para lutar em seu nome em uma série de duelos. O universo que tivesse mais vitórias seria poupado; o outro, como era de se esperar, seria completamente varrido da existência. Obviamente, nenhuma das duas queria ver seus ícones perderem diante dos leitores, o que as levou a uma decisão inédita: deixar o público decidir quem leva. Eles simplesmente iriam decidir um duelo com base em quem era mais popular. Isso causou grandes dificuldades para os roteiristas Ron Marz e Peter David, e principalmente para os desenhistas Dan Jurgens e Claudio Castellini, que trabalhavam durante as votações e, por vezes, finalizavam a arte antes mesmo do resultado ser consumado, o que explica o porquê de alguns serem tão incoerentes e mal explicados. As cinco lutas principais: Batman vs. Capitão América, Hulk vs. Superman, Mulher-Maravilha vs. Tempestade, Homem-Aranha vs. Superboy e Wolverine vs. Lobo, foram decididas inteiramente pelo público, enquanto outras seis ficaram a critério dos roteiristas, que, vejam só, tiveram resultados minimamente coerentes. Poderíamos fazer o óbvio e trazer uma simples review dessa várzea monumental entre DCnautas e Marvetes, mas isso seria um tanto maçante, até porque a história é simplesmente uma prerrogativa bem dispensável para que os heróis partam por X1. Então, nossa missão hoje é a seguinte: quais duelos foram de fato coerentes e fizeram justiça ao poder e à habilidade dos heróis envolvidos, e quais foram decididos pura e simplesmente pelo fanservice. É isso que vamos descobrir hoje!
MARVEL E DC
Rafael Silva
7/30/202610 min read
Thor vs. Shazam


O show de abertura, com direito a Rick Jones e Snapper Carr, apostando no vencedor. De um lado, o Deus do Trovão da mitologia nórdica, com milênios de experiência em combate, e munido de uma das armas mais poderosas do multiverso: o Mjolnir. Do outro lado, está o campeão dos deuses gregos, que possui um conjunto de seus melhores dons ao pronunciar uma simples palavra mágica: Shazam!
Ambos demonstram respeito mútuo e deixam claro que só irão lutar porque seus universos dependiam deles, e que, em outro contexto, eles estariam no mesmo lado. Acostume-se com esses diálogos, pois eles serão repetidos em quase todas as lutas.
Billy Batson abre os trabalhos com murro potente, que é respondido com um golpe certeiro do Mjolnir, que o lança contra uma roda gigante, que logo cai sobre ele. Desesperado, Shazam volta à forma de garoto para sair dos escombros (como se um cara com força equiparável à do Superman não pudesse simplesmente levantar o ferro). Aproveitando-se da oportunidade, Thor lança seu martelo, que atinge o adversário antes que ele possa se transformar novamente, derrotando-o instantaneamente.
Nerfaram o Shazam? Com certeza! Ele deveria ter ganho? Aí já é outra história. Fisicamente os dois são equiparáveis, com Shazam possuindo maior velocidade e talvez uma força ligeiramente superior (já que empatou uma queda de braço com o próprio Homem de Aço), algo que Thor compensa com mais experiência em combate e uma arma que já fez até mesmo Galactus balançar. Qualquer vencedor seria justo, e o Filho de Odin foi oportunista quando o roteiro lhe permitiu. Assim sendo: resultado justo e decidido diretamente pelos roteiristas.
Aquaman vs. Namor


O confronto dos reis. O duelo obviamente se desenrola debaixo d'água, onde um Aquaman arrogante subestima o Príncipe Submarino e acaba lançado por um jorro de água para a superfície. Lá, Arthur Curry se aproveita do seu gancho na mão esquerda para prender Namor e finaliza o combate jogando uma baleia-jubarte em cima dele. Quase um Animality à la Mortal Kombat.
O duelo é breve e resolvido em três páginas, e talvez, impreciso. Namor é ligeiramente superior fisicamente ao Rei da Atlântida da DC, já tendo medido forças até mesmo com Hulk e Thor fora da água, onde eles possuem habilidade de voo, algo que o Aquaman apenas sonha em ter. Curry, por sua vez, é superior em combate físico e possui uma gama mais ampla de habilidades com a fauna marinha. Porém, tendo em vista que o duelo encerrou-se fora dos oceanos e de maneira ridícula, creio que ele inaugura uma nova categoria: resultado questionável.
Flash vs. Mercúrio


Esse é incontestável. Os dois velocistas correm por uma rodovia movimentada, e Wally West deixa clara a diferença entre eles: “é como uma tartaruga correndo ao lado de um caça F-4”. Pode parecer soberba, mas vale lembrar que West já foi mais rápido que um teletransporte instantâneo, enquanto Pietro Maximoff limita-se a correr mais rápido que o som.
Ele somente consegue atingir Flash quando ele desacelera para salvar um pai e seu filho de um acidente. O próprio Mercúrio se enoja de tamanha covardia, apenas para levar 2 mil socos em um segundo e cair desmaiado no chão antes mesmo de piscar.
O Velocista Escarlate é muito mais veloz, muito mais poderoso, e mesmo distraindo-se, humilhou seu adversário: resultado justo.
Robin vs. Jubileu


O resultado desse é mais coerente que o romance forçadíssimo que a HQ tenta consolidar em cinco páginas. Tim Drake e Jubileu têm uma trama digna de Malhação, apaixonando-se ao primeiro contato e quase se recusando a lutar devido aos sentimentos que adquirem um pelo outro em menos de um dia. Os hormônios são o verdadeiro poder desses dois.
Quando decidem lutar, Robin faz algo que deixaria Batman orgulhoso: se esconde e espera uma distração. Jubileu possui poderes mutantes, mas é extremamente imprudente e desatenta; assim, quando o Menino Prodígio arma uma distração com sua capa, ele consegue amarrá-la e imobilizá-la, encerrando o confronto de maneira rápida e humilhante, apenas para desamarrá-la com frases sugestivas e continuar com o drama.
Tendo em vista o mental de ambos os personagens, o resultado é justíssimo. Robin é um ótimo estrategista e soube se aproveitar da inexperiência de sua adversária para triunfar, mesmo que não tivesse chance alguma em um confronto direto.
Para quem acusa o Menino Prodígio de ser um saco de pancadas, agradeça, pois esse foi um dos poucos pontos que a DC faturou nesta terceira edição. Resultado justo.
Lanterna Verde vs. Surfista Prateado


Um duelo espacial simplesmente impressionante, mas consideravelmente injusto com nosso saudoso Kyle Rayner. Como um criativo desenhista, ao portar a arma mais poderosa da DC, o Lanterna Verde construiu incríveis canhões e armaduras de combate, impressionando o Arauto de Galactus, mas sem conseguir atingi-lo uma única vez, graças à velocidade soberba do Surfista.
Concentrando seu poder cósmico, o Surfista rompe os constructos e, com um golpe certeiro, nocauteia o Lanterna sem dificuldades. O Surfista faz questão de salvar o rival com sua prancha, reforçando a admiração que possuí por ele.
Por mais que seja fã do Lanterna, é inegável a superioridade do Surfista, desde sua velocidade incomparável no espaço até sua capacidade de manipulação de matéria, que já foi capaz até mesmo de drenar a radiação gama de Hulk, forçando-o a voltar ao estado de Bruce Banner. Kyle não tinha chance. Resultado justo.
Mulher-Gato vs. Elektra


Outro inquestionável, e que dura somente duas páginas. Selina e Elektra se encontram no topo de um prédio em construção, com a Gata atacando primeiro com suas garras, apenas para ser subjugada em dois movimentos pela assassina, que a puxa com seu próprio chicote, pendurando-a, para então cortá-lo, derrubando-a em uma enorme caixa de areia, em uma referência ao clássico Batman: O Retorno (1992). Pelo menos eu achei...
Selina é uma ladra habilidosa e já enfrentou o Batman mais de uma vez, tendo muita experiência nas ruas de Gotham e tendo recebido treinamento de guerreiros talentosos como o Pantera. Mas, diante de uma assassina treinada desde a infância e que já entra no confronto com sede de sangue, a affair do Batman teve sorte de não ter morrido. Resultado justo.
Mulher-Maravilha vs. Tempestade


Outra viagem do fandom. Diana havia acabado de erguer o Mjolnir, mostrando-se digna do poder de Thor e tornando-se infinitamente mais poderosa que Ororo. Sabendo disso, ela abre mão da arma, desejando uma luta justa… apenas para perder em DUAS PÁGINAS.
Eu queria estar mentindo, mas a Princesa das Amazonas literalmente se agarra na perna da X-Men, recebe uma rajada de raios e desmaia. É isso: a maior heroína de todos os tempos é derrotada em uma luta que deve ter demorado menos de um minuto.
Os X-Men estavam no topo das vendas da indústria dos quadrinhos, e naturalmente, seus heróis teriam um enorme favoritismo, mas, antes de forçar a barra assim, poderiam ao menos inventar uma desculpa melhor.
Os braceletes de Diana já desviaram até mesmo os raios ômega de Darkseid. Eles não podem parar um raio? Seus socos já tiraram sangue do Superman, e suas habilidades derrotaram deuses gregos como Ares e Hércules. Ou seja: é inconcebível ela ser humilhada dessa maneira. No meu entendimento, teríamos um bom duelo, mas Diana venceria com certa facilidade. Resultado completamente questionável.
Wolverine vs. Lobo


Se existisse uma categoria chamada farsa absoluta, ela seria inaugurada aqui. A DC colocou um caçador de recompensas alienígena imortal, que troca soco com o Superman, se regenera a partir de uma gota de sangue e já destruiu o próprio planeta natal por piada. A Marvel enviou um mutante baixinho com ossos de metal e fator de cura.
O resultado? Os dois vão para trás do balcão de um bar espacial e a luta acontece inteiramente fora de cena, com alguns efeitos sonoros na tela. Segundos depois, o Wolverine sai de trás do balcão acendendo um charuto. Nem os roteiristas e desenhistas sabiam como desenhar essa vitória de forma convincente sem rasgar o gibi ao meio.
O próprio roteirista Ron Marz admitiu anos depois que essa vitória foi pura imposição do público, já que o Wolverine era o ápice da popularidade nos anos 90. Na lógica dos quadrinhos, o Lobo usaria o Logan como palito de dente. Resultado surreal de tão absurdo.
Superboy vs. Homem-Aranha


Você acha mesmo que o Amigão da Vizinhança iria perder uma votação popular? O roteiro precisou simplesmente ignorar os poderes de Kon-El.
Peter salta de um lado para o outro, desviando-se de ataques de um garoto com velocidade equiparável a de Superman, e que ainda possuí dons extra de telecinese, contra-atacando com chutes que o fazem cambalear. Detalhe: o Superboy já sobreviveu a socos do Superciborgue. Como os golpes de Peter surtem qualquer efeito?
No primeiro crossover entre Homem-Aranha e Superman, os socos do Aranha faziam suas mãos doerem, e um único ataque do Homem de Aço bastou para derrotá-lo. Essa luta deveria ser um passeio!
Ao invés disso, Peter faz com que o Superboy atinja uma usina elétrica e desabe com a descarga, o que novamente: não deveria ser suficiente para pará-lo.
Assim como as duas anteriores, esse duelo é um exemplo claro de quando o fanservice supera a lógica. Resultado questionável.
Superman vs. Hulk


Um dos duelos mais aguardados. Superman encontra o Golias Esmeralda surrando Metallo, que é finalizado com um soco duplo dos dois titãs, que logo são levados para o Grand Canyon, para que seu duelo não pudesse ferir ninguém. Com certeza essa medida foi muito bem pensada.
O primeiro golpe de Hulk faz com que o Homem de Aço atravesse uma montanha e perceba que está lidando com um oponente digno de toda a sua força. Nesse momento, Hulk e Bruce Banner viviam em equilíbrio, sem a selvageria odiosa habitual de Hulk, tornando-o mais inteligente, mas limitando a sua força.
Superman usa sua visão de calor à máxima potência para atordoá-lo, mas o titã simplesmente não para, sendo necessário um soco com toda a força, que rasga o canyon ao meio, para finalmente contê-lo.
Falamos de dois seres com força virtualmente infinita, resistência invejável e velocidade surpreendente. Superman já foi capaz de segurar o livro de páginas infinitas, enquanto Hulk destroçou um asteroide maior que a Terra com um único soco. Superman entra e sai do sol como se fosse um passeio no parque, enquanto Hulk tem um fator de cura que deixa Wolverine e Deadpool no chinelo.
O diferencial de Superman é justamente a sua gama de poderes, especialmente o voo e a velocidade, que lhe permitem atingir o adversário de vários lados sem ser atingido, combinando socos com a sua poderosa visão de calor. Além disso, estamos falando de um Hulk contido, que não se entrega ao ódio selvagem que amplia sua força conforme cresce.
Essa foi a segunda derrota do Verdão, que, em 1981, não conseguiu fazer o Escoteiro Azul sequer sair do lugar com seus golpes. Em 2001, ele perderia mais uma vez, mostrando-se digno de uma música no Fantástico.
Pelo histórico e pela lógica, o triunfo do Homem do Amanhã é aceitável. Resultado justo.
Batman vs. Capitão América


A cereja do bolo, dos dois únicos heróis que de fato param para pensar no jogo e decidem unir-se para compreendê-lo, em vez de simplesmente se baterem.
O Cavaleiro das Trevas e o Super Soldado passam horas se estudando, com o duelo encaminhando-se para os esgotos de Manhattan. Batman ataca de surpresa, mas o Sentinela da Liberdade reage com golpes firmes de seu escudo, lançando o Homem-Morcego como um boneco de pano pelas paredes.
Exaustos, ambos se encaram, reconhecendo a habilidade inigualável um do outro. Nesse momento, o esgoto é liberado, inundando a galeria. Aproveitando-se da chance única, Batman arremessa seu batarang, nocauteando o Capitão América e salvando-o em seguida, apoiando-o nos ombros. Uma bela reconciliação para uma vitória beeeem sortuda.
Por mais que Batman seja mais habilidoso e possua um arsenal vasto, Rogers lutou melhor nas páginas, e em uma luta extensa como foi o caso dessa, teria a vantagem graças a seu fôlego e força sobre-humana. Como ele mesmo diz: “posso fazer isso o dia todo”.
Batman usou sua inteligência e venceu com as chances que teve. Como fã do Morcegão, gostei do resultado, mas é difícil acreditar que ele venceria sem esse artifício de roteiro. Resultado questionável.
O Placar Real vs. O Placar Justo
O placar oficial da HQ acabou em um óbvio 5x5, pois era óbvio que eles ficariam em cima do muro para não desvalorizar seus passes.
Na minha opinião, o crossover ficaria assim:
Thor vs. Shazam: Thor (Marvel 1x0 DC)
Namor vs. Aquaman: Namor (Marvel 2x0 DC)
Mercúrio vs. Flash: Flash (Marvel 2x1 DC)
Robin vs. Jubileu: Robin (Marvel 2x2 DC)
Surfista Prateado vs. Lanterna Verde: Surfista Prateado (Marvel 3x2 DC)
Wolverine vs. Lobo: Lobo (Marvel 3x3 DC)
Tempestade vs. Mulher-Maravilha: Mulher-Maravilha (Marvel 3x4 DC)
Homem-Aranha vs. Superboy: Superboy (Marvel 3x5 DC)
Hulk vs. Superman: Superman (Marvel 3x6 DC)
Capitão América vs. Batman: Empate
Para mim, a DC venceria com certa tranquilidade. Mas, sabidamente, Marvel e DC preferiram manter a neutralidade e engajar os fãs para a bizarra série Amálgama, em que Batman/Wolverine, Superman/Capitão América, Homem de Ferro/Lanterna Verde e outros heróis se fundiram em versões bizarras.
E para você, quem levaria a melhor nestes confrontos? Não deixe de comentar!
