Czar Nicolau II: O homem mais importante do século XX
Primo de George V, Rei do Império Britânico, de Guilherme II, Imperador do Império Alemão e Rei da Prússia, e neto da famosa Rainha Vitória, Nicolau II, Czar do Império Russo, foi o último Imperador do maior império da Eurásia, com sua morte em 17 de julho de 1918, pelas mãos dos bolcheviques, dando um ponto final a mais de 400 anos de monarquia russa, iniciada em 1547, pelo notório Ivan, o Terrível, e de 300 anos da Dinastia Romanov. O Último Czar vivenciou os anos mais sombrios da história russa, da Primeira Guerra Mundial à Guerra Civil e à ascensão do comunismo Bolchevique. Um homem que, por suas ações e omissões, condenou a Rússia a tornar-se o barril de pólvora não só da Europa, como de todo o mundo, e ao seu povo, a jamais ter em suas mãos o poder de uma democracia. Hoje vamos entender como Nicolau II, em decorrência de sua arrogância, ceticismo e covardia, transformou-se em uma das figuras mais importantes do século XX, e como, caso suas escolhas fossem minimamente diferentes, e dentro do que se era esperado de um soberano, a história do maior país do mundo poderia ser drasticamente diferente.
Rafael Silva
3/3/202619 min read
O Último Imperador da Rússia


Nascido em 18 de maio de 1868, Nicolau foi o filho mais velho de Alexandre III e iria sucedê-lo no trono russo. Sua educação foi pautada por um conservadorismo extremo, valores religiosos e uma defesa ferrenha do absolutismo da Monarquia, rejeitando veementemente quaisquer valores liberais, que em potências como Reino Unido e Alemanha, vinham auxiliando no desenvolvimento das economias nacionais junto aos monarcas.
Enquanto o Império Britânico se industrializava cada vez mais, o Império Russo permanecia acorrentado a uma economia fortemente agrária, vulnerável às grandes fomes. A falta de modernização mantinha uma nação que detinha 17% das terras emersas do planeta estagnada.
Muito disso se devia aos desejos da própria aristocracia russa, que detinha para si todo o poder e recursos, o que gradualmente inflamou os ânimos populares contra eles.
Alexandre II, czar anterior a Alexandre III, foi assassinado em 1881, enquanto passava por São Petersburgo. Após sobreviver a múltiplas tentativas de assassinato, acabou morto por uma explosão causada pelo grupo revolucionário conhecido como Vontade do Povo. A elite abastada e incrivelmente privilegiada enfurecia cada vez mais as massas empobrecidas, cujo PIB per capita não representava mais do que 20% do britânico.
Em 1894, Alexandre III morreu, vítima de uma doença renal crônica, e seu filho de apenas 26 anos assumiu o trono, sem transição política e com pouquíssima preparação prática. Ele definitivamente não estava preparado para tamanho poder.
Ser o Czar significava ser Imperador, Marechal, Primeiro-Ministro e Papa simultaneamente, soberano sob um território de 22,8 milhões de quilômetros quadrados, habitado por 175 milhões de pessoas, de 146 nacionalidades diferentes e com mais de 100 dialetos distintos. Quem no mundo poderia dizer estar à altura desse desafio, ainda mais sendo tão jovem?
O próprio Imperador, em seu ciclo pessoal, confessou sua relutância e temor em assumir tamanha responsabilidade: “O que vai ser de mim e de toda a Rússia? Eu não estou preparado para isso, não faço a menor ideia de como governar.”
Mesmo com tanta desconfiança, Nicolau mantinha-se fiel à crença de que a Dinastia Romanov recebera a missão de governar das mãos do próprio Deus. Negar essa missão seria desprezar a vontade divina. Como um ortodoxo fervoroso, casado com Alexandra, uma cristã igualmente ferrenha, ele jamais poderia fazer isso. Porém, tanto poder nas mãos de alguém sem confiança sobre si mesmo, e pragmático demais para dividi-lo, era uma fórmula perfeita para o desastre.
Figuras como o Grão-Duque Sergei Alexandrovich, conhecido por sua linha-dura, apreço pela autocracia e fanatismo religioso, moldaram a mente do jovem Imperador, levando-o a cometer o erro que custaria não só sua coroa e sua própria vida, como também, o futuro do Império Russo.
Em 17 de janeiro de 1895, quando toda a Europa esperava que o czar iria anunciar mudanças políticas que levariam a Rússia a trilhar um caminho semelhante ao seguido pelo Reino Unido, abandonando a monarquia absoluta e abraçando a democracia liberal que tornava-se regra em todo o mundo, o soberano lhes deu um verdadeiro banho de água fria:
"Que todos saibam que eu, dedicando todas as minhas forças ao bem do povo, protegerei os princípios da autocracia tão firme e inabalavelmente quanto o fez meu inesquecível falecido pai."
Ao seguir os conselhos de Alexandrovich, o Imperador não sabia estar cavando a própria cova. Essa visão dogmática era compartilhada por outros membros da realeza, como a própria czarinaque estava Alexandra e Maria Feodorovna, mãe de Nicolau. Assim, mesmo que o jovem tímido, reservado e legitimamente interessado nas vontades do povo, desejasse reformar seu país, as tradições personificadas dentro do Palácio de Alexandre insistiam em prendê-lo ao passo.
A insistência pelo autoritarismo enfureceu cada vez mais as classes camponesas e industriais, cansadas de viver na miséria, enquanto os Romanov viviam em palácios dignos de um filme da Disney, adornados de ouro e joias Dali em diante, seus dias estavam contados.
Ao contrário do que muitos pensam, a industrialização russa iniciou-se ainda no regime czarista, com Nicolau II nomeando Sergei Witte como Ministro das Finanças, que por meio da construção de ferrovias, estradas, fábricas, abertura a capital estrangeiro e o bom e velho aumento de impostos (isso os brasileiros conhecem bem…), passou a transformar a Rússia em um país cada vez mais industrializado, deixando gradualmente suas raízes agrárias.
As lamparinas davam lugar à luz elétrica, as carroças eram substituídas por carros e o telegrama era superado pelo telefone.
Isso gerou um enorme êxodo rural, com trabalhadores vindo de todos os cantos da Rússia para trabalhar nas grandes fábricas de São Petersburgo e Moscou. Todavia, não havia leis trabalhistas, com milhões de trabalhadores sofrendo exploração intensa nas mãos de seus patrões. Quanto a isso, o governo fazia vista grossa.
A coroação de Nicolau II, em 14 de maio de 1896, foi outro caso à parte, mostrando o quão extenso era o descaso dos governantes em relação aos governados. O Grão-Duque Sergei Alexandrovich ficou responsável pela segurança, esperando receber não mais que 300 mil camponeses e trabalhadores nas redondezas de Moscou, no entanto, mais de 800 mil vieram. Comida e bebida seriam oferecidas gratuitamente a um povo que vivia na miséria. Milhares se debateram para chegar à comida, com a pouca segurança sendo incapaz de conter as massas. Ao fim da coroação, Imperador e Imperatriz saíram de carruagem, tendo como vista mais de 1300 corpos.
Ao invés de visitar os feridos ou pronunciar-se de qualquer forma, o czar seguiu para as celebrações, julgando-se acima deste tipo de “banalidade”. Um monarca medieval em tempos modernos, distante de sua gente e cego por seus próprios dogmas. Cada vez mais, a coroa russa mostrava sua verdadeira face: uma monarquia decadente e moralmente atrasada.
Os problemas se seguiram logo no início dos anos 1900. Ditados diziam que, para ser um bom czar, o monarca precisava de duas coisas: ter um herdeiro homem para sucedê-lo e conquistar territórios para o império Infelizmente para Nicolau, ele vinha falhando nas duas coisas.
Ele e Alexandra, até 1901, já haviam tido quatro filhos, e um desespero crescente os cercava. Sem um herdeiro homem, a dinastia Romanov estaria arruinada. Felizmente, em 1904, Alexei Nikolaevich nasceu, dando um alívio momentâneo ao casal. A alegria durou pouco, já que logo nos primeiros dias de vida, o bebê foi diagnosticado com hemofilia, fazendo com que qualquer impacto ou corte o deixasse à beira da morte.
Um príncipe frágil, que poderia não viver nem sequer até a morte de seu pai. O medo fez com que Nicolau II cometesse o terceiro maior erro de seu reinado: colocar Gregório Rasputin em seu palácio. O suposto “padre” era conhecido por realizar milagres por toda a Rússia, como também por ser pervertido sexual, carregando diversas acusações de estupro, que só continuaram a se acumular desde sua chegada em São Petersburgo.
Rasputin foi capaz de salvar Alexei, mas passou a nutrir uma relação um tanto quanto íntima demais com Alexandra, fazendo com que a mídia russa passasse a teorizar que eles estariam não só tendo um caso, como a Monarquia Russa, conhecida por sua devoção religiosa, estava se entregando ao misticismo.
O Imperador teve que escolher entre dois riscos: perder a coroa ou perder seu filho. Ele escolheu a primeira opção, e por mais que por vezes afastasse o estranho homem de sua família, acabava por chamá-lo de volta diante da pressão da Imperatriz.
Os boatos crescentes, a miséria galopante e a instabilidade irrefreável levaram a um momento decisivo: o dia 22 de janeiro de 1905. Milhares de trabalhadores dirigiam-se ao Palácio de Inverno, pedindo por direitos básicos: 8 horas de jornada de trabalho, liberdade de expressão e uma assembleia constituinte.
Dez anos depois de seu infeliz discurso, onde reafirmou o compromisso dos Romanov com a tirania, Nicolau teria a chance de olhar seu povo nos olhos e, enfim, dar-lhe o que tanto desejavam. No entanto, a covardia falou mais alto, e Nicolau acompanhou sua família em uma retirada para outro palácio, deixando sua residência em São Petersburgo cercada por soldados armados, com ordens para atirar caso os manifestantes se “exaltassem demais”. Seu maior erro havia sido cometido.
O que deveria ser a versão russa da Revolução Gloriosa feita pelos britânicos séculos antes, acabou por se tornar o capítulo mais sangrento do governo de Nicolau II, o notório Domingo Sangrento. Os soldados abriram fogo contra os civis. Os que não morreram pelas balas dos soldados ou as lâminas de suas espadas foram pisoteados por seus próprios compatriotas, resultando em 133 mortes oficiais, apesar de fontes da oposição alegarem mais de 4 mil.
O que antes era apenas uma chama revolucionária tornava-se um incêndio que queimava por toda a Rússia. Liberais e comunistas, ao seu modo, agiam por todos os cantos do país, executando atentados notórios, como a morte do Grão-Duque Sergei Alexandrovich em 1905, por um atentado a bomba.
Greves e paralisações emperraram o país, forçando o czar a agir, criando assim a Duma, um parlamento eleito por um vasto eleitorado. Então, ele finalmente atendeu ao clamor do povo? Óbvio que não! A Duma não passava de um fantoche, podendo ter qualquer decisão facilmente vetada pelo czar, no fundo, ele jamais abandonou o absolutismo.
Sendo assim, as manifestações continuaram, com o próprio Primeiro-Ministro Piotr Stolípin sendo assassinado por revolucionários em 1911. Stolípin era tido como a única esperança do czarismo russo, promovendo reformas sistemáticas em todo o país, até o dia de sua morte. Sem ele, o czar tornava-se o culpado por todas as derrotas do país, que, acredite, não eram poucas.
O segundo maior erro de Nicolau havia sido a Guerra Russo-Japonesa (1905-1906), movida pelo interesse do Imperador em aumentar seu território, anexando a Manchúria e a Coréia, e assim, alimentar o ego de sua nação (ou melhor dizendo, o seu próprio).
O Japão era uma nação recém-industrializada, pequena em comparação à Rússia e até então, irrelevante no cenário internacional. Que ameaça eles poderiam apresentar ao poderoso Império Russo? Bom… uma muito grande!
Juntando mortes diretas e derivadas de ferimentos e doenças, entre 80 e 99 mil russos morreram, e uma verdade foi escancarada: o Império Russo não era mais a nação toda-poderosa de outrora, e seu atraso político e industrial acabava de cobrar seu preço.
Uma vergonha militar alimentou ainda mais a opinião pública contra o czar e enfraqueceu a Rússia perante outras potências europeias.
Em 1914, a Primeira Guerra Mundial teve início, e com ela, o começo do fim do Reinado de Nicolau. O Império Alemão, com um exército muito mais bem treinado e equipado, massacrava as inexperientes tropas russas, levando o país a um colapso moral, logístico e econômico.
Só na Batalha de Tannenberg (agosto/setembro de 1914), a Rússia teve cerca de 100 mil prisioneiros, fora os mortos e feridos. Porém, a culpa por essas derrotas recai especialmente nos ombros do Grão-duque Nicolau Nicolayevich, nomeado comandante-supremo do exército russo pelo próprio czar.
Todavia, em um ato de total insanidade, Nicolau segue os conselhos de Alexandra e assume a frente do exército, deixando o governo nas mãos dela e de seu guia espiritual, Rasputin, que naquele momento era talvez o homem mais odiado da Rússia.
As derrotas continuavam, e a Rússia já chegava à casa do milhão de mortes até 1916, enquanto a confiança na Monarquia atingia seu nível mais baixo. Aproveitando-se disso, os bolcheviques, que já tinham seu espaço na sociedade especialmente por meio do jornal Pravda (1912), angariavam cada vez mais seguidores.
Em fevereiro de 1917, explode a Revolução de Fevereiro, liderada especialmente pela burguesia liberal, exigindo o fim do Czarismo e a criação de um Governo Provisório, mas, com a manutenção da propriedade privada, o que ia contra os desejos comunistas dos Bolcheviques.
Enquanto retornava do front da Primeira Guerra Mundial para Petrogrado (atual São Petersburgo), Nicolau II foi forçado a parar seu trem em Pskov. Pressionado por generais e líderes da revolta, ele abdicou do trono em favor de seu irmão, o grão-duque Miguel, que recusou a coroa, pondo fim à dinastia Romanov.
Junto com sua família, foi mantido sob custódia, sendo posteriormente transferido para Tobolsk e, finalmente, para Ecaterimburgo.
No entanto, haveria ainda uma segunda revolução, a de outubro, dessa vez, liderada por Vladimir Lênin, que teve sua volta ao país facilitada pelos alemães, com intuito de desestabilizar a Rússia.
Lênin liderou a captura do Palácio de Inverno e a dissolução do Governo Provisório, deixando o país à deriva, mas, finalmente, tirando a Rússia da guerra, algo que o regime anterior havia se recusado a fazer.
Seu discurso encantou as massas, prometendo-lhes pão e terra, ao mesmo tempo que interessava à elite intelectual com as teorias marxistas. Mesmo assim, o partido Bolchevique foi derrotado na Assembleia Constituinte de 1918, e enfim, revelou sua verdadeira natureza, tomando-a pela força das armas, e dando início à Guerra Civil Russa.
Forças antes aliadas, como Reino Unido e França, agora confrontavam os russos, por medo de que agora servissem de aliados aos alemães, ao mesmo tempo que grupos internos contrários à nova ordem comunista formavam a força que ficou conhecida como Exército Branco. O conflito que se seguiria se estenderia até 1922 e custaria entre 5 e 10 milhões de vidas.
A barbárie comunista ficaria escancarada, desde a execução de dissidentes até a fome induzida em regiões revoltosas. O Terror Vermelho, liderado por Lênin, ceifou entre 1 e 7 milhões de vidas, algo “enxuto” perto das 20 milhões de mortes atribuídas a seu sucessor, Josef Stalin, notório pelo terrível Holodomor, onde levou mais de 6 milhões de ucranianos à morte por fome, queimando seus campos, roubando seus grãos, executando suas crianças e impedindo sua fuga para outras partes do país.
Estimativas variam amplamente, mas mesmo os números mais conservadores apontam para milhões de vítimas. Fato é, que em poucas décadas, o regime soviético executou mais que o czarismo em séculos.
A Família Romanov conheceria seu fim na madrugada de 17 de julho de 1918, na Casa de Ipatiev. Nicolau II, Alexandra e seus filhos Olga, Tatiana, Maria, Anastasia e Alexei foram fuzilados por forças bolcheviques, que temia que eles pudessem ser resgatados por forças antirrevolucionárias e viessem a trazer problemas ao novo regime.
Um detalhe cruel é o de que a maioria dos tiros teria sido direcionada a Nicolau e Alexandra, com os comunistas inicialmente poupando as jovens e crianças, mas, por ordem do Soviete de Moscou, as mataram também, com as lanças de suas baionetas e golpes de faca. Dessa forma brutal, os 304 anos da família Romanov chegaram ao fim, e a União Soviética nasceu.
A morte de Nicolau II não foi apenas o fim de um homem, foi o parto violento do século XX. Um século em que as monarquias só teriam dois destinos: aceitar a democracia ou serem subjugadas por algo ainda mais cruel e autoritário.
Nicolau II morreu como um homem que estaria destinado a guiar a Rússia aos novos tempos, mas, que pela insistência em olhar para o passado, acabou por lançá-la nas trevas. Agora que conhecemos a trajetória do último czar, iremos observar quais eventos históricos ele direta e indiretamente influenciou, e como algumas atitudes diferentes, de um homem que detinha um sexto do mundo sob seu controle, poderiam ter mudado em muito não só a história de seu povo, como de toda a humanidade.
Revolução Russa


Esse é incontestável. Enquanto o Reino Unido com George V e o Império Alemão com Guilherme II (que, por incrível que pareça, não era um monarca absoluto) experimentaram uma Monarquia Constitucional Democrática, com poder de escolha popular e limites claros para o poder do soberano, Nicolau II negou isso ao povo russo, abraçando firmemente o lema: a missão divina de governar.
Isso impediu que a Rússia fizesse a mesma transição que países como o Reino Unido, Alemanha e França fizeram, condenando-a ao ostracismo político. Os russos viam a liberdade e prosperidade das potências à sua volta, e a invejavam, e toda essa indignação era voltada ao czar.
Em um regime absolutista, cada falha do país é uma falha do governante. Ao insistir nesse modelo ultrapassado, Nicolau assumiu a responsabilidade pela miséria, fome, guerras e repressão sofridas pelo povo russo.
Essa instabilidade resultou em queda na Primeira Guerra Mundial. Enquanto George V compartilhava a responsabilidade com seu primeiro-ministro, David Lloyd George, e seu parlamento, Nicolau era tido como o rosto da derrota de todo um império.
Um poder sem camadas torna-se fácil de destruir. Por mais alheia aos anseios populares que a Monarquia Russa fosse, ela sabia muito bem o que havia acontecido com Alexandre II, e também sabia das manifestações que irrompiam o país desde antes de sua morte.
Se em seu fatídico discurso em 1895, Nicolau promovesse tais mudanças, ele tiraria de suas costas um peso imenso e daria ao povo o poder supremo de escolha. Distribuição de terras, leis trabalhistas, salários, todas as necessidades primordiais do povo, agora seriam responsabilidade principalmente dos representantes eleitos, e não dele.
Abrir mão do poder absoluto não só era a melhor forma de modernizar politicamente o país, como também de garantir a continuidade de sua própria dinastia.
Nicolau poderia ter exercido um poder moderador e religioso, como outros monarcas de seu tempo, permitindo que a classe política eleita pelo povo guiasse o país pelos melhores caminhos. Nas vitórias e nas derrotas, ele teria muitos ao seu lado.
Ao invés disso, ele centralizou, e quando a Revolução de Fevereiro explodiu, ele não tinha ao seu lado nem militares, nem a burguesia e muito menos o povo. E foi desse vácuo de poder que os comunistas se aproveitaram para instaurar sua ditadura.
A Primeira Guerra Mundial, evento chave para a Revolução Russa, enfraqueceu e destruiu muitas monarquias, como a alemã, mas, se o czar tivesse com quem partilhar a culpa pelos fracassos e demonstrasse o mínimo de apreço por sua gente, ele teria ao menos uma chance de permanecer no poder, algo impossível no cenário desenhado em nossa realidade.
E no que isso resultaria? Em muitas, mas muitas mudanças.
Sem a Revolução Russa, o comunismo não seria instaurado na Europa até 1917, e para boa parte do mundo, continuaria sendo apenas uma teoria política, e não uma realidade. E acredite, isso tem um peso enorme.
A ditadura na União Soviética, de 1917 até sua dissolução em 1991, foi certamente uma das mais tirânicas da história humana, com massacres como o de Tambov, liderados por Lênin, culminando na morte de 240 mil pessoas. A Grande Fome Ucraniana, induzida por Stalin, ceifou mais de 6 milhões de vidas em poucos anos. Os campos de trabalho criados por Lênin e continuados por Stalin (que serviram de inspiração para os nazistas), que chegaram a receber mais de 18 milhões de pessoas, em especial, dissidentes políticos, os ditos “antirevolucionários”.
A URSS não cometeu crimes apenas contra o próprio povo, como também agiu ao lado da Alemanha Nazista para invadir a Polônia em 1939, firmando um Pacto de Amizade entre eles. Os soviéticos também financiaram outras revoluções socialistas ao redor do mundo, seja com dinheiro e armas, seja com suas forças militares, em países como China, Vietnã, Cuba e Camboja, que, por meio de fome, expurgos e trabalho forçado, atingiram os seguintes números de fatalidades.
China: 45 a 75 milhões.
URSS: 20 a 25 milhões.
Camboja: 2 milhões (25% da população)
Coreia do Norte: 1 a 3 milhões.
Vietnã: 300 mil a 1 milhão.
Cuba: 10 mil.
Todos esses são países onde a ideologia foi sobreposta até mesmo ao direito à vida, as liberdades individuais foram cerceadas e a única função do cidadão resumia-se a servir ao Estado Onipotente. Se até hoje, a Rússia jamais experimentou uma democracia plena, muito disso se deve ao descaso de Nicolau II.
É impossível dizer que o comunismo não iria tomar o poder em algum desses países, uma vez que a ideologia marxista já circulava em países como Reino Unido, Alemanha, França, China e tantos outros. A própria China de Mao, já tinha raízes no socialismo mesmo antes da Revolução Russa, e poderia trilhar o caminho revolucionário mesmo sem a URSS, no entanto, sofreria com falta de apoio financeiro e logístico, antes e depois da guerra civil.
Fato é que, caso Nicolau II tivesse simplesmente seguido o bom senso da modernidade ao invés dos dogmas, a Revolução Russa, que deu origem à superpotência comunista que financiou todas as outras, dificilmente aconteceria, o comunismo não teria sua vitrine, e pelo menos 70 milhões de vidas poderiam ter sido poupadas.
A Guerra Fria


Esse é mais do que óbvio. Os EUA travaram um duelo ideológico com a URSS por quase meio século, algo que resultou tanto em avanços tecnológicos grandiosos, como os primeiros satélites e a chegada do homem à lua, até experiências de quase fim do mundo, como a Crise dos Mísseis de Cuba.
A URSS tornou-se um colosso militar e industrial a partir dos anos 1930, com Stalin aproveitando-se muitíssimo da mão de obra forçada de seus detentos, tornando seu país o segundo maior PIB mundial. A vitória esmagadora sobre a Alemanha Nazista reforçou ainda mais a aura de poder em torno da URSS. Ficava claro que soviéticos e americanos iriam dar as ordens no mundo de 1945 em diante.
Mas, seguindo nossa tese, caso Nicolau realizasse a tão necessária transição política em seu país, e o Império Russo suportasse a pressão da Primeira Guerra Mundial, não haveria a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, logo, com o que os EUA iriam disputar o tabuleiro global?
Com um Império Britânico decadente, uma Alemanha devastada pela guerra e nações emergentes como o Japão, ainda limitadas, o mundo iria pender cada vez mais para um unilateralismo extremo para os Estados Unidos.
O Império Russo nutria relações estáveis com os EUA até 1917, chegando a lhes vender o Alasca em 1867, por míseros 7,2 milhões de dólares. Como uma única Monarquia Constitucional, pautada sobre valores semelhantes aos britânicos e franceses, seria natural que os russos se posicionassem ao lado dos EUA, e não o contrário.
Uma Rússia democrática e liberal, não só altera a política mundial como um todo, como também, desmonta o próprio conceito de Estado totalitário moderno, cuja URSS foi uma das responsáveis por solidificar.
Sem um gigante militar para regulá-lo em poder, os EUA, como já fizeram mais de uma vez, poderiam intervir despreocupadamente em possíveis revoluções socialistas, como fizeram na Coreia, Cuba e Vietnã, onde sem apoio soviético ao inimigo, quase certamente teriam sucesso.
Além disso, a descolonização de países como Moçambique e Angola, que contaram com forte apoio soviético, possivelmente ocorreria de maneira diferente, e com influência ocidental. Até mesmo a corrida nuclear, que aterrorizou gerações, poderia nunca ter acontecido.
Um mundo sem a Guerra Fria é um mundo onde a cultura, política e tecnologia se desenrolam de forma totalmente diferente, e o czar, mesmo que indiretamente, por meio de seus atos, influenciou tudo isso.
Isso reforça a tese de que, sem a Revolução Russa, o comunismo seria mais mito do que realidade, algo que as ações de Nicolau, indiretamente, impediram de se tornarem realidade.
A Primeira Guerra Mundial e a Segunda Guerra Mundial


Seria absurdo dizer que o Czar poderia impedir um conflito com tantas facetas como a Primeira Guerra Mundial, que ia desde questões étnicas na Sérvia até a disputa colonial e industrial entre britânicos, franceses e alemães, porém, como um país que sozinho é maior que toda a América do Sul, certamente poderia exercer enorme influência no conflito.
Nicolau sofreu uma derrota amarga diante dos japoneses em 1906, o que lançou seu exército em descrédito, o que foi reforçado com as derrotas intermináveis na Primeira Guerra Mundial. O Império Russo era uma potência estagnada, e isso refletia no campo de batalha, com o Império Alemão, lhes trucidando em todas as frentes.
O que ele poderia ter feito? Tudo isso passa pelo mesmo fator que tanto apontamos: a distribuição do poder. Com uma classe política dedicada a cada setor do país, o exército poderia receber maior investimento e treinamento, além de se beneficiar da ascensão industrial do país. Além disso, se coubesse a um Parlamento decidir se haveria ou não uma guerra Russo-Japonesa, ela talvez nem sequer ocorresse.
Com um exército mais preparado, os russos poderiam, no mínimo, minimizar suas perdas humanas e financeiras, e suportar a guerra do início ao fim, algo que não conseguiram na realidade. Em uma estimativa otimista, caso os russos conseguissem pressionar com eficiência a Alemanha, o conflito poderia se encerrar ainda em 1917, quando a entrada dos EUA iria definitivamente desbalancear o conflito.
Emergindo vitorioso da guerra, o czar poderia manter sua imagem forte e seu país seguro entre as potências. Ele não poderia impedir a guerra, mas poderia torná-la menos custosa ao povo russo.
E a Segunda Guerra Mundial? Vale ressaltar que tanto o nazismo de Hitler quanto o fascismo de Mussolini tinham, para além do antissemitismo, revanchismo e uma suposta superioridade racial, também a bandeira do anticomunismo, como justificativa para manter-se no poder. Sem a URSS, do que exatamente os alemães e italianos teriam medo? Foi o nascimento do colosso vermelho que definitivamente acendeu o alerta pela Europa, sem ele, certamente ainda haveria certo temor, mas seu uso como arma política seria severamente menor.
A invasão nazi-soviética da Polônia nunca aconteceria e, possivelmente, se Hitler insistisse em lutar uma guerra de duas frentes desde o início, o conflito poderia acabar ainda mais rápido e com menos perdas.
Essa é a hipótese mais difícil de se prever, pois, por maior que a Rússia seja, é apenas um dos players do jogo de poder mundial, mas, inegavelmente, uma protagonista dele. Uma postura diferente pode não só minimizar conflitos, como talvez impedir que eles se iniciem. Afinal, será que Hitler invadiria a Polônia, sabendo que teria que enfrentar Reino Unido, França e Rússia logo de cara, reeditando o cenário da derrota alemã duas décadas antes?
Por mais complexo que o cenário seja, o Czar poderia, com considerável influência, ter mudado os rumos de dois maiores conflitos da história humana, o que apenas mostra o quanto de poder ele tinha em suas mãos, e o quanto o desperdiçou.
Após essa análise, pode-se dizer seguramente, que em sua arrogância e pragmatismo, Nicolau II certamente se encontra entre as figuras mais relevantes da história moderna, por ter escrito torto por linhas retas, e levado seu país a se tornar o centro de muitas das maiores crises mundiais dos últimos anos.
E você, concorda com a importância do Czar Nicolau II na história do século XX? Acha que ele errou ou acertou em algo específico? Não deixe de comentar!
