Crystal Lake Revelou o Verdadeiro Vilão de Sexta-Feira 13
32. O que esse número aparentemente aleatório tem a ver com Jason? Bom, ele representa nada mais, nada menos do que o número de personagens que foram mortos antes, durante ou depois de fazer sexo em Sexta-Feira 13. Ao longo de seus 12 filmes, a saga tornou-se notória por ostentar como ninguém um estereótipo inerente ao slasher: quem transa, morre. Por décadas, isso foi tido como nada mais que um meme dentro da saga, além de uma bela desculpa dos produtores para pôr gente pelada na tela, o que certamente rendeu um público considerável nos cinemas da época, além de tentar, de uma maneira nem um pouco sutil, criticar a libertinagem adolescente. Todavia, desde o clássico Sexta-Feira 13 (1980), o sexo carregava um significado muito mais íntimo. Se Claudette e Barry não estivessem tão distraídos transando, o jovem Jason Voorhees não teria se afogado. Basicamente: a transa dos dois condenou centenas de pessoas à morte. Hipérboles à parte, é fato que o sexo tem relação direta com a trágica origem do Menino do Lago e foi o estopim para o banho de sangue promovido por Pamela no clássico oitentista. Quando seu filho assumiu o facão após sua morte, ele continuou empenhado em matar principalmente aqueles que ousassem fornicar no acampamento sangrento. Para ele, aquilo parecia soar quase como uma ofensa pessoal. É aí que entra a novíssima série Crystal Lake (2026), da A24, uma gratíssima surpresa para os fãs de terror, simbolizando o fim da interminável guerra judicial entre os pais da saga, Victor Miller e Sean Cunningham, e o retorno oficial de Jason e Pamela. Para além da origem da resistência sobre-humana de Jason e do início da carreira assassina de sua mãe, a série levanta possibilidades que nos ajudam a especular: por que Pamela e Jason Voorhees odeiam o sexo? E por que, se analisarmos friamente, o desejo mais primitivo da humanidade acaba sendo, na verdade, o grande vilão da maior saga do terror slasher?
TERROR
Rafael Silva
10/23/20267 min read
A Mulher Engavetada


A série nos apresenta, no sétimo de seus oito episódios, um flashback mostrando o nascimento de Jason. A gravidez de Pamela foi extremamente turbulenta, com ela quase sofrendo um aborto espontâneo, o que fez com que seu marido, Elias Voorhees (que finalmente deu as caras na saga), a mantivesse sob os cuidados da empresa Bellflower, que secretamente fez dela e seu filho cobaias do projeto Argonauta, que acabou por fazer de Jason algo mais do que um simples humano.
Ela viu outras mães perderem seus filhos. Ela mesma não presenciou o nascimento do seu, vendo seu corpo deformado pela primeira vez quando já estava envolvido em uma incubadora. Todo aquele processo foi doloroso demais, mas deu a ela a coisa que mais amava no mundo: seu filho. Não importava se seu marido a desprezasse, se as pessoas a vissem como desequilibrada, não importava se sua vida não existisse para além das paredes de sua casa. Com Jason em seus braços, nada mais importava.
Sua saúde frágil a fez superprotetora e, após descobrir a maneira cruel com a qual Elias o utilizava nos experimentos da Bellflower, ela fugiu com Jason. Agora, eles seriam tudo na vida um do outro.
Entende-se que a dinâmica de um casamento não foi nada boa para Pamela, assim como as consequências do ato sexual em si, tendo em vista as inúmeras dificuldades que teve em sua gravidez. Mas isso, por si só, não basta para configurar a sua repulsa ao sexo.
Mudando-se para Crystal Lake, ela tentou recomeçar e, principalmente, tentou dividir Jason com o mundo. O garoto, por mais que fosse inteligente e gentil com todos, era sempre rejeitado por sua aparência, com exceção da jovem Grace, sua única amiga e possivelmente a única pessoa com quem Pamela de fato se importava além dele.
Ainda assim, ela recusou-se a deixá-lo preso em casa. Ela lutou para vê-lo livre, para que pudesse viver como qualquer outra criança. Todavia, ao mostrar seu filho ao mundo, o mundo o tirou de seus braços. E é aí que o sexo entra como antagonista uma segunda vez.
Claudette, monitora que deveria cuidar das crianças no lago, simplesmente deixou seu posto para transar com Barry, seu namorado, que também abandonou suas funções. Eles puseram o desejo à frente das responsabilidades. Grace presencia isso, vê o momento em que adultos põem suas vontades acima das necessidades daqueles que dependem deles. E foi naquela tarde que Jason morreu.
Pamela fica desolada, mas inicialmente não sabe quem, indiretamente, foi o responsável pela morte de seu filho. Por meses, ela fica totalmente isolada do mundo. Ela havia dedicado todos os seus dias e noites, por onze anos, a proteger seu filho, tinha prometido a ele que nada iria machucá-lo e havia falhado.
O casal Christie tenta integrá-la à comunidade, convidá-la para festas, mas o luto ainda a consome. Quem mais se empenha é o delegado Lee Brooks, que, adivinhem, nutria desejo sexual por ela.
Ela parece sentir isso e, por isso mesmo, o rejeita. Porém, é impossível fugir desse desejo invisível e onipresente. Ele está presente na colega das cozinheiras no seu trabalho, na conversa com sua amiga Rita na cafeteria da cidade, nas rodas dos campistas. Mesmo o policial Dorf tenta contar vantagem em relação às suas habilidades apenas para ter uma chance de copular com Rita. O sexo está na boca e na mente de literalmente todos à sua volta. Ele os move, e é por isso que, ao negá-lo, ela parece parar no tempo.
Tudo muda quando agentes da Bellflower vão à sua casa, tentando capturá-la, ao que ela resiste matando os dois e, logo em seguida, entregando seus corpos para serem devorados por um urso. Não era a primeira vez que ela matava, mas era a primeira vez que planejava, de maneira tão meticulosa, uma forma de livrar-se de quaisquer consequências. Ela não agiu apenas para proteger a si mesma, agiu também para vingar-se do que homens como aqueles haviam feito ao seu filho.
Esse instinto protetor, essa prerrogativa para matar, parece de fato conseguir excitá-la. No episódio 2, ela vai ao encontro do “coach” de autoajuda Wilhelm Richter, que, adivinhem pela segunda vez, também tenta fazer sexo com ela. Mas é curiosa a maneira com a qual ele consegue “destravá-la”. Ele a encoraja a derrubar sua máscara, a deixar-se ser ela mesma, pelo menos naquele instante.
Naqueles instantes, ela pode lembrar-se apenas dos olhos brilhantes daquele urso no fundo de sua caverna, devorando suas duas vítimas. O sangue deles parecia o combustível para o seu desejo. Ainda assim, ela não consegue ir para as vias de fato.
Seu desejo sexual só é finalmente liberto após o assassinato de Valerie Snell, a mãe abusiva de Grace Snell. Ela presenciou a forma desprezível com a qual a mulher tratava sua filha inocente. Voorhees tentou acolher a menina, mas nunca conseguiria protegê-la de verdade enquanto não desse um fim a quem a ameaçava.
Logo após essa morte, ela vai à casa de Lee e finalmente transa com o policial. Não por ele ter sido bondoso com ela até então, mas sim porque finalmente havia encontrado o desejo que havia dentro de si. Proteger alguém, matar em nome de alguém: era isso que a excitava, era isso que fazia seu mundo girar.
A Única Via do Desejo
Não é somente Pamela que sofre com o sexo em relação à série. Grace tem seu mundo virado de ponta-cabeça pelo domínio que esse desejo exerce na mente daqueles à sua volta. A transa de Claudette e Barry (que é quase o antes da Batalha de Yavin de Sexta-Feira 13) custou a ela a vida de seu melhor amigo. Sua mãe, por mais que não sofresse por isso, tinha o seu vício no álcool, deixando-o de lado em favor da bebida.
Seu jeito doce e infantil a distancia das garotas mais velhas, que parecem dominar os códigos de uma sexualidade que ela ainda não compreende plenamente. Grace tenta imitá-las, mas a tentativa de pertencer àquele mundo não é suficiente para que seja aceita por elas. Ela ainda não pertence, e nem deveria pertencer àquela realidade.
Com a morte de Valerie no episódio 3, Pam tenta assumir os cuidados de Grace, mas a chegada do grupo hippie liderado pela belíssima Harmony surge para disputar a confiança da garota. Eles apresentam um mundo muito mais leve, sem compromissos, sem espaço para a dor. Pamela tenta trazê-la de volta, tenta brigar por ela. Ela havia perdido um filho para a morte e não aceitaria perder outro para quem quer que fosse.
Todavia, por mais que os hippies fingissem ser totalmente alheios à sociedade, livres de suas amarras, eles ainda estavam presos à natureza humana. Ou seja: eles ainda queriam molhar o biscoito. Inclusive, Harmony relaciona-se com Barry, que trai Claudette no momento em que a garota converte-se à Igreja Batista, abrindo mão do sexo antes do casamento. Para o garoto, se ela não pudesse lhe dar prazer, simplesmente não tinha mais valor. Mais uma prova do quão apegados ao desejo carnal alguns deles já estavam.
Imersos no sexo e nas drogas, eles passam a ignorar Grace. Ela mais uma vez tentou encaixar-se no mundo, e novamente ele a repeliu. É nesse momento que ela se enche de drogas e volta ao acampamento, no exato momento em que Barry convencia Claudette a quebrar seu recém-firmado voto de castidade. Novamente, ela tinha uma obrigação e a rasgou em nome do prazer.
Grace mata ambos, tomando para si as duas primeiras mortes da saga, anteriormente atribuídas a Pamela no início do clássico de 1980.
Pamela chega somente depois, para acolhê-la, para fechar seus olhos para o que ela havia feito.
“Eu matei eles, eu salvei o Jason”, disse Grace a Pamela. Ao destruir o sexo, ela combatia o mal que havia matado seu único amigo, o mesmo que tentou “matá-la” também.
É a partir desse momento que Jason reaparece na mente da Sra. Voorhees. Era como se, de fato, ao impedir que a mesma irresponsabilidade se repetisse, ela pudesse ter seu filho de volta, mesmo que por um instante.
Por esse momento, é possível especular mais um fato sobre a personalidade de Pamela: ela sabe que suas ações são erradas. Não estamos falando do ponto de vista legal, mas sim moral. Pamela não queria que Grace se visse como uma assassina e muito menos tomou para si mesma a culpa. Ela ainda não estava disposta a abrir mão da sua máscara.
Culpando os hippies, ela vai ao encontro deles, eliminando todos, com exceção de Harmony, que consegue escapar. Novamente, uma matança movida pela vontade de proteger um “filho” e, mais uma vez, isso a satisfaz.
Ela não apenas salvou Grace deles, como também da culpa.
A Independência do Mais Forte
Após ter seu passado na Bellflower revelado pela repórter Briana Brooks, Pamela vê o fantasma de seu passado retornar: Elias Voorhees. Ele queria seu filho de volta, não por amor, mas pela vontade de concretizar seus experimentos com ele. Mais uma vez, Jason era apenas um peão diante do desejo dos outros.
Mas é no momento em que Elias e Pamela se encontram na simplória casa na floresta que ele e Grace haviam construído que Jason se revela a ambos. Sem hesitar, ela mata Elias, dando fim ao homem que tanto o fez sofrer, mas, mesmo tomado pelo ódio, ele se recusa a matar sua mãe.
Ela o abraça por alguns instantes, até que Ralph atira em sua cabeça, fazendo-o fugir para a mata, ferido, mas vivo. Naquele momento, ela pode apenas rir. Seu filho agora era forte, forte demais para ser vítima deles, forte o bastante para bater de volta. Ele agora era poderoso demais para ser refém do desejo de alguém.
Ainda sim, isso não o tornou totalmente imune aos sentimentos. O amor por sua mãe ainda era maior do que a sua sede de sangue.
O sexo é o maior expoente, mas é somente um aspecto do grande vilão que criou o monstro chamado Jason Voorhees. O desejo, seja sexual, seja pelas drogas, pelo álcool ou até mesmo por ver uma obsessão concretizada a qualquer custo: esse conjunto de fatores foi responsável por fazer de Jason e Pamela Voorhees o que são.
Pamela encontrava seu prazer em proteger a si e aos seus “filhos” de uma realidade que os obrigava a usar máscaras, que os fazia reféns de seus desejos e os descartava quando não mais se adequavam a eles. Ela queria mostrar que o amor de uma mãe por seu filho estava além de tudo isso.
Não buscamos aqui fazer uma crítica ultradetalhada da série, uma vez que muita gente já fez isso por nós. Grosso modo, temos uma série ótima, recheada de referências aos filmes clássicos, ótimos personagens, uma produção de qualidade invejável e que amarra de maneira brilhante as pontas soltas tanto narrativas quanto psicológicas. É seguro dizer que é um dos melhores materiais de Sexta-Feira 13 já feitos.
E você, já assistiu à série? Concorda com nossa hipótese? Não deixe de comentar!
