Crítica: Superman Esmaga a Klan
Uma obra inspirada no programa de rádio mais popular da história dos Estados Unidos, As Aventuras do Superman (1940), e que é tida por muitos como um verdadeiro diamante oculto no selo Teen da DC. Escrita pelo autor sino-americano Gene Luen Yang, a obra põe lado a lado o Escoteiro Azul e os dois filhos da família Lee, Tommy e Roberta (traduzidos do chinês para o inglês), recém-chegados na cidade, e que rapidamente entram na mira do Clã da Cruz Cadente, uma paródia resgatada da audionovela dos anos 1940, que precisava de um apelido para referir-se ao grupo supremacista atuante nos EUA, que na época possuía enorme influência no país. Além de protegê-los, Kal-El passa a enfrentar dilemas sobre si mesmo, passando a enxergar um pouco de sua própria condição neles. Por mais que ele seja o cidadão mais famoso de Metrópolis, o herói que carrega no peito os valores e o orgulho americano, ele ainda é alguém tentando se encaixar, tentando ser aceito em um mundo e em uma cultura que não lhe aceita como realmente é. Superman é um eterno imigrante. Sem mais delongas, vamos analisar um pouco mais a fundo essa obra e debater se ela realmente é digna de estar entre os clássicos do maior herói de todos os tempos.
MARVEL E DC
7/25/20267 min read
O Confronto e a Ferida Aberta


A trama começa quando o bizarro Homem-Átomo, um experimento nazista não muito bem-sucedido, ataca Metrópolis, e Lois Lane, junto a seu fiel escudeiro, Jimmy Olsen, o distraem por tempo o suficiente para que Superman chegue para enfrentá-lo, correndo em alta velocidade, uma vez que, em suas primeiras aventuras, seu leque de poderes não possuía: voo, visão de calor, visão raio-x, sopro congelante e outras habilidades que hoje são indispensáveis para o Homem do Amanhã.
Por mais que o vilão seja forte, suas chances contra o Superman são nulas, mas seu segredo é revelado no momento em que o herói arranca a suástica de seu peito, revelando uma velha conhecida dos fãs do Homem de Aço: a Kryptonita, a qual ele ainda não conhecia, e que lhe deu uma sensação péssima, muito mais que a fraqueza habitual; era como se ela o fizesse lembrar o que ele realmente era: um alienígena.
Desde então, ele passa a ter visões com dois estranhos seres, com a mesmíssima logo que ostenta orgulhosamente no peito gravada nos seus, mas com um significado que ele ainda desconhece. O que ele também não sabia era que aquelas figuras não eram meras alucinações causadas pela exposição à pedra; eram, na verdade, memórias que desde sempre estiveram em sua mente, mas que ele sempre lutou para manter o mais fundo possível dentro dela.
A Chegada dos Lee e a Sombra do Preconceito
Ao mesmo tempo, a família Lee chega a Metrópolis, vinda de Chinatown, um bairro quase inteiramente chinês localizado em Nova York. Por mais que eles já não estivessem em seu país, Chinatown era o lugar onde eles “poderiam estar entre os seus”, mantendo seus costumes e cultura reservados a si mesmos. O motivo da mudança foi uma excelente promoção recebida pelo Sr. Lee, para trabalhar em um grande projeto científico ultrassecreto na cidade.
O que eles não poderiam imaginar era que alguns moradores não estavam nem um pouco satisfeitos, não apenas com a sua existência ali, mas principalmente com o fato de que eles estavam “tomando” lugares de importância que julgavam lhes ser de direito. "Uma raça, uma cor e uma religião" era o lema defendido pelo Clã da Cruz Cadente para manter os EUA como uma nação unida sob os mesmos valores e protegê-la dos “invasores” que desejavam destruir sua unidade.
A obra foca especialmente nas duas crianças. Tommy rapidamente se entrosa com os jovens da cidade, entrando para o time de beisebol Um Só Horizonte, administrado por Jimmy Olsen, e adquirindo uma rixa ardente com o jovem Chuck Riggys. Já Roberta permanecia fechada, incapaz de adaptar-se àquela nova realidade.
O caos se inicia quando o tio de Chuck, o Grande Escorpião do Clã, se revolta ao saber que seu sobrinho havia perdido sua vaga no time para um americano impuro, e coordenou um ataque à casa dos Lee, que só não acabou com a morte deles pela hesitação do próprio Chuck, que, forçado a acompanhar o tio em sua cruzada odiosa, recusou-se a atear fogo na casa da família. A semente do ódio havia sido plantada, mas ainda não havia florescido em seu coração, e essa relutância em render-se ao preconceito é ponto-chave para sua futura redenção.
No dia seguinte, Clark e Lois vão ao local em nome do Planeta Diário e, cada um à sua maneira, passam a fazer o possível para não só proteger a família, mas para desmantelar o grupo que a aterrorizava.
O Paradoxo do Imigrante e os Bloqueios de Clark
O paralelo entre Superman e os dois irmãos é, para mim, o ponto mais genial de toda a narrativa. Clark é constantemente lembrado de seu passado, em que ele escolheu esconder o que realmente era em nome de ser aceito pelas pessoas à sua volta, e como isso o limita inclusive fisicamente, negando-lhe poderes que ele sabe que tem. Isso acontece em quatro oportunidades:
O Rádio Kryptoniano: Quando Martha Kent proíbe que Clark ouça as vozes do rádio criptoniano achado na nave que o trouxe à Terra, por medo de que isso possa confundi-lo.
A Rejeição dos Amigos: Quando Clark voa e usa sua visão de calor pela primeira vez para proteger seu amigo, Pete Ross, de dois valentões, mas todos fogem dele. Mesmo que ele tivesse usado seus dons para o bem, a desumanidade de seus poderes aterrorizou a todos, inclusive Pete. Depois disso, ele simplesmente se recusa a usar esses poderes, preferindo usar apenas habilidades “humanas” altamente melhoradas, em vez de poderes absolutamente super-humanos.
O Medo de Smallville: Quando a mãe dos valentões vem até ele, acusando-o de ser um demônio devido a suas habilidades. A pressão é tamanha que seus pais decidem simplesmente desistir de tentar explicar-lhe o que ele de fato é; decidem que ele será apenas um garoto normal de Smallville, não importa o que isso custe. Nesse momento, ele simplesmente pega seu antigo rádio e o joga fora, livrando-se da única lembrança que tinha de seu verdadeiro planeta e de sua verdadeira família, passando a viver única e exclusivamente da forma que as pessoas à sua volta desejavam.
O Disfarce do Circo: Um momento em que Clark, Lana Lang e sua família vão ao circo, e o herói impede uma catástrofe, evitando que um leão devorasse um dos artistas. Esse mesmo homem lhe diz que ele não devia ter medo de sua força, indicando-lhe que usasse um uniforme colorido que desviasse a atenção das pessoas de quem ele é e focado no que ele faz. Pouco depois, Superman constrói seu clássico uniforme, com o icônico "S" servindo como a distração que tanto desejava. O homem seria uma coisa, e o herói sobrenatural seria outra muito diferente.
Superman precisava transmitir esperança, e tudo o que ele não queria era que o mundo que ele escolheu amar o rejeitasse e temesse pelos dons que ele devotou em seu favor, sem saber que, enquanto negasse a origem de seu sangue, todo o potencial que lhe cabia jamais seria alcançado. Ele jamais seria completo.
Por mais que pareçam extremamente diferentes, as dinâmicas do Superman e dos garotos são semelhantes. Eles mudam sua língua, sua forma de vestir, adaptam seus costumes e lutam para se enturmar, mas, ainda assim, o ódio irracional insiste em cercá-los, mostrando que não existe explicação lógica além do puro e simples medo de que o desconhecido destrua um ideal de pureza. E, quando essas duas histórias se unem, elas se completam.
Superman protege Tommy, Roberta e sua família, desmantelando completamente os fanáticos que atentam contra eles, e, no processo, conquista com eles a coragem para abraçar sua inumanidade física e, ao mesmo tempo, sua inegável humanidade de coração. Isso o permite ir atrás de suas raízes, recuperando o rádio e encontrando seus verdadeiros pais, seu verdadeiro planeta e sua verdadeira origem. Ele poderia ser humano, ele escolheu ser, mas nem por isso precisava se envergonhar do berço em que nasceu, pois ele também fazia parte do seu ser.
Uma limitação de poderes típica da época, explicada de uma maneira emocional e psicológica sublime, rendendo quadros belíssimos desenhados por Gurihiru, que misturam justamente a vivacidade moderna com o charme clássico, sem perder a grandeza messiânica sempre associada ao Superman.
A Estrutura do Ódio e o Vazio dos Fanáticos
Existe também uma dualidade entre os próprios fanáticos. Enquanto o Grande Escorpião de fato crê em conceitos de raça superior e inferior, e tenta transmiti-los para seu sobrinho como forma de defender o futuro da nação, outros de maior escalão, como o Dr. Segret Wilson, simplesmente não ligam para isso, usando-os como massa de manobra para conseguir recursos para financiar projetos para lidar com o Superman, que, para ele, é a única ameaça real à sua escória criminosa. O ódio é usado como ferramenta para voltar milhões uns contra os outros.
No fim, essa raiva se torna tão irracional que o Sr. Riggys acaba tentando cometer um atentado em um jogo do Um Só Horizonte, sendo impedido graças ao Superman, mostrando que, para ele, o preconceito era apenas uma máscara para uma natureza inerentemente violenta, e que só precisava de uma prerrogativa que a legitimasse.
A maneira como as relações são construídas é digna de elogios: a dinâmica jovial e divertida de irmandade entre Tommy e Roberta, sua relação de admiração e aprendizado com Superman e Lois, e aquele eterno teatro de Clark com Lois, sempre sendo deixado de lado em favor do herói.
Destaca-se também a manipulação do Grande Escorpião para com Chuck, e a forma como o jovem a supera ao de fato conhecer os ditos “monstros” pintados por ele e as injustiças que sofriam. Ele percebe que Superman, o seu maior ídolo, não era um herói idealizado, dedicado a defender um ideal fechado de nação. Ele era um guardião de todos, um herói para todos, sem distinção, com a convicção de que o que une um povo não é uma cor, raça ou classe social, e sim a certeza de que todos compartilham do mesmo amanhã, devendo trabalhar em comunhão para fazer dele o melhor possível.
Veredito
A HQ é repleta de momentos com um enorme peso simbólico, desde discursos emocionantes e demonstrações majestosas de poder, até os atos mais simples de bondade, como quando Clark põe seu casaco sob os ombros de Roberta no momento em que a jovem sente frio, ou quando Superman empresta sua capa para que ela possa levar à escola e impressionar as outras crianças. Momentos simples em que o Superman ensina o verdadeiro significado do heroísmo.
No geral, creio que a história tenha um peso enorme para o Superman, desenvolvendo um aspecto muito importante da sua personalidade e relacionando-se brilhantemente com seus poderes. As dinâmicas adolescentes são leves e dinâmicas, sem tempo para se tornarem irritantes. As questões sociais e políticas são trazidas de forma simples, direta e não enviesada, o que era de suma importância para que o propósito da obra fosse resguardado. A arte é sublime e colabora com o ritmo da narrativa. Para uma HQ teen da DC, ela é muito acima da média.
Pode ser considerado um clássico? Moderno, com certeza! De todos os tempos? Só o tempo e o impacto da obra por meio dele poderão nos dizer, mas, para mim, é uma obra de extrema importância para qualquer fã do Homem de Aço, um relato muitíssimo válido de seu autor, além de um retrato histórico importantíssimo.
Nota: 10/10
