Crítica: Robin: Ano Um

O “Batman: Ano Um” do Menino Prodígio, concebido pelas mãos de Chuck Dixon e Scott Beatty em 2000, traz a origem da Dupla Dinâmica adaptada aos novos tempos, resgatando elementos dos mais de 60 anos de história da maior aliança dos quadrinhos, mostrando o quanto um complementa o outro. Mas, afinal: é boa ou não? É isso que vamos descobrir hoje!

MARVEL E DC

Rafael Silva

5/17/20264 min read

Contextualização: Começando direto na ação, a obra dispensa a origem da relação entre Bruce Wayne e Dick Grayson, mas faz referência à origem dada em Detective Comics #38 (1939), em que Grayson tem seus pais mortos por Tony Zucco e, comovido pela perda do garoto, Wayne o adota, transformando-o em seu pupilo em sua mortal guerra contra o crime.

Essa mesma origem foi readaptada para Batman: Vitória Sombria (1999), continuação direta de Batman: Longo Dia das Bruxas (1997), colocando Robin: Ano Um como o terceiro dessa linha cronológica.

A trama explora a fundo o cerne da relação de dependência entre Batman e Robin, como cada um parece alterar o destino do outro. Bruce perdeu sua família aos oito anos, Dick aos doze. Wayne via a tragédia que moldou sua vida espelhada nos olhos daquele menino. Via nele alguém que, assim como ele, havia tido seu mundo arrancado pelo crime.

Era tarde demais para Bruce; sua vingança pessoal já havia se tornado mais do que uma obsessão, já era parte indissociável do seu ser. O ódio nunca iria embora, pois ele não sabia mais viver sem ele, mas, se ele desse a Richard um propósito, uma forma de aplacar logo cedo, ele talvez pudesse ter um destino diferente; quem sabe um dia, ele conseguisse ser normal.

Com essa decisão, Batman libertou Robin da prisão da vingança, mas o aprisionou por tempo indeterminado na prisão do dever.

Alfred se opõe à decisão de Bruce em diversas ocasiões, mas seu bom senso acaba sendo deixado de lado quando percebe o quanto aquela nova e jovem companhia faz bem ao seu taciturno patrão. O silêncio úmido da Batcaverna agora era cortado por risadas alegres, algo que ele jamais imaginou ouvir vindo daquela caverna obscura.

Percebendo que Robin era de certa forma um antídoto para a solidão cada vez mais sufocante de Bruce, ele consente com a ideia ousada e sabidamente absurda de pôr uma criança para enfrentar os piores criminosos do planeta.

Todavia, Dick jamais abriu mão de ser quem verdadeiramente era: um pré-adolescente comum, ao menos, na maior parte do tempo. Ele foi à escola como todos, se divertia, praticava esportes, cantava garotas como a jovem Jenny. Diferente de Bruce, sua verdadeira face não existia apenas quando ele estava de máscara; de certa forma, a missão que havia escolhido para sua vida estava lhe impedindo de cair no mesmo abismo que o Cavaleiro das Trevas.

Sua mente ainda infantilizada não via o combate ao crime da mesma maneira fria e pragmática que o Homem-Morcego; pelo contrário, via aquilo de maneira divertidíssima, o que serviu para dar leveza inclusive ao próprio Batman. Nesse ponto, a obra acerta em cheio na forma com a qual Robin foi concebido, até mesmo nós, leitores: uma forma de humanizar o Batman, de dar-lhe alguém com quem conversar, rir, se abrir e se comparar.

Enquanto enfrenta alguns dos vilões mais notórios do universo do Cavaleiro das Trevas, como o Sr. Frio, Chapeleiro Louco e Duas-Caras, Grayson passa a sentir o peso do dever, sendo obrigado a abrir mão de suas amizades e dos melhores anos de sua juventude, em nome de uma cruzada para a qual foi sugado por seu mentor. Um homem que conhece sua dor, lhe deu ferramentas para expurgá-la, mas que, no fundo, não consegue superar nem mesmo o próprio trauma.

Na ação, mesmo com pouca experiência, o Menino-Prodígio mostra seu valor, derrotando vilões como o Sr. Frio e Arrasa Quarteirão praticamente sozinho, não só se mostrando capaz de virar-se sem Batman como muitas vezes, de salvá-lo. Nada de Robin, saco de pancada por aqui… pelo menos não o tempo inteiro! Obviamente, a inexperiência cobra seu preço em algum momento, e na metade da trama, Robin é deixado à beira da morte após uma emboscada do Duas-Caras, fazendo com que Batman o “aposente” precocemente.

Nesse momento, Wayne reflete sobre sua própria falha: deixar um menino fazer trabalho de homem, em uma troca egoísta para suprir seu próprio vazio. Mas é nesse momento que Robin mostra que não estava nessa apenas por seu mentor, e sim porque sabia do valor daquela missão.

Grayson foge da Mansão Wayne, refletindo muitíssimo bem os arcos do personagem nas HQs dos anos 1970 e 1980, que forjavam a emancipação de Dick das asas do Morcego, dando espaço para Jason Todd.

Robin une-se a uma filial da Liga dos Assassinos em Gotham, que recebe a missão de matar o Duas-Caras, algo que inicialmente ele acata, acreditando que aquela também era uma forma de justiça. Mas, no momento em que teve a vida de Dent em suas mãos, ele se recusou a matá-lo, permanecendo leal aos valores ensinados por Batman, mostrando-se digno do manto de Robin e de proteger Gotham ao lado do Cavaleiro das Trevas.

A cada vilão que enfrenta, Robin amadurece de uma maneira. O Chapeleiro testou seu intelecto, o Arrasa Quarteirão a sua força. Victor Fries mostrou sua capacidade de agir independentemente do Batman, e o Duas-Caras lhe deu a prova de que realmente havia aprendido a maior lição de um herói: saber o limite da justiça.

Transformada, a Dupla Dinâmica reúne-se definitivamente, derrotando a Liga dos Assassinos e enfim capturando Harvey Dent.

Batman precisava de humanidade, e Robin precisava de um símbolo, e um foi capaz de dar isso ao outro, e é justamente por isso que essa dupla se eternizou como uma das mais icônicas de toda a cultura pop, e Robin: Ano Um, adaptou isso com maestria.

A narrativa dinâmica, repleta de ação e referências e com um núcleo que explora a psicologia e moral dos protagonistas, torna essa HQ extremamente divertida e importante de se ler, especialmente para fãs de longa data do Batman e de sua lore.

Vale ressaltar a arte de Scott Beatty, que bebe diretamente da fonte de David Mazzucchelli em Batman: Ano Um (1987), com um traço que remete diretamente à obra que reapresentou o Cavaleiro das Trevas pós-Crise nas Infinitas Terras, uma alegoria extremamente funcional.

Como fã do Batman, considero essa uma HQ essencial tanto para fãs quanto para leitores casuais que se interessem por uma compreensão mais ampla do universo do Batman. Minha nota para Robin: Ano Um é 9.