Crítica: Homem-Aranha: Um Novo Dia
Após o primeiro final de semana, o quarto capítulo da franquia de Tom Holland já atingiu US$ 927 milhões (cerca de R$ 5,1 bilhões) nas bilheterias, tornando-se o segundo maior sucesso do MCU no mesmo período, atrás somente de Vingadores: Ultimato. Para muitos, este é o filme que Holland precisava para se consolidar, saindo da sombra de Tony Stark e dos Amigos da Vizinhança que o antecederam. Mas, afinal, o filme é realmente bom? Qual era o papel de Sadie Sink? (A essa altura acho que todos já sabem…) E será que é realmente o melhor filme do Cabeça de Teia? É isso que vamos discutir hoje! Lembrando que haverá spoilers.
MARVEL E DC
Rafael Silva
8/3/20265 min read


O Surgimento da Maturidade
Ao fim de Homem-Aranha: Sem Volta Para Casa, Peter não tinha definitivamente mais nada: May havia morrido; MJ, Ned e todos os seus amigos Vingadores não se lembravam mais dele, e tudo isso por uma decisão extremamente estúpida e desesperada que ele tomou junto ao Doutor Estranho para tentar fazer com que todos se esquecessem de que ele era o Homem-Aranha. No fim, todos se esqueceram de quem ele era como Peter Parker, inclusive ele mesmo. Ele estava mais miserável do que nunca, do jeito que o fandom gosta.
Inspirando-se diretamente na HQ Homem-Aranha: Um Novo Dia (2008), de Dan Slott e Marc Guggenheim, a obra põe um herói em reconstrução, que passa a viver quase que exclusivamente em prol da sua missão, esquecendo-se completamente da sua vida pessoal. Se o Homem-Aranha muitas vezes deixava sua família, amigos, emprego e estudos de lado para salvar o dia, imagine em uma realidade onde nada disso importa?
Entendi a trama desse filme mais ou menos assim: uma releitura de Homem-Aranha: Nunca Mais, onde Peter Parker é jogado no lixo, e o Homem-Aranha sai andando do beco.
Peter constrói uma mini central de vigilância em seu minúsculo apartamento (nada de tecnologia Stark dessa vez) e cria uma relação de parceria com a detetive Jean DeWolff (muito presente na fase Ultimate), tornando-se uma verdadeira máquina de combate ao crime e reduzindo a criminalidade aos níveis mais baixos da história de Nova York.
A cidade passa a amá-lo: o povo, a polícia, até mesmo a imprensa. A falta de um J. Jonah Jameson falando mal dele dia sim, dia também fez uma grande diferença na sua popularidade.
Todavia, a trama deixa claro que essa obsessão pelo combate ao crime é, na verdade, uma forma de evitar enfrentar os problemas de Peter Parker. Era como se manter na zona de conforto, mesmo lutando contra criminosos como Escorpião e Lápide (que, por sinal, são praticamente figurantes no filme; não espere algo muito profundo vindo deles).
Quanto mais ele abraça a Aranha, mais ele se esquece do Homem, e isso logo começa a mostrar consequências físicas, com seus hormônios de Aranha atingindo níveis altíssimos, com Parker sendo capaz de lançar teias orgânicas assim como o Aranha de Tobey Maguire. Porém, com esses novos poderes, surge também uma instabilidade mental crescente, com um instinto cada vez mais primitivo e agressivo tomando o lugar da sua racionalidade. E é claro que isso tem relação direta com a “vilã” do filme: Jean Grey, interpretada por Sadie Sink.
A telepata tem seu verdadeiro objetivo oculto até o final da trama, passando boa parte dela tentando acessar o cofre do Contenção de Danos, uma divisão militar dedicada a capturar e estudar meta-humanos que “saírem da linha”. Para isso, ela manipula inúmeras pessoas, tendo capacidade de realizar saltos de mente em mente em uma distância de até dez metros, o que a torna uma ameaça quase impossível de combater, criando um clima de tensão em cada aparição, por mais que inicialmente nem saibamos quem ela é.
Grey obviamente tenta tomar a mente do Homem-Aranha, mas é rechaçada, o que não impede que ela descubra suas lembranças sobre Mary Jane e Ned Leeds, o que obviamente usa para ameaçar o herói que ela agora sabe ser Peter Parker. É por meio de Jean que o Homem-Aranha finalmente se reconecta com seus antigos amigos, que passou quatro anos vendo de longe. Tudo por livre e espontânea pressão.
Ned limita-se a um alívio cômico um tanto sem sal em alguns momentos, com pouco tempo sendo dedicado a reconstrução dos laços entre ele e seu melhor amigo; já Mary Jane possui a melhor dinâmica com Peter nos quatro filmes, especialmente no momento em que lê a carta escrita por ele ao fim de Sem Volta Para Casa (2021). Por mais que seja grata por ele tê-la salvo tantas vezes e admire o homem diante dela, é impossível amar aquilo de que não se lembra, e, por isso, é impossível reconstruir o sentimento entre eles. Sem final de conto de fadas, sem solução de roteiro milagrosa, as consequências de um filme mantêm seu peso no outro. Não duvido nada de que a Marvel irá restabelecer esse casal no futuro, mas, por hora, foi corajosa o suficiente para manter a lógica à frente do fanservice.
A dinâmica de Peter com o Justiceiro também é bastante intrigante e divertida. Por mais que o excesso de humor de Frank Castle por vezes o descaracterize, é justamente a diferença de visão entre ambos os vigilantes que cria o humor, pois, diferente de Justiceiro e Demolidor, que saem no soco quase toda vez que se encontram, Justiceiro e Homem-Aranha são, por incrível que pareça, uma dupla realmente funcional, com um conseguindo respeitar, pelo menos em parte, aquilo que o outro representa.
A relação de Peter com Jean, mesmo que breve, é funcional, mostrando como ambos vivenciaram traumas semelhantes, mas tomaram rumos bastante diferentes. No fim, Parker teve uma percepção um tanto quanto equivocada em relação a ela, algo que é de suma importância para a reta final da trama, mas esse spoiler nós não vamos dar por aqui!
O spoiler que podemos dar é que membros dos Novos Vingadores estão presentes e servem como ponte para a presença do Amigão da Vizinhança em Vingadores: Doomsday.
Em suma, a jornada de Peter não é somente para se reconectar com MJ e Ned; é sobre reencontrar a si mesmo, provar que ele pode equilibrar o símbolo e o homem, que não precisa negar sua missão nem sua vida por trás da máscara para ser quem é.
Por esse motivo, a ausência de um vilão fixo é um enorme trunfo para a história. O maior oponente do Homem-Aranha não é o Escorpião, e muito menos Jean Grey, é ele mesmo, e os sentimentos que Jean desperta em sua mente. Seu contexto é seu maior inimigo, e sua missão é superar os limites que ele impôs a si mesmo.
Direção e Ação
A direção de Destin Daniel Cretton, responsável por Shang-Chi e a Lenda dos Dez Anéis (2021), traz uma grandiosidade muito maior às cenas de ação e às travessias do aracnídeo pela cidade. Tudo tem mais profundidade, transmite mais realidade, é mais grandioso. O embate do Aranha contra os guerreiros do Tentáculo é um show à parte, sendo talvez uma das melhores cenas de ação de todo o MCU.
E, é claro, não poderíamos deixar de falar do retorno do “Hulk raiz”, que é libertado após mais um dos jogos mentais de Jean. O fim do "Hulk Coach" de óculos certamente agradará a muitos fãs; no entanto, ainda acredito que ele tenha sido um tanto nerfado, especialmente pelo protagonismo do Aranha. Independentemente do resultado, o duelo é brilhantemente dirigido, misturando ação e momentos que beiram o terror, assemelhando-se muito à primeira transformação do Hulk em Os Vingadores (2012), quando o Golias Esmeralda persegue a Viúva Negra.
A direção conduz um elenco que está em seu auge, mais entrosado e melhor conduzido, extraindo o melhor de cada um dos atores e atrizes. Para mim, não restam dúvidas de que, no quesito direção, esse é o melhor filme do Homem-Aranha dentro do MCU.
Veredito
É o melhor filme do Homem-Aranha? Definitivamente não, especialmente porque Homem-Aranha 2 (2004) ainda existe e segue sendo o filme definitivo do herói. Ainda assim, Homem-Aranha: Um Novo Dia certamente conquistou uma vaga entre os três melhores longas do Cabeça de Teia, entregando um herói maduro, com grande profundidade psicológica, relações complexas e cenas de ação incomparáveis. Sem dúvida, é o ponto mais alto da carreira de Tom Holland como Homem-Aranha, e digno de uma nota 9.
Nota: 9/10
E você, o que achou do filme? Para você, é o melhor do Homem-Aranha? Não deixe de comentar!
