Crítica: He-Man e os Mestres do Universo (2026)
De possível blockbuster para fracasso absoluto de bilheteria. Da ansiedade de praticamente todos os fãs do clássico desenho de 1983 até a decepção de uma enorme parcela deles. Por que a primeira adaptação da história do Homem Mais Poderoso do Universo (ao menos desde a tragédia lançada em 1987 e estrelada por Dolph Lundgren) foi tão bem aguardada e tão mal recebida? Será que o filme é realmente ruim? Será que o He-Man realmente deveria se chamar He-Manso? Será que a chamada agenda política realmente arruinou a produção que poderia suceder o sucesso de Barbie nas mãos da Mattel? É isso que iremos descobrir hoje!
MARVEL E DC
Rafael Silva
6/13/20268 min read
Antes de mais nada, deve-se ressaltar como realmente era o desenho de 1983, nascido para surfar na onda de uma série de brinquedos lançados pela Mattel dois anos antes. A ideia nunca foi construir uma trama complexa ou emocional. O enredo dos 130 episódios é extremamente simples, e a construção de praticamente todos os personagens, de He-Man e Teela a Esqueleto e Homem Fera, é muitíssimo rasa e atrelada a arquétipos básicos. He-Man é o herói perfeito e moralmente incorruptível (com direito a lições de moral ao fim de cada episódio), e Esqueleto é o vilão clássico, é o mal pelo mal, sem maiores explicações. Afinal, ter uma caveira no lugar do rosto já indica vilania.
Ou seja, se você, seja um fã de longa data do herói ou um recém-chegado, foi ao cinema esperando qualquer coisa além de uma galhofice absoluta, digamos que suas expectativas foram bastante equivocadas. O filme, dirigido por Travis Knight e escrito por Chris Butler, é exatamente isso: uma aventura ridícula e descompromissada. Os diálogos absurdos, as coincidências de roteiro, os maneirismos do Esqueleto... tudo isso está presente no desenho e segue presente aqui, e talvez esse seja o ponto de maior fidelidade entre ambas as obras.
Prova dessa simplicidade está no próprio plot, que ao meu ver ainda conseguiu complicar minimamente algo que poderia ser ainda mais simples. Adam (Nicholas Galitzine) é um príncipe jovem e frágil, incapaz de adaptar-se ao papel desejado por seu pai, o Rei Randor de Etérnia (James Purefoy): o de ser um homem forte e confiante, digno de herdar o trono e a Espada do Poder, símbolo máximo daquele destinado a ser o Guardião dos Segredos do Castelo de Grayskull.
O questionamento do que é ser um homem permeia toda a trama e, ao mesmo tempo, a expõe à maioria das críticas contra a obra, especialmente pelo fato de essa temática jamais ter sido trabalhada em nenhum outro produto da série, soando quase que exclusivamente como o cumprimento de uma cartilha de estúdio, tentando de alguma forma desconstruir um ícone moldado de forma muito clara há quatro décadas.
Teela (Camila Mendes) e Mentor (Idris Elba) tentam ajudá-lo, mas sua evolução é quase imperceptível. Nesse momento, o Esqueleto (Jared Leto) e seus lacaios invadem o Palácio Real, capturam o casal real, derrotam Mentor, e Adam escapa com a espada rumo à Terra com ajuda da Feiticeira (Morena Baccarin), onde deveria preparar-se para voltar a Etérnia como seu salvador, como sua única esperança.
Os vinte minutos que Adam passa na Terra talvez sejam os mais torturantes da obra, e o alvo da maioria das críticas. Adam é um completo pateta, não demonstrando nenhum mínimo traço de evolução em quinze anos na Terra. Não se preparou para cumprir seu destino, nem ao menos tentou se adaptar ao mundo em que agora vive, insistindo em contar a todos ao seu redor sobre as bizarras histórias de seu planeta natal. Seu trabalho no RH e sua busca fracassada pela espada que ele estupidamente perdeu antes mesmo de chegar ao planeta parecem mais retardar o avanço do filme do que verdadeiramente desenvolvê-lo.
Nesse caso, temos uma Jornada do Herói incompleta, uma vez que o protagonista não passa por um verdadeiro momento de treinamento ou amadurecimento; tudo parece acontecer de forma rápida e rasa demais, o que contradiz a própria lógica por trás da escolha da Feiticeira em fazê-lo digno do poder: a retidão moral, o compromisso, a persistência. Nada disso está presente durante boa parte do filme.
Você pode estar se perguntando: mas o Príncipe Adam não era um imbecil no desenho também? Sim, ao mesmo tempo que não. O herdeiro do trono sempre foi visto por seus pais e por todos à sua volta como um playboy fútil e desastrado, alguém sem interesse ou capacidade para realmente ser útil, algo que, por boa parte do filme, a encarnação de Nicholas Galitzine faz com maestria. Todavia, é bem claro na série original que Adam finge ser um tolo para que as pessoas não suspeitem de que ele é o He-Man (por mais que, além do bronzeado e da tanguinha, ele continue exatamente igual mesmo depois da transformação).
Não digo de maneira alguma que a ideia de fazer um He-Man com uma veia mais emocional foi errada; pelo contrário, creio que ela sempre esteve inclusive nas entrelinhas do desenho, mas jamais foi de fato explorada. Quantas vezes He-Man poderia ter espancado ou até mesmo matado o Esqueleto ou qualquer um de seus lacaios? Quantas vezes, ao chegar a um conflito, ele partiu imediatamente para a violência sem ser atacado antes? É claro que estamos falando de uma animação infantil, mas mesmo lá, He-Man era retratado como um homem piedoso, que tenta ver a outra face até mesmo das piores pessoas, algo que o aproxima de outros heróis icônicos como o Superman, que foi adaptado de forma semelhante por James Gunn em 2025.
O problema em si reside nos excessos, na preguiça do roteiro em fazer algo além do raso. Preferir a paz à guerra é uma coisa, mas tentar conversar enquanto um homem-caveira dispara um feitiço mortal contra você é realmente complicado.
Em seu retorno a Etérnia, com ajuda de Teela, Adam encontra um mundo muito diferente daquele que deixou em sua infância: decadente, morto e tomado pela maldade do Esqueleto. O arqui-inimigo de Etérnia é certamente o ponto mais alto do filme. Por mais que Jared Leto tenha sido eternizado de maneira negativa nos corações dos fãs de DC e Marvel por seus papéis no mínimo questionáveis como Coringa e Morbius, aqui pode-se dizer seguramente que ele foi capaz de construir um vilão carismático e, como lhe é habitual, caricato, em um personagem que o permitia ser assim.
O CGI em sua composição é pesadíssimo (assim como em todo o filme), o que oficialmente o torna artificial e pouco crível ou imersivo, mas, honestamente, acredito que isso jamais tenha sido a intenção de Travis Knight. Seus bordões, trocadilhos e inesquecíveis risadas fazem dele o personagem mais fiel ao desenho original, sem sombra de dúvidas, além de muitíssimo divertido. Fica clara a tentativa do filme de colocá-lo não só como um antagonista físico e moral a He-Man, mas também como um espelho para o herói. Esqueleto enxerga a conquista e a violência como força, algo totalmente oposto à visão de Adam, que, mesmo possuindo um enorme poder e, ao longo da história, aprendendo a usá-lo, prefere mantê-lo e busca outras formas de resolver os conflitos, como um bom assistente de RH.
Porém, se essa dinâmica funciona com He-Man e Esqueleto, com Maligna e Teela as coisas são um tanto diferentes. Muitos acusaram a nova Teela de ter sido mais uma vítima da febre de “Rey Skywalker”, tornando-se uma personagem sem defeitos, que ridiculariza todos à sua volta com suas habilidades infalíveis. Isso de fato acontece? Bom, é inegável que sim, mas não apenas pela perfeição forçada da personagem, mas também pela forma com a qual o roteiro reduz as figuras em seu entorno.
Mentor torna-se um bêbado renegado após a queda de Grayskull. A Rainha aparece pouquíssimo e jamais exerce um papel real de liderança, assim como a Feiticeira, que, por mais que funcionasse bem como uma conselheira para He-Man, praticamente não participa da ação, sendo derrotada facilmente por Esqueleto. Quanto a He-Man, acho que já deixamos bem clara a sua falta de neurônios… Isso acaba limitando a heroína a uma personagem pouco desenvolvida para além de sua relação conturbada com seu pai, além de irritante para muitos.
Algo muito diferente, mas ainda mais negativo, ocorre com Maligna (Alison Brie) em relação à sua vassalagem a Esqueleto. Quem se lembra do desenho sabe muito bem que, por mais que Maligna fosse uma das comparsas mais recorrentes de Esqueleto, ela nunca foi realmente submissa a ele, tentando mais de uma vez traí-lo. Em 2026, ela foi transformada praticamente em uma vítima de relacionamento abusivo. Esqueleto a agride e manipula mais de uma vez, e ainda assim ela se lança aos seus pés, adorando-o e sendo fiel a ele praticamente até o fim da trama. Se Teela é construída para ser “melhor” que todos os homens do filme, Maligna é feita para ser o capacho de todos eles. O espelhamento entre Maligna e Teela pode servir, em certa medida, como crítica social, mas é altamente descaracterizante para ambas, além de excessivamente expositivo.
O roteiro, completamente isento de qualquer tipo de sutileza, acaba representando a própria crise existencial que o filme sofre. Ele de forma alguma pode ser considerado infantil, uma vez que Esqueleto e Maligna fazem pelo menos três piadas de cunho erótico em relação a He-Man e sua espada. O humor é geralmente funcional, mas não para o público que o longa supostamente visava. Se miravam um público adulto, não seria possível fazer algo minimamente mais complexo em outros aspectos da narrativa?
O fator nostálgico funciona? Em muitos momentos, sim. Não tem um fã que não se arrepiou com a primeira transformação de He-Man para enfrentar Mandíbula, finalmente dando ao público o gostinho do poder do Homem Mais Poderoso do Universo. Daí em diante, temos ótimas cenas de ação, especialmente o duelo na Montanha da Serpente, em que Adam passa a conhecer seus poderes e, ao mesmo tempo, percebe que nem mesmo eles são capazes de resolver todos os seus problemas, uma vez que seu descontrole acaba causando a morte de Randor, justamente no momento em que tentava salvá-lo das garras de Esqueleto.
Nesse aspecto, é impossível não elogiar o belíssimo trabalho de Daniel Pemberton, que, com participação do lendário guitarrista do Queen, Brian May, compõe uma trilha épica e lúdica, com a cara dos anos 1980, sem prender-se ao já incrível tema clássico de Shuki Levy e Haim Saban. Ela constrói a magia e conduz a emoção com maestria, guiando brilhantemente os momentos de queda e da glória do protagonista. Apesar do primor técnico, tais momentos ainda pecam pela falta de impacto: He-Man acabou de indiretamente matar o próprio pai, e o impacto disso é mínimo, mas é uma das várias fragilidades e incoerências do roteiro.
A reta final é bastante acelerada, com Adam reunindo o povo de Etérnia, valendo-se de suas habilidades sociais e de sua inteligência, e não de sua força, para liderá-los para a vitória. Em seu confronto derradeiro com Esqueleto, para além de uma ótima luta, temos também um conceito interessantíssimo, apesar de claramente replicado de Thor: Ragnarok: Adam é o verdadeiro portador do poder, não a espada. O poder é leal a um homem, não a um objeto, e vai muito além da força bruta. E é com essa certeza que He-Man vence Esqueleto, liberta Etérnia e cumpre seu destino, mostrando seu valor diante de um povo que depositava nele todas as suas esperanças.
Por fim, pode-se dizer que temos um filme repleto de trunfos, e também de defeitos. Como uma diversão casual, ele funcionará bem para praticamente qualquer um. Para fãs, ele pode decepcionar pelo mau desenvolvimento de alguns personagens e péssimas decisões criativas. Para críticos… é melhor nem assistir. Mas uma coisa é certa: ele está mil anos luz à frente da bomba de 1987.
Parece óbvio que havia planos para uma franquia, mas US$ 63 milhões em bilheteria mundial, em comparação com os US$ 200 milhões gastos na produção, parecem discordar dos planos da Mattel e prometem enterrar qualquer projeto logo no início. É impossível não se decepcionar com os rumos de um projeto tão aguardado, mas também é impossível dizer que ele merecia muito mais do que isso, pela sua existência em erros que já custaram caro a outros longas, e que mesmo assim foram repetidos, e principalmente, pela sua falta de uma identidade clara. Ainda assim, creio que, como uma aventura divertida e com algumas propostas interessantes, mas infelizmente mal trabalhadas, o filme mereça uma nota média.
Nota: 6


