Crítica: Demolidor: O Homem Sem Medo

A minissérie criada por Frank Miller e John Romita Jr., responsável por reinventar o Demolidor em 1993, inspirando-se diretamente na fórmula usada por Miller nos anos 1970 para salvar o Homem Sem Medo do cancelamento, tornou-se um dos primeiros clássicos da Marvel Comics a ser adaptado para uma versão de bolso. Mas será que o segundo pai do Demolidor foi realmente capaz de condensar mais de trinta anos de história do vigilante em 168 páginas, ou essa é uma daquelas famosas histórias superestimadas e hypadas pela nostalgia? É isso que vamos descobrir hoje!

MARVEL E DC

Rafael Silva

5/21/20266 min read

A HQ adapta livremente a origem desenvolvida por Bill Everett e Stan Lee em 1964. Ela traz o jovem Matt Murdock como mais um menino qualquer da Cozinha do Inferno, cercado pela violência e desesperança, que parecem ter seu catalisador na figura de seu pai: Jack “Batalhador” Murdock.

Matt herdou dele sua sede de sangue, sua raiva e seu gosto pela luta, mas Jack sabe muito bem onde isso o levou. Velho e endividado, tudo que lhe resta é tornar-se um capanga qualquer do Arranjador, cobrando aqueles que devem ao mafioso, usando-se da violência para aproveitar-se dos mais fracos.

Seu filho sofreu intensa perseguição na escola graças aos seus fracassos, com alunos lhe apelidando de Demolidor (nome que seu pai usava em seu auge), enquanto lhe batiam. Matthew revidava, mas seu pai sempre o repreendia. Ele sabia que, assim como ele, o garoto tinha um monstro em seu coração, que, se fosse liberto, não poderia nunca mais ser contido.

Assim, ele obrigou seu filho a passar todo o tempo livre que tinha nos livros, longe das ruas, longe das provocações que pudessem despertar a fera e, ao mesmo tempo, próximo daquilo que poderia dar a ele um futuro melhor.

O momento em que Matt perde a visão ao salvar um idoso de um atropelamento parece, ao mesmo tempo, uma terrível tragédia e também um milagre, pois talvez esse trauma e a nova vida que ele lhe impôs tenham sido decisivos para impedir que ele acabasse seguindo pelo mesmo caminho de seu pai.

Ele podia não ver o mundo, mas o ouvia e sentia como ninguém nunca seria capaz. Ainda assim, era preciso alguém que o ensinasse como usar esses dons, e foi assim que surgiu Stick, um dos assassinos do Tentáculo, que via em Murdock um grande potencial. Ele o treinou de maneira severa e persistente, transformando-o em uma verdadeira máquina de combate, porém Matt ainda era impulsivo e emotivo demais, incapaz de fazer tudo que é necessário para se ter a verdadeira justiça, e assim, Stick o deixou, ao menos por hora.

Stick treinou o monstro, mostrou a ele seu verdadeiro potencial, permitiu que seu ódio aflorasse, mas ele ainda não havia sido totalmente desperto. Para isso, ainda seria necessário que o último pilar que o mantinha preso fosse finalmente derrubado. Isso acontece quando o Arranjador mata Jack Murdock, após ele se recusar a vender uma luta diante de Matt. Ele não permite que seu filho o veja como um covarde sem honra, em um belo e último ato de coragem.

Murdock, agora completamente sozinho, finalmente tem a chance de ser quem havia negado ser por todo aquele tempo: o Demolidor. Sem o logo ou o traje, mas já com o instinto.

Ele caça e pune impiedosamente cada um dos homens envolvidos na morte de Jack. No processo, acaba invadindo um bordel e, em meio ao confronto, faz com que uma das prostitutas caia da janela direto para a morte. A sensação de matar alguém age de maneira diferente no jovem. Ele se sente culpado, mas, por outro lado, não é capaz de negar plenamente o prazer que sentiu ao infligir toda aquela dor.

É nesse ponto que entra uma das minhas críticas ao quadrinho: onde está a veia religiosa de Matt Murdock? Foi o próprio Miller quem introduziu o catolicismo como um dos grandes dilemas da cruzada do Demolidor. Um homem que se veste de demônio para espancar criminosos, enquanto se delicia com o cheiro de seu sangue e o som do partir de seus ossos, mas que em outro momento é um simples advogado ajoelhado perante o altar, pedindo perdão pelo que a outra parte de si havia feito.

Como o jovem Matt lidaria com essa e outras mortes que causou ao longo da HQ? Ele ressignificou o mandamento de não matar? Como isso afetaria sua relação com Elektra Natchios?

Tais reflexões seriam importantíssimas em momentos como esses, e essa HQ acaba não explorando esse aspecto.

A juventude de Murdock é bem trabalhada, trazendo o início de sua amizade com Foggy Nelson e de sua paixão ardente por Elektra. A jovem, assim como ele, tem sede de sangue e desejo por adrenalina, o que faz com que Matt sinta-se completamente hipnotizado por ela. Seus pecados parecem se completar.

Da mesma forma que Murdock lida com as vozes dos garotos que o espancavam na infância, Elektra era guiada por vozes que a levavam ao combate. Sem nenhuma razão aparente, ela se colocava em risco nos becos mais perigosos da cidade e lá matava brutalmente seus criminosos mais asquerosos. Era um instinto assassino inato, que até mesmo Stick já havia notado e, ao mesmo tempo, temido, pois, diferente do Demolidor, a jovem não tinha a menor intenção de mantê-lo sob controle.

Ao mesmo tempo, o Rei do Crime se apossa do submundo de Nova York, trazendo à tona um tipo de crime que por anos havia sido considerado imoral pela maioria dos criminosos. Do sequestro de crianças à venda de drogas pesadas, Wilson Fisk não mede esforços para garantir sua soberania sobre a Grande Maçã e, pouco a pouco, conquista influência em todas as camadas da sociedade nova-iorquina.

Ele vicia as massas mais pobres com entorpecentes, que lhes destituem de suas faculdades mentais, e assim os torna ferramentas facilmente manipuláveis para seus outros negócios escusos. Ele faz com que os viciados trabalhem em favor do próprio vício, em uma cruel engrenagem de domínio e morte.

Um vilão sem limites e que tem todo o sistema na palma da mão.

É com uma Nova York mais violenta do que nunca que Matt decide voltar ao lugar que, por mais que tivesse sido palco de todas as suas piores lembranças, ele parecia incapaz de deixar. Seu coração sempre estaria lá.

Em seu retorno a Hell's Kitchen, ele conhece a jovem Mickey, uma adolescente que, assim como ele, precisa descontar sua raiva em um saco de pancadas. Ele a treina enquanto relembra seu passado, conectando-se cada vez mais ao garoto raivoso que achou ter deixado para trás quando mudou-se para Boston.

Quando Mickey é capturada pelos viciados financiados por Fisk para alimentar uma rede de tráfico, Matt se vê obrigado a finalmente libertar o monstro que havia guardado nos últimos dez anos. O Demolidor já não era mais um apelido provocante da infância; era uma válvula de escape e estava prestes a se tornar o símbolo que aquela cidade decadente tanto precisava.

O Demolidor ainda não tinha uniforme vermelho ou máscara com chifres, apenas um simples traje preto que ocultava seu rosto, muito semelhante ao visto na primeira temporada de Demolidor (2015).

Ele caça os criminosos de forma brutal e desmantela o maligno esquema de Fisk, fazendo com que o Rei do Crime perceba que, mesmo com todos os poderosos da cidade na palma de sua mão, sempre haverá aqueles que se erguerão contra sua maldade.

Boa parte desse arco foi brilhantemente adaptada na primeira e segunda temporadas de Demolidor, da Netflix, que inclusive corrigiu algumas de suas pontas soltas. A ideia de que Matt, desde a infância, luta contra seu ódio e, na forma de Demolidor, encontra uma maneira não só de libertá-lo contra aqueles que merecem, mas também de transformar essa violência em esperança para Nova York, é um ótimo conceito, ainda pouco explorado.

Especialmente em seus momentos ao lado de Elektra, faltaram ocasiões em que a moralidade rígida típica do herói fosse realmente colocada em jogo. Matt não mata, e é justamente isso que torna sua relação com uma assassina fria como Elektra Natchios tão intrigante. É um desejo primitivo, freado por uma moral construída pela fé. Porém, se não existe fé, não existem freios para o Demolidor, e são justamente esses freios que o caracterizam como personagem, algo que o próprio Frank Miller já havia estabelecido nas HQs da década anterior.

As muitas ideias em um curto espaço talvez sejam a maior fraqueza da HQ, que possui ótimos conceitos, mas não finaliza praticamente nenhum com total precisão. Stick diz que Matt não é capaz de servir ao Tentáculo, mas não sabemos exatamente o porquê. Também não entendemos ao certo qual é o código moral do Demolidor. Não sabemos a origem das tais vozes ouvidas por Elektra. Por mais que tudo isso tenha sido desenvolvido posteriormente, não obter respostas para perguntas tão centrais ao desenvolvimento dos personagens e da narrativa é, no mínimo, frustrante.

Como sempre, deve-se elogiar a arte de John Romita Jr., filho do lendário John Romita Sr. e responsável por sagas incríveis como Demônio da Garrafa (1979), em que Tony Stark se vê consumido pelo alcoolismo. Seu traço pesado constrói de maneira interessante a sujeira de Nova York e a persona carregada dos personagens e ambientes, o que colabora muitíssimo para a imersão.

Mesmo que todas as pontas não tenham sido costuradas, é louvável a quantidade de elementos que Miller e Romita foram capazes de introduzir em tão pouco tempo, ao mesmo tempo que definiam de maneira sublime a personalidade dos três personagens centrais: Demolidor, Elektra e Wilson Fisk.

A trama é dinâmica, psicológica, brutal e surpreendentemente bem-humorada em certos momentos, o que a torna, além de divertida, extremamente recomendada para aqueles que desejam conhecer o que há de mais importante sobre o herói.

Mesmo com seus problemas, a HQ ainda é uma obra indispensável na lore do Homem Sem Medo e, por isso, digna de uma nota 8.