Crítica: Batman - Cruzado Encapuzado (2ª Temporada)

Após quase dois anos de espera, finalmente o Prime Video nos entregou a não tão aguardada segunda temporada da série Batman: Cruzado Encapuzado. Ela deu o que falar na primeira temporada, não pelo seu roteiro inovador baseado nas aventuras do herói nos anos 1940, ou por um traço único explorando ao máximo o que a estética noir tem a oferecer, e sim pela mudança na aparência e construção de certos personagens. Pessoalmente, não tenho problema com isso, mas convenhamos: ser mais reconhecido pelas suas polêmicas do que pela sua qualidade não é lá a melhor forma de uma produção ser lembrada. Antes que comecemos a falar mal da série por antecedência, vale ressaltar a sua ótima recepção nos veículos de crítica, como um belo 88% de aprovação no Rotten Tomatoes, e episódios com notas individualmente muito maiores que a primeira temporada, seguindo o mesmo formato: 8 episódios supostamente desconectados (com exceção de um vilão específico que os conecta), e os dois últimos, que trazem essa ameaça à luz, que, como todos sabem, nessa temporada foi o Coringa. Mas, afinal, a série melhorou mesmo? É isso que vamos discutir hoje, analisando brevemente cada episódio, passando pelos seus principais pontos e dando-lhes uma nota final.

MARVEL E DC

Rafael Silva

8/7/202611 min read

Episódio 1: Força Bruta

A trama nos apresenta o declínio de Rupert Thorne como chefão do crime em Gotham, com o contador Julian Day, carinhosamente chamado de “Homem-Calendário”, preparando-se para delatar contra ele em um processo que pode pôr fim ao seu império criminoso e dar à cidade alguma esperança.

Para livrar-se dele, Thorne delega seu braço direito: Edward Nygma, mais conhecido como “o pior Charada de todos os tempos”. A série, desde o início, tomou inúmeras liberdades criativas, mas aqui a descaracterização passa completamente dos limites. Nygma não é nada mais que um mafioso genérico, atirando loucamente com sua metralhadora de tambor e sendo extremamente grosseiro com sua namorada. Esqueça os enigmas ou a obsessão doentia de superar o Batman intelectualmente. Para além do nome, o Charada definitivamente não existe nesta série.

Após falhar em matá-lo no aeroporto, graças à intervenção do Batman, Nygma usa uma droga experimental dada por Hugo Strange (que é um completo inútil nessa série) para transformar Sal, um de seus homens, em um brutamontes muito parecido com Solomon Grundy, em mais uma das releituras nem um pouco criativas do seriado. Mais uma vez, Batman intervém, derrotando-o com ajuda do Batmóvel, em uma das poucas cenas de ação minimamente inventivas da temporada.

O Coringa surge nos últimos instantes, matando Rupert e seu filho, Matthew, logo após o gângster ser absolvido no processo. Sem Thorne, o submundo de Gotham estaria nas mãos de Edward, um sujeito impulsivo e descontrolado, desestabilizando as estruturas da corrupção e deixando a cidade cada vez mais próxima do colapso.

A partir disso, o Palhaço passa a observar cada uma das ações do Batman e dos criminosos de Gotham como o movimento de peças em seu quebra-cabeça niilista, em um desenvolvimento progressivo notável.

O primeiro episódio não é ruim, mas tem alguns personagens detestáveis, como o Charada e o Homem-Calendário, que simplesmente não representam suas contrapartes nas HQs e não trazem nada de realmente especial. Ordinário, como boa parte da série.

Nota: 6

Episódio 2: O Clarão Vermelho

Dessa vez, a série aposta em uma vilã de quarta ou quinta prateleira do Batman: Roxy Rocket, uma jovem cientista que descobre um mineral extremamente raro e poderoso, que pode, em muito pouco tempo, levar o ser humano ao espaço, mas é traída pelos diretores de sua empresa e, após escapar por pouco da morte, entra em uma cruzada vingativa contra eles.

Neste, temos um pouco mais da faceta Bruce Wayne do herói, que usa de seu alter ego playboy bilionário para infiltrar-se na empresa como um simples investidor. Todavia, uma verdade recorrente na série se faz presente aqui: nem Bruce Wayne nem Batman recebem qualquer tipo de desenvolvimento claro. Wayne continua um playboy otário e relaxado, sem evoluir para o filantropo socialmente ativo que conhecemos nos quadrinhos. Já o Batman, com exceção do estreitamento de seus laços com Gordon, Barbara, Arlequina e Alfred (que ele ainda chama de Pennyworth por algum motivo inexplicável), muitas vezes é apenas um agente de ação, deixado de lado em prol do desenvolvimento dos vilões, que às vezes nem são realmente bons.

Por outro lado, o episódio tem ótimas cenas de combate de avião, explorando bem a atmosfera noturna e os gadgets de ambos os duelistas, trazendo confrontos minimamente inventivos.

Pela coragem de investir em um personagem distinto e pelos bons visuais, o episódio é digno de uma nota um pouco acima da média.

Nota: 7

Episódio 3: Disfarce Profundo

Para muitos, o melhor da série. Batman se infiltra em Blackgate com o disfarce de Fósforos Malone (introduzido nos quadrinhos na edição Batman #242, de 1972), para proteger um detento chamado Desmond, que se torna alvo do Charada por saber muito sobre o passado criminoso de Rupert Thorne.

O episódio mostra o quão dedicado Batman é em sua missão, expondo-se a dormir em uma cama dura e comer uma comida horrível em nome da justiça.

Mesmo sendo ousada e apresentando um elemento curioso da persona do Cavaleiro das Trevas, a trama é uma repetição infinita das mesmas coisas: Malone e Desmond são cercados por internos, batem neles e são presos novamente. Nesses momentos, as lutas são extremamente fracas; a animação não consegue escapar da monotonia tão criticada na temporada anterior. A vivacidade e o traço único de Animated Series continuam inalcançáveis.

Ambos conseguem escapar da prisão, onde Batman tentaria se infiltrar na gangue de Desmond para chegar ao Charada. Porém, o vilão surge, atirando no herói e, pouco depois, matando o capanga durante um assalto.

O episódio é divertido, minimamente criativo, mas, novamente, nada realmente impactante. Nota: 6

Episódio 4: Dívida com o Diabo

Para mim, o verdadeiro melhor episódio da temporada. Uma série de assassinatos assola Gotham, com uma marca em comum conectando todas as mortes: o símbolo do morcego pintado em sangue.

Batman entra no caso, confrontando os assassinatos cometidos por homens que se vestem exatamente iguais a ele, chamando-o de “avatar”, como se Bruce fosse um portador do poder de uma entidade ancestral conhecida como Barbatos. Talvez a criminalidade de Gotham fosse muito além da corrupção e tivesse raízes paranormales, algo que os quadrinhos já exploraram anteriormente.

Na aclamada história Dark Knight, Dark City e em arcos mais recentes, como o de Ram V em Detective Comics, é revelado que a cidade foi, na verdade, construída ao redor de um templo subterrâneo usado para um ritual demoníaco. Os fundadores coloniais de Gotham tentaram invocar e prender um demônio-morcego chamado Barbatos, cuja influência maligna se espalhou pela cidade em crescimento.

O confronto do Cavaleiro das Trevas contra seus “adoradores” é surpreendentemente bem feito, com os seguidores utilizando-se das sombras contra o herói, atacando-o por todos os lados. Ao falhar em capturá-los, a verdade continuava uma só: o Batman era visto como um assassino.

Isso faz com que policiais como Renee Montoya e Arnold Flass acreditem que Batman seja o responsável pelas mortes, fazendo com que Jim Gordon seja obrigado a sair em defesa de seu parceiro e de seu departamento, que perde credibilidade a cada dia. Isso o leva ao programa da Chapeleira Louca, que, mais uma vez, além do chapéu, do nome e do chá, não é nada próxima do que o vilão original realmente é. Apenas uma referência vazia e muitíssimo mal aproveitada.

Eles descobrem a verdade quando um grupo de homens vestidos como o Batman os sequestra, levando-os a uma capela abandonada, que serve de QG para o Monge Louco, o chefe da seita.

Batman chega para detê-los, salvando os reféns e capturando o Monge, que se revela como um oportunista que se aproveitou do fanatismo de alguns jovens e da lenda de Barbatos, fortalecida com a presença do Batman, para encher seus cofres.

O final é ruim? Não! Poderia ser melhor, sem sombra de dúvidas! Talvez deixar alguma ponta solta que deixasse viva a dúvida se a origem paranormal da missão do Batman pode ou não ser real. A série pode tentar seguir por um viés mais realista, mas os absurdos ilógicos que ocorrem nela deixam claro que deixar uma brecha para uma explicação paranormal não custava nada.

Nota: 9

Episódio 5: A Mão Espectral

O retorno de Jim Corrigan. Barbara Gordon decide confrontar seu maior medo e vai a Blackgate acompanhar um experimento que seria realizado com seu ex-parceiro de polícia, que poderia ou prolongar sua vida, ou abreviá-la consideravelmente. Bruce Wayne também não perdeu a oportunidade de acompanhar aquele desastre iminente.

Obviamente, tudo dá errado, e Jim “morre”, mas revive como uma espécie de zumbi movido por uma única coisa: vingança. Essa releitura do Espectro é digna da série: mais pé no chão e fiel aos clássicos de monstros da época. Um tremendo acerto.

O Espectro mata vários criminosos, com Batman falhando miseravelmente em pará-lo. Sua missão somente se encerra quando ele cai de joelhos diante de Barbara e pede seu perdão, e, ao recebê-lo, ele finalmente morre. A morte lhe deu a chance de corrigir os erros de sua vida. Para mim, é um dos três melhores do seriado. Nota: 8

Episódio 6: Medo Repentino

Parece lei: nenhum vilão icônico do Batman é bem trabalhado nessa série (com exceção do Coringa e da Mulher-Gato). O Cavaleiro das Trevas recebe ajuda da Arlequina, que, imersa em uma crise existencial após passar meses escondida no apartamento de Montoya, finalmente decide voltar à ativa. Herói e vilã formam uma dupla formidável, com a psiquiatra sendo de grande valor na investigação de uma série de mortes no campus da Universidade de Gotham. O padrão era o mesmo: todos tinham alucinações terríveis, como se seus piores medos ganhassem vida diante de seus olhos, e simplesmente morriam de pavor. Com essa descrição, é óbvio de qual vilão estamos falando.

A trama brinca com a expectativa, fazendo-nos crer que o Espantalho seria o velho Professor Burton, que, além de rude, tem uma relação bastante suspeita com suas alunas. No entanto, o verdadeiro vilão era, na realidade, o jovem Jonathan Crane Jr., que havia roubado a fórmula de Burton para vingar-se dos amigos que o desprezavam (apesar de isso não ser mostrado em praticamente nenhum momento).

Batman o enfrenta, resistindo ao gás do medo que o faz ver uma versão idosa de si mesmo, presa em um quarto branco enquanto Gotham se desfaz em chamas diante dele. A missão de sua vida, engolida pelas chamas de seu fracasso. No entanto, Batman resiste a essas visões e faz com que o vilão beba de seu próprio veneno, sucumbindo aos seus pesadelos até desmaiar.

Logo após isso, Harleen se entrega às autoridades, aceitando pagar pelos crimes cometidos na primeira temporada, tendo uma conclusão minimamente satisfatória para si e para sua relação com Montoya.

O Espantalho tem um visual único, claramente inspirado nos médicos da Peste Negra, mas é muito mal desenvolvido. Voltamos aos episódios com potencial desperdiçado.

Nota: 6

Episódio 7: Seu Reflexo Sombrio

Finalmente mataram o Charada. Em meio a uma onda de crimes cada vez mais violentos, Nygma metralha a floricultura da jovem Rose Thorn, matando seu pai. Sozinha em corpo e alma, Thorn assume a identidade de Espinho, um protótipo de Hera Venenosa, e, como uma típica femme fatale, aproxima-se do Charada com promessas de amor, apenas para divertir-se à sua custa e depois matá-lo.

Assim como ele, Rose tinha um instinto selvagem dentro de si, e a morte de seu pai libertou esse lado sombrio que nem mesmo Batman pode impedir (ele não impede quase nada nessa série).

Após escapar do Homem-Morcego pela milésima vez, Rose fuzila Nygma e deixa a cidade, abandonando também a identidade frágil que precisou usar para sobreviver nela. Com o Charada morto, o império criminoso de Thorne estava oficialmente sem um imperador, e o trono agora seria preenchido pela sombra que esteve à espreita durante todo aquele tempo, vendo Gotham desabar: o Coringa.

Nota: 6

Episódio 8: Hora Zero

Já tivemos o pior Charada, o pior Homem-Calendário, e agora a série nos deu a pior versão do Senhor Frio já concebida pelo homem (ou, melhor dizendo, Senhor Zero). Fries congela inúmeras pessoas, tornando-se um notório assassino e chamando a atenção do Batman. Porém, essa caçada é deixada de lado para focar na jovem Carrie Kelley, uma garota apaixonada pelo Fantasma Cinzento (herói de infância de Bruce Wayne).

A jovem recém-adotada e perseguida pelo insuportável Harvey Bullock acaba cruzando o caminho do Batman após ter sua bicicleta atropelada pela van de Fries, e chega ao frigorífico do vilão ao mesmo tempo que o herói.

Juntos eles vencem a gangue, com Batman vendo na garota um reflexo de seu próprio passado, construindo a ponte para que ela se torne a Robin, assim como em O Cavaleiro das Trevas, de Frank Miller.

Nota: 6

Episódio 9: Morto Antes do Amanhecer

Enfim, o Coringa. Baseando-se em sua primeira aparição em Batman #1 (1940), o Palhaço do Crime mata a Chapeleira Louca e toda a sua plateia, anunciando para toda a cidade: à meia-noite, o prefeito morrerá, e até o amanhecer, todos vocês irão com ele.

Batman chega ao estúdio, mas, adivinhem? Falha em prender o Coringa, deixando-o fugir após mais uma cena repetitiva dele desviando de tiros e esmurrando capangas. Nunca pensei que diria isso, mas havia necessidade de tantas cenas de ação?

Sem confiança na polícia ou no Batman, os gothamitas fogem em desespero, tomados pelo terror e pela desesperança, enquanto o prefeito é entregue à proteção nada confiável de Flass e seus homens.

É claro que o Coringa consegue matá-lo, já tendo-o envenenado previamente, deixando-o com o mesmo sorriso macabro que esculpiu em todas as suas vítimas. Diferente do Coringa que normalmente vemos, essa versão é bastante fiel às suas primeiras aparições e ao personagem Gwynplaine, do clássico O Homem Que Ri. Com chapéu e sobretudo, o vilão se mantém de boca fechada, expressão séria, e vê em Batman não apenas um rival, mas um espelho. Ambos tentam mudar Gotham: Batman por meio da ordem e ele por meio do caos.

O Coringa é literalmente o único vilão clássico bem apresentado, com um plano claro e com uma premissa original.

Nota: 8

Episódio 10: A Morte Risonha

Consumado seu plano, o Coringa usa suas vítimas como uma espécie de exército de mortos-vivos, liberando gás do riso pelas ruas da cidade. Até mesmo Alfred é afetado, quase matando Bruce no processo. Nesse breve embate, o mordomo esfrega na cara do herói inúmeras verdades: sua solidão, seus fracassos, seu trauma mal resolvido, e, pela primeira vez, Wayne o chama pelo seu nome, mostrando que não o vê como um simples serviçal, mas como amigo.

Essa evolução era necessária, mas veio um tanto quanto atrasada e em um momento conveniente demais. Felizmente, o herói consegue produzir um antídoto e parte para confrontar o Coringa.

O duelo entre o maior herói e o maior vilão das HQs acaba sofrendo dos mesmos problemas que o restante da série: repetitivo e extenso demais. Todavia, os diálogos do Coringa trazem peso ao embate, tratando Batman como um “irmão” e demonstrando como ele manipulou a corrupção e a incompetência das instituições de Gotham para afundá-la em um caos que nem mesmo ele poderia reverter.

Nas ruas, Barbara, Montoya e Flass tentam sobreviver a Gordon e Bullock, afetados pelo gás, enquanto a cidade se autodestrói ao redor deles. Tão heróico quanto seu patrão, Alfred libera a cura em forma gasosa, lançando-a no ar com o Batjato.

Percebendo seu fracasso, o Coringa tenta fugir, mas Batman lança uma pilha de estacas sobre o vilão, empalando-o fatalmente. A insanidade do Coringa foi tamanha que fez com que Batman cruzasse seu único limite, assim como em Batman #2, em que, de fato, o herói deveria matar o Palhaço do Crime — algo que só mudou graças a uma decisão dos editores na época.

Mesmo sem conseguir destruir a cidade, o vilão provou ser capaz de levar Batman e Gotham ao limite, em uma conclusão realmente impactante. Nota: 8

Veredito

A série não é ruim, mas também não é nada extraordinário. Tem cenas de ação excessivas e desalmadas, a animação ainda não agrada e não explora o visual dos anos 1940, que passa batido quase sempre, e muitos personagens icônicos são tratados de forma descuidada. Porém, quando trabalha com vilões menos conhecidos, o seriado se supera e traz uma conclusão bem amarrada, com o Coringa servindo como catalisador de toda a temporada. A segunda temporada é mais madura e regular que sua antecessora, mas ainda não subiu nenhum degrau em relação a ela, abraçando muitos de seus problemas.

Nota final: 7

E você, já assistiu à série? O que achou? Não deixe de comentar!

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