CONTOS POP: PARTE 1
Vampiros, Jedi e monstros de Derry. Para começar o **Contos Pop**, três histórias que brincam com alguns dos grandes ícones da cultura pop, passando por horror, fantasia e ficção científica. É fanfic? É. Mas pelo menos é fanfic com pretensões literárias.
STAR WARSTERRORHISTÓRIA DA CULTURA POP
Rafael Silva
10/2/202612 min read
O MONSTRO NO PORÃO


Desde que eu e meus pais nos mudamos para essa casa em Derry, eu jamais quis descer naquele porão sozinho. Muito escuro, apertado e cheirava mal. Ele ficava no meio do caminho entre meu quarto e o banheiro; às vezes, preferia fazer xixi na cama do que ter que passar na frente daquela porta. Jurava que podia vê-la abrindo e fechando durante a noite, mas sempre que ia ver, ela se fechava com força. Sempre que o medo se tornava muito grande, eu abraçava meu fiel escudeiro Thomas, um urso de pelúcia que meu avô havia me dado pouco antes de morrer. Eu o apelidei com o nome dele e tinha nele a esperança de que o vovô sempre estaria lá, junto comigo.
Tanto tempo depois, percebo que aquilo nunca passou de um medo do desconhecido "escuro". Como adulto, não vejo nada além de um vazio onde antes havia terror, mas a criatividade de uma criança pode imaginar as coisas mais horripilantes, mesmo a partir de um breu absolutamente deserto.
Sempre que falava disso para os meus pais, eles riam e diziam que tudo isso era coisa da minha cabeça e que eu deveria enfrentar aquele medo. Então, foi isso que eu tentei fazer. Já era de madrugada quando peguei minha pequena lanterna, vesti uma cortina vermelha que eu simulava ser a capa do Superman, peguei Thomas e fui até a porta do porão, que, inexplicavelmente, já estava aberta.
Desci lentamente, os degraus de madeira rangiam a cada passo, e nuvens de poeira desciam abaixo deles. Mesmo com a pouca iluminação dada pela lanterna, já dava para ver as aranhas tecendo suas teias do chão até o teto. Ao chegar no chão, a luz iluminava pouco mais de um passo à minha frente, apenas o suficiente para me dar a certeza de que eu estava sozinho, talvez, não somente naquele momento. Vasculhei o local com uma curiosidade assustada, meu coração palpitava, e suor escorria da testa às mãos, que por vezes quase deixavam a lanterna escapar por entre meus dedos.
De repente, ouvi a porta bater atrás de mim e, de imediato, a lanterna saltou de minhas mãos e rolou quase como se tivesse vida própria, desaparecendo no meio de uma pilha de ferragens que meu pai havia deixado lá. Me agachei para tentar pegá-la, mas era quase como se ela tivesse entrado por um portal. Bati a cabeça em um balde ao levantar, totalmente desnorteado. Tateei procurando pela porta, enquanto o líquido quente já corria novamente pelas minhas pernas. Se eu saísse vivo dali, minha mãe não iria me deixar viver muito mais… Minhas pernas tremiam, enquanto eu era tomado pelo mais absoluto terror.
Tão de repente quanto a porta acima da escada tinha se fechado, três bolas luminosas apareceram do outro lado do porão, que agora parecia ser umas cinco vezes maior do que era ao descer. O brilho dourado delas penetrou meus olhos, quase como se me hipnotizassem. Caminhei devagar até elas, sentindo um calor crescente, quase como se caminhasse em direção à lareira da minha sala. O medo começou a ser substituído por uma sensação inenarrável de paz e conforto. Eu me sentia como se estivesse chegando em casa em uma tarde chuvosa, depois de um dia tedioso na escola.
Anos depois, percebo aquele momento como uma quebra de familiaridade, quando o teto e as pessoas que deveriam me proteger me deixaram na boca de um lobo, sem perceber.
Ao chegar perto o suficiente para que minhas mãos pudessem tocar aquelas formas, elas sumiram instantaneamente, substituídas por dois grandes globos vermelhos a centímetros do meu rosto. As luzes começaram a piscar, me dando um brevíssimo vislumbre do que estava diante de mim. Uma forma completamente negra, sem roupas e com dois enormes olhos vermelhos pulsantes e uma bocarra com dezenas de dentes afiados, me encarando no fundo da alma. Cai para trás, com um grito de puro terror rasgando o silêncio ensurdecedor que se fazia. Tentei correr em meio ao piscar das luzes, mas tropeçava naquela pilha de ferragens no chão.
Certo de que não iria escapar, simplesmente me encolhi, abraçando meu urso e implorando que meu avô me protegesse. A criatura parou novamente tão próxima a mim que era possível sentir o calor de sua respiração e o fedor de sua boca. Permaneci imóvel por vários minutos, até que aquela presença se desfez, como se nunca tivesse estado lá. As luzes voltaram a funcionar, e a porta se abriu como se num passe de mágica. Voltei para meu quarto, decidido a não dizer nada daquilo aos meus pais, já que, obviamente, eles não acreditariam em mim, assim como os pais de meus amigos não acreditaram neles quando contaram sobre a coisa que parecia perseguir as crianças de Derry.
Desde aquele dia, nunca mais tive medo daquele porão, nem mesmo tive outra visão como aquela. Ouvi relatos pela cidade de que um grupo de esquisitões da cidade havia visto a tal "Coisa" e a destruído, mas, com o passar dos anos, parei de acreditar naquela infantilidade. Desde que deixei Derry, sinto como se estivesse virando as costas para meu passado e para os problemas que nele habitam. Não só meus pais, as pessoas, desde as crianças até os mais velhos, todos lá parecem um tanto… falsos. A alegria deles me soa artificial, assim como a máscara de normalidade, mesmo diante de coisas tão estranhas. Não importa o quão chocantes as coisas fossem, nada parecia capaz de tirar aquela gente do transe em que viviam.
Mudei-me de lá já fazem três anos, e a cada dia parece que minhas lembranças se tornam mais vazias, quase como se estivessem sendo deletadas da minha mente, mas aquele momento no porão foi tão marcante que nem mesmo o tempo foi capaz de livrar-me daqueles olhos rubros. Penso em algum dia voltar até lá e confrontar novamente aquele porão. Mas, só de pensar em pisar naquele lugar de novo, sinto calafrios. Talvez seja melhor deixar o passado onde está do que se pôr em risco de ser consumido por ele.
A GUERRA PELA PAZ


Meus dedos tremiam enquanto tentava me manter no controle daquela nave. As torretas da Fortaleza Sith de Moribund disparavam automaticamente, guiadas puramente pelo poder do lado sombrio: precisão impecável e munição tão eterna quanto seu ódio.
Voei em zigue-zague, vendo as rajadas rubras passando a centímetros do casco já avariado daquele X-Wing. Durante minhas décadas de treinamento, sempre fui instruído a confiar na vontade suprema da Força, mas meu rosto encharcado de suor não me deixava mentir: eu definitivamente não estava conectado. A Guerra do Hiperespaço havia levado dezenas de milhares de guerreiros da Luz ao calvário, em um conflito dito necessário para manter o equilíbrio na galáxia.
Mas, se não existe paz nem por um único instante para os trilhões de seres que nela habitam, não seria a guerra o estado natural da Força? Meus pensamentos foram entrecortados quando um tiro certeiro atingiu a lateral esquerda de meu caça, fazendo jorrar o combustível de seu tanque; em poucos segundos, carne e aço estariam ardendo em chamas.
Adiantei-me, ativando a ejeção e saltando em direção ao inferno de fogo e cinzas centenas de metros abaixo. Achando que eu havia morrido, a torreta interrompeu seus disparos. Usei da Força para amortecer minha queda e rapidamente empunhei meu sabre de luz. Com minha lâmina verde, rebati alguns disparos de blaster, atraindo a atenção dos Snipers para que o exército republicano pudesse irromper a fortaleza Sith. Meus dons se confundiam em meio àquele mar de terror. Corpos desmembrados e incinerados, cidades destruídas, natureza obliterada, tudo obra não só daqueles que se aproveitam da Força para benefício próprio, como também de nós mesmos, que juramos seguir somente a sua vontade.
Um poder que rege toda a vida da galáxia não seria capaz de poupar aqueles que dependem dela de tanto sofrimento. Enquanto cerrava o portão metálico da muralha com meu sabre de luz, meus pensamentos não saíam das histórias que ouvi sobre o Caminho da Mão Aberta. Para os Sith, fracos, incapazes de lidar com o poder; para os Jedi, uma seita de fanáticos incapaz de compreender a natureza da Força. Quando li sobre esse grupo na biblioteca do Templo, me fascinei pela forma com a qual enxergavam essa energia: uma maldição, que concede sem mérito poder em demasia àqueles que não são capazes nem dignos de empunhá-lo. Para eles, tanto a luz quanto as trevas eram caminhos de corrupção para a galáxia.
Por muito tempo, acreditei que tudo aquilo fosse uma mentira, mas, ao olhar em volta, minha opinião começa a mudar. Combati ao lado de meus aliados, decepando braços e pernas, partindo corpos ao meio e atravessando corações com golpes precisos, desferidos por alguém que treinou a vida para matar em nome da Ordem Jedi. Em meio ao combate, um homem encapuzado com uma lâmina rubra saltou sobre mim, em um golpe que facilmente me partiria ao meio, se não usasse de meus sentidos ampliados para desviar-me. Bloqueei seus ataques ferozes, lutando para não tropeçar em algum cadáver sob meus pés.
Usando a telecinese, lancei uma pedra na lateral de sua cabeça, forçando-o a sair da posição de ataque e me dando uma chance única. Após dois golpes na altura do peito, rompi suas defesas erguendo minha lâmina com rapidez e decepando sua mão e, com um rápido giro, decapitando-o. Seu corpo caiu, e sua cabeça rolou alguns metros para o lado, revelando o rosto de um garoto… não devia ter mais que vinte anos, e eu o havia matado como um animal, pois foi para isso que meus mestres me treinaram, para destruir o lado sombrio, não importasse qual forma ele tomasse. Caí de joelhos perante minha própria barbárie e chorei por alguns instantes. Naquele momento, desejei que a Força nunca tivesse me tocado. Certa vez, ouvi a lenda de que Ulic Qel Droma havia conseguido se desconectar da energia por meio da dor que sentiu por ter matado seu próprio irmão. Mas, talvez, eu não fosse digno daquele alívio. A dor e a morte em torno de mim continuavam a martelar minha mente por meio daquele "poder".
Alguns instantes depois, uma imensa explosão se seguiu aos gritos de vitória, quando a fortaleza Sith enfim foi destruída, levando consigo milhares de vidas abaixo daquelas toneladas de escombros. Uma vitória gloriosa, conquistada por meio do morticínio. Aquilo não era a vontade da Força, e, se fosse, eu não iria mais segui-la Uma força que cria a vida não pode premiar a morte. Desliguei meu sabre de luz, e caminhei vagarosamente pelo campo de extermínio à minha volta, sem rumo. Dessa vez, minha própria consciência me levaria ao meu destino, e não uma voz à qual não entendia mais.
UM ROMANCE EM VERMELHO


Diário de Elizabeth Shelley (11 de outubro de 1890)
Essa noite tinha tudo para ser perfeita. Conheci o Albert em um clube social há três meses. Nunca acreditei em amor à primeira vista, mas é como se o olhar dele tivesse me hipnotizado logo no primeiro encontro. A forma como ele me olhava, o sorriso, as coisas lindas que ele dizia sobre sua terra natal, aquilo definitivamente não era algo comum entre os homens que já me cortejaram. Até mesmo uma taça de vinho parecia ser mais saborosa junto com ele. Na mesma noite, ele me convidou para um passeio no dia seguinte, e eu, obviamente, não pude recusar.
Diário de Elizabeth Shelley (12 de outubro de 1890)
Ele me buscou na frente da minha casa, com uma linda carruagem de madeira de cedro e dois vistosos cavalos negros, cuja velocidade surpreendia tanto quanto sua beleza. Comemos nos melhores restaurantes, caminhamos pelos mais lindos parques, passamos pelos mais lindos cantos de Londres. E foi no pôr do sol no Hyde Park, enquanto a luz dourada do sol beijava os campos verdejantes e as borboletas multicoloridas voavam ao nosso redor, que ele enfim me beijou. A sensação era indescritível, era como voar sem sair do chão, um instante que para mim significou uma eternidade. Não fui capaz de me contentar com só um. Será que é possível um homem ser tão perfeito? E ele era tão lindo quanto brilhante, educado e culto, além de muito generoso no que se refere a dinheiro… Imaginei que viver ao lado dele seria como ter um vislumbre do paraíso ainda em vida.
Quando ele me deixou em casa, disse que voltaria o quanto antes, e não pude deixar de responder com um sorriso, mas não sabia que esse "o quanto antes" seria tão rápido.
Eu sempre fui uma garota comportada, como minha mãe havia me criado para ser. Jurei nunca deixar nenhum homem me tocar antes de pôr uma aliança no meu dedo, mas Albert… aahh, ele era irresistível. Lembro-me da primeira vez, naquela mesma noite, quando ele apareceu na porta da minha sacada; até hoje não consigo entender como ele conseguiu subir sem asas hahaha. Nem reparei de início, pois meus olhos não se desviavam dos dele nos primeiros segundos, mas ele estava completamente nu. Quase como se meu espírito tivesse deixado meu corpo, abri a porta e pedi para que ele entrasse e fizesse o que quisesse de mim. Nossos corpos se moviam em união, com a perfeição de uma orquestra guiada pelo mais habilidoso dos maestros. Só naquela noite, foram três vezes.
É claro que não contei aquilo para ninguém e continuei deixando minhas aventuras noturnas entre quatro paredes. Eu poderia ter dito para minha amiga Charlotte, mas algo dentro de mim pedia para que eu não o fizesse.
Diário de Elizabeth Shelley (22 de outubro de 1890)
Noite após noite, nós nos tornávamos cada vez mais selvagens. Não era mais música, eram dois animais usando-se ao máximo do corpo um do outro para conseguir prazer. Não era como antes, mas o desejo era tão grande que não fui capaz de parar. Desde que isso começou, percebi algumas mudanças em mim. Mais magra, mais pálida, minhas unhas começavam a se estilhaçar, meus lábios ressecavam. Minha médica, Dra. Audra disse que isso tudo não passava de uma anemia e me receitou alguns remédios, mas nada mudou. Jurei ter visto uma pequena ferida em seu pescoço naquela tarde, mas, não me dei ao trabalho de perguntar o que era.
Em nosso décimo encontro, não neguei o motivo de sua vinda, mas jurei que seria a última vez. Eu ansiava por ele, mas não conseguia mais lidar com o que havíamos nos tornado. Estávamos nos transformando em objetos de satisfação um do outro; a paixão, a pureza, o cavalheirismo haviam acabado.
Os olhos de Albert pareciam mudar de cor naquele momento, não eram mais azuis, pareciam até mesmo… vermelhos, mas não pude reparar bem. Ele parecia um animal, chegava a espumar pela boca, e então, como num passe de mágica, ele desapareceu. Meus instintos me levaram até a sacada, onde vi Albert caminhando pelo meu enorme quintal, rumo a uma floresta próxima. Naquele instante, ele se virou para mim, com o mesmo olhar de quando nos conhecemos, e pediu para que eu o seguisse. Sem pensar, eu o fiz, pulando da sacada e, inexplicavelmente, levitando suavemente até o chão. Minha mente atordoada nem sequer parou para pensar no quão incomum aquilo poderia ser.
Nossos corpos nus vagaram como espectros na noite, marchando em direção ao desconhecido. Depois de alguns minutos, chegamos à cripta de minha família, que, por algum motivo, estava com sua pesada porta de pedra aberta. Albert me guiou pela mão até lá dentro, onde me deparei com sua verdadeira face.
Uma pilha de cadáveres vinha do chão até quase o teto: homens, mulheres, crianças… até mesmo animais. Todos pálidos como um giz, sem uma gota de sangue. Albert sorriu ao ver aquela cena macabra, enquanto eu tentava soltar-me de sua mão. Então, ele me puxou para o fundo da cripta, onde pude ouvir um gemido suave de agonia; era Charlotte, e ao seu lado, com o semblante da morte em seu rosto, Audra. A jugular de Charlotte estava aberta, e seu sangue banhava o chão gelado do local. Por algum motivo, meu corpo reagiu com uma fome insaciável àquela cena. Sem nenhum pedido, aproximei-me e passei meu indicador em seu pescoço, levando meu dedo agora pintado de vermelho até a boca.
O sabor era idêntico ao vinho que Albert havia me servido na noite em que nos conhecemos. Não pude resistir, cravei meus dentes em sua garganta e bebi até a última gota de sangue dela, enquanto meu companheiro olhava de relance, com uma expressão claramente satisfeita.
Assim que terminei, ele olhou nos meus olhos, novamente vermelhos, mas sem tentar escondê-los, e disse: "Agora você está pronta para passar a eternidade ao meu lado? ´´. Enquanto dizia, ele empurrava a tampa pesada de um caixão com apenas uma mão, indicando para que eu entrasse. Respondi com um beijo, com meus lábios rubros e ensanguentados tocando os dele uma última vez. Deitei-me naquela tumba gélida e escura, enquanto ele se deitava mais uma vez sobre mim, com a tampa do caixão fechando-se sobre nós, como se levitasse por vontade própria. Assim, tivemos nosso prazer mais uma vez, na escuridão do frio abraço da morte. Foi ali que ele me revelou seu verdadeiro nome: Drácula.
