Como Star Wars era antes de Império Contra-Ataca?
Em 1977, Star Wars: Uma Nova Esperança havia chegado aos cinemas, tornando-se a maior bilheteria da década de 1970 e consagrando-se como o maior clássico da ficção científica. Uma aventura atemporal, com efeitos práticos de encher os olhos, personagens icônicos, como Han Solo e Darth Vader, e, como cereja do bolo, uma aventura frenética e divertida que deixou o público ansiando por mais. George Lucas, que jamais foi capaz de mensurar o quão grandiosa sua ideia havia se tornado, levou três anos para nos trazer uma continuação. Império Contra-Ataca seria o filme definitivo da franquia, definindo definitivamente seu tom e levando-a ao hall das maiores da cultura pop. Porém, o período entre 1977 e 1980 ainda é um tanto nebuloso para alguns fãs dessa galáxia tão distante. De parcerias com os quadrinhos da Marvel até o saudoso (e tenebroso) Especial de Natal, vamos descobrir como foram esses anos… exóticos de Star Wars.
STAR WARS
Rafael Silva
7/21/20266 min read
As primeiras continuações


Essas foram as primeiras de nada menos que 107 edições (publicadas até 1986), que iam muito além de simples adaptações. Entre essas, vale ressaltar algumas um tanto peculiares:
Star Wars 7: A primeira história realmente original, onde Han e Chewbacca são assaltados por um pirata espacial chamado Jack Escarlate, e sua gangue. Eles perdem todo o valor da recompensa paga pela Rebelião, e continuam em dívida com Jabba.
Star Wars: Os Oito Campeões da Aduba: Mais uma vez centrada em Han e Chewie, a trama se passa no planeta de Aduba-3, onde um gangster chamado Serji-X Arrogantus (que nome maravilhoso) propõe uma espécie de ´´Jogos Vorazes´´ com seu povo. No processo, a dupla de contrabandistas conhece um homem louco que pensa ser um Cavaleiro Jedi, chamado Don-Wan Kihotay (uma referência um tanto distorcida a Dom Quixote).
Star Wars: Expresso dos Jawas: Luke, Han e Chewie retornam a Tatooine, onde enfrentam soldados Imperiais, e acabam resgatados e sequestrados pelos pequenos Jawas.
Star Wars: Encontro Sombrio: Darth Vader (que está com um visual simplesmente pavoroso nessa edição) segue em sua busca pelo piloto rebelde que destruiu a Estrela da Morte, e acaba encontrando o desertor rebelde, Tyler. Porém, o caçador de recompensas ciborgue, Valance, está na caça do mesmo homem, por dinheiro, e mede forças com o Lorde Sith pelo direito a ele. O duelo é interessante, lembrando muito o futuro confronto entre Vader e Boba Fett.
Star Wars: O que Aconteceu com Jabba, o Hutt: Notório por trazer Jabba como um humanoide verde bizarro, uma vez que ele só seria transformado em uma lesma obesa em Retorno de Jedi. Han e Chewbacca são caçados pela gangue do lorde do crime, até serem aprisionados em uma caverna repletas de Ácaros de Pedra, armas típicas das Guerras Clônicas (antes mesmo desse conceito ter sido realmente desenvolvido).
38 edições foram lançadas até Império Contra-Ataca. Sem diretrizes claras de Lucasfilm, os roteiristas tiveram liberdade total para inventar o que quisessem. Isso mudou após Império Contra-Ataca, onde Lucas enfim ´´tomou as rédeas´´ da situação, e impôs as diretrizes de até onde a viagem dos artistas poderia ir.
E o resultado foi um desfile de ideias tão ousadas quanto desordenadas. O roteiro pobre, somado a falta de coerência entre mídias (como a aparência de Jabba) tornam esse período um tanto esquecido, por ter sido quase totalmente descartado para o que hoje conhecemos como Universo Legends. Porém, foi vital no período, seja para consolidar Star Wars no cotidiano dos nerds dos anos 1970, seja por ter sido de grande valor para livrar a Marvel da falência entre 1980 e 1990.
O Romance Polêmico


E o experimentalismo não se limitou às páginas das HQs. No ano seguinte, ele se estenderia à literatura, em um romance que hoje sobrevive mais pela curiosidade do que pelo prestígio.
Em outras mídias literárias, tivemos o quase totalmente esquecido Splinter of the Mind's Eye, de Alan Dean Foster. Lançado em 1978, o livro narra a história de Luke e Leia, caindo no inóspito planeta de Mimban, onde adotam alguns disfarces para caminhar em meio aos mineradores locais. Luke encontra uma anciã chamada Halla, que lhe apresenta um minério chamado Kaiburr (futuramente chamado de Cristal Kyber, usado como fonte de energia dos sabres de luz e do canhão da Estrela da Morte), capaz de ampliar os poderes da Força de um sensitivo, algo que ele futuramente utilizaria.
Darth Vader e o Império estão em seu encalço, e conseguem achá-los. Temos uma luta de 2 contra 1 entre a dupla e o Lorde Sith, que resulta na fuga dos irmãos (que ainda não sabiam ser irmãos). A obra de Foster tem seus méritos, mas, acabou envelhecendo mal, por mais uma vez, reforçar uma dinâmica romântica entre Leia e Luke, aos quais George Lucas ainda não havia definido como irmãos. Além disso, existem momentos bizarros, como Skywalker dando um tapa em Leia, para fingir que a mesma seria sua serva, quando confrontado por um Imperial. Apesar dos pesares, o livro foi o Best-Seller do New York Times, entre 23 de abril e 9 de julho.
Curiosamente, o livro foi pensado como uma possível continuação de baixo orçamento caso Uma Nova Esperança não fizesse sucesso o bastante para justificar um épico de guerra espacial. Isso serve de prova cabal, de que Star Wars, por mais que tivesse sido um sucesso, ainda não era o império do entretenimento que conhecemos hoje.
Porém, nada nesses três anos foi tão lendário, quanto o Especial de Natal….
O filme esquecido de Star Wars

"Acho que ele [George Lucas] queria fazer uma visão doce e sentimental de uma temporada de férias e acho que evoluiu para algo piegas que não era o que eu pensava que era sua visão." Leonard Rips, escritor do Especial de Natal
Essa fala de Rips nos dá uma boa noção do que está por vir.
O Especial de Natal de Star Wars é uma verdadeira relíquia, sendo exibido uma única vez na televisão estadunidense, e sendo prontamente esquecido, com nem mesmo os atores desejando falar dessa obra bizarra.
Lançado em 1978, um ano após Uma Nova Esperança, a trama retrata Chewbacca, que viaja até seu planeta natal junto a Luke, Han e Leia, para celebrar o Dia da Vida, ao lado de sua família, rendendo até mesmo algumas cenas de musical (acredite se quiser), e outros feitas em formato de animação com Boba Fett enfrentando monstros gigantes, tornando o filme ainda mais aleatório. Como novos personagens, conhecemos: Malla, Itchy e Lumpy, que se dividem para preparar o jantar de Dia da Vida, enquanto fazem dezenas de aleatoriedades, desde jogos estranhos, até assistir programas da TV de culinária, ao maior estilo Ana Maria Braga. Porém, quando os Imperiais chegam na festa, o clima de tensão sobe…. se é que ele existe.
Na época, mais de 13 milhões de pessoas tiveram a honra de assistir a esse marco histórico. Sua transmissão é tão lendária, que os fãs que tiveram o privilégio de vê-lo ao vivo, tem esse momento em suas mentes até os dias de hoje. Não importava se a obra era uma tosqueira absoluta, o principal, era que ela estava trazendo a franquia que eles tanto amavam, para dentro das suas casas pela primeira vez, com todos os atores, cenários e músicas. Essa emoção fica explícita em algumas avaliações deixadas no google:
´´A tela ganhou vida e o que se desenrolou foi um espetáculo diferente de tudo que eu já tinha visto. A trama peculiar girava em torno da família de Chewbacca celebrando o Dia da Vida, uma ocasião festiva no planeta natal dos Wookiees, Kashyyyk. As cenas eram intercaladas com uma variedade de segmentos bizarros e muitas vezes inexplicáveis. Era caótico, era estranho e era absolutamente fascinante.
Conforme os minutos passavam, me peguei rindo alto, não às custas do especial, mas com uma genuína sensação de alegria. A sinceridade da produção, apesar de suas falhas óbvias, era cativante. Havia algo profundamente humano nisso – um grupo de criadores, atores e artistas se unindo para produzir algo alegre, mesmo que não tenha atingido o objetivo em muitos aspectos.´´ Usuário anônimo.
Isso demonstra que por mais que hoje possamos tratar esse filme como um delírio coletivo, ele foi sim muito falado em sua época, e até hoje, continua na mente de muitos de seus milhões de espectadores.
O apelo comercial era claro, com diversos brinquedos sendo preparados pela Hasbro, e até mesmo kits de imprensa sendo destruídos com alguns de seus protótipos. Mas, nenhum deles jamais viu a luz do dia, devido a recepção não tão boa do filme. Apenas o livro infantil ´´Livro de Histórias Wookie´´ da Random House veio a tona em 1979, como derivado dessa pérola do cinema caseiro.
Essa bizarrice ficou sumida por anos, mas, graças ao Youtube, pode ser assistida por todos com facilidade.
Apenas 2 anos depois, Império Contra-Ataca chegaria aos cinemas, com uma bilheteria ainda maior que seu antecessor, e trazendo um nível de qualidade inédito à franquia. Desde então, um novo padrão de qualidade passou a fazer parte de Star Wars. É claro que isso não impediu tosquices, mas nunca mais teríamos um especial de Natal, ou uma história onde Leia e Luke tem uma relação com referências quase masoquistas (apesar das embaraçosas cenas em Império Contra-Ataca cof cof…). Todo o fã da franquia deve agradecer pelo quanto esse sucesso mudou a saga, mas, jamais deve se esquecer desse momento inicial, onde um verdadeiro mar de ideias correu por essa galáxia tão, tão distante, com muitos resultados questionáveis, porém, memoráveis.
E você, o que acha dos primórdios de Star Wars? Conhecia alguma dessas HQs, livros e filmes? Comente!
