Como os filmes de zumbi demonstram o estado da sociedade?
De pele pálida e olhar vazio. De caminhar lento e guiado pelo instinto. De corpos deformados e sede de sangue, todas essas características em um momento serviram para definir: o que é um zumbi? Mas, para além disso, serviram para dar o tom da realidade do período em que foram concebidos. Muito mais que comedores de cérebro, os mortos-vivos foram um dos termômetros sociais mais eficientes já criados pela sétima arte, retratando os medos e vícios da sociedade ao longo das décadas. Sem mais delongas, vamos entender isso!
TERROR
Rafael Silva
4/8/202618 min read
O Zumbi Branco (1932) e a Colonização


Muitos, antes de faturarem milhões de dólares nas bilheterias de Hollywood, os zumbis encontravam suas raízes no folclore africano, mais especificamente, nas regiões de Angola, Gabão e Congo. A palavra em si origina-se do dialeto utilizado pela tribo Bantô, geralmente nômades, mas que viveram por gerações no Reino do Congo.
Os zumbis não nasceram como mortos trazidos da cova por um vírus, e sim espíritos que se apossavam de corpos inanimados e usavam deles para tocar novamente o plano terreno. Porém, tais crenças só passaram a ser conhecidas (e muitas vezes temidas) pelo mundo com o início do tráfico de escravos entre reinos europeus e africanos.
Em 1492, o Haiti foi colonizado pelo Império Espanhol, passando para o domínio francês em 1697, tornando-se a colônia mais lucrativa da França, graças a suas plantações de açúcar e café.
Durante os mais de cem anos de ocupação francesa, o Haiti recebeu mais de 800 mil escravizados, em grande maioria, vindos da África Ocidental. Devido à extrema brutalidade empregada contra os escravos, a maioria morria em poucos meses de serviço, exigindo a sua “troca”, o que tornou o Haiti um dos palcos mais sangrentos do colonialismo francês.
Todavia, foi durante esses anos de miscigenação cultural entre africanos e europeus que o folclore dos zumbis, como conhecemos hoje, começou a se formar.
As condições de vida eram tão desumanas que muitos escravizados perdiam sua fé, amaldiçoando seus deuses por permitir que fossem torturados daquela maneira, e buscando no suicídio um alívio para todo aquele sofrimento, na humilde esperança de voltar à África, de voltar para onde poderiam ser livres.
No entanto, tirar a própria vida para obter essa liberdade poderia trazer uma punição ainda mais severa. Segundo a tradição, um feiticeiro (Bokor) iria ressuscitá-lo com uma poção e fazê-lo trabalhar como um corpo sem vontade (o que na prática eles já eram) por toda a eternidade, sem alívio e sem esperança.
O “Código Negro” criado pelos franceses corroborava com essa visão, fazendo com que os haitianos seguissem trabalhando, por medo de que algo ainda pior os aguardasse após a morte.
A partir de 1791, os escravizados passaram a organizar imensas rebeliões, conquistando sua liberdade e a independência do Haiti em 1804, em um conflito que assassinou praticamente todos os franceses presentes no país, o que resultou em uma feroz retaliação financeira do governo francês, que lhes impôs uma multa de 150 milhões de marcos franceses-ouro (equivalente a 28 bilhões de dólares nos dias atuais), e uma série de embargos econômicos, que arruinaram a economia do país até os dias de hoje.
O Haiti seguiu o século após sua independência como uma ilha isolada, envolta em mistérios e ocultismo. O vodu, religião popular entre os escravizados, por misturar cânticos católicos com adoração às suas próprias divindades (os loas), passou a ser temido como feitiçaria.
Tudo isso apenas se agravou em 1915, quando os Estados Unidos tomaram a ilha sob o pretexto de conter a instabilidade política no país, quando, na verdade, tratava-se de impedir que o Império Alemão ocupasse um território próximo aos EUA, já que estávamos em plena Primeira Guerra Mundial.
Mesmo após o fim da guerra, o exército americano se manteve no Haiti por mais de 20 anos, e os soldados relatavam todo o tipo de coisa: rituais diabólicos, canibalismo, e é claro, corpos que continuavam trabalhando, mesmo após a morte.
No final dos anos 1920, o aventureiro William Seabrook viajou ao Haiti por alguns meses, buscando conhecer um pouco mais sobre aquele povo tão “sombrio”. Ele participou de rituais e conviveu com os nativos, registrando todas as suas descobertas em seu diário.
Em 1929, ele retornou aos EUA e escreveu o livro “A Ilha Mágica”, relatando suas experiências. Seabrook afirmou ter presenciado rituais com animais, sincretismo religioso e, novamente, zumbis, trabalhando nos canaviais. Críticos lhe condenaram por seu sensacionalismo, mas, para o público geral, isso não fazia muita diferença.
O preconceito contra religiões de matriz africana apenas cresceu, especialmente contra as comunidades que as praticavam nos EUA. Por sua vez, Hollywood viu ali uma oportunidade de fazer dinheiro em meio ao pânico da população, e assim nasceu O Zumbi Branco, de 1932, com uma pergunta horripilante para o público branco estadunidense: e se a magia dos negros pudesse ser usada contra nós?
Estrelado por Bela Lugosi (que você deve conhecer como o Conde Drácula dos filmes da Universal), no papel de Murder Legendre, a obra traz o jovem casal Neil (John Barron) e Madeleine (Madge Bellamy), que viajam ao Haiti para casar-se na mansão de Charles Beaumont (Robert Frazer), que nutre uma paixão secreta por Madeleine.
Inconformado em perdê-la, Beaumont pede a Legendre que faça um ritual para matá-la, acreditando que essa seja a única forma real de destruir seu amor por Neil e depois trazê-la à vida novamente com sua feitiçaria. Desde o princípio, a obra já destruía um dos pilares da humanidade: a finitude de sua própria existência.
Madeleine morreu logo após seu casamento, lançando Neil em uma profunda depressão, vislumbrando uma versão fantasmagórica de sua esposa nas paredes ao seu redor, sem saber se o que via era real ou apenas fruto de uma mente cada vez mais fragilizada.
Enquanto isso, Legendre e Charles ressuscitam Madeleine com uma poção, transformando-a em sua serva pela eternidade. Porém, Beaumont não consegue ver o brilho no olhar de sua amada. No fundo, ele sabe que seu coração não está realmente lá, e, sem isso, nada mais importa. Ele tenta convencer Legendre a libertá-la, mas acaba traído e hipnotizado pelo feiticeiro.
Ciente da ressurreição de sua amada, Neil pede auxílio ao Missionário Bruner (Joseph Cawthorn) para salvá-la. Juntos, eles enfrentam Legendre e seus servos zumbis, a quem ele comanda com o poder da mente.
Bruner nocauteia Murder, fazendo com que seus zumbis fiquem descontrolados, lançando-se para a morte em um abismo, mostrando o quão inconscientes eles eram sem seu mestre para guiá-los. Em um último ato de resistência, Charles lança-se sob Legendre, caindo para a morte junto a ele, e definitivamente libertando Madeleine de seu controle, junto a qualquer outro que estivesse sob comando do bruxo.
Dali em diante, o terror étnico/folclórico tomaria conta do cinema de horror.
A magia negra e os poderes hipnóticos de Murder Legendre aterrorizaram um público que via aquilo como a única coisa que conhecia sobre o Haiti e sobre as religiões de matriz africana como um todo. Conhecer um poder que nem mesmo a morte era capaz de conter era realmente assustador.
Como um terror independente, o orçamento da obra foi extremamente enxuto, pouco mais de 50 mil dólares. Não existem dados oficiais quanto ao lucro, mas matérias da revista Film Daily exaltam o sucesso de bilheteira, ao mesmo tempo que trazem as críticas por parte dos especialistas. Os únicos dados disponíveis são os da primeira semana nos cinemas de Providence e Indianápolis, onde faturou cerca de 14 mil dólares.
O que muitos não sabem é que o Zumbi Branco tem uma sequência, A Revolta dos Zumbis, de 1936. O conceito é repetido, mas o orçamento baixíssimo e a ausência de ícones como Bela Lugosi fizeram com que a obra fosse esquecida.
O terror do Zumbi Branco vem do desconhecido, do choque do mundo “civilizado” com aquilo que ainda é inexplorado, e do preconceito para com aquilo tido como profano e imoral.
Se o terror de Drácula e Frankenstein, lançados apenas um ano antes, era o sobrenatural capaz de lhe tirar a vida, o vodu lhe mantinha “vivo”, mas sem vontade, clamando pela morte, um paralelo que funcionava no passado para os escravizados, mas que surpreendentemente funcionava também no contexto dos anos 1930.
A Grande Depressão assolava os EUA, e o trabalho que antes garantia prosperidade a muitos agora era feito apenas pela subsistência (que ainda assim muitos não tinham). Os trabalhadores sentiam-se sem alma, sem propósito, apenas uma engrenagem no jogo de poder, como se Lugosi tivesse os hipnotizado com seu olhar penetrante (que era a especialidade dele, por sinal).
Porém, o terror muda conforme a sociedade, e nos anos 1960 não seriam mais lendas e magia que iriam aterrorizar o público, e sim os horrores que a ciência (e a perda do controle sobre ela) poderiam causar.
A Noite dos Mortos-Vivos (1968): A origem do apocalipse


O filme de zumbi mais icônico de todos os tempos, e a base para quase tudo que conhecemos de sua mitologia. Dirigida por George Romero, a obra carrega uma crítica multifacetada à sociedade norte-americana, desde o racismo até a alienação de uma sociedade tão individualista, que não é capaz de cooperar nem mesmo se sua vida depender disso.
Os anos 1960 simbolizaram um verdadeiro marco na sociedade americana. A Guerra Fria levava a humanidade aos seus maiores avanços tecnológicos, tanto positivos quanto negativos. O homem agora tinha a capacidade de tocar a lua com seus próprios pés, ao mesmo tempo que desenvolvia armas com potencial para erradicar completamente sua própria existência. Sonhava em cruzar as estrelas, enquanto não era capaz de olhar para alguém ao seu lado como um igual. O contraste absoluto da grandeza e da pequenez da humanidade.
Durante as décadas de bipolaridade ideológica, o mundo acostumou-se a atribuir todos os problemas da sociedade a um inimigo externo, isentando a sociedade de suas próprias falhas.
A mídia, as autoridades e até mesmo o governo colaboram na construção de uma mentira coletiva, a qual transforma a sociedade como um todo em uma grande massa de manobra ideológica.
Mas, afinal, como Romero, logo no primeiro longa-metragem de sua carreira, conseguiu condensar isso tudo em um único filme? É isso que vamos ver agora!
Tudo começa quando os irmãos Bárbara (Judith O'Dea) e Johnny visitam o túmulo de seus pais e, no cemitério, encontram um homem estranho, andando torto, sem conseguir falar e avançando em direção a eles.
O dito homem ataca e mata Johnny, movido por um instinto canibal, forçando Bárbara a fugir, encontrando abrigo em uma fazenda junto a um afro-americano chamado Ben (Duane Jones, primeiro protagonista negro do cinema de terror), outro sobrevivente. Juntos, eles chegam a uma casa e a fortificam, fechando todas as suas portas e janelas. O que eles não sabiam é que havia mais alguém lá dentro.
Eles descobrem que outras pessoas estão escondidas no porão: Harry Cooper (Karl Hardman), sua esposa Helen, a filha do casal Karen (que está suspeitamente doente…) e um jovem casal, Tom e Judy. Harry se desentende com Ben, por achar que, ao fechar todas as possíveis saídas, eles estavam aprisionando a si mesmos. Caso os zumbis entrassem, não haveria saída. O melhor que poderiam fazer era trancar-se no porão, onde definitivamente estariam seguros contra os zumbis.
Ben e Harry chegam a trocar socos, e o clima esquenta, mostrando que humanos tomados pelo medo tornam-se tão perigosos quanto os próprios mortos-vivos, e que nem mesmo em uma situação de vida ou morte o ego é deixado de lado.
O grupo segue atento ao rádio e TV, descobrindo que os ditos zumbis foram revividos graças à radiação emitida por sondas espaciais. Pelo menos, é isso que o governo prefere que as pessoas acreditem…
A casa estava totalmente cercada por cadáveres andantes, farejando carne fresca. Eles não iriam se dissipar e, mais cedo ou mais tarde, os sobreviventes acabariam ficando sem recursos. A desconfiança da mídia não lhes permitia acreditar que a ajuda viria tão cedo. Ou eles tentavam fugir, ou morreriam de fome ou sede.
Ben, Tom e Judy elaboram um plano de fuga, usando um caminhão para levar todos de lá, mesmo a contragosto de Harry e Bárbara, que preferem permanecer quietos dentro da casa.
O plano dá errado, o caminhão explode, matando Tom e Judy, e Ben é obrigado a fugir desesperadamente para casa. Com as defesas enfraquecidas, os mortos-vivos conseguem matar Bárbara, agarrando-a pela janela. Helen e Harry são mortos e devorados pela própria filha, que já estava infectada antes mesmo de entrar na casa, na cena mais brutal da obra. Afinal, nem mesmo o isolamento do porão os salvou, pois, na realidade, a ameaça não estava do lado de fora, e sim, exatamente, do seu lado, de onde menos se poderia esperar.
Ben se tranca no porão, matando mais uma vez toda a família Cooper. No dia seguinte, um grupo de milicianos chega ao local e massacra os zumbis, liberando a casa. Todavia, ao encontrar Ben ladeado por todos aqueles corpos, eles não perdem tempo em matá-lo, não por acharem que era um zumbi, mas pela cor de sua pele, sendo essa a última e maior crítica social feita pela obra de Romero. O niilismo da sociedade americana, sintetizado em uma única cena.
O preconceito, o pânico coletivo, a desconfiança da mídia e as hordas de zumbis descerebrados como representação da alienação das massas tornaram a obra de Romero, rodada em preto e branco para encaixar-se no orçamento, uma das mais polêmicas dos anos 1960, marcada pela quebra de tabus.
Uma "orgia de sadismo". Foi assim que a revista Variety chamou o longa de Romero logo após seu lançamento, devido à violência explícita e ao excesso de sangue (mesmo que fosse feito de calda de chocolate, em mais uma gambiarra para cortar gastos). Por outro lado, a questão racial foi bem recebida pelos críticos, que viram algo a mais que um puro e simples banho de sangue.
Todavia, nada disso impediu que o filme faturasse 250 vezes mais do que o seu orçamento e mudasse completamente o subgênero de zumbis. 144 mil dólares foram investidos, e mais de 18 milhões foram faturados ao redor do mundo. Um sucesso absoluto, mesmo sendo proibido em múltiplos cinemas pelo país, que se recusaram a rodá-lo sem censura.
Infelizmente para George, ele não teve acesso a nem 1% de todo o dinheiro que o filme rendeu. Isso ocorreu porque o distribuidor original, The Walter Reade Organization, omitiu acidentalmente o aviso de direitos autorais ao mudar o título do filme de Night of the Flesh Eaters. Já em 1968, A Noite dos Mortos-Vivos tornou-se domínio público, tirando de seu criador quaisquer direitos a pagamento de royalties e Image Ten.
Porém, ninguém pode tirar de George Romero o legado que sua obra deixou para o terror de zumbis: os mortos-vivos canibais e deformados, o andar lento, as dificuldades de se coordenar um grupo de sobrevivência. Todo o conceito de apocalipse zumbi nasceu de sua obra.
O clássico de 1968 é seguramente o filme mais relevante de zumbi já feito, mas, nas décadas seguintes, surgiram novos clássicos, que abriram ainda mais os horizontes do gênero, criando novos conceitos e ressignificando o passado.
Despertar dos Mortos (1978): O consumismo sangrento


Imagine só: estar preso em um shopping, onde tudo, literalmente tudo, está à sua disposição, completamente de graça, mas, mesmo com todos aqueles bens materiais à sua disposição, você simplesmente não vê valor neles, pois sua vida já não tem mais um propósito real, pois é impossível ignorar o colapso do mundo exterior, onde a humanidade praticamente não existe mais.
George Romero continuou como referência no terror após o estrondoso sucesso de A Noite dos Mortos-Vivos, e seguiu com suas críticas afiadas à sociedade americana, usando-se dos devoradores de cérebros para fazê-las.
O orçamento aumentou, chegando a 650 mil dólares, o que ainda era muito pouco, mas necessário para que Romero pudesse ter uma produção independente completamente sob seu controle.
Na trama, os Estados Unidos estão completamente tomados pela praga zumbi, e os poucos ainda vivos lutam não só contra os mortos-vivos, mas também contra a falta absoluta de recursos. Trata-se de um completo cataclismo social, em que uma grama de comida e uma gota de água valem uma vida.
As áreas rurais se mantêm consideravelmente protegidas, por sua população menor e pelas barreiras naturais que as cercam. Já os grandes centros urbanos, como a Filadélfia, tornam-se verdadeiros campos de batalha entre as Forças Armadas e os infectados.
O casal de repórteres Stephen Andrews e Fran Parker desejava roubar um helicóptero para deixar a cidade, quando cruzou o caminho de dois policiais: Roger e Peter. Os dois viviam dias difíceis, infiltrando-se em complexos habitacionais para matar (de novo) quaisquer infectados, mesmo que suas famílias continuassem a defendê-los. Se fosse necessário matar um vivo para destruir um morto-vivo, eles o fariam.
As ações de ambos os lados mostram a degradação da sociedade em meio ao caos. As famílias sabem que seus entes queridos se foram, e o que resta é uma fera irracional, que lhes enxerga como um mero pedaço de carne. Mas, ao olhar em seus olhos vazios, eles ainda conseguem imaginar algo que já não existe mais.
Para os agentes, trata-se do dever, acima de tudo, de destruir a ameaça, não importa quantos inocentes precisem ferir ou matar no processo. O homem se entregava ao seu lado selvagem e, pela primeira vez em muito tempo, já não se envergonhava disso.
O quarteto usa o helicóptero para ir até um shopping center, onde teoricamente teria tudo que precisavam. Na tentativa de isolar o prédio dos zumbis, Roger é mordido, condenando a si mesmo a tornar-se um deles. Ainda assim, ele permanece junto ao grupo, expulsa os invasores e, quando está prestes a sucumbir, é morto em definitivo por Peter.
Nem mesmo a amizade que haviam construído na luta pela sobrevivência foi capaz de superar a frieza de quem luta pela sua própria vida. Isolados por completo em meio a milhões de dólares em bens materiais, eles enfim percebem o quão pouco eles valem. Além da comida e dos recursos básicos, todo o luxo que o shopping oferece, na prática, já não tinha valor algum, já que a sociedade que os valorizava estava destruída.
Eles percebem o quanto eles e os zumbis eram parecidos em certos aspectos. As hordas de cadáveres em busca de alimento assemelhavam-se a eles mesmos, andando sem rumo pelos corredores, entrando em enormes filas, em busca de algo que creem precisar para suprir seu vazio.
Pela primeira vez, o público se via no zumbi, e não no sobrevivente.
Se da primeira vez Romero atacou a alienação midiática, aqui ele atingiu em cheio o consumismo alienador da sociedade americana, que transforma seus cidadãos em verdadeiros zumbis, ao fazê-los viver em prol de obter coisas que na realidade não precisam, e que talvez nem mesmo queiram realmente ter.
Porém, a paz reflexiva do trio dura pouco. Um grupo de motoqueiros invade o shopping, destruindo as barreiras e permitindo que milhares de zumbis entrem. Stephen é mordido, e Peter se vê obrigado a matá-lo, enquanto Fran escapa para o terraço. Relembrando tudo que fez, todos os amigos que havia matado, Peter pensa em suicidar-se e pôr um fim àquela fuga sem fim que sua vida havia se tornado. Porém, o dever para com Fran, que agora sabia estar grávida, fala mais alto, e juntos, eles fogem sem destino com seu helicóptero.
Assim como a obra de 1968, Despertar dos Mortos foi aclamado pela crítica, sendo até hoje visto como uma das referências no gênero de terror zumbi, em especial pelo trabalho impecável do maquiador Tom Savini, que fez os mortos-vivos serem mais asquerosos do que nunca. A sátira ao consumismo foi bem recebida e gerou ainda mais dele, com uma bilheteira de 66 milhões de dólares, superando por muito a renda do original.
O conceito de apocalipse foi melhor explorado. Se antes tínhamos apenas uma pequena cidade sendo tomada, agora tínhamos um país inteiro, e pessoas tendo que reaprender a viver nessa nova realidade e reinventando seus próprios conceitos. Sem Despertar dos Mortos, séries como The Walking Dead nunca seriam possíveis.
Sua crítica segue tão atual quanto às inovações da obra, já que o consumismo não só manteve-se, como ainda expandiu-se de maneira impossível de se mensurar em 1978, quando o meio digital permitiu que fôssemos irradiados 24 horas por dia com produtos e serviços. Agora, para se tornar um zumbi, basta ligar o seu celular.
Porém, ainda nos falta mais um exemplo para entender a linha central da jornada dos devoradores de corpos na cultura pop.
The Last of Us: O pós-colapso


Foi nos jogos, e não no cinema, que os zumbis encontraram a conclusão de sua história. Não se trata mais de ressurreições mágicas, desavenças entre sobreviventes ou uma sociedade em colapso; aqui, não existe mais nada. O medo do ser humano é ver a si mesmo em um mundo onde tudo que lhe é comum não existe mais, e manter-se vivo é mais uma obsessão do que uma vontade.
Lançado em 2013, com produção da Naughty Dog, The Last of Us traz a história de Joel Miller, logo no início da infecção zumbi nos Estados Unidos. O vírus Cordyceps sofre intensas mutações e passa a infectar humanos por todo o país, afundando o Texas em um completo caos. Miller tenta levar sua filha, Sarah, em segurança para outro lugar, mas só pode vê-la ser executada por militares tentando conter a infestação a qualquer custo.
Ver sua filha morrer diante de seus olhos rachou seu psicológico, tornando-o frio e indiferente, sem esperança, o que, nos tempos que estavam para vir, poderia ser visto como uma vantagem.
Curiosamente, o Cordyceps é um vírus que realmente existe na realidade, mas que afeta exclusivamente insetos (pode ficar tranquilo, por enquanto…). Diferente de todos os casos anteriores, os infectados não estão mortos, mas sim modificados pelo fungo, passando por estágios como Corredores (rápidos e recentes), Perseguidores, Estaladores (cegos, usam ecolocalização) e Baiacus (blindados e fortes).
A variedade dos zumbis e o fato de que ainda vivem tornam-nos duplamente difíceis de matar. Eles não são simplesmente corpos arrastando-se atrás de você; eles são mais rápidos, mais fortes e mais resistentes. E, além disso, ao atirar neles, você não está simplesmente detendo um corpo sem vida movido por um vírus, ou acabando com o sofrimento de alguém sem salvação; está, na verdade, dando um fim a alguém que ainda poderia ser curado, a uma pessoa ainda lutando, mesmo infectada.
Passam-se vinte anos, e a humanidade está em ruínas; aproximadamente 4,3 bilhões de pessoas morreram, e os que ainda restam vivem em zonas de quarentena, como Joel e sua parceira Tess, que atuam como contrabandistas em Boston. O controle dessas instalações fica dividido entre o exército e grupos rebeldes como os Vaga-Lumes.
As grandes cidades estão desertas; todos, ricos ou pobres, vivem com o mínimo para sobreviver, e ninguém nem sequer vislumbra uma chance de reconstruir o mundo.
Todavia, o exército descobre que uma jovem chamada Ellie, mordida há três semanas, é imune ao vírus, e ordena que Joel e Tess a tragam até eles, para que possam criar uma vacina capaz de curar a infecção.
Tess morre na viagem, mas Joel consegue achar Ellie, levando-a de volta à base. Inicialmente, ele a via exclusivamente como uma missão a cumprir, mas era impossível negar o quanto ela o lembrava de seu passado. Ellie era órfã e solitária, e projetava nele o pai que nunca teve, e Joel via nela a filha que havia perdido. Um era capaz de curar as feridas do outro.
Apenas quando ela foi entregue aos militares, Joel descobriu como eles iriam utilizá-la para criar a cura. Eles precisam extrair o fungo de seu cérebro, em uma cirurgia que certamente iria matá-la. Uma vida, pela de 2,9 bilhões de pessoas, pela esperança de que a humanidade poderia voltar a ser o que era. Uma conta fácil de se fazer, quando não envolve alguém que você ama. Todos sabemos que, quando se trata de amor, a lógica nunca é a solução. Quem seria capaz de matar seu filho, mesmo que o mundo dependesse disso?
Joel mata os médicos e resgata Ellie, condenando a humanidade, mas salvando a única coisa que lhe importava nela.
A decisão de Miller expõe o melhor e o pior da humanidade em um mesmo ato. Joel provou a si mesmo que ainda era capaz de amar, e que o utilitarismo não se sobrepunha aos seus sentimentos, e ele jamais se permitiria ser culpado pela morte de uma criança.
Por outro lado, seu ato também é banhado em egoísmo, uma vez que, para manter sua consciência limpa, ele destruiu completamente a esperança de bilhões de pessoas em voltar a ter uma vida normal e certamente condenou muitas delas à morte por algo que poderia ser evitado, caso ele permitisse que aquela única vida fosse ceifada pelo bem de todos.
Para além de sua moral, o jogo foi um tremendo sucesso, alcançando mais de 90% de aprovação em veículos como Metacritic, ganhando uma continuação em 2020 e uma adaptação em live-action lançada pela HBO em 2023, estrelada por Pedro Pascal e Bella Ramsey.
Outros jogos, como Resident Evil, foram igualmente importantes para consolidar os zumbis no mundo dos games, e também renderam múltiplas continuações e adaptações.
Cada uma das quatro obras citadas, ao longo dos mais de 90 anos analisados, retrata os temores e problemas vividos pelo Ocidente em determinado contexto. Nos anos 1930, eram as religiões afrodescendentes e uma realidade até então desconhecida. Nos anos 1960, era a guerra tecnológica e a desconfiança da mídia. Nos anos 1970, era o consumismo escravizador. Nos anos 2000 em diante, o individualismo moral cada vez mais forte e medo da velocidade com que a ciência avança e da nossa incapacidade de compreendê-la por completo.
Os mortos-vivos, com seus corpos podres e fétidos, causam medo e repulsa em qualquer lugar e em qualquer momento, mas o sentido que carregam em meio às feridas abertas e infeccionadas sempre mudou.
Se antes temíamos o desconhecido, depois passamos a temer a sociedade, e então a nós mesmos… Hoje, o maior medo talvez seja perceber que, no fim de tudo, a humanidade nunca precisou de zumbis para se destruir.
Você já tinha percebido a complexidade por trás dos zumbis? Qual é seu filme favorito do gênero? Não deixe de comentar!
