Como o Gótico Caipira dominou os desenhos animados?
Quase todo mundo já deve ter tido essa experiência: ouvir seus avós falando sobre como eram suas vidas na época em que viviam no interior, sem luz, celular e, muito menos, internet. Ao pôr do sol, o mundo em torno deles tornava-se insondável para os olhos, mas uma verdadeira tela em branco para a imaginação. As sombras tornavam o impossível uma possibilidade plausível, baseada quase que exclusivamente em um sentimento: o medo do desconhecido. Qualquer galho da árvore balançando com o vento transformava-se em um mau presságio. O uivo de um cão significava que algum vizinho havia se transformado em lobisomem. Os vagalumes cintilando em meio às folhas, alguma fera indescritível à espreita. A escuridão, o isolamento e a natureza construíam um mundo inteiramente novo e vivo, mesmo que jamais visto claramente. Não é à toa que quase todo avô afirma ter matado dez lobisomens com um único facão, ou que toda avó jure de pé junto ter livrado alguém de uma maldição por meio da reza. A fé surgia como um escudo para um mal invisível que os cercava. Foi sob essa premissa que autores como William Faulkner, Flannery O'Connor e Carson McCullers, durante o século XX, consolidaram na literatura estadunidense a tendência estética que viria a ser conhecida como Southern Gothic, ou, como conhecemos no Brasil: Gótico Caipira, inspirando-se principalmente na estética e na cultura do sul dos EUA pós-Guerra Civil. Casas de madeira, pequenas igrejas, fogueiras em meio à mata, as humildes plantações, a vida incalculável revelada pela luz do dia e o terror oculto pela noite. Porém, se tem algo que pesa nessa estética quase tanto quanto a supremacia da natureza sobre o cotidiano, é o senso de isolamento que ela ocasiona. A grandeza do natural é tamanha que torna o elemento humano quase como uma anomalia no espaço. Muito diferente de hoje, nós deixamos de ser a regra para nos tornarmos a exceção. O elemento religioso é fortíssimo, pois muitas vezes surge como a única perspectiva que tais pessoas têm de algo maior, e também de uma luz que as proteja das trevas que são incapazes de compreender. A cruz no topo da capelinha, na cabeceira da cama, na porta da casinha, age como um farol que dissipa o mal. Porém, autores como Flannery O'Connor, escritora de obras como Sangue Sábio (1952) e O Céu É dos Violentos (1960), exploram justamente o lado mais extremo da religião: o fanatismo, e a prisão que ela acaba se tornando para aqueles que deveria libertar do medo, focando especialmente na figura feminina como maior vítima dessa conjuntura social. Outros, como William Faulkner e Carson McCullers, seguem por um lado mais histórico e econômico: como as velhas aristocracias e tradições foram destruídas pela modernidade, e como isso condenou os homens e mulheres que ali viviam ao esquecimento, à miséria e, principalmente, à desvalorização. O Gótico Caipira carrega consigo um subtexto poderoso e multifacetado, que algumas produções da cultura pop souberam explorar de maneira sutil e esteticamente deslumbrante, entre elas, os nossos queridos desenhos animados, em que muitos de nós conhecemos essa estética sem nem ao menos saber seu nome. Com Scooby-Doo, Coraline e Coragem, o Cão Covarde, vamos entender como exatamente os desenhos conseguiram nos traduzir a realidade de uma era que não vivenciamos.
HISTÓRIA DA CULTURA POP
Rafael Silva
8/22/20267 min read
Scooby-Doo, Cadê Você?


Lançado pela Hanna-Barbera em 1969, Scooby-Doo tornou-se um dos maiores fenômenos dos desenhos animados, misturando terror, mistério, aventura e muito mais, sob a ótica de personagens carismáticos, que seguem sendo amados pelo público até os dias de hoje. Para quem não sabe, é dessa série que surgiram os memes do Salsicha, usuário da erva do Bob, e de Fred e Daphne insistindo em separar-se do grupo para praticar atos reprodutivos.
Mas o que realmente nos interessa aqui é a estética de Walt Peregoy, em que o terror não vem de um monstro, mas sim do contexto. Quase todo episódio começa da mesma forma: a Máquina do Mistério atravessando uma floresta densa e isolada, tomada pela neblina. O preto, branco e cinza tomam conta da tela, interrompidos somente pelas cores vivas da pintura da Mistério S.A. É a juventude trazendo cor ao velho, é a modernidade levando a luz ao passado.
Alguns episódios que se encaixam perfeitamente na estética e em suas origens são:
"O Fantasma de Elias Lóculo" (Ep. 5)
O Vilão: O Fantasma do Motorista (Elias Kingston).
O Ambiente: A Mansão Kingston e os arredores de uma floresta morta.
Detalhamento Estético: A mansão colonial fica no topo de uma colina seca, cercada por árvores sem folhas que parecem garras no céu escuro. O interior é a definição de decadência: móveis cobertos por poeira, retratos de família mofados e uma iluminação baseada puramente em candelabros e sombras pesadas. A trama gira em torno da decadência de uma linhagem familiar antiga e de um testamento, um clichê literário do gênero.
"Mistério em Pântano Fundo" (Ep. 11)
O Vilão: O Lobisomem, o Vampiro e o Monstro de Frankenstein (na verdade, o Conde Zarkor em um castelo importado).
O Ambiente: O Castelo Frankenstein recriado no meio de um pântano rústico, em uma possível referência aos clássicos da Universal dos anos 1930, que se estende inclusive aos visuais das “criaturas”.
Detalhamento Estético: O episódio se passa em uma região pantanosa dominada por névoa rasteira, pontes de madeira podre e vegetação morta. A umidade do ambiente é retratada pelas aquarelas manchadas de Walt Peregoy em tons de roxo, cinza e verde-musgo. O isolamento é total: a van quebra na estrada de terra e o grupo fica preso entre o pântano e a estrutura de pedra fria. O episódio acaba servindo quase como uma sátira aos monstros clássicos, demonstrando o quão “antiquados” eles já eram em 1969.
"O Pântano do Monstro" (Ep. 13)
O Vilão: A Bruxa do Pântano e o Zumbi.
O Ambiente: O profundo pântano do Sul (Bayou) e uma cabana de madeira abandonada.
Detalhamento Estético: É provavelmente o episódio mais puramente Southern Gothic em termos de geografia. Todo o cenário é composto por água com troncos retorcidos boiando, musgo cobrindo árvores, nevoeiros densos que limitam sua visão a poucos metros à frente de seus próprios pés e cabanas de madeira sobre estacas caindo aos pedaços.
A mesma verdade se repete em todos os três episódios: os “monstros” eram, na verdade, pessoas comuns, usando elementos naturais para simular o sobrenatural. Homens comuns armados com o medo, usando a superstição contra o supersticioso.
A famosa teoria de que Scooby-Doo se passa em um futuro distópico, em que os EUA passaram por um colapso econômico e, por isso, todo mundo vive atrás de dinheiro, encontra aqui uma explicação muito mais simples e conectada à realidade. Os criminosos servem como reflexo para aqueles que não acompanharam o passar das eras, permanecendo presos no passado, decidindo usar as tradições e superstições para ganhar dinheiro.
Os cenários agem como cúmplices nesses casos. A beleza decadente das mansões e o abandono dos castelos os envolvem como uma aura de mistério e temor que fortalece os mitos que se moldam em seu entorno.
O Mistério S.A. surge como um antídoto para isso.
Vindos de outra realidade, eles inicialmente temem os “monstros”, mas logo depois põem a cabeça no lugar, usam sua racionalidade e descobrem a verdade de maneira lógica. Eles não aceitam ser reféns da incerteza e, por isso, desconstroem o terror à sua volta com conhecimento, tornando cômico aquilo que deveria assustar.
Coraline


Além de ser possivelmente a melhor animação stop-motion de todos os tempos, ainda é uma belíssima referência para nossa análise.
Baseada na obra de Neil Gaiman (2002), a adaptação de Coraline (2009) traz a jovem de mesmo nome sendo obrigada a adaptar-se a uma nova rotina quando seus pais decidem se mudar para uma enorme casa estilo vitoriano no interior, conhecida como Palácio Cor-de-Rosa, cujo passado, como o de toda boa mansão vendida a um preço estranhamente baixo, possui um histórico um tanto quanto sombrio.
Acostumada com a vida na cidade, a garota tem dificuldade para se encaixar naquela nova realidade, enxergando todos, desde o jovem Wybie até seus “exóticos” vizinhos, Sr. Bobinsky e as Sras. Spink e Forcible, com estranheza. Ela não compreende suas excentricidades, tornando-se um verdadeiro peixe fora d'água.
Seus pais, como sempre, não lhe dão a mínima atenção, deixando-a completamente sozinha.
Tudo muda quando ela descobre uma passagem secreta dentro da mansão, que a leva diretamente… para o mesmo lugar, mas totalmente diferente do que ela havia visto até então.
Havia contrapartes para todos de sua vida: um pai e uma mãe que atendiam a todos os seus desejos, um Wybie mudo e vizinhos fazendo shows de trapezistas somente para entretê-la. Se durante o dia sua vida era um completo cinza, à noite ela mergulhava em um oceano de cores. A diferença visual é clara: enquanto o dia, no mundo real, é retratado como cinzento e monótono, a noite, no Outro Mundo, é construída com cores quentes, de maneira a acolher a criança. Um toque brilhante do diretor Henry Selick.
Porém, a estética se transforma completamente no momento em que a Outra Mãe revela sua verdadeira natureza. Ela era uma entidade sombria que desejava roubar a alma de Coraline por meio de seus olhos, assim como fez com todas as crianças que um dia passaram pela mansão. Todos os favores, todos os presentes, todo o “amor” não passavam de uma armadilha, da qual ela por muito pouco pôde escapar. Nesse instante, tudo à sua volta ganha um novo significado.
Os galhos das árvores passam a lembrar as garras da Beldam, as rachaduras nas paredes referenciam as teias pelas quais a criatura se move, e o icônico poço estrelado nos limites da propriedade reflete o céu daquele mundo de sonhos, que agora havia se tornado um pesadelo. O mal havia transformado o ambiente em seu eterno espião e manifestava-se também por meio dele, a ponto de conseguir replicá-lo, ao menos em parte, em outro plano físico.
Em Coraline, o Gótico Caipira vai muito além de um belo visual; ele constrói uma atmosfera de isolamento e, ao mesmo tempo, de acolhimento. Um ambiente que ignora, ao mesmo tempo que acompanha cada passo. É um organismo vivo, metaforicamente e literalmente falando.
Coragem, o Cão Covarde


John R. Dilworth levou ao limite o conceito de isolamento em seu desenho, transformando-o quase em uma abstração. A fazenda de Leão e Muriel, no interior do Kansas, não é simplesmente um lugar isolado: é O LUGAR MAIS ISOLADO; literalmente não há nada em torno deles até onde os olhos possam ver.
Não há vizinhos, estradas asfaltadas ou árvores. O horizonte é uma linha reta infinita que separa a terra seca de um céu em tons pastel desbotados (amarelo-poeira, roxo-escuro e rosa-pálido). A solidão perpétua faz com que qualquer visitante (humano ou monstro) surja como uma visão horripilante. Qualquer coisa que quebre o vazio simplesmente não é natural.
Diferente de Scooby, Coragem de fato enfrenta (ou melhor, foge de) fantasmas e monstros reais, pelo menos em sua mente. Muitos teorizam que o isolamento ininterrupto vivido pelo animal possa ter feito com que sua mente projetasse seus medos como algo palpável, de forma a tirá-lo da inércia. Verdade ou não, ambas as possibilidades soam extremamente assustadoras, pois a mesma máxima se aplica a ambas: não é possível escapar, pois não há horizonte.
"A Maldição do Rei Ramsés" (T2, Ep. 7)
O Elemento Gótico: A profanação de um artefato e a ganância do proprietário.
O Detalhe Estético: A placa de pedra egípcia encontrada no meio do nada da roça. O Rei Ramsés surge no horizonte noturno como uma figura em 3D primitiva e balançante, contrastando com a escuridão absoluta do campo. A tempestade de gafanhotos e a inundação atacando a casa isolada trazem o tom de praga bíblica rural.
"O Bispo Negro / A Cobrança" (T1, Ep. 1)
O Elemento Gótico: A casa como um corpo doente e a posse espiritual do cotidiano.
O Detalhe Estético: Em episódios de possessão ou sombras como esses, a arquitetura da casa ganha ângulos tortos. O moinho girando devagar ao fundo funciona como um lembrete de que não há ajuda por perto; o barulho da madeira rangendo é o único som ambiente além do vento seco.
"O Pássaro da Pobreza" (T1, Ep. 4)
O Elemento Gótico: O barbeiro biruta Fred traz a figura do "estranho que chega à cidade" (ou à casa), um tropo fundamental de Flannery O'Connor.
O Detalhe Estético: O episódio usa uma estética de livro ilustrado vitoriano decadente. A luz verde e doentia do banheiro da casa contrasta com a poeira e o ar seco do exterior, mostrando como a anomalia se instala no coração do lar rural sem que os donos percebam a gravidade.
O desenho trata de forma curiosa o casal Muriel e Leão. Os idosos quase nunca percebem os monstros notados por Coragem, o que o desenho explica de forma simples: o cão é covarde, tem medo de tudo e, por isso, inventa essas coisas. Todavia, é possível também interpretar que Muriel e Leão simplesmente não percebem tais coisas por estarem demasiadamente conectados ao meio, já que viveram suas vidas inteiras ali. Já Coragem enxerga com temor aquilo que eles vivem com naturalidade. Como sempre, o conflito geracional se torna um divisor de realidades.
Como podemos notar, o Gótico Caipira dá a qualquer obra que o adota uma atmosfera densa e psicológica, que põe decadência e solidão na balança, equilibrando a magia e os limites da imaginação humana. Os desenhos animados souberam utilizá-lo com maestria, misturando sua beleza com seu significado e criando visuais que se eternizaram em nossas mentes e corações.
E você, conhecia as origens do Gótico Caipira? Qual desenho você acha que adaptou melhor esse estilo?
