Como Luke Skywalker salvou a Ordem Jedi?

“Do Deserto Vem um Estranho”, o sexto episódio da não tão querida série O Livro de Boba Fett, trouxe consigo algumas verdades sobre a Nova Ordem Jedi de Luke Skywalker no cânone. O pequeno Grogu, primeiro e até então único aluno de Luke, estava sob sua tutela desde o fim da segunda temporada de O Mandaloriano e, ao lado do grão-mestre Jedi, já havia descoberto muito sobre seu passado até então esquecido. O bebê possuía um enorme potencial na Força, mas um apego ainda maior por Din Djarin, o homem que até então tinha como pai. É nesse momento que Luke põe uma escolha diante dele: voltar para o Mando ou ficar e se tornar um Jedi. Skywalker não poderia permitir que Grogu tivesse amor por alguém, pois esses sentimentos, de acordo com os milênios de tradição da finada Ordem Jedi, eram armadilhas do lado sombrio. É nesse momento que o cânone mostrou mais uma vez não entender absolutamente nada sobre Luke Skywalker. Foi esse mesmo Luke que, mesmo diante da pressão de Yoda e Obi-Wan e da desconfiança de Leia, insistiu em buscar algo de bom em Darth Vader, seu pai, que, para quase toda a galáxia, não passava de um monstro genocida. O próprio Lorde Sith não via mais esperança para si mesmo, preferindo permanecer imerso nas trevas a enfrentar o arrependimento vindo da luz. Somente o amor de um filho foi capaz de salvar seu pai desse abismo. O mesmo acontece com Vader, que, somente quando vê seu filho à beira da morte pelas mãos de Palpatine, age novamente por amor para salvá-lo, matando o Imperador à custa da própria vida. Anakin decidiu dar uma chance a si mesmo, não por ele, mas por Luke e pela confiança que este havia depositado nele. O amor e o apego podiam, sim, ser perigosos, mas foram esses sentimentos que salvaram Luke e a galáxia, e foi sob esses preceitos que a Nova Ordem Jedi constituiu sua versão nos Legends, abrindo mão, em grande parte, dos dogmas que acorrentaram os Jedi por anos, afastando-os pouco a pouco da real vontade da Força e que, por fim, os levaram à quase extinção. Mas, afinal, quais foram as principais mudanças que Luke Skywalker impôs aos novos Jedi? Quais erros elas corrigiram? É isso que vamos discutir hoje!

STAR WARS

Rafael Silva

10/15/20267 min read

Os relacionamentos românticos e familiares

Na antiga Ordem Jedi, era terminantemente proibido que quaisquer Jedi mantivessem contato com suas famílias, sendo esse o principal motivo para que a maioria deles fosse trazida ao Templo ainda criança, impedindo que construíssem laços com pais, irmãos, avós ou amigos. Desde o berço, sua família seria a Ordem, e sua lealdade seria à Força.

O mesmo se aplica a relacionamentos amorosos, que também apresentavam uma séria ameaça à integridade de um Jedi. Além de dividir seu compromisso, o amor traz consigo diversos riscos. Quanto mais se ama, mais se teme perder, mais se entristece quando se perde e maior é a fúria depois da perda. E, quando um Jedi é consumido pelo ódio, a única coisa que lhe resta é o sofrimento.

"O medo é o caminho para o lado sombrio. O medo leva à raiva. A raiva leva ao ódio. O ódio leva ao sofrimento.", essa fala de Yoda resume bem o temor que os Jedi tinham dessa cadeia de sentimentos decorrentes do amor.

Todavia, isso não significa que os Jedi não possam amar, mas sim que são proibidos de amar ALGUÉM. Conceitos abstratos como vida, paz e justiça são amados e defendidos pela Ordem, que por milênios lutou em nome desses ideais e que, por meio da defesa deles, preservou trilhões de vidas. Eles são encorajados ao altruísmo, a pôr os outros sempre à frente de si mesmos, a ensinar, acolher e proteger. Isso, sem sombra de dúvidas, é também uma forma de amar.

No entanto, o amor “direcionado” a alguém específico, do qual se espera reciprocidade e ganho pessoal, jamais foi tolerado. Não é preciso dizer que isso causou incontáveis problemas ao longo da história galáctica.

O caso mais icônico é, sem dúvida, o de Anakin Skywalker. O Escolhido foi levado de Tatooine aos dez anos de idade, deixando para trás sua mãe, Shmi Skywalker, que só viria a reencontrar no dia de sua morte pelas mãos do Povo da Areia. Ele sentia saudade dela e, quando ela mais precisou dele, ele não estava lá, não por vontade própria, mas para seguir as regras do Conselho.

O mesmo se aplicou ao caso de Padmé, com quem Anakin precisou casar-se em segredo para manter-se na Ordem. Quando sua mente passou a ser atormentada por pesadelos que traziam a morte dela, ele não pôde recorrer a ninguém no Conselho, pois a verdade custaria tudo o que ele havia conquistado.

Ao questionar Yoda sobre a morte, o Grão-Mestre limitou-se a dizer:

“A morte é parte natural da Vida. Agradeça por aqueles que se uniram com a Força. Não lamente por eles. Não sinta falta deles. O apego leva à inveja. À sombra da cobiça, isso sim."

Resumidamente: Yoda pediu que Anakin enterrasse seus sentimentos ainda mais, uma vez que a morte não precisava ser temida, sendo apenas mais uma etapa da existência junto à Força. Ele reforça o que havia dito anteriormente: o amor romântico e familiar nos prende à presença de alguém, nos torna egoístas, incapazes de compreender o todo da Força, pois nossos sentimentos estão atrelados demais a esse alguém.

Não precisamos nem dizer o que aconteceu com Anakin depois dessa conversa e o quanto isso custou para a Ordem e para toda a galáxia. Foi o amor que condenou e também salvou Anakin Skywalker.

Luke entendeu que a negação dos sentimentos foi um grave erro, não apenas pelo que havia feito a seu pai, mas também por desumanizar os Jedi, privando-os de sensações comuns à vida que eles mesmos juraram defender. Ele precisava fazer diferente.

Na sua Ordem Jedi, relacionamentos eram permitidos e até mesmo encorajados, tendo ele mesmo se casado com Mara Jade, ex-serva do Imperador Palpatine. Jade foi mais uma prova do quão poderoso o amor pode ser e de como ele é capaz de resgatar das trevas aqueles que parecem perdidos. A ex-assassina foi enviada para matá-lo, mas Luke escolheu estender-lhe a mão em vez da espada, conseguindo salvá-la, assim como fez com seu pai.

Leia treinou ao lado de Luke e nem por isso abriu mão de seu casamento com Han Solo. Seus filhos, Jaina e Jacen, também se casaram, assim como muitos outros membros da Nova Ordem. A tese de Luke era de que o problema estava no amor possessivo, em controlar as decisões e a existência da pessoa amada. Em acreditar que pode governar seu destino em vez de confiar na Força.

Pessoas de todas as idades eram recrutadas e treinadas aos montes pelo mesmo mestre, construindo vínculos de amizade e familiaridade entre os alunos.

Por muito tempo, isso funcionou, pelo menos até Jacen Solo. Após a Guerra dos Yuuzhan Vong, Solo acreditava que apenas o poder absoluto poderia impedir que a galáxia fosse levada a outro conflito catastrófico como aquele. Sua decisão de abraçar as trevas não se deu por uma vontade irremediável de salvar a galáxia, e sim pelo medo que sentia ao olhar para sua filha, Allana Solo, e pensar nos horrores que ainda poderiam espreitá-la. Assim como seu avô, o medo da perda o destruiu.

Darth Caedus tornou-se a maior ameaça da galáxia, chegando até mesmo a matar Mara Jade, sendo detido apenas por sua irmã, Jaina Solo. Isso não fez com que Luke desistisse de sua filosofia, mas o ensinou a não subestimar o apego. Negar sentimentos comuns era um erro, mas deixar-se dominar por eles também. Diferenciar uma coisa da outra era dever de cada um de seus alunos, uma batalha individual que ia muito além de uma regra escrita.

Porém, não foi somente no setor emocional que Luke promoveu mudanças.

Ordem Jedi e a República

Duas organizações que nasceram praticamente juntas nos primórdios da galáxia e que passaram milênios se defendendo. No entanto, após a devastadora guerra contra a Irmandade da Escuridão de Lorde Kaan, a República decidiu dar um basta. A Ordem Jedi possuía seu próprio Exército da Luz, reunindo dezenas de milhares de voluntários de todos os cantos da galáxia e travando batalhas campais contra as legiões de Sith, reduzindo planetas inteiros a ruínas. O conflito entre luz e trevas estava se tornando devastador demais.

O Exército da Luz, liderado por Lord Hoth, era, naquele momento, a maior força militar da galáxia e sua maior autoridade. Imagine trilhões de seres vivendo sob o jugo de uma organização que luta em nome de uma força que a maioria deles nem consegue mensurar?

As Reformas de Ruusan, promovidas pelo Chanceler Tarsus Valorum, deram fim ao Exército da Luz, removendo dos Jedi qualquer autoridade política ou militar. Agora, os assuntos da Força e da política não mais se cruzariam, pelo menos não sem ordem do Chanceler.

Por milênios, os Jedi permaneceram alheios às grandes crises da galáxia, algo que enfureceu membros como o Conde Dookan, que não admitia que o poder da Ordem fosse mantido preso às paredes do Templo enquanto a galáxia era destruída diante dos olhos desinteressados de seus governantes. Se envolver-se em tudo era um problema, não se envolver em nada parecia ser ainda pior.

Tudo isso mudou nas Guerras Clônicas, quando a fragilidade da República Galáctica a obrigou a convocar os Jedi para liderar seu recém-criado Exército Clone. Novamente, os Jedi saíram de seu Templo para buscar a paz por meio da guerra.

Como todos sabem, esse conflito nada mais foi que um grande teatro orquestrado por Palpatine, com o intuito de manchar ainda mais a imagem dos Jedi, distanciá-los da Força e mantê-los próximos aos soldados clones, que viriam a ser seus algozes na Ordem 66.

Logo de início, Luke fez questão de distanciar sua Ordem Jedi da política. Enquanto a sede da República se restabeleceu em Coruscant, Luke e seus alunos treinariam em Yavin 4, cercados pela Força, não pelo poder político. Ele pediu autorização da República para funcionar, mas jamais se submeteu a ela. Eles eram conselheiros, defensores da paz quando esta fosse ameaçada (como na Guerra dos Yuuzhan Vong), mas nunca soldados de um governo.

Mesmo que Leia exercesse enorme influência na República, como uma de suas lideranças, isso jamais mudou a posição de Luke em relação a essa divisão de poderes. Essa decisão manteve os Jedi focados na Força e na manutenção da paz, livres para agir quando julgassem necessário, e não quando um Chanceler qualquer lhes pedisse. Entre todas as mudanças, essa talvez tenha sido a mais acertada.

O lado sombrio

Outra grande mudança. Na antiga Ordem Jedi, o lado sombrio era completamente demonizado. Não era preciso compreendê-lo, apenas evitá-lo.

Luke, assim como seu pai, experimentou o lado sombrio, mais especificamente na saga Império Sombrio. O medo e a raiva abriram alas para que ele o tentasse e, ao entregar-se a ele, acreditando que poderia dominá-lo para destruir o clone de Palpatine, percebeu que as trevas não aceitam servir a ninguém. O lado sombrio é e sempre será o mestre daquele que o aceita.

Com a ajuda de Leia, Luke consegue superá-lo e derrotar Sidious mais uma vez. Ele sentiu na pele o poder das trevas e sabia que tentar fugir delas, como seu pai fizera, apenas o levaria diretamente para os seus braços. Para vencer o lado sombrio dentro de si mesmo, é preciso enfrentá-lo.

"A Força pode não ter lado claro e escuro, mas nós temos. Nós é que escolhemos."

A construção do Templo em Yavin 4 foi pensada justamente com esse intuito. Milênios antes, aquele mesmo planeta havia sido o covil de Exar Kun, um dos maiores Lordes Sith da Velha República, que o infestou com sua essência maligna. Cada aluno que ali entrasse teria que enfrentar o pior dentro de si e precisaria superá-lo. Skywalker não escondeu de seus alunos quais armadilhas o lado sombrio utilizava e, porventura, se alguém caísse, seria ensinado a compreender e superar essa falha. Como o próprio Yoda disse a ele em Os Últimos Jedi:

“Melhor professora a falha é.”

O grande trunfo de Luke Skywalker foi justamente não ter tentado reconstruir a Ordem Jedi do zero. Ele reinterpretou seus dogmas, aprendeu com seus erros, mas manteve-se leal ao que lhe era mais importante: a fé na Força e a manutenção da paz na galáxia.

Sua teimosia foi crucial nesse processo. Suas próprias experiências, questionamentos, sucessos e falhas foram decisivos para remodelar a identidade da Ordem, tornando-a mais diversa, aberta e independente.

E você, o que acha do trabalho de Luke com sua Nova Ordem Jedi? Ele superou a anterior? Não deixe de comentar!

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